Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

Caros irmãos e irmãs do CommunioSCJ, mais uma vez, sejam bem vindos! Nesta semana, nosso caminho pelas grandes figuras da história da Igreja chega a S. Cirilo de Jerusalém (†386): um grande bispo da cidade santa que defendeu valorosamentea fé professada no Concílio de Niceia (325) e que, por isso, sofreu três exílios em pouco mais de vinte anos (357-378). Como sempre, o texto que nos serve como primeiro referencial é a catequese que o Santo Padre Bento XVI proferiu aos 27 de junho de 2007, na sala Paulo VI sobre S. Cirilo [1].

Temos vinte e quatro de suas catequeses conservadas. Elas foram proferidas em torno do ano 350. Elas se dirigem aos catecúmenos e neófitos da comunidade que S. Cirilo, diligentemente, formou. É nessas catequeses que encontramos as catequeses mistagógicas (de introdução ao mistério). E, nelas, a quarta e a quinta versam sobre o Corpo e o Sangue de Cristo (IV) e a celebração eucarística (V).

Lemos na quarta catequese [2]: “Quando, pois, ele mesmo (Jesus) declarou do pão: ‘isto é o meu corpo’, quem ousará duvidar? E quando ele asseverou categoricamente: ‘isto é o meu sangue’, quem ainda terá dúvida, dizendo que não é? (…) Não trates, por isto, como simples pão e vinho a este pão e vinho, pois são respectivamente corpo e sangue de Cristo, consoante a afirmação do Senhor. E ainda que os sentidos não o possam sugerir, a fé no-lo deve confirmar com segurança. Não julgues a coisa pelo paladar. Antes, pela fé enche-te de confiança, não duvidando de que foste julgado digno do corpo e do sangue de Cristo”.

Sem dúvida a catequese merece ser lida integralmente. O espaço deste blog não permite que a citação seja ainda maior… Portanto, passemos às reflexões que dela decorrem. E, assim, é importante prestarmos nossa atenção a, ao menos, dois aspectos: a nossa fé na presença real de Jesus Cristo, nosso Deus e salvador, na Santíssima Eucaristia e a piedade com que nos aproximamos deste excelso Sacramento.

A presença substancial e sacramental de nosso Senhor Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia é um dado que requer nossa adesão. Adesão às palavras do mesmo Senhor e que nos foram conservadas pela Tradição. Cremos na autoridade de Jesus Cristo. Foi porque Ele disse que a Eucaristia é Si mesmo que nós cremos nisto. De outra forma não poderíamos chegar a esta conclusão. E, sinceramente, não teríamos a iniciativa de pedi-la – não teríamos a ousadia de interpelar o próprio Deus a fim de que Ele mesmo Se fizesse nosso alimento. Aqui temos ocasião para o chamado obséquio da inteligência e da vontade. Provavelmente nunca entenderemos a Eucaristia. Mas, certamente, isso não a diminui e não a reduz a simples pão: é objetivamente real aquilo que subsiste independentemente do meu pensamento e da minha compreensão – assim é a Eucaristia, ela é presença real e substancial de Jesus independentemente de crermos nisto ou não.

Dessa forma, acolhendo-a como dom do amor gratuito de Deus – tal dom que nada mais temos o que pedir: Ele Se deu a nós na Eucaristia – precisamos nos perguntar: como temos nos aproximado da Sagrada Eucaristia? Mais uma vez, aqui temos uma bifurcação. Por um lado, é preciso estar em comunhão com a Igreja para comungar a Eucaristia (o que certamente tem um aspecto moral); é preciso discernir antes de comungar, para que a Eucaristia, dada para nossa salvação, não se torne causa de nossa danação (cf. 1Cor 11,27). Por outro lado, é preciso reconhecer que, muitas vezes, não tratamos a Santíssima Eucaristia com a mínima reverência que ela merece. Há muitos de nós que entram na igreja onde se encontra a Reserva Eucarística como se entra num supermercado. Outros tantos se aproximam e a tomam como se fosse biscoito. Outros, ainda, a distribuem como se fosse baralho. Outros, enfim, a guardam com menos dignidade do que se conserva arroz numa vasilha qualquer que se leva à geladeira…

Não nos admira, depois deste deplorável espetáculo, que os mesmos que comungam a cada domingo não sejam capazes de deixar que a Eucaristia lhes direcione a vida, transformando-as em vidas doadas por amor aos irmãos. “Em termos práticos, manifesta-se um naturalismo religioso, que nos inclina a dar um excessivo valor às coisas que comumente são mais estimadas – nível econômico, conforto, honras, promoções, prazeres, prestígio, sucesso, eficiência… – e deixam-se, em segundo plano, os valores nitidamente cristãos como o desprendimento, o espírito de serviço e de sacrifício em benefício dos outros, a humildade, a discrição, a vida de oração” [3]. A esquizofrenia entre fé e vida é um mal a que todos estamos sujeitos e ao qual devemos combater valorosa e incessantemente.

Que S. Cirilo de Jerusalém interceda em nosso favor para que nossa vida seja transfigurada pela Eucaristia.

Fiquem na paz inquieta do Senhor, até semana que vem!

[1] BENTO XVI, São Cirilo de Jerusalém, disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070627_po.html>.

[2] S. CIRILO DE JERUSALÉM, “IV Catequese mistagógica: O Corpo e o Sangue de Cristo”. In Antologia dos Santos Padres, São Paulo: Paulinas, 1985, p. 225-227.

[3] CIFUENTES, Rafael Llano. Sacerdotes para o terceiro milênio. Aparecida: Editora Santuário, 2009, p. 88-89.

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