“SEM ORAÇÃO NÃO HÁ EXPERIÊNCIA DE DEUS” (Bento XVI) – por Fr. Lucas, scj.

Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

 

Caros irmãos e irmãs, mais uma vez, sejam bem vindos ao CommunioSCJ! Nosso itinerário na companhia do santo padre Bento XVI chega hoje ao padroeiro da Europa: S. Bento de Núrsia (480-574), pai do monarquismo ocidental [1].

O Papa Bento XVI, nesta catequese, nos diz o seguinte: “Em todo o segundo livro dos Diálogos Gregório ilustra-nos como a vida de São Bento estivesse imersa numa atmosfera de oração, fundamento portante da sua existência. Sem oração não há experiência de Deus. Mas a espiritualidade de Bento não era uma interioridade fora da realidade. Na agitação e na confusão do seu tempo, ele vivia sob o olhar de Deus e precisamente assim nunca perdeu de vista os deveres da vida quotidiana e o homem com as suas necessidades concretas. Ao ver Deus compreendeu a realidade do homem e a sua missão”.

Percebo, aqui, três coisas muito importantes para nós, cristãos do século XXI: a oração, lugar da experiência de Deus, como fundamento da existência; a perfeita noção da realidade que se dá no relacionamento com Deus; e a ação que brota da relação com Deus.

Brevemente, precisamos notar que S. Bento, para fundamentar sua vida em Deus, rezava. A oração é o exercício da fé. Quem reza, está pessoalmente se relacionando com Deus. E a oração cristã é caracterizada sobretudo pela escuta. Mais que pedir, apresentar a Deus nossas necessidades (que também é oração, claro), quando nos colocamos diante de Deus, precisamos ouvir Sua voz para discernir o que é justo e bom e agir bem – “seja feita a vossa vontade”… Fundamentar a vida em Deus é fazer Sua vontade.

Diferentemente do que se diz por aí, relacionar-se com Deus (rezar) não tira o cristão da realidade, não o aliena, pelo contrário, fixa-o no mundo. Deus, como fundamento da realidade, não tira nossos pés do chão. Se verdadeiramente mergulhamos em Deus, mergulhamos no real. Além das ideologias e dos sistemas de pensamento, é Deus quem nos mostra a realidade em sua medida e proporção. Podemos questionar a qualidade da oração, mas não afirmar que estar em Deus aliena. Seria ridículo.

Por fim, se fundamentar a vida em Deus é ter, de fato, acesso à realidade, então é assim que se funda o bem viver. Seria um contrassenso afirmar que viver no bem e na verdade é fácil. Todos somos vocacionados ao Bem, à Verdade. O que, então, nos dá força para não desistirmos no meio do caminho? Deus. Pode até ser que esperanças imanentes nos ponham a caminho. Mas elas não são capazes de nos fazer perseverar. Se nosso Senhor, que habita em nós pelo Espírito Santo, não for nossa meta, no meio do caminho o desânimo nos vencerá. Em outras palavras, não cumpriremos nossa missão. Sem Sua Graça, não perseveraremos no caminho de fé, esperança e caridade.

Que S. Bento e Maria santíssima nos sirvam de exemplos de pessoas profundamente voltadas para Deus e, por isso, profundamente conscientes da realidade circundante e de sua missão.

Fraterno abraço a todos e até a próxima!

 

 

[1] BENTO XVI. São Bento de Núrsia. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080409_po.html>.

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SÃO BENTO, FERMENTO ESPIRITUAL PARA EUROPA, EXEMPLO PARA NÓS – Por Fabiana Theodoro.

Meus queridos amigos, que bom refletir novamente com vocês!

Nesta semana falaremos sobre São Bento de Núrsia, Padroeiro da Europa e fundador da Ordem dos Beneditinos.

São Bento nasceu em Núrsia em 480 e faleceu em 547, deixando uma contribuição valiosíssima para a nova civilização que estava se formando após a queda do Império Romano, período de grande crise causada pela invasão dos novos povos e decadência dos costumes. Suas obras, em especial sua Regra de vida, eram portadoras de um “fermento” de unidade espiritual e cultural, o da fé cristã partilhada pelos povos do continente europeu, da qual o povo estava tão carente após tantos conflitos.

Quando Bento tinha 17 anos foi enviado a Roma para concluir seus estudos, mas começou a perceber a vida desregrada na qual viviam seus colegas. Por medo de sucumbir às paixões, resolveu se afastar e abandonar os estudos para fugir a um lugar seguro, entregando-se à vida eremítica.

Como pode alguém tão jovem com tal discernimento quando tantos jovens por influência de amigos se perdem nos vícios e na prostituição? A base familiar e a intimidade com Deus fizeram com que ele permanecesse no bom caminho.

Bento viveu como eremita durante três anos, tempo que levou para amadurecer e vencer as três tentações fundamentais do ser humano: a tentação da autossuficiência e do desejo de se colocar no centro, a tentação da sensualidade e, por fim, a tentação da ira e da vingança. Estava certo de que suas palavras apenas seriam úteis para os que necessitassem se conseguisse vencer essas três tentações. E assim, tendo a alma pacificada, estava em condições de controlar plenamente as pulsões do eu, para deste modo ser um criador de paz em seu redor. Só então decidiu fundar os seus primeiros mosteiros no vale do Anio, perto de Subiaco.

“São Bento foi antes de tudo homem de Deus. Tornou-se tal, seguindo de maneira constante o caminho das virtudes indicadas no Evangelho. Foi verdadeiro peregrino do Reino de Deus [...]. E esta peregrinação foi acompanhada por uma luta que durou toda a sua vida: ‘batalha primeiro contra si mesmo, para combater o homem velho e criar cada vez mais lugar, nele próprio, para o homem novo’. O Senhor permitiu que, graças ao Espírito Santo, esta transformação não resultasse só em favor dele, mas se tornasse fonte de irradiação, a penetrar a história dos homens, penetrando, sobretudo a história da Igreja” [1].

O mundo não precisa de mais pessoas vazias, que não oram, que acham que não precisam de Deus, que buscam facilidade em tudo, que não se dão mais ao trabalho de cuidar uns dos outros, mas que descartam pessoas como se fossem imprestáveis. Precisa de pessoas cheias de Deus cuja presença lembre a do próprio Senhor que amam, acolhem, cuidam e protegem.

A oração é a amizade entre a alma e Deus [2] e deve ser cultivada por meio do silêncio, pois Deus não se encontra no furacão, mas sim no murmúrio de uma brisa suave [3].

Silencia seu coração, deixa Deus falar no teu íntimo e não tenha medo, apenas confie e deixe-se guiar como São Bento. “Abandone-se”! Abra as portas do seu coração para o Senhor e quando Ele entrar você terá a necessidade de abrir mão de certos vícios e de pessoas que te aprisionam, pois não dá para servir a dois senhores [4].

Deus não nos dá o que pedimos, mas sim o que precisamos. Se pedir força, Ele lhe dará situações para ser forte, se pedir coragem você vai se deparar com situações com as quais terá que ser corajoso.

Como você está cultivando sua amizade com Deus? Talvez Ele queira transformar radicalmente a sua vida, mas você não está ouvindo. Essa é a beleza do Cristianismo, saber que estamos sendo preparados nesta vida para a Glória que não nos pertence ainda, mas que ainda há de chegar. Não sabemos como será o futuro, todo o bem que tivermos que fazer tem que ser feito hoje, inclusive para nossa alma. Sejamos íntimos de Deus, que desde que fomos gerados no ventre de nossa mãe já nos amava.

 

Referências:

BENTO XVI. São Bento de Núrsia. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080409_po.html>.

[1] JOÃO PAULO II. Discurso do Papa João Paulo II Durante a Visita à Sagrada Gruta. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1980/september/documents/hf_jp-ii_spe_19800928_speco-subiaco_po.html>.

[2] Santa Tereza D’Ávila, Obras Completas

[3] 1 Rs 19, 13

[4] Mt 6,24

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“EVANGELIZE SEMPRE, SE NECESSÁRIO, USE PALAVRAS” (S. FRANCISCO DE ASSIS) – Por Fabiana Theodoro.

Nesta semana, queremos refletir sobre dois escritores eclesiásticos que viveram numa das épocas mais atribuladas do ocidente cristão, mais precisamente na península italiana.

Boécio (480-524), nascido em Roma e Cassiodoro (485-580), nascido em Squillace eram descendentes de famílias de elevado nível social. Eles têm em comum a dedicação à vida política e a missão de reconciliar e unir as culturas, clássica e romana, com a do povo ostrogodo (bárbaros que dominavam Roma naquela época).

Boécio, acusado de traição contra o rei dos ostrogodos, por ter defendido um amigo em um julgamento e por intervir junto ao rei em defesa dos cristãos, foi processado, condenado à morte e executado em 23 de outubro do ano 524, quando tinha apenas 44 anos.

Cassiodoro foi responsável por preservar o patrimônio cultural do Império Romano em seus tempos de glória, entregando-o aos cuidados dos monges para que não se perdesse e colaborou generosamente, nos mais elevados níveis de responsabilidade política, com os povos novos que haviam se estabelecido na Itália, sem distinção.

Boécio e Cassiodoro são exemplos de pessoas que assumiram a responsabilidade da política sem priorizar seus próprios interesses, que tinham um relacionamento profundo com Deus e que lutaram para defender o cristianismo até as últimas consequências.

Alguém tem dúvidas da falta, nos dias de hoje, de políticos assim? Pessoas de fé que priorizam a Cristo e não a si mesmas, que pensam no próximo e se preciso for, não temem perder a vida por um bem maior, que pregam Cristo com a própria vida sem nem precisar falar Nele. Quantas vezes vimos, principalmente nas últimas eleições, usarem o nome de Jesus para ganhar votos? Usam até mesmo o presbitério para fazer campanha política. Mas não devemos nos enganar com a “maquiagem” usada por essas pessoas que não respeitam o que é sagrado, que se utilizam dele para se promover. Precisamos ficar atentos, afinal, as autoridades de nosso país pregam a laicidade do Estado, então porque quando convêm, usam a Religião?

O Estado e a política foram criados para representar a pessoa, como podem nos dizer que a política não pode se envolver religião, num país de maioria católica? Não dá para dividir uma pessoa ao meio, não dá para deixar a parte cristã em casa e sair para trabalhar, por exemplo. Ser cristão é todo dia, toda hora e em todo lugar.

Cristo precisa de pessoas de fé e coragem que assumam dignamente os postos de trabalho, não só na política, mas na segurança pública, na saúde, na música, enfim em todos os postos. Nós católicos precisamos “infiltrar-nos” na sociedade e dar testemunho. Afinal, todo o tempo cruzamos com pessoas que o único evangelho que lerão durante toda vida será a nossa vida. Precisamos ser dignos representantes de Cristo para que as pessoas digam: “Vede como se amam!” [1]. Então nos tornaremos, no mundo dilacerado, profetas eficazes da unidade pela comunhão fraterna [2].

Encerro com um dos ensinamentos que Cassiodoro transmitia aos monges, citando São Jerônimo:

“Não alcançam a palma da vitória somente aqueles que lutam até derramar o sangue ou que vivem na virgindade, mas também todos aqueles que, com a ajuda de Deus, vencem os vícios do corpo e conservam a reta fé. Mas para que possais vencer com a ajuda de Deus mais facilmente o estímulo do mundo, permanecendo nele como peregrinos em contínuo caminho, busque antes de tudo a saudável ajuda sugerida pelo primeiro salmo, que recomenda meditar dia e noite na lei do Senhor. O inimigo não encontrará, de fato, nenhuma entrada para assaltar-vos se toda vossa atenção está ocupada em Cristo” [3].

Boa semana a todos!

 

Referências:

BENTO XVI TRAÇA O PERFIL DOS ESCRITORES BOÉCIO E CASSIODORO. Disponível em < http://www.zenit.org/article-17848?l=portuguese >.

[1] Tertuliano de Cartago (†220).

[2] JOÃO PAULO II. Discurso a um grupo de jovens da Polônia. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1982/august/documents/hf_jp-ii_spe_19820803_giovani-polacchi_po.html >.

[3] SÃO JERÔNIMO. De Institutione Divinarum Scripturarum, 32; PL 69, col. 1147.

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LEÃO MAGNO, ÁTILA E O STF – Por Fr. Lucas, scj.

Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

 

Irmãos e irmãs, sejam muito bem vindos ao nosso blog, CommunioSCJ, que, nesta semana, retoma seu projeto de passar a história da Igreja através dos santos na companhia de nosso querido Santo Padre, o Papa Bento XVI. Nossa viagem chega hoje a S. Leão Magno, bispo de Roma no séc. V, falecido em 461 [1]. Trata-se do primeiro Papa a quem a tradição posterior chamou de “o grande”, Magno, por seu desempenho singular no ministério petrino. Muitos de seus sermões nos foram conservados e neles podemos encontrar o testemunho de sua sabedoria e energia.

Porém, mais do que por seus sermões, S. Leão Magno ficou conhecido por um episódio acontecido em 452, na defesa de Roma. Era o tempo das invasões bárbaras que culminaram no fim do Império Romano. Átila, famoso líder huno, antes de invadir a Cidade Eterna, foi interpelado por Leão e acabou desistindo de invadi-la. Lá se vão 1560 anos!

Neste país de contradições em que vivemos, seria muito interessante, numa situação hipotética, ver Átila redivivo assistindo à TV, e percebendo que, diante do que vivemos nos últimos dias, ele foi um fraco. Como ele pôde recuar diante de um bispo sem armas? Ah, se Átila conhecesse o “Estado laico” como os ministros do STF o entendem… Certamente poria o parvo Leão a correr: “cuida da tua sacristia; do Estado, cuido eu”! Quando foi que os cristãos perderam sua incidência nas decisões do Estado? Ou esta nação deixou de ser cristã?

Ou ainda, será que nossos ministros são tão ou mais bárbaros que os hunos? Não quero crer nesta hipótese. A ideia de Estado laico parece ter sido invertida: ao invés de o Estado não intervir na prática religiosa de seu povo, deixando-o livre para tanto, hoje o que se vê neste Brasil varonil, é um Estado alheio à nação – já não quer mais ouvir a voz de seu povo. Em outras palavras, quem quer que tenha fé, no dito “Estado laico” à brasileira, não tem direito à opinião. Ou, se muito, deve reservá-la a si, não tem o direito de dizê-la – ainda que esta mesma opinião seja a opinião maciça entre os brasileiros.

No fim, nós, cristãos, somos cidadãos de segunda categoria (se é que somos cidadãos). Nosso super STF é mais que um tribunal – há tempos é uma casa legisladora (sem que o Senado ou a mídia movam uma palha para que esta incoerência seja desfeita). Estado democrático de direito? “Isso não te pertence mais”! Fazer o quê? “Pior que tá, num fica”… Será?

Isso para não lembrar que alguém que tenha o mesmo “status” de um morto cerebral possa vir a morrer depois de nascer é uma grosseria contra qualquer mente minimamente atenta… Se não sé é humano desde a concepção à morte natural, seria possível, senhor, ao menos nos dizer claramente quando alguém se torna pessoa e quando deixa de sê-lo?

Fazer o quê, se vivemos num país onde uma mãe que dá uma palmada no seu filho é um crime (note bem: disse uma palmada), mas matá-lo não? Desde que ele não tenha nascido e possua uma má formação o que ele merece é a lata do lixo… Para quê sepultá-lo?

Que Deus, nosso Senhor, por intercessão da Virgem e de S. Leão Magno nos conceda a graça da indignação, da fortaleza e da perseverança.

Fraternos abraço e prece a todos – os que já nasceram e os que ainda não.

 

[1] Cf. BENTO XVI. São Leão Magno. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080305_po.html>.

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CORAGEM E OUSADIA EM DEFESA DA PAZ – Por Fabiana Theodoro.

Olá amigos,

Nesta semana na qual a Liturgia nos convida a refletir sobre o Bom Pastor, queremos refletir também sobre São Leão Magno, um dos maiores Pontífices que a Igreja já teve, proclamado por Bento XIV em 1754, Doutor da Igreja. É dele que chegam até nós as primeiras pregações dirigidas ao povo durante as celebrações, o que nos recorda hoje as audiências gerais de quarta-feira, nas quais os fiéis de todo o mundo tem a oportunidade de encontrar de forma habitual o Bispo de Roma. Leão nasceu entre os anos de 390 e 400 e morreu em 461, sendo sepultado junto ao túmulo de São Pedro.

Por volta do ano 430, tornou-se diácono da Igreja de Roma, onde seu papel teve grande destaque. Em 440, foi enviado pelo Imperador do Ocidente à Gália para resolver uma situação difícil e promover uma missão de paz, mas não permaneceu por muito tempo, em razão do falecimento do Papa Sisto II, foi escolhido como seu sucessor e voltou a Roma.

Os tempos nos quais viveu o Papa Leão foram muito difíceis: o repetir-se das invasões barbáricas, o progressivo enfraquecimento no Ocidente da autoridade imperial e uma longa crise social tinham imposto que o Bispo de Roma, como teria acontecido com evidência ainda maior um século e meio mais tarde durante o pontificado de Gregório Magno, assumisse um papel decisivo também nas vicissitudes civis e políticas.

Por duas vezes, o Papa Leão teve atitudes memoráveis de extrema coragem que o destacaram até os dias de hoje:

Em 452, o Papa e uma delegação romana vão até Átila, chefe dos Unos e o convence a encerrar sua invasão à Itália, salvando as regiões que ainda não haviam sido devastadas. E em 455, quando não conseguiu impedir a invasão de Roma pelos Vândalos de Genserico, que foi saqueada por duas semanas, mas sua atitude de ir ao encontro do invasor, junto com seu clero e implorar que se detivessem, impediu que Roma fosse incendiada e que fossem saqueadas as Basílicas de São Pedro, de São Paulo e de São João onde se encontrava escondida parte da população aterrorizada.

Leão teve um papel decisivo também no Concílio da Calcedônia em 451, no qual se recusou a heresia de Eutiques que negava a natureza humana do Filho de Deus, reafirmando a união do humano e do divino, sem confusão e sem separação.

O Pontífice soube exercer suas responsabilidades, no Ocidente e no Oriente, intervindo em diversas circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez através dos seus escritos e mediante os seus legados. Mostrava deste modo como a prática da primazia romana fosse necessária então, como também hoje, para servir eficazmente a comunhão, característica da única Igreja de Cristo.

Consciente do momento histórico no qual vivia e da transformação que se estava a verificar num período de profunda crise de transição da Roma pagã para a cristã, Leão Magno soube estar próximo do povo e dos fiéis com a ação pastoral e com a pregação. Incentivou a caridade numa Roma provada pelas carestias, pela afluência dos prófugos, pelas injustiças e pela pobreza. Contrastou as superstições pagãs e a ação dos grupos maniqueus. Relacionou a liturgia com a vida cotidiana dos cristãos: por exemplo, unindo a prática do jejum com a caridade e com a esmola. Ressalta num sermão (64, 1-2) a propósito da Páscoa, que esta deve ser celebrada em todos os tempos do ano “não tanto como algo do passado, mas como um acontecimento do presente”.

Eis o mistério cristológico para o qual São Leão Magno, com a sua carta ao Concílio de Éfeso, deu uma contribuição eficaz e essencial, confirmando para todos os tempos através desse Concílio quanto disse São Pedro em Cesareia de Filipe. Com Pedro e como Pedro confessou: “Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo”. E por isso Deus e Homem juntos, “não alheio ao gênero humano, mas contrário ao pecado” (cf. Serm. 64). Em virtude desta fé cristológica ele foi um grande portador de paz e de amor. Mostra-nos assim o caminho: na fé aprendemos a caridade. Aprendemos, portanto, com São Leão Magno a crer em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e a realizar esta fé todos os dias na ação pela paz e no amor ao próximo.

Uma abençoada semana a todos.

 

Referência:

BENTO XVI. São Leão Magno. Disponível em <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080305_po.html>.

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PAPA BENTO XVI, SERVO DO SENHOR, FELIZ ANIVERSÁRIO! – Por Fabiana Theodoro.

Olá amigos, como é bom estarmos juntos mais uma vez e para celebrarmos a semana do 85º aniversário de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI.

No momento em que sucedeu o Papa João Paulo II, muitos católicos ficaram apreensivos, não sabiam o que esperar. A mídia mostrou Ratzinger como um homem rígido, antipático, fechado ao diálogo. Mostrou-o como indigno de substituir João Paulo II. E isso é verdade, são pessoas diferentes e não é justo compará-los. Mas Papa Bento tem se mostrado um grande líder, firme, fiel, caridoso e apaixonado pela juventude. Quem julga mal nosso Papa é porque não o conhece.

No seu primeiro pronunciamento como Papa, colocou-se como “servo na vinha do Senhor”, da qual cuida fielmente.

No início de seu pontificado escreveu a primeira encíclica, Deus Caritas Est (Deus é Amor), onde descreve as várias formas do amor, inclusive a mais pura, a mais completa, o amor de Deus: o amor ágape, o amor-oblação. “Essa encíclica foi todo um hino ao Amor que é Deus, aquele amor que deve animar cada Pastor, chamado a fazer entrar no mundo a luz de Deus e de tal forma também o calor do seu amor, disse o cardeal Angelo Sodano” [1].

Sem dúvida, o amor de Deus sempre se fez presente na vida de Joseph Ratzinger que, quando jovem, viveu os terrores da 2ª Guerra Mundial, sofreu a perseguição contra a Igreja Católica, viu seu pároco ser açoitado antes de celebrar a Santa Missa, mas foi o testemunho de sua família sempre bondosa, fiel e caridosa que jamais o deixou perder as esperanças e a confiança em Deus [2]. Tudo isso despertou nele a vocação de doar-se às pessoas como sacerdote, de ser um “homem para os outros”, como dizia seu antecessor, Papa João Paulo.

Ele diz em sua primeira encíclica que “a união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele Se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-Lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou se tornarão Seus” [3]. Ele evidencia a doação da própria vida para salvar também a dos outros e que de nada adianta salvar somente a si mesmo.

Quanto à esperança, em sua outra encíclica, Spe Salvi (Salvos na Esperança), ele fala da razão de se continuar firme no caminho, por mais difícil que possa parecer: “O presente ainda que custoso, pode ser vivido e aceito, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho” [4].

Essa meta é, sem dúvida alguma, o amor de Deus, a certeza de que Ele o espera de braços abertos após o cumprimento da dura missão. Esse amor que se revela na responsabilidade pelo outro.

O Papa, em sua homilia no dia 16 de abril, data do seu aniversário, disse já se sentir no último percurso de sua caminhada, mas que a Luz do Ressuscitado é mais forte que toda escuridão e que o ajuda a proceder com segurança, apesar de não saber o que o espera pela frente.

Podemos prever um pouco dos desafios que aguardam nosso Papa daqui para frente. Somente aqui no Brasil, em menos de um ano, já houve a aprovação da lei que permite “casamento” entre pessoas do mesmo sexo e o aborto de bebês anencefálicos. A Igreja está, cada vez mais, sendo pressionada a abandonar seus valores, suportando até pressões internas, de seus próprios membros, mas, apesar dos desafios, o sucessor de Pedro, Bento XVI tem se mantido firme na defesa do Magistério da Igreja, não se deixando intimidar por “manifestos de desobediência” de padres contra a Igreja, nem pela mídia maldosa que distorce, de acordo com seus próprios interesses, as palavras do Papa, tentando de forma covarde abalar os pilares da Igreja.

Mas, por mais desafios que Ratzinger venha a enfrentar, ele sabe, desde muito jovem, em quem depositar sua confiança, Naquele que jamais o deixará só, afinal, é promessa de Jesus estar conosco até o fim [5].

Rezemos todos pelo nosso amado Papa, que o Senhor o abençoe, prolongue muito a sua vida e lhe dê muita força e sabedoria para manter-se fiel até o fim.

Referências:

[1] http://www.zenit.org/index.php?l=portuguese.

[2] Biografia de sua Santidade Bento XVI, www.vatican.va/…/hf_ben-xvi_bio_20050419_short-biography.

[3] Bento XVI, Deus Caritas Est.

[4] Spe Salvi, n.1.

[5] Mt 28,20.

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BATISMO: MORTE E RESSURREIÇÃO – Por Fabiana Theodoro.

Olá amigos, como é bom estarmos juntos de novo e principalmente vivendo esse momento tão importante, a Páscoa do Nosso Senhor, ápice do ano litúrgico na Igreja Católica.

Também pudemos acompanhar nesse período a preparação para o catecumenato (Batismo de adultos), de pessoas que por alguma razão não foram batizadas quando crianças e agora, por sua própria vontade, buscaram o primeiro sacramento da iniciação cristã. Conforme a Tradição da Igreja, o Catecumenato termina sempre na Vigília Pascal, quando se celebra o Batismo.

O catecumenato, ou formação dos catecúmenos, tem por finalidade permitir a estes últimos, em resposta à iniciativa divina e em união com uma comunidade eclesial, que levem a conversão e a fé à maturidade. Trata-se de uma “formação à vida cristã integral (…) pela qual os discípulos são unidos a Cristo, seu mestre. Por isso, os catecúmenos devem ser iniciados (…) nos mistérios da salvação e na prática de uma vida evangélica, e introduzidos, mediante ritos sagrados celebrados em épocas sucessivas, na vida da fé, da liturgia e da caridade do povo de Deus” [1].

Embora, em sua época o Batismo fosse tardio, Agostinho sempre defendeu a necessidade de batizar as crianças o mais cedo possível, pois o Batismo é incorporá-las à Igreja, isto é, agregá-las ao Corpo de Cristo e aos seus membros. O fato de as crianças não poderem ainda professar pessoalmente à sua fé não impede a Igreja de lhes administrar este Sacramento, porque na realidade ela os batiza na sua própria fé. “As crianças — escrevia ele — são apresentadas para receberem a graça espiritual, não tanto por aqueles que as levam nos braços (embora também por eles, se são bons fiéis), mas, sobretudo pela sociedade universal dos santos e dos fiéis… É a Mãe Igreja toda, que está presente nos seus santos, a agir, pois que é ela inteira que os gera a todos e a cada um” [2].

A Igreja acolhe com imensa alegria esses catecúmenos que por sua livre vontade a procuram, se dispõem a professar a fé na Igreja Una, Santa e Católica com maturidade, com plena consciência da importância do Sacramento recebido em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, enquanto as crianças que por ainda não compreenderem o seu sentido, são batizadas na fé de seus pais e padrinhos que se comprometem por elas e assumem o dever de educá-las na fé católica.

A Comunidade assume o papel de testemunha da livre adesão dos catecúmenos e os recebe lembrando que a caminhada dos cristãos não é solitária, masem comunidade. Somenteconvivendo com as diferenças entre as pessoas, vivendo a vocação que Deus nos deu, seja na família, seja no serviço da Igreja, pode-se viver plenamente a essência do cristianismo, o amor e a graça que se recebe no momento do Batismo.

Ser batizado é morrer para a vida velha, é ressuscitar para uma nova vida infundida no Espírito Santo de Deus: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3,5). Ser batizado é entrar numa vida nova à luz de possibilidades e sem sombras de culpas do passado. Por essa razão, o encerramento do catecumenato se dá na noite mais importante, na ocasião de espera pelo Senhor Ressuscitado, entre o pôr do sol e o amanhecer. A Páscoa é justamente a oportunidade de recomeço, onde Nosso Senhor Jesus Cristo, depois dos sofrimentos da crucifixão, nos leva a caminhar com esperança para Deus rumo à mesma glória onde já se encontra.

Quem segue Jesus sabe sempre aonde chegará, apesar dos espinhos, das lágrimas e de todos os sofrimentos dessa vida, sabe que o destino é voltar para junto do Mestre e essa certeza nos põe de pé todos os dias, mesmo nos mais sombrios.

Que o Deus eterno e onipotente, ao celebrarmos o mistério redentor de vosso Filho Unigênito, que depois de ter descido à morada dos mortos saiu vitoriosamente do sepulcro, concedei aos vossos fiéis que, sepultados com Cristo no Batismo, também com Cristo ressuscitem para a vida eterna. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo [3].

 

Uma feliz Páscoa a todos!

Notas:

[1] Catecismo da Igreja Católica, §1248

[2]PASTORALIS ACTIO, Instruções sobre o Batismo das crianças (disponível em www.vatican.va)

[3] Liturgia das Horas.

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FELIZ ANIVERSÁRIO, COMMUNIOSCJ! – Por Fabiana Theodoro.

Mais uma vez estamos juntos, e dessa vez para celebrar o aniversário do nosso blog. Deixo meus parabéns ao Pe. Daniel, Pe. Júlio e Fr. Lucas por sua perseverança e por seus valiosos escritos e reflexões. Que o Senhor sempre os proteja e os abençoe.

Quero fazer uma breve retrospectiva de alguns Padres da Igreja presentes no blog ao longo desse ano, lembrando primeiramente do conselho de São Clemente:

“Apegai-vos aos santos porque aqueles que estão unidos a eles se tornaram santos” (Carta aos Romanos, n. 46).

Santo Inácio de Antioquia, escritor inspirado, bispo, grande defensor da unidade cristã e mártir († 110), foi o primeiro a usar o termo “Igreja católica”[1].

Santo Ireneu (202), bispo de Lião, tinha por objetivo reafirmar que Jesus era plenamente Deus e plenamente humano. Na época de Ireneu, se difundia heresias (falsas doutrinas) que afirmavam que Deus não poderia jamais ser um humano, pois o humano não poderia suportar o Divino [2].

S. Cipriano, bispo de Cartago (norte da África) foi martirizado no ano 258 distingue entre Igreja visível, hierárquica, e Igreja invisível, mística, mas afirma com vigor que a Igreja é uma só, fundada sobre Pedro. Pagão convertido de gênio forte, que protagonizou uma controvérsia com Estêvão, papa, a respeito da validade do batismo ministrado por hereges [3].

S. Cirilo de Jerusalém (†386): um grande bispo da cidade santa que defendeu valorosamente a fé professada no Concílio de Niceia (325) e que, por isso, sofreu três exílios em pouco mais de vinte anos (357-378). Defendeu também a presença substancial de Jesus na Eucaristia [4].

S. Basílio foi defensor da doutrina trinitária, monge – deu grande contribuição para a definição da identidade monástica (S. Bento o considerava seu mestre) “ele foi um homem que viveu verdadeiramente com o olhar fixo em Cristo, um homem do amor ao próximo” [5].

S. João Crisóstomo (349-407). Esta figura iminente presente na virada dos séculos IV e V ficou conhecido como “Boca de ouro” por sua eloquência conservada nas 700 homilias, 241 cartas e comentários (a Mateus e a Paulo) que chegaram até nós [6].

São Cirilo de Alexandria, bispo de Alexandria e Doutor da Igreja. Todo cristão que ama e têm devoção a Nossa Senhora deve ler os seus escritos, pois ele defendeu o título de “Maria, mãe de Deus no Concilio de Nicéia” [7].

Santo Ambrósio (340-397), bispo de Milão. Além da capacidade de pregar o evangelho, seu amor pela temática da virgindade, dos sacramentos e sua capacidade de organizar sua Igreja local. Ele teve o privilégio de batizar Santo Agostinho [8].

S. Jerônimo (347-420), este doutor da Igreja foi um grande estudioso, diretor espiritual, monge, exegeta, tradutor e comentador da Sagrada Escritura. Enfim, S. Jerônimo amou a Palavra de Deus na Sagrada Escritura e fez dela o centro de sua vida. Mais que estudá-la, ele a viveu com intensidade, pois soube encontrar Cristo, Verbo eterno, nas páginas, ou melhor, nos rolos da Bíblia [9].

Esses são apenas alguns dos Padres da Igreja que conhecemos este ano, pois não posso me estender demais. O objetivo do blog é expor o exemplo de quem deu certo (os santos), meditar e refletir sobre suas vidas, mostrar o caminho trilhado primeiro por eles, que com a santidade de suas vidas e amor pela Igreja já chegaram ao céu, assim como nós um dia queremos chegar. Apesar das dificuldades que eles enfrentaram, vale a pena, ou melhor, vale a vida!

Continuaremos, com a graça de Deus, nossas meditações sobre Santo Agostinho na semana que vem.

Boa semana e que o Senhor sempre nos abençoe!

 

[1] Os Padres Apostólicos. Ed. Paulus, 1995

[2] Ireneu de Lião. Contra as Heresias

[3] Sobre a unidade da Igreja católica 4.

[4] BENTO XVI, São Cirilo de Jerusalém, disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070627_po.html>.

[5] BENTO XVI. “S. Basílio (I): vida e obras”. In Os Padres da Igreja, São Paulo: Pensamento, 2010, p. 73.

[6] BENTO XVI. “S. João Crisóstomo (I): os anos de Antioquia”. Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 95-99. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070919_po.html>.

[7] BELITTO, C. História dos 21 Concílios da Igreja: de Nicéia ao Vaticano II. São Paulo: Loy[1] ROPS, Daniel. A Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante, 1991; 469-471.ola, 2010.

[8] GOMES, F. Antologia dos Santos Padres. São Paulo: Paulinas, 1985.

[9] Cf. BENTO XVI. “São Jerônimo I: vida e obras”. In Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 130-134. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071107_po.html>.

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“PARECE-ME QUE SE DEVE CONDUZIR OS HOMENS À ESPERANÇA DE ENCONTRAR A VERDADE” – Por Fr. Lucas, scj.

Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

 

Caros amigos do CommunioSCJ, irmãos e irmãs em Cristo, sejam sempre muito bem vindos ao nosso blog. Neste final de semana, este espaço já completa um ano. Como passou depressa! Mais que os oito mil acessos conseguidos até agora, nossa alegria é, com a Graça de Deus, poder fazer algo, mesmo que pequeno, para que nosso Senhor, grande Deus e Salvador, Jesus Cristo seja, na Igreja católica, conhecido, adorado e servido. Obrigado pela confiança e pela companhia neste ano! Que muitos outros, tantos quantos nosso Senhor nos conservar neste empreendimento, sejam repletos de sua força e de sua graça.

Considero uma graça da Providência que, neste tempo de aniversário do blog, estejamos com nosso coração voltado para Cristo através do testemunho de Santo Agostinho durante o tempo quaresmal: excelente oportunidade para que nos convertamos. Junto com o Papa Bento XVI [1], chegamos àquilo que o próprio pontífice considera como o núcleo da biografia do mais célebre bispo de Hipona: a relação entre fé e razão; a busca sincera da Verdade.

Diz-nos Agostinho logo depois de sua conversão: “parece-me que se deve conduzir os homens à esperança de encontrar a verdade” [2]. Esta frase mostra como o Doutor da Graça é um profundo conhecedor da pessoa humana… Nem parece que foi escrita há mais de 1600 anos: parece mais que foi escrita para os homens de hoje.

De fato, não é difícil encontrar alguém que creia não existir ou acredita que seja impossível encontrar a verdade em si mesma. Tudo é relativo. Na verdade, para usar as palavras do Santo Padre Bento XVI [3], vivemos tempos em que impera a ditadura do relativismo. Pode-se acreditar que nada seja definitivo. Pode-se acreditar em todo tipo de coisas (cristais, bruxarias, encantamentos, harmonia com as energias cósmicas), menos que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, seja a Verdade em si mesma que se manifestou a nós como único caminho de salvação.

Tudo é perfeitamente crível, menos aquilo que é evidentemente a única realidade credível: Jesus Cristo é o Senhor. E não nos deve admirar que existam tantas pessoas perdidas, sem sentido para sua vida, afundadas em diversos vícios que escravizam… Pois é no encontro com Ele que nos encontramos a nós mesmos: “um homem que está longe de Deus está também longe de si, alienado de si mesmo, e só pode encontrar-se encontrando-se com Deus” [4].

Irmãos e irmãs, nosso coração espera por encontrar-se com Jesus! “Criaste-nos para ti e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em ti”, exclamava Agostinho [5]. Em cada ser humano que se entrega ao pecado existe um coração sedento da paz que vem de Deus! Por que procurar o sentido da vida onde ele não está? Por que continuar vivendo escravo de libertinagens mil? Por que não render-se ao único amor que pode preencher nosso coração de uma vez por todas – visto que é infinito e perfeito? Ainda não compreendemos que servir na casa de Deus é ser livre e ser livre longe desta casa é ser escravo [6]? Volta para casa! Nosso Senhor nos ama com um amor perfeito, belo e infinito! Precisamos, sem demora, nos colocar num movimento de volta para casa [7]!

Não tenhamos medo! Deus não nos tira nada do que torna a vida bela e feliz [8]! De volta, poderemos todos exclamar:

“Tarde Vos amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos Amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu fora, e ali vos procurava, e nas belezas que criastes, disforme, eu me lançava. Estáveis comigo, mas eu não estava convosco. De Vós mantinham-me distante as coisas que, se não existissem em Vós, não existiriam. Chamastes-me, gritastes e rompestes a minha surdez; brilhastes, mostrastes o Vosso esplendor e dissipastes a minha cegueira; exalastes o Vosso perfume e eu o respirei suspirando por Vós; saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede; tocastes-me, e me inflamei na Vossa paz” [8].

Deus, nosso Senhor, só não pode fazer isto por nós: voltar para casa em nosso lugar… O primeiro passo, mesmo que o caminho pareça impossível e o ponto de chegada distante, é abrirmo-nos à esperança de encontrar a Verdade.

Que Santo Agostinho e a Bem-aventurada Virgem Maria nos sustentem neste caminho!

Desculpem-me se escrevi demais…

Grande abraço! Fiquem com Deus! E até a próxima!

 

 

[1] Cf. BENTO XVI. “Santo Agostinho (III): a doutrina; fé e razão”. In Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 174-178. Disponível em: <>.

[2] SANTO AGOSTINHO. Ep 1,1. In BENTO XVI. Idem, p. 177.

[3] RATZINGER, Joseph. Homilia na Missa pela eleição do Papa (18/04/2005). Disponível em: <http://www.vatican.va/gpII/documents/homily-pro-eligendo-pontifice_20050418_po.html>.

[4] BENTO XVI. “Santo Agostinho (III): a doutrina; fé e razão”. In Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 176.

[5] SANTO AGOSTINHO. Confissões I,1,1. In BENTO XVI. Idem, p. 176.

[6] Cf. Lc 15,11-32.

[7] “A Igreja Católica é o lar natural do espírito humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem e sentido”. Trecho de uma carta de G. K. Chesterton a seu amigo Belloc.

[8] BENTO XVI. Homilia da Missa de Início de Pontificado. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2005/documents/hf_ben-xvi_hom_20050424_inizio-pontificato_po.html>.

[9] SANTO AGOSTINHO. Confissões X,27,38. In BENTO XVI. “Santo Agostinho (III): a doutrina; fé e razão”. In Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 177-178.

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CONCEDES O QUE ME ORDENAS, ORDENAS O QUE QUISERES – Por Fabiana Theodoro.

É com muita alegria que trago mais uma reflexão para trabalharmos juntos nessa semana. Uma das coisas que mais me impressiona em Jesus Cristo, e com certeza impressionava Agostinho, é a capacidade que Jesus tinha de não olhar o passado das pessoas, mas sim suas possibilidades. Como na passagem de Marcos 2,16, onde os fariseus interrogam sobre o porquê de Jesus comer com os pecadores, ou quando Jesus vai à casa de Zaqueu em Lucas 19,5. Que bom que Agostinho percebeu isso, porque se não perderíamos um grande santo.

Quem de nós já não ouviu de alguém “se Agostinho conseguiu ser santo eu também consigo”?

Agostinho pôde “beber” da misericórdia de Deus, não ficando preso aos seus erros, travou uma grande batalha consigo mesmo para vencer o seu “espinho na carne”[1], a concupiscência, observe uma de suas confissões:

“Sem dúvida, tu me ordenas que eu me abstenha da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da ambição do mundo [2], concede-me o que me ordenas, e ordena o que quiseres. Tu nos ordena a continência, mas alguém disse: ’consciente de que ninguém pode possuir a continência,  a não ser pelo dom de Deus’ [3].
É graças à continência que nos reunimos e nos reconduzimos a unidade, da qual nos afastamos (…) Ó amor, que sempre ardes e não te extingues jamais! Ó caridade, meu Deus, inflama-me! Tu me ordenas a continência: concede-me o que me ordenas e ordena o que quiseres” [4].

 O fruto da intimidade com Deus faz com que tenhamos consciência do que nos afasta d’Ele e o que precisamos fazer para nos libertar, e não é fácil. Quem não tem um “espinho na carne” como o de Santo Agostinho e como o de São Paulo? Esse “espinho” não nos deixa esquecer de que material somos feitos. Mas a Igreja Católica nos oferece uma de suas riquezas mais preciosas, a Confissão, por meio da qual, nos reconciliamos com Cristo e podemos recomeçar nossas vidas. Mas, para isso, precisamos colocar todos os nossos pecados numa “mala”, levar para o confessionário, deixá-la ali; e não abrir essa “mala”, mostrar todos os pecados para o padre, colocá-los de novo na mala e levar de volta consigo. Sempre é possível o recomeço. Se Deus perdoa seus pecados, quem é você para não se perdoar?

A santidade não é um caminho fácil, é como caminhar descalço por uma longa estrada, na qual na primeira distração pode-se tropeçar, pisar em um espinho, cair em um buraco que às vezes nem se vê o fundo, mas nós sabemos aonde queremos chegar e quem estará nos esperando. Não caminhamos sozinhos e nos momentos de dor, sempre poderemos contar com a mão de Jesus para nos levantar.

Boa semana a todos, e quem ainda não se confessou, arrume a sua mala…

Santo Agostinho, rogai por nós!

[1] 1Jo 2,16

[2] 2Cor 12,17

[3] Sb 8,21

[4] Confissões, Santo Agostinho

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