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DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR – Ano A (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, com este domingo de ramos e da Paixão do Senhor, iniciaremos uma semana santa particular já que muitos de nós estarão privados de participar na Igreja destas celebrações centrais para a nossa fé. Dessa maneira, peçamos a graça do Espírito Santo para que nos unamos a Jesus mais intensamente e de um modo todo particular.

Na liturgia da procissão, temos o evangelho da entrada do Cristo em Jerusalém (cf. Mt 21,1-11). Nele, o evangelista deixa clara a contraposição entre a agitação da cidade inteira que não o reconhece e a aclamação das as multidões que o seguem (cf. Mt 21,10-11). Aqui, então, temos uma primeira escolha para a nossa semana santa: ou ficaremos agitados em meio às notícias desencontradas e às polêmicas daí decorrentes, ou seguiremos Jesus no seu caminho de doação amorosa, dando-lhe o melhor do nosso tempo nesses dias. Fazemos parte de qual grupo?

Se queremos seguir Jesus, podemos fazê-lo através de um caminho de contrição interior que, creio, pode começar na contemplação de Suas dores. Deixemo-nos, então, tocar pelos dolorosos eventos narrados no evangelho da Santa Missa de hoje, a paixão e morte do Senhor segundo S. Mateus (cf. Mt 26,14-27,66): o beijo traidor (cf. Mt 26,47-50); a Passione1negação de Pedro (cf. Mt 26,69-75); a escolha de um outro “filho do pai”, Barrabás (cf. Mt 27,20-23); a troça dos soldados (cf. Mt 27,27-31)… Em particular, poderíamos refletir sobre o valor que Jesus tem para nós. Pois Judas o vendeu pelo valor de um escravo, trinta moedas de prata (cf. Mt 26,15; Ex 21,32), mas, infelizmente, com nossos pecados, o rejeitamos reiteradas vezes por muito menos…

Porém, não nos detenhamos em nossas iniquidades: abramos à esperança que nos vem da Misericórdia do Senhor. Porque não somos nós os protagonistas desta história, mas o próprio Cristo que deu a tudo um sentido inaudito: “isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para a remissão dos pecados” (Mt 26,28). Caros irmãos, quando Jesus “entregou o espírito” (Mt 27,50), Ele estava, na verdade, nos perdoando. Ou seja, Ele estava nos libertando dos nossos pecados. Como é consolador saber que o Senhor manifesta Seu amor inclusive (e sobretudo) na dor, na derrota, no fracasso – inclusive agora.

E, enfim, para corresponder a este imenso amor que é derramado em nossos corações, podemos tomar a nossa cruz de cada dia, seja ela qual for, rezando e repetindo aquelas mesmas palavras com Jesus (cf. Mt 26,44): “meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). Assim, como sinal exterior desta disposição de abrirmo-nos à vontade do Pai na força do Espírito, unidos a nosso Redentor, poderíamos deixar no centro de nossas casas a imagem do Crucificado, ao qual aclamamos com todo o coração: Hosana ao Filho de Davi!

Que a intercessão Virgem das Dores, nossa santíssima Mãe, e de São José, seu castíssimo esposo, nos alcancem a graça de celebrarmos intensamente a semana santa apesar dos limites que nos são impostos.

Sub tuum præsidium confugimus.
sancta Dei Genitrix:
nostras deprecationes
ne despicias in necessitatibus:
sed a periculis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.

 

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor: Mt 21,1-11 e 27,11-54 – Quem é este Rei desarmado que abala a terra?

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A liturgia deste Domingo, introduzindo-nos na “Grande Semana”, faz-nos reviver in memoriam a entrada em Jerusalém de Jesus, o Rei manso e humilde; é uma profecia em ato para anunciar a sua vitoriosa ressurreição. Mas também nos faz mergulhar profundamente no mistério de sua paixão e morte de cruz, condição sem a qual não teria nenhum sentido nem eficácia a celebração da sua ressurreição. Pois proclamar a ressurreição de alguém cujo sofrimento e a morte para nós são apenas vagas informações, visto que não nos tornamos participantes dessa sua dura realidade, não passaria de uma experiência artificial e alienante. Contudo, a celebração do Mistério Pascal não é simplesmente uma festa horizontal onde celebramos as nossas vitórias, mas é, antes de tudo, proclamação da vitória de Deus que nos alcança. Ele que não abandonou o seu Filho à morte, mas o ressuscitou, encoraja-nos a lutar pela vida, crendo Passioneque a morte foi destruída e, no seu Filho morto e ressuscitado, temos a garantia da nossa ressurreição.

A tentação de dar um salto para a manhã da ressurreição, evitando a tarde do calvário e a noite do sepulcro, é uma das piores traições que se pode cometer contra o Mestre, que não desceu covardemente da cruz nem contornou o sepulcro, mas entregou a sua vida para que tivéssemos vida, e vida em plenitude. Hoje infelizmente há uma forte tendência entre nós de esvaziamento das expressões simbólico-litúrgicas da celebração da Paixão e Morte do Cordeiro vitorioso, tão caras ao povo de Deus que, na sua naturalidade e espontaneidade religiosa, não tem dificuldade de sintonizar-se com o mistério da dor do Cristo, assumindo-a como sua, para alegrar-se com a sua ressurreição, garantia da sua.

Por causa de um racionalismo devastador do universo simbólico, muitos eclesiásticos negam ao povo o direito de contemplar a dor e o sofrimento do Bom Jesus dos Passos, beijar a sua cruz, solidarizar-se com a Mãe Dolorosa, que recebe nos braços o seu filho morto e o deposita no sepulcro. Será que a motivação é simplesmente evitar que se caia no risco de um sentimentalismo alienante? Para além das indiscutíveis e legítimas preocupações diante de desvios da finalidade pedagógica da liturgia e de práticas devocionais, a resistência em colocar-se diante do homem das dores (1ª Leitura) é sintoma de um medo de ter que assumir também o seu caminho. Assumindo a nossa condição, Jesus nos fez participantes da sua dignidade de Filho de Deus, obediente até a morte de cruz (2ª Leitura), por isso “se com ele morremos, com ele reinaremos”.

A entrada de Jesus em Jerusalém deixa a cidade agitada; as aclamações da multidão que o seguia, provocam uma pergunta: “Quem é este homem?” As pessoas tomadas de entusiasmo respondem: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia”. Porém, não são os seus gritos frenéticos que dirão quem ele é, mas é o próprio Jesus que, com o seu silêncio e suas poucas palavras, dará a resposta definitiva sobre a sua identidade e sua missão.

Mateus constrói a narração da paixão e morte de Jesus tendo presente esta pergunta. Os vários personagens tentam responder. Pilatos perguntando: “Tu és o rei dos Judeus?” não escuta de Jesus uma resposta, mas a repetição do que acabava de dizer. Isto é uma tentativa de levar Pilatos à consciência do que estava perguntando. Sendo um pagão, não saberia nunca o que significa, segundo as Escrituras, o Rei dos Judeus, o ungido de Deus (Mashiah). Respondendo sim ou não, Jesus não tiraria a dúvida de Pilatos, por isso o seu silêncio. Em seguida, Pilatos quer que o povo responda que tipo de Rei eles preferem: Jesus de Nazaré ou Jesus Barrabás (em alguns manuscritos o nome de Barrabás é composto com Jesus). Mais do que um prisioneiro famoso, Barrabás é simbolicamente o falso messias (aramaico Bar: filho; Abbá: pai). Enquanto pedem a liberdade para Barrabás, o assassino, o falso “filho do Pai”, gritam a morte para Jesus, que é o “Deus que salva”. Por sua vez, Simão cirineu não é obrigado apenas a dar uma ajuda ao condenado, mas também ele deve responder quem é Jesus: é o mestre cujo discípulo deve estar disposto a aceitar a carregar também a sua cruz e seguir seus passos (Mt 16,24).

Quatro grupos manifestam a sua ignorância diante de Jesus: os soldados do governador que escarnecem da sua realeza; os transeuntes que injuriam a sua divindade; os sumos sacerdotes que ridicularizam a sua humanidade (filho de Deus encarnado), e, por fim os ladrões que o insultavam.

Não são as palavras de Jesus dirigidas a nenhum desses grupos que vão confirmar quem ele é. Mas aquilo que Ele diz ao Pai: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?”  Certamente, essas palavras são as mais escandalosas que podemos ouvir de Jesus. Mas é fundamental considerar duas coisas para evitar conclusões precipitadas. Antes de tudo, é uma pergunta diante das injúrias, blasfêmias e insultos; pois todos estão afirmando que Deus o abandonou. Ademais, essas palavras iniciam o Salmo 21 (22), que rezamos na liturgia de hoje, portanto, o evangelista supõe que seus leitores conheçam o salmo completo. Não é um salmo de desespero, mas de confiança inabalável em Javé: “Sim, pois Ele não desprezou, não desdenhou a pobreza do pobre, nem lhe ocultou sua face, mas ouviu-o, quando a ele gritou” (Sl 21,25). Assim como ao entrar em Jerusalém toda a cidade ficou agitada, agora toda a terra se abalou por ocasião de sua morte, por isso, o centurião proclamará: “Ele era mesmo o Filho de Deus”.

Reviver os passos da paixão, morte e ressurreição de Jesus neste tempo solene é mergulhar no seu mistério, a fim de responder à pergunta fundamental: “Quem é esse homem?”. Caso contrário, não acreditaremos que ele é verdadeiramente o Filho de Deus; sem assumir a sua cruz, não participaremos de sua ressurreição.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/domingo-de-ramos-e-da-paixao-do-senhor–mt-21-1-11-e-27-11-54–quem-e-este-rei-desarmado-que-abala-a-terra-

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA – Ano A (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, em nosso caminho quaresmal já rezamos, nos últimos dois domingos, com os símbolos batismais da água e da luz. Neste quinto domingo, então, nosso itinerário se completa com Jesus que se nos apresenta como ressurreição e vida (cf. Jo 11,1-45). Peçamos ao Senhor a graça de ressuscitarmos nele para uma vida nova!

Jesus Cristo cumpre a profecia de Ezequiel (cf. Ez 37,12-14, primeira leitura) porque, como disse a Marta, Ele é a ressurreição e a vida. E acrescentou: “Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais” (Jo 11,25-26). Dessa forma, no último sinal apresentado pelo evangelista João antes da sua Lazaro1hora, nosso Senhor dá a conhecer completamente a sua missão: Ele veio trazer a Vida.

Porém, dois mil anos depois, estamos aqui provando, mais uma vez, o poder da morte. E muita gente finalmente se deu conta que é mortal, que “a figura deste mundo passa” (1Cor 7,31). Mais ainda: muitas pessoas descobriram que não têm um porquê – ou melhor, por quem – arriscar a própria vida. A terrível politização das questões de saúde através de argumentos maquiavélicos, histéricos ou demagógicos está escancarando o materialismo e o individualismo com os quais estamos naufragando enquanto sociedade e, assim, devemos nos perguntar: é esta a vida que o Senhor quer para nós? Ou melhor: qual vida Jesus nos trouxe?

Penso que encontramos a resposta na segunda leitura: Cristo nos deu o Seu Espírito e, n’Ele, a Vida nova, a vida em Deus (cf. Rm 8,8-11). Não se trata de uma utopia, pois ela está realmente presente e resplandece nos santos. Também não se trata de um privilégio, porque está disponível a todos: somos chamados a vivê-la na esperança que se tornam operativas na caridade. Para tanto, precisaremos suportar as angústias da morte do homem velho a fim que o medo de arriscar e perder não feche nosso coração à graça da fé. É crendo no Amor por nós crucificado que Deus encontra espaço para agir em nós e transformar a nossa vida.

Irmãos, por fim, recordemos aquela imagem tremenda da última sexta-feira. Nela, vimos o doce Cristo na Terra cumprindo a sua missão e nos trazendo aquilo que precisamos desesperadamente e mais do que nunca – ele nos trouxe Deus (o Deus vivo e verdadeiro) e, assim, nos deu esperança. “Crês isto?” (Jo 11,26). “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4,40).

Que a Santíssima Virgem Maria, nossa Mãe, e São José, nosso protetor, intercedam por nós e nos impulsionem no nosso caminho de conversão.

Sub tuum præsidium confugimus.
sancta Dei Genitrix:
nostras deprecationes
ne despicias in necessitatibus:
sed a periculis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.

 

V Domingo da Quaresma: Jo 11,1-45 – Incredulidade: a doença mortal

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A liturgia desse V Domingo nos apresenta a última catequese sobre o batismo: a ressurreição de Lázaro; no mistério da morte daquele que crê, o anúncio da vitória da vida que não morre. Assim como na cura do cego de nascença (IV Domingo) apareceram os verdadeiros cegos, aqui se revelam quem são os verdadeiros doentes e que arriscam morrer verdadeiramente. A doença de Lázaro serve para: “A glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”, porque é ocasião para Jesus revelar que há uma doença mais grave na vida do ser humano do que os males físicos: a incredulidade, pois esta sim pode levar à morte eterna, e só crendo Nele, o ser humano poderá ser curado dessa enfermidade letal. A incredulidade não é apenas a não crença numa divindade ou a não aceitação de um credo religioso, mas representa algo mais mortal para o ser humano, é a recusa do amor de Deus, “que tanto amou o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A rejeição ao amor de Deus é uma das marcas do nosso tempo. Na base de todo desamor (ódio, violência, injustiças etc.) está a ausência da experiência de ser amado. Lázaro é o símbolo do homem que, apesar de sua doença, é amado por Deus. Quando as irmãs mandam dizer a Jesus que ele estava doente não o identificam com o seu nome (Lázaro), mas com uma expressão que indica a condição de todo ser humano: “Aquele que amas está doente”.

Como é difícil para o mundo de hoje reconhecer essas duas grandes verdades: por um lado, a doença da incredulidade, por outro, o amor de Deus que é capaz de curá-la desse mal, e garantir não apenas a saúde do corpo para alguns anos aqui na terra, mas a vida que não morre, cujo ápice é a ressurreição, a plenitude da vida. Da parte do ser humano basta crer nesse amor, o mais Deus já fez: “Não há maior prova de amor do que dar a Lazarus,_Russian_iconvida” (Jo 15,13). A necessidade urgente de contemplar o crucificado não é impulso masoquista de uma religião alienante, mas a condição imprescindível para fazer a experiência de um amor, que não se acovarda para provar que é verdadeiro.

Até chegar ao túmulo de Lázaro, o morto que não morreu, Jesus vai encontrando muitos outros doentes (incrédulos) que estão morrendo, cujos sintomas vão se evidenciando nos vários personagens da narração. O primeiro sintoma manifesta-se nos discípulos: “Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?”, é o medo-covarde que toma o coração dos discípulos. Choca reconhecer que os primeiros da lista dos doentes são os próprios discípulos. O medo da morte para quem não tem fé já é a morte antecipada. Infelizmente hoje, também, há muitos que se dizem cristãos, mas na hora de seguir os passos do Mestre, rejeitado e condenado à morte por causa de sua fidelidade à verdade, acovardam-se e decidem por outra estrada. Se a morte nos lança uma penumbra de incertezas, a luz de Cristo rompe a escuridão e nos garante que a morte física é apenas uma passagem como a noite é vencida pela luz do amanhecer: “Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo”.

A palavra de Jesus inicia, nos discípulos acovardados e medrosos, o processo de cura; não é por acaso que aquele, cuja incredulidade foi definitivamente sanada após o encontro com o Senhor ressuscitado, tome a palavra e dê o primeiro passo da fé: “Tomé disse então aos outros discípulos: ‘Vamos também nós para morrermos com ele!’”.

Marta e Maria, mesmo demonstrando certa fé em Jesus, passam pelo momento da dúvida: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. A fé questiona, mas não deixa dúvidas, pois indica o caminho. A dúvida (do latim: dubitare, oscilar entre duas partes; grego: distadzo, ficar em dois caminhos) paralisa, por isso Maria está prostrada (“ficou sentada em casa”), não consegue caminhar até Jesus porque tem dúvidas. Contudo, a sua irmã Marta, tendo sido desafiada por Jesus a vencer a dúvida pela fé: “Crês isto? Sim, Senhor, eu creio”, vai chamá-la a fim de que se levante (grego egeiro: levantar, mesmo verbo para ressuscitar) e tome a estrada em direção ao Mestre, abandone o seu sepulcro e tenha vida.

Outro sintoma da incredulidade é a falta de esperança: os judeus, apesar de terem ido à casa de Marta e Maria para consolá-las, não foram capazes de infundir-lhes esperança, não conseguiram enxugar as lágrimas das enlutadas, mas pelo contrário choravam com elas aumentando o clima de desespero. Diante de tantos sinais de incredulidade, a reação de Jesus: “Estremeceu interiormente… E Jesus chorou”. Não é coerente pensar que o choro de Jesus se deu pelo fato de estar inerte diante do túmulo de um amigo amado agora defunto, pois ele sabia que iria ressuscitá-lo; a certeza da ressurreição já era suficiente para vencer a tristeza da morte, por isso Jesus não precisava chorar. Portanto, a indignação de Jesus (comoveu-se interiormente, grego: enebprimésato en pneumati, encolerizar-se em espírito) é mais do que uma tristeza emocional, mas um repúdio diante da incredulidade assim como Jesus chorou ao ver Jerusalém, que não reconheceu o dia da sua visita (Lc 19,41s). Portanto, é a incredulidade, a recusa de Deus e do seu amor que provoca o choro de Jesus.

Contudo, para esta doença há esperança de cura, pois o Pai ouve sempre o Filho, e este é o desejo do Filho: “que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Na oração de Jesus à porta do sepulcro se consolida toda a nossa esperança de cura: “Pai, dou-te graças”. Jesus não pede para que algo aconteça, abrindo espaço para dúvidas, mas agradece por aquilo que vai acontecer, por isso utiliza o verbo eucharisto (daí Eucaristia: memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor). Assim chegamos ao ponto mais alto de nossa preparação quaresmal: o anúncio da morte e ressurreição de Cristo, o grande sinal dado por Deus de que nos ama, a grande ajuda (Lázaro significa “Deus ajuda”) para vencermos a incredulidade e termos vida plena. Todo batizado foi curado da doença da incredulidade, mas para que não adoeça precisa vencer a tentação da incredulidade. Celebrar a Eucaristia, alimento dos batizados, é dar a resposta: “Sim, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo”, cuja missão é testemunhar que Deus nos ama. E, por isso, a permanente pergunta do Senhor a nós: “Crês isso!”.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/v-domingo-da-quaresma–jo-11-1-45–incredulidade–a-doenca-mortal

O SACRAMENTO DA NOSSA RECONCILIAÇÃO

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Das Cartas de São Leão Magno, papa.

A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza, pela força, a mortalidade, pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.

Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Sedutor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter Ícone - Anunciação 02irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.

Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha do seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.

Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido;existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.

Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.

Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.

A natureza divina resplandece nos milagres, a humana, sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.

É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.14).

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA – Ano A (P. Lucas, scj)

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Cristo e o cego

Caros irmãos, já vimos que a liturgia da Quaresma deste ano A nos insere, nós que já fomos batizados, num itinerário renovação das graças batismais. Assim, Jesus, que no domingo passado se revelou como fonte de água viva, se revela como luz do mundo (cf. Jo 9,1-41) neste IV Domingo, também chamado Lætare, portanto, da alegria. Que a Luz do Senhor dissipe as trevas do nosso coração!

Em primeiro lugar, notemos que, mais uma vez, é salientada a iniciativa de Deus: o então cego desde o nascimento nem mesmo pede a cura, como o fez Bartimeu (cf. Mc 10,46-52) – Jesus simplesmente o vê, o unge com barro (sinal da recriação) e o cura através do banho de água (cf. Jo 9,1.6). Ninguém se antecipa ao Amor do Senhor. A luz de Cristo nostoca e abre-nos para crer (cf. Jo 9, 38). Em seguida, creio, é preciso que vivamos o momento atual sob esta mesma Luz. Afinal, é sempre tempo de corresponder ao amor de Deus! E podemos fazer isso agora, em meio à presente pandemia. Para tanto, proponho dois exercícios: o confronto e o encontro.

Confrontar significa “pôr ou ficar frente a frente” [1]. Infelizmente, não estamos acostumados a encarar nossos problemas… Quantas vezes, quando temos algo que nos desagrada, procuramos algum subterfúgio para esquecê-lo? Pois bem, muitas das nossas vias de fuga, por força das graves circunstâncias atuais, estão simplesmente fechadas. Então, por que não desligamos a TV (isso ajudará, inclusive, a não entrarmos num pânico que, além de desnecessário, não ajuda em nada) e encaramos a realidade? A nossa realidade: que somos frágeis criaturas, finitas e mortais, e não existe algum bem material que nos seja capaz de nos dar segurança diante dos inimigos invisíveis (sejam eles o vírus chinês ou satanás e seus demônios); que precisamos de uma Luz que nos ilumine e dissipe nossas trevas dando sentido à nossa vida; e que esta Luz existe, nos é transcendente, ou seja, não vem de nós, mas de um Outro. Confronto. Parece-me que encarar é melhor que tentar se distrair.

E isso nos levará a encontrarmo-nos: conosco mesmos, com Deus e com nossa família. Quanto tempo faz que não olhamos para o nosso coração? Temos, agora, uma oportunidade ímpar para um exame de consciência profundo, feito na presença do Salvador misericordioso, e que nos faça ver não só nossos limites, erros e pecados, mas também nossos valores, dons que o Senhor nos deu. E, assim, encontrarmos o doce Hóspede de nossa alma. Pois, embora Ele jamais nos esteja ausente, é, por vezes, esquecido. Mas Ele está no meio de nós! O Senhor não nos abandona. Ao contrário: nos dá a luz da fé que nos abre ao seu Amor infinito e absoluto e, dessa forma, nos sustenta e impulsiona a cada instante. Por fim, temos ainda a oportunidade de encontrarmo-nos com a nossa família e perceber que amá-la é mais que dar-lhe coisas: é darmo-nos, é dar tempo, é estarmos presentes. Se você não pode ir à igreja neste domingo, faça do seu lar aquilo que ele é: Igreja doméstica; e redescubra a poderosa fecundidade da oração feita em família. É o dia do Senhor, santifique-o! Não o jogue fora pela janela da TV!

Resta ainda uma pergunta: quando tudo isso passar, seremos melhores ou piores que antes? (Em outras palavras, estaremos mais próximos ou mais distantes daquilo que o Senhor nos criou para ser) Como disse, ainda nessa semana, P. Júlio Ferreira: que a saudade que hoje sentimos da divina Eucaristia nos leve a uma verdadeira conversão.

Que a bem-aventurada Virgem Maria, refúgio dos pecadores, e de São José, nosso protetor, estejam presentes, mais que nunca, em nossas casas, trazendo a nós o Cristo-Luz.

Sub tuum præsidium confugimus.
sancta Dei Genitrix:
nostras deprecationes
ne despicias in necessitatibus:
sed a periculis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.

 

[1] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, https://dicionario.priberam.org/confrontar.

 

IV Domingo da Quaresma: Jo 9,1-41 – Batismo: unge e lava os olhos para ver a verdade

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Neste tempo especial de preparação dos catecúmenos para o Batismo e da renovação das promessas dos já batizados, a liturgia deste Domingo nos apresenta, no encontro de Jesus com o cego de nascença, mais uma catequese batismal. A narração da cura do cego de nascença, com o simbolismo próprio do IV evangelho, tem como objetivo a revelação da pessoa de Jesus no seu mistério de Deus encarnado, luz que ilumina todo homem vindo ao mundo (Jo 1,9), mas ao mesmo tempo mostra que todo aquele que é iluminado por Ele torna-se testemunha da luz verdadeira. No cego de nascença curado temos uma prefiguração de todo batizado; no Cristianismo primitivo tanto o batismo quanto a vida cristã eram chamados de iluminação: “Lembrai-vos, contudo, dos vossos primórdios: apenas havíeis sido iluminados, suportastes um combate doloroso” (Hb 10,32, do Cura do cegogrego photismós: iluminação). São Paulo define os batizados como “filhos da luz”, Ef 5,7 (grego: tekna photos).

A luz é símbolo da verdade, a única capaz de garantir a vida, pois liberta o ser humano de toda escravidão (Jo 8,32). Contudo, para o cristão, a verdade não se esgota numa simples correspondência entre uma ideia representada na mente e algo externo perceptível na realidade. A verdade para o batizado é uma pessoa: Jesus, “o Verbo de Deus que se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). É nele que o ser humano descobre quem é (GS 22); o encontro com o Senhor inunda de luz a sua vida para que conheça a verdade sobre si, sobre o mundo, sobre Deus. Porém, este caminho não se faz por pura iniciativa humana, mas na base de tudo está a graça de Deus que, apesar do nosso pecado, se manifesta. O batismo é justamente a porta de entrada que nos leva ao conhecimento da verdade. Encontrando-se com a verdade, o batizado é desafiado a reconhecer e discernir o que é verdadeiro do que é mentiroso.

Numa sociedade que jaz sob a ditadura do relativismo, como denunciou Bento XVI, a única verdade permitida é que a verdade não existe, ou no máximo depende do subjetivismo de cada um. Os próprios defensores dessa mentira se contradizem crendo que essa sua mentira é a verdade absoluta, e não escapam da necessidade de uma verdade, ainda que esta seja mentira.

O cego que começa a enxergar representa o ser humano que reconhece a verdade e, portanto, não se deixa aprisionar pela mentira usurpadora. O evangelho nos apresenta, de forma didática, este caminho rumo à verdade, através de dois gestos simbólicos: ungir e lavar os olhos.

Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego”. A expressão grega traduzida por “colocar sobre” (os olhos) no grego é uma palavra só (epechrisenepi, sobre; e o verbo chrio, de onde vem Cristo, ungido, crisma, unção). No Antigo Testamento é um verbo usado para a unção de reis (1Sm 10,1), sacerdotes (Ex 28,4), profetas (1Rs 19,16) e pode ser muito bem compreendida como “ungir”. Portanto, o gesto de Jesus adquire um sentido mais profundo: ungindo o cego com a argila da terra e a sua saliva recorda o ato primordial de Deus ao criar o ser humano (Gn 2,7). Esta é a primeira experiência de encontro com a verdade: o homem que toma consciência do que ele é, isto é, uma criatura de Deus, intimamente ligado à terra, mas que recebeu um sopro divino e, por isso, não pode negar a sua natureza transcendente. Reduzir o homem a um animal terráqueo é torná-lo cego. Sem dúvida, esta é uma das verdades mais contestadas por ideologias materialistas, que aprisionam o homem ao mundo das satisfações materiais, impedindo-lhe de conhecer a verdade de que ele é mais do que o seu corpo e suas necessidades.

Vai lavar-te na piscina de Siloé”: recuperando a verdade fundamental da sua existência, o cego precisa dar um outro passo: obedecer à Palavra de Jesus que o envia à piscina. Lavar-se significa mergulhar em Siloé (hebraico: Shiloah, enviado). O próprio Jesus, um pouco antes, afirmara ser ele o enviado do Pai: “É necessário realizar as obras daquele que me enviou”. Simbolicamente o homem que foi ungido, que recebeu gratuitamente o dom de Deus, agora precisa mergulhar em Cristo, tornar-se um discípulo dele para continuar a conhecer a verdade que liberta. Paralelamente, todas as outras pessoas se opõem à verdade incontestável da cura do que fora cego. Mesmo enxergando a verdade, não querem reconhecê-la (vizinhos, pais, fariseus). Pois acolher a verdade exige ter os olhos ungidos e lavados pelo Cristo. Preferem fechar os olhos para não se comprometer com a verdade, pois essa tem um preço, que se paga inclusive com a vida. Só quem faz a experiência de ser libertado por ela é capaz de dar a vida por ela, pois sabe que não a perderá para sempre.

Os vizinhos, os pais e os fariseus negaram a verdade porque caíram na tentação de separar a verdade da cura com a verdade de quem a realizou.

Quando o ser humano provoca um divórcio entre a verdade e a realidade, ele cria a sua própria verdade e, consequentemente, aprisiona-se às suas mentiras. As grandes mentiras proclamadas verdades no nosso mundo hoje são fruto do divórcio entre cultura e natureza, pois não se pode crer que uma cultura é verdadeira se esta destrói a natureza; no âmbito da religião quando se divorcia a ação pastoral do depósito da fé, a religião deixa de ser profética e vira uma ONG ou mesmo um clube de amigos. Separando o amor da abnegação, tudo vira sentimentalismo escravizador. Uma autoridade que não é serviço depõe contra a vida, e a faz refém de privilégios mesquinhos. Quando se estabelece um hiato entre fé e razão, as duas asas de elevação do espírito humano rumo à verdade, entre espiritualidade e consciência moral, forja-se uma ciência servidora de interesses egoístas e mercadológicos e uma religião que não passa de sedativo de angústias, sem produzir atitudes coerentes e verdadeiras transformações.

Se o batismo nos faz mergulhar no mistério de Cristo, morto e ressuscitado, ser batizado é ser iluminado por Ele, a luz da verdade, e tornar-se sua testemunha no mundo que tem medo da verdade, mas que necessita urgentemente dela, caso contrário não encontrará a liberdade verdadeira nem vida em plenitude.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/iv-domingo-da-quaresma–jo-9-1-41–batismo–unge-e-lava-os-olhos-para-ver-a-verdade

 

 

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