Prezado (a) amigo (a)
É com alegria que prosseguimos nosso peregrinar pela história da Igreja Católica. Esta semana queremos conhecer e meditar sobre a vida e os escritos de Eusébio de Cesareia, nono personagem que apresentamos em nosso blog, reconhecido como maior historiador do cristianismo primitivo e grande pesquisador do Mistério cristão[1].
Nascido entre os anos 260-265, provavelmente em Cesareia (Palestina), aprofundou sua fé cristã com grandes doutores da época. Contudo, soube conjugar fé e obras como poucos. Quando seu amigo Pânfilo foi preso diante da perseguição do imperador Domiciliano, ele o acompanhou espontaneamente no cárcere e ali iniciou os seus escritos. Depois se refugiou em Tiro e acabou sendo preso e levado ao Egito, onde apenas teve paz com o governo do Imperador Constantino. Infelizmente, após se tornar bispo, apoiou a heresia ariana e acabou sendo excomungado junto com outros dois bispos [2]. No Concílio de Nicéia (325) continuou ao lado de Ário e, mantendo-se contrário a divindade de Jesus, não foi readmitido na comunhão com a Igreja católica. [3].
Como bons cristãos, queremos valorizá-lo pelas suas virtudes. “Se Eusébio não tivesse, com uma diligencia sem igual, investigado as bibliotecas palestinenses, onde Orígenes e o bispo Alexandre haviam recolhido toda literatura cristã dos tempos antigos, nossos conhecimentos sobre os três primeiros séculos da Igreja reduziriam a bem pouca coisa. Graças a ele nós nos encontramos em condições, sem dúvida, de não lamentar o naufrágio desta literatura, mas ao menos de poder apreciá-la sobre notáveis destroços” [4]. Com suas pesquisas sabemos o nome dos sucessores dos apóstolos e temos detalhes sobre martírio de Pedro e Paulo, na cidade romana [5]. Para quem gosta de história ou deseja conhecer melhor os três primeiro séculos da Igreja Católica, sua obra História Eclesiástica é leitura obrigatória [6].
Estamos diante de um personagem cristão que viveu nos séculos III e IV. Em um período de densas reflexões teológicas, que muitas pessoas eram martirizadas por amor a Cristo, Eusébio, bispo de uma significativa comunidade, priorizou sua missão como historiador do mistério de Deus e dos seus ministros. É provável que não tenhamos este carisma, mas podemos e devemos fazer algo pelo Senhor. Como certa vez ouvi um padre muito conhecido dizer: “na Igreja há espaço para todos fazerem gol”. Podemos jogar em diferentes posições e até com diferente técnica e preparo físico, pois um time não se faz de pessoas que jogam da mesma forma e na mesma posição.
É preciso descobrir quais são os nossos carismas e colocá-los ao serviço dos irmãos. Não é necessário que façamos coisas espetaculares, reconhecidas e percebidas por todos. Na verdade, a exposição e visibilidade são perigosas para nossa santificação. Há várias pessoas que fazem muito bem para os outros, mas que não conseguem cuidar de si mesmas: são famosas, mas vivem na superficialidade; pregam e cantam como os anjos, mas vivem como diabos (dividindo os ambientes em que se encontram).
O que não podemos deixar de fazer é conhecer e aprofundarmos nossa fé lutando para que a Doutrina Social da Igreja seja mais propagada e vivenciada, pois “o amor a Deus se revela na responsabilidade pelo outro”[7]. Isso não é sinônimo de assistencialismo. Ao contrário, ser cristão é mais do que dar esmolas para desencargo de consciência, é promover a dignidade do outro. Como um ser Imago Dei não pode ser verdadeiramente digno sem reconhecer-se Filho de Deus, é preciso pregar o evangelho e “a capacidade de sofrer por amor a verdade é medida de humanidade”[8].
Fique com Deus e faça a sua parte. Aguardo você na próxima Eucaristia e na outra semana passaremos a refletir sobre os grandes místicos da Igreja nascente, primeiramente conhecendo São Gregório Nazianzo.

NOTAS:
[1] Bento XVI. Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010; p. 56-60.
[2] EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000; p. 10.
[3] A heresia professada pelo sacerdote Ário de Alexandria, por isso recebe seu nome, afirmava que apenas existe um único Deus, o Pai, eterno, absoluto, imutável, incorruptível. Este Ser Supremo e Absoluto, não pode comunicar, segundo sua concepção, seu Ser, nem mesmo parcelas dele, nem por criação, nem por geração. Logo, Jesus Cristo é criatura de Deus. Cf. Roque FRANGIOTTI, História das heresias (séculos I-VII), São Paulo: Paulus, 1995, p.85-98.
[4] DUCHESNE, In: EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000; p. 12-13.
[5] EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. 1º Livro, cap. 25, n. 8.
[6] EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. São Paulo: Paulus, 2000.
[7] MÁXIMO CONFESSOR, Capítulos sobre a caridade, Centúria 1, cap. 1: PG 90, 965.
[8] BENTO XVI, Spes salvi, São Paulo: Paulinas, 2007; n. 39.