Querido (a) amigo (a)

    Após uma semana em que a lei natural e a moral cristã foram humilhadas sem direito de defesa, desejo continuar meditando sobre os grandes personagens que influenciaram a história da Igreja e consequentemente a sociedade universal. Prosseguindo a reflexão sobre Orígenes (185-254), começo com as palavras de um autor italiano e estudioso do cristianismo primitivo: Ele “escreveu seis mil volumes, como afirma S. Epifânio; mais do que uma pessoa consegue ler, acrescenta S. Jerônimo. O fato é que ditava contemporaneamente obras diferentes a sete estenógrafos e, depois, passava grande parte do seu tempo em oração, no ensino e na pregação. Os grandes Padres da Igreja inspiraram-se nos escritos deste homem extraordinário que viveu entre a angústia da excomunhão e o desejo do martírio” [1]. Como já vimos no texto da semana anterior, ele apenas não é santo por alguns limites doutrinários e exageros morais.

     São bonitas suas saudosas palavras sobre a realidade que a Igreja vivia no início do terceiro século quando ele ainda era bem jovem: “Naquele tempo, sim, encontrávamos verdadeiros fiéis! Então, o martírio batia à nossa porta, desde o dia do nosso nascimento; então, ao voltar dos cemitérios, aonde havíamos acompanhado os corpos dos mártires, nós nos encontrávamos, juntos, na Igreja. Toda a Igreja achava-se lá reunida, forte, indestrutível, e os catecúmenos eram catequizados no meio dos mártires, entre uma morte e outra dos cristãos, que confessavam a verdade sem restrição, e depois, estes mesmos, vencendo as provas, aderiam destemidamente a Deus. Bem me lembro de ter visto, naqueles tempos, prodígios extraordinários e estupendos. Os fiéis, naquela época, eram poucos, é verdade, porém autênticos, e seguiam o caminho estreito, que leva à vida” [2].

Agora surge a questão: como um jovem que perdeu seu pai assassinado, teve todos os bens da sua família roubados, foi perseguido e mal quisto até pelas pessoas de dentro da Igreja, conseguiu escrever tantas obras com enorme influência na posterioridade e ainda se manteve fiel a Deus e feliz? Orígenes era uma pessoa que acreditava no que realizava e por isso deu sua vida pelo Cristo na sua vivência cotidiana. Ele não apenas molhou os pés nas águas no Espírito. Ele se lançou por completo sem nada reservar para si. Caso não fosse sua mãe ter escondido suas roupas, ele teria enfrentado os perseguidores da fé e seria mártir ainda jovem [3]. Nada disso teria acontecido sem uma vida de oração madura, edificada na Sagrada Escritura e uma fé determinada que apenas olhava para sua meta: a eternidade.

É fato que os problemas de outrora não são os mesmo da nossa época. Nossos pais não correram o risco de ver-nos nas mãos de perseguidores da Igreja logo no nosso nascimento. Numericamente não somos poucos e não precisamos mais sermos catequizados em cemitérios e às escondidas. Entretanto, eles provavelmente não enfrentavam a guerra fria que sofremos ao vermos os defensores de ideias contrárias a natureza humana lutarem com bravura e nós cristãos não podermos dizer nada sem ouvirmos que somos atrasados e preconceituosos. Possivelmente na sua época os líderes sociais não ganhavam por viagens que nem haviam feito… Os tempos são outros, mas se nossa determinação, coragem e amor pela nossa fé não forem parecidos com nossos antepassados carregaremos o peso de sermos conhecidos no futuro como os cristãos apáticos, light e medíocres do século XXI.

Para construirmos uma nova história, ou melhor, para resgatarmos a vida dos santos nos desafios da nossa geração, temos que começar a mudança em nós. Não será fácil, mas seja muito fiel na sua vida diária de oração – caso queira conhecer métodos de oração basta me dizer – transborde amor no seu ambiente social, ame o cristianismo de sempre e não tenha medo de ser ridicularizado por pensar como a minoria, ou melhor, por acreditar que a Verdade não muda.

Tenha uma ótima semana. Aguardo você na próxima Eucaristia e na outra semana para meditarmos sobre Tertuliano.

Notas:

1] ORÍGENES. Homília in Jeremias 4, 3: In Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987, p. 30.

[2] ORÍGENES. Homília in Lucas 25: In Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987, p. 29-30.

[3] LELOUP, J, Y. Introdução aos verdadeiros filósofos. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 38-39.

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