Queridos (as) amigos (as)

Continuamos nossa caminhada pela história da Igreja resgatando os ensinamentos dos operários da primeira hora, daqueles que viveram mais próximos da água pura jorrada do Coração do Salvador. Este texto quer nos apresentar um famoso doutor da Igreja, exilado cinco vezes e o maior defensor da divindade de Cristo. Em poucas palavras, “Atanásio é uma figura que se impõe; ele parece personificar a própria Igreja. Um historiador pode afirmar: até quando estiver de pé um homem como Atanásio, apesar de se desencadear contra ele todas as forças do mundo, a luta ainda não esta perdida”[1].

Agora, peço sua atenção para compreendermos o período histórico que ele viveu e assim o seu valor para a Igreja. Ele foi bispo de Alexandria, nova sede do Império romano, logo após o Concílio de Nicéia (325). Não fazia muito tempo que a Igreja havia recebido liberdade de expressão (em 313) e quando parecia que ela colheria os frutos da fidelidade dos seus santos surgiram conflitos internos na formulação do conteúdo da fé cristã [2]. Ário, um famoso pregador da cidade sede imperial, passou a defender que Jesus era apenas a maior criação de Deus. Não demorou e 2/3 das pessoas de diferentes lugares onde o cristianismo havia chegado se tornaram arianos [3]. A questão era central para a fé e o problema gravíssimo. Negar a divindade de Jesus é dizer que o ser humano não foi salvo e que tudo que Cristo fez pela humanidade foi uma mentira [4].

Tudo isso lhe rendeu dor e sofrimento. “Quarenta e cinco anos de episcopado, dezessete dos quais – com alguns intervalos – passados no exílio! Esta forçada solidão se tornou mais dura pelo abandono de seus companheiros de luta. Atanásio não desanima: constrangido a fugir, oculta-se no deserto, confunde-se com os monges de Tebaida, passa quarenta meses – parece – na periferia de Alexandria, escondido na sepultura de seu pai. Não há perseguição que consiga dobrá-lo, pronto a enfrentar, para defender a divindade do Verbo” [5].

Para nossa vida podemos tirar algumas lições. Ser cristão é uma alegria tão grande que nada pode nos causar dúvida ou medo. Podemos pensar: temos uma história com heróis que lutaram e deram a vida para que a verdade integral do evangelho chegasse até nós. Agora, cabe à nossa geração não se inclinar aos relativismos morais e teológicos e recusar os pensamentos contrários a perene verdade evangélica, mesmo que isso nos cause dificuldades. É triste perceber que basta alguém contestar a Igreja, inclusive pseudo-religiosos e superficiais acadêmicos, para alguns, que se dizem do nosso lado, logo escarrarem na própria mãe.

O Papa Bento tem razão: “para o estilo de vida dominante hoje, as posições defendidas pela Igreja Católica tornam-se uma provocação insuportável. Estamos acostumados a abandonar pontos de vista experimentados e tradicionais por tendências baratas. Contudo, a época do relativismo, de uma ideologia que não reconhece nada como definitivo e que deixa como medida última somente o próprio eu e suas vontade” [6] Ainda fazendo dele minhas palavras, peço: “rezem por mim, para que eu não fuja assustado diante dos lobos” [7].

Devido à nossa proposta de artigos breves, e para não fadigá-lo, sugiro que deguste o pensamento do nosso Doutor nas suas obras já traduzidas pela editora Paulus (entre elas encontra-se a vida de Santo Antão, o mais famoso monge dos primeiros séculos da Igreja) [8]. Lá você também encontrará questionamento e conselhos sábios e profundos como este: “queres entender as palavras dos santos? Purifica o teu pensamento e imita a vida deles; de outro modo não poderás entender o que Deus lhe manifestou. Queres entender Jesus Cristo? Purifica a tua alma e imita as virtudes de Cristo, porque só assim poderás entender alguma coisa sobre o Verbo de Deus” [9]. Isso basta. Viva aquilo que meditamos e terá uma ótima semana e uma vida próspera.

Até a próxima Eucaristia e na outra semana nos encontraremos, com a graça de Deus, para conhecermos e meditarmos sobre São Cirilo de Jerusalém.

Notas:

[1] COLA, Silvano. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987; p. 37.

[2] FRANGIOTTI, Roque. História das heresias: séculos I-VII, São Paulo: Paulus, 1995; p. 85-98.

[3] ROPS, Daniel. A Igreja dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 1988; 469-471.

[4] SANTO ATANÁSIO. A Encarnação do Verbo, São Paulo: Paulus, 2002.

[5] COLA, Silvano. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987; p. 34.

[6] Bento XVI. Luz do Mundo. São Paulo: Paulinas, 2011; p. 15.

[7] Idem.

[8] SANTO ATANÁSIO. Coleção Patrística, São Paulo: Paulus, 2002.

[9] Cf.SANTO ATANÁSIO, A Encarnação do Verbo, n. 57. In: SILVANO COLA. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987; p. 35.