Caro amigo.

Vamos continuar nossa meditação sobre a vida e os ensinamentos dos Padres (Pais) da Igreja, nossos mestres na fé cristã primitiva. Já conhecemos São Clemente Romano e Santo Inácio de Antioquia, Padres Apostólicos, que conviveram com os primeiros seguidores de Jesus. Encerrado este grupo, agora refletiremos sobre os cristãos conhecidos como Padres Apologistas (em grego, defesa), identificados pela corajosa defesa intelectual do cristianismo nascente e pelo anúncio da fé através da linguagem filosófica [2].

Como os santos são nossos irmãos que acertaram o caminho da verdadeira felicidade, nosso guia existencial de hoje será São Justino. Nascido na Samaria, filho de família abastada, logo se dedicou à busca da verdade no estudo da filosofia [2]. Entretanto, apenas a encontrou no Logos (Palavra divina sempre presente na história). Convertido, não se conteve em ter a verdade apenas para si. Sem demora, arriscou-se a fundar uma escola gratuita de ensino cristão em Roma [4] e não temeu dialogar publicamente com as pessoas mais instruídas da sua época, inclusive com o Imperador Antonino Pio [5].

Sua vida foi um transbordar da sua experiência mística e racional com o Cristo. Para quem deseja uma reflexão mais teológica, “a maior importância de Justino está no fato de ter sido ele o primeiro escritor cristão depois de Paulo a perceber as implicações universalistas do cristianismo. Com sua característica doutrina do Logos, recapitulou num único movimento vigoroso a história inteira da humanidade, que encontra sua consumação em Cristo”[6]. Isso você pode aprofundar em outros textos. Por isso, aqui, quero meditar mesmo é sobre seu perceptível processo de maturidade cristã.

O seu caminho, como pessoa leiga, pode/deve ser o nosso: desejou a verdade, e encontrando-a, por ela deu a vida. Não ficou pedindo cura, sinais e sentimentos de prazer espiritual. Usou a razão, o Senhor falou ao seu coração, e depois se consumiu pela Verdade. Não foi apático, nem eufórico, quando mais provado, ao ser “interrogado pelo prefeito Rústico, mais uma vez expôs a sua fé com um fervor intrépido. Ameaçado com os açoites e o cutelo, respondeu simplesmente com um ato de esperança. E cortaram-lhe a cabeça” [7].

Antes da sua morte, afirmou que “se esperássemos um reino humano, o negaríamos para evitar a morte e procuraríamos viver escondidos, a fim de conseguir o que esperamos; mas, como não depositamos nossa esperança no presente, não nos importamos que nos matem, além do que, de qualquer modo, haveremos de morrer”[8].

Ser cristão é isso: mirar a eternidade e amar a todos sem limites. Aprendamos com ele: já encontrou a verdade? Então, não a guarde para si, dê a vida por ela sem esperar Deus no extraordinário. Em outras palavras, reze e estude, depois faça bons retiros e consuma-se em seu ambiente pastoral, profissional e na sua vocação. Vale à pena… Ou melhor, vale a vida! Aqui pode estar um belo projeto para sua caminhada cristã.

Louvado seja Deus pelo testemunho racional, espiritual e profético do leigo São Justino de Roma. Tenha uma ótima semana. Até a próxima Eucaristia e na segunda-feira nos reencontraremos para estudarmos e meditarmos sobre Santo Irineu de Lião.

Deus lhe abençoe!

Notas:

[1] São Justino: Diálogo com Trifão. São Paulo: Ed. Paulus, 1995; n.8.

[2] São Justino. São Paulo: Ed. Paulus, 1995. (Merece destaque pela sua introdução à vida e obra de Santo Inácio de Antioquia e principalmente por ser uma obra que apresenta, bem traduzidas, as suas sete cartas).

[3] Catequese de Bento XVI sobre São Justino de Roma. Cf: BENTO XVI, Justino de Roma: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070321_po.html

[4] Ibid.

[5] São Justino: 1ª Apologia. São Paulo: Ed. Paulus, 1995; n. 1.

[6] Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. São Paulo: Paulus, 2002; p. 799.

[7] ROPS, Daniel. A Igreja dos mártires. São Paulo: Quadrante, 1988; p. 279.

[8] São Justino: 1ª Apologia. São Paulo: Ed. Paulus, 1995; n. 11.

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