Queridos (as) amigos (as)

Nas últimas semanas estudamos os grandes pensadores do início do cristianismo que escreveram em língua grega. Agora, iniciamos nossa reflexão sobre os autores latinos. O primeiro cristão que escreveu com qualidade na língua mãe do Ocidente foi Tertuliano (220). Além disso, ele foi o primeiro grande representante da Igreja na África. Tinha tudo para ser declarado santo: “foi um sábio, um jurista, um orador e um profeta, mas o calor do sangue estragou-lhe toda a personalidade” [1].

Tertuliano depois de exercer por vários anos o trabalho de advogado, provavelmente vendo o testemunho dos mártires, não titubeou e se tornou um fervoroso cristão[2]. “Lançado desde a conversão ao assalto de todos os inimigos de Cristo, mostra nas inúmeras batalhas a que se entrega audácia que nada pode domar” [3]. Tornou-se valoroso fazendo “progredir a doutrina em muitos aspectos: o dogma da Trindade, a ideia do mérito do homem e da sua responsabilidade perante Deus e a própria noção dos sacramentos devem-lhe uma precisão que até então não tinham” [4]. Foi ele quem disse que “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos” [5]. Sua capacidade argumentativa e facilidade em fazer progredir a fé não permitem que seja ignorado.

Era um líder nato, mas de intransigência tamanha que, a exemplo das pessoas que vivem desta forma, foi cada vez mais se isolando. Exigia que todos os cristãos manifestassem sua mesma radicalidade. Não suportava os pecadores e acabou deixando a Igreja para participar do movimento montanista [6]. Não demorou muito, fundou sua própria seita e pregava mais sobre os pecados dos outros do que os seus valores e o amor e misericórdia de Deus. Em poucas palavras, separou-se da Igreja por orgulho, por achar-se melhor do que os outros. Só faltou dizer que após abandonar a Igreja católica conheceu Jesus…

Contudo, não podemos condená-lo. Em nossos dias como ficar indiferente diante de cristãos apáticos, medíocres e utilitaristas? Vários deles que estão na Igreja com o dever de servi-la e dela apenas se servem. Outros que a utilizam como trampolim para sua projeção política partidária – os mesmos que depois que chegam ao poder a humilham com a sua indiferença aos valores que antes diziam defender. Ou de alguns artistas que não se envergonham em usar a mãe Igreja para gravar os seus CDs, ou vender os seus livros e ensinar a sua teologia sem comprometer-se com o cristianismo católico. Além de inúmeros que se encostam em “sua” paróquia ou comunidade para não enfrentar os problemas da sua casa. A Igreja é mãe é precisa de filhos que a amam e não a usem e depois cuspam nos seios que antes o amamentaram.

Por mais que seja difícil ver estas coisas, que não estamos livres e inconscientemente podemos até fazer pior, deixemos que as julguem o Único que conhece verdadeiramente o coração das pessoas [7]. Quando houver erros doutrinários e morais, se for prudente e necessário, não se omita, nas outras questões adote uma postura diferente e reze. Ser cristão é constantemente um exercício de paciência e humildade, um trabalho para ajudar os irmãos pregando sempre, quando necessário com palavras. São Francisco de Assis costumava dizer para os seus irmãos que não deveriam exigir que outros vivessem como eles. Não nos esqueçamos que a separação das ovelhas e dos bodes, do joio e do trigo, será apenas no final e feita apenas pelo Senhor [8].

Lutemos para sermos melhores, mas cobrar que todos sejam como queremos é arrogância. Seja firme nos seus valores, não os deixe e juntamente com uma sólida vida de oração, você será sinal de Deus na vida das pessoas.

Tenha uma ótima s,emana e até a próxima Eucaristia.

NOTAS:

[1] ROPS, Daniel. A Igreja dos mártires. São Paulo: Quadrante, 1988; p. 333.

[2] Catequese do Santo Padre Bento XVI de 30 de maio de 2007, Tertuliano: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070530_po.html>.

[3] ROPS, Daniel. A Igreja dos mártires. São Paulo: Quadrante, 1988; p. 333.

[4] Ibid, p. 334.

[5] Apologético 50, 13.

[6] O movimento de Montano baseava-se na pregação do eminente fim do mundo, marcado por um milenarismo agudo seguido de rigorismo moral. Por milenarismo entende-se, basicamente, “um reino terrestre de Cristo com seus eleitos, com a duração de mil anos, a nova Jerusalém” (Roque FRANGIOTTI, História das heresias (séculos I-VII), São Paulo: Paulus, 1995, p.57).

[7] Lc 16, 15.

[8] Mt 25, 33

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