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SÃO GREGÓRIO NAZIANZENO: UM SÁBIO QUE NÃO NOS DEIXA ESQUECER QUEM SOMOS – Por Diácono Daniel, SCJ.

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      Amados amigos.

Inicio afirmando que estava com saudades de escrever para nosso blog. As semanas que passei com meus pais e preparando minha ordenação não permitiram que eu meditasse com vocês sobre nossos Pais na fé. Rapidamente recordo que já meditamos sobre os Padres Apostólicos (São Clemente de Roma, Santo Inácio de Antioquia), os Padres Apologistas (Santo Justino e Santo Ireneu), os Padres da Escola de Alexandria (São Clemente de Alexandria, Orígenes, Santo Atanásio e Santo Cirilo de Jerusalém), os Padres do Norte da África (Tertuliano e São Cipriano), o Padre Historiador (Eusébio de Cesareia) e agora meditamos os Padres Capadócios (anteriormente Basílio Magno e neste texto Gregório Nazianzeno).

No século IV, na região da Capadócia, Basílio Magno, Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa representaram a Igreja com um altíssimo grau de reflexões teológica, mística e social. Como frater Lucas já nos ajudou com a meditação sobre São Basílio e na semana passada começou a refletir sobre São Gregório Nazianzeno, proponho que leia estes textos e prossigamos nesta esteira de meditativa. Facilmente perceberemos que ele, a exemplo da maioria dos teólogos daquela época – o que deveria ser regra para todos os períodos históricos – teve enorme gosto pelo silêncio contemplativo que o impulsionou qualitativamente nos seus escritos.

Seguramente vivemos ouvindo as pessoas dizerem que não possuem tempo para nada… Ouvimos desabafos e lamúrias que não encontram tempo para rezar e ter contato com os textos do papa e livros de qualidade… Ao mesmo tempo é constatável que não lhes falta tempo para a internet, supérfluos programas de TV, momentos de lazer que se prolongam sem dar-se conta do tempo gasto, como coisas parecidas em que a preguiça  nem chega perto…

Para nós – incluo-me – São Gregório poeticamente recorda: “tens uma tarefa, alma minha,/ uma grande tarefa, se quiseres./Perscruta seriamente a ti mesma,/ o teu ser, o teu destino;/ de onde vens e onde deverás pousar;/ procura conhecer se é vida a que vives/ ou se há alguma coisa mais/. Tens uma tarefa, alma minha,/ por isso purifica a tua vida:/considera, por favor, Deus e os seus mistérios,/ indaga o que havia antes deste universo/ e o que ele é para ti,/ de onde veio, e qual será o seu destino. / Eis a tua tarefa, / alma minha, / purifica por isso a tua vida” [1].

Como aquele homem que foi bispo e viveu em meio à agitação da vida social sem perder sua profunda intimidade com Deus, desejo que sigamos os seus passos. Quero aprender, com minhas atitudes, “que é necessário lembrar-se de Deus com mais freqüência do que se respira” [2]. Não podemos nos esquecer que sem Deus somos vazios, e o mundo não precisa de pessoas vazias. Sugiro para todos os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, Editora Loyola e Meditações sobre a Fé, Editora Palavra e Prece (quem leu pode comentar…)

Tenha um bom restante de semana. Em breve meditarmos sobre São Gregório de Nissa, famoso místico dos primeiros séculos.

Notas:

[1] BENTO XVI. Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010; p. 85.

[2] Ibid; p. 84.

[3] COLA SILVANO. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987; p. 50-54. (Obra sugerida para aprofundamento).

S. GREGÓRIO DE NAZIANZO E A AMIZADE – por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

Irmãos e irmãs, mais uma vez, sejam bem vindos ao CommunioSCJ! Nosso projeto de percorrermos a história da Igreja chega hoje a S. Gregório de Nazianzo (330-390): teólogo, defensor da fé católica, orador eloquente e poeta [1].

Este homem de Deus estava unido a S. Basílio [2] pelos laços de uma grande e verdadeira amizade. Por isso, aproveitando a ocasião do dia internacional dos amigos, cremos ser de bom tom, a partir do santo em questão, nos determos com mais calma nesta realidade.

Lemos, na catequese papal, um trecho do Discurso 43 de Gregório Nazianzeno onde ele se refere à sua amizade com Basílio nos seguintes termos: “Então não só eu me sentia tomado de grande veneração pelo meu grande Basílio devido à seriedade dos seus costumes e à maturidade e sabedoria dos seus discursos, mas induzia a fazer a mesma coisa também outros, que ainda não o conheciam (…). Guiava-nos a mesma ansiedade de saber (…). Esta era nossa competição: não quem seria o primeiro, mas quem permitisse ao outro sê-lo. Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos”.

De fato, para além do marcante afeto que nutriam entre si, é interessante notar como S. Gregório Nazianzeno e S. Basílio Magno eram sinal de vida cristã um ao outro e, por isso, caminhavam juntos, na ajuda mútua, ao encontro de Deus, nosso Senhor.

O livro do Eclesiástico nos diz (6,4) que “amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro”. Bem sabemos que o caminho que conduz ao céu, à comunhão definitiva com Deus é árduo, empenhativo, difícil. Neste caminho, um amigo verdadeiro é uma poderosa proteção nas adversidades. No fim das contas, verdadeiro amigo é aquele que nos ajuda quando caímos; nos chama a atenção quando erramos; e com quem rendemos graças a Deus quando tudo nos vai bem. Enfim, amigo verdadeiro é aquele que nos ajuda a encontrarmo-nos com Cristo: pois isto é realmente amar, e não o contrário. Assim, um critério importante para distinguirmos nossos verdadeiros amigos é, sem dúvida, sua contribuição em nosso caminho de santidade, em nossa união com Jesus Cristo.

Dessa forma, por um lado, podemos verificar quem, de fato, é nosso amigo. E se chegarmos a conclusão de que alguém de quem esperávamos uma amizade está nos afastando do caminho do bem – portanto não se trata de verdadeira amizade –, é preciso ter força para preferir o bem ao prazer que uma má companhia também pode trazer. Entre o bem e o mal não há discernimento: precisamos sempre escolher o bem. Às vezes isso nos custa. Mas é necessário perseverança e fortaleza para chegarmos à vitória.

Por outro lado, é também fonte de exame de consciência: temos sido verdadeiramente amigos dos nossos amigos? Pois, como sabemos, relação de amizade exige reciprocidade. Queremos apenas ter amigos, ou já passamos à vontade de sermos amigos?

Louvado seja Deus pela amizade de S. Basílio e S. Gregório Nazianzeno! Louvado seja Deus pelos amigos e amigas que nos deu! Que a poderosa intercessão da Santíssima Virgem nos faça fiéis às nossas amizades.

[1] BENTO XVI, São Gregório Nazianzeno I: vida e obras, audiência geral de 08 de agosto de 2007. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070808_po.html>.

[2] Santo ao qual dedicamos as reflexões das duas últimas semanas.

S. BASÍLIO MAGNO E A TERAPIA ESPIRITUAL – Por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

Caros irmãos e irmãs, como sempre, bem vindos ao CommunioSCJ! Mais uma vez, nesta semana, nosso olhar se volta para S. Basílio Magno, agora focando sua doutrina a partir da catequese que o Santo Padre Bento XVI proferiu aos 4 de agosto de 2007 [1].

Queremos refletir acerca do conteúdo encontrado no penúltimo parágrafo, pois ele trata de uma palavra de S. Basílio aos jovens [2]. Em sua versão online lemos: “Basílio, sobretudo, recomenda aos jovens que cresçam nas virtudes, no reto modo de viver: ‘Enquanto os outros bens… passam deste para aquele como no jogo dos dados, só a virtude é um bem inalienável, e permanece durante a vida e depois da morte’ (Ad Adolescentes 5)”.

Como vemos, S. Basílio recomenda a nós, jovens, que busquemos as virtudes, pois elas são bens que não passam. De fato, precisamos dedicar boa parte dos nossos esforços para crescer na vida virtuosa. E isto outra coisa não é que buscarmos crescer num estilo de vida ascética [3]. E isto em nossa juventude. Buscar um estilo de vida assim não é tarefa apenas de quem já atingiu a chamada meia-idade. Não. Nós, jovens cristãos, devemos, desde já, nos enveredar por este caminho. Graças a Deus, há bom material em língua portuguesa para nos ajudar neste sentido. Por isso, visto que esse conteúdo ultrapassa em muito os limites deste espaço, limitamo-nos a propor dois pontos para nossa reflexão e indicar duas obras que poderão nos ajudar nesta via.

Primeiro, é preciso dizer que a vida espiritual, ascética, ou a saúde espiritual (como poderíamos chamar) não é automática. Não é possível chegar à vida virtuosa na virada do dia para a noite. Trata-se de um esforço de anos. Ou melhor, trata-se de uma busca que atravessa toda nossa vida. Por isso, nós, do século XXI, acostumados a resolver quase tudo automaticamente (glória a Deus pela informática!), precisamos nos conscientizar que a vida espiritual exigirá de nós um empenho perseverante de autoconhecimento e autodomínio. Além disso, são necessárias muita confiança e plena abertura à Graça divina que nos modela. Não há outra via. Será preciso fazer jejum, mortificação, resignação (palavras não muito agradáveis ao mundo)… Pois foi assim que muitos se santificaram: trata-se de um caminho provado – dá certo. Alguém pode querer seguir outros mestres… Nós do CommunioSCJ preferimos ter como mestres os cristãos que deram certo: os santos.

Em seguida, é preciso saber que, embora empenhativa e purgativa, a ascese é um caminho de libertação. Ou seja, a vida ascética é uma vida livre: somos livres quando nada nos escraviza. Pois, embora ela nos prive de algum tipo de prazer efêmero (como é característico dos prazeres do mundo), ela nos proporciona a liberdade características dos filhos de Deus – nada há de mais gratificante que isso. Aqui encontramos uma possível explicação do por que a vida cristã é empenhativa enquanto a vida desregrada é fácil: Deus quer filhos – e filhos são livres. Mas os prazeres desregrados geram vícios; e estes escravizam [4]. Quem quer escravos é o Inimigo, não Deus. Por isso, depois de algum tempo (talvez anos) de esforços para obter o bem da vida virtuosa poderemos, a qualquer momento, voltar à sem-vergonhice. Mas, depois de entregarmo-nos aos prazeres e tornarmo-nos viciados, será preciso grande esforço para deixá-lo: não somos livres para deixar o vício imediatamente… Podemos observar isso em nós mesmos: para conseguir a temperança é preciso grande esforço, mas para deixar aquele “pecado de estimação” é preciso muita violência.

Por fim, gostaríamos de indicar dois livros. Neles encontramos doutrina segura a respeito da vida ascética. Além disso, essas obras trazem amplas referências bibliográficas, levando-nos a conhecer boa gama de obras a respeito dos diversos vícios e virtudes. São elas:

a)      Pela editora Canção Nova, “Um olhar que cura”, do Pe. Paulo Ricardo (da arquidiocese de Cuiabá).

b)      Pelas Paulinas, “Discernimento dos espíritos”, de um monge da ordem dos Cartuxos.

Que S. Basílio nos fortaleça no caminho ascético que nos conduz à vida plena em Cristo!

[1] BENTO XVI. S. Basílio (2). Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070801_po.html>.

[2] Embora toda a catequese seja merecedora de nossa atenção.

[3] Ascese: exercícios espirituais ou terapia espiritual. O asceta está para o espiritual como o atleta está para o físico.

[4] Aqui é preciso ficar claro que o prazer não é um mal em si, visto que se trata de uma capacidade proporcionada por Deus. Por exemplo, é próprio do ser humano ter prazer em se alimentar com uma comida saborosa – não existe mal nisto. O mal está em comer demais ou errado – mal verificado inclusive na perda da saúde.

S. BASÍLIO MAGNO TINHA UM TÉLOS… – Por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

Caros irmãos e irmãs do CommunioSCJ, bem vindos, mais uma vez, ao nosso blog. Já adentrando ao mês de julho e suas atividades, chegamos a um grande santo, venerado tanto na Igreja católica quanto nas igrejas ortodoxas orientais: S. Basílio Magno (330 – 379), doutor da Igreja, o primeiro dos três Padres Capadócios [1].

Nascido numa família de santos [2], Basílio foi defensor da doutrina trinitária, monge – deu grande contribuição para a definição da identidade monástica (S. Bento o considerava seu mestre) – e bispo. “Entregou-se completamente ao fiel serviço da Igreja e ao multiforme exercício do ministério episcopal”. Enfim, “ele foi um homem que viveu verdadeiramente com o olhar fixo em Cristo, um homem do amor ao próximo” [3]. Sobre estes aspectos queremos nos deter a partir de agora.

Há tempos que escuto um grande amigo pregar que é preciso ter um télos, uma meta, (ou melhor, o Télos) no qual fixamos o olhar e direcionamos nossa vida empregando toda nossa energia – de tal forma que nosso olhar se fixe nele, somente nele. Na existência humana outro télos não há que não seja Jesus Cristo, nosso Senhor. Ele é o sentido de nossas vidas. É Ele o anseio mais profundo de nosso coração. Ele é nossa meta. Não podemos perdê-lo de vista, pois para a comunhão com Ele fomos feitos.

Esta realidade foi muito bem expressa por Santo Agostinho no primeiro parágrafo das Confissões: “fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti” [4]. Fato. Em cada ser humano em busca da saciedade, há um ser humano em busca de Deus. Não há segunda via. Todos buscam a Verdade: existe em nós um coração inquieto pelo encontro com o Senhor. Nisto começamos a ser cristãos: em deixarmos que a Verdade nos encontre. Pois “no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, assim, o rumo decisivo” [5].

Dessa forma, fica claro que, se queremos ser cristãos, se queremos dar a resposta ao nosso anseio humano mais profundo, enfim, se quisermos nos realizar, será preciso nos encontrar com Cristo e aderir a Ele. Pois a escolha fundamental da vida é simples: ou vivemos esta vida preparando nosso céu (esta vida em si mesma é desprovida de sentido) e, portanto, saímos de nós mesmos (nos transcendemos), ou nos fechamos em nós mesmos e consequentemente nos frustramos (aqui e no além).

Isso significa, como a própria descrição de S. Basílio nos indica, que este encontro e adesão, este transcender-se, não se dá simplesmente no plano das palavras e das ideias: trata-se de um encontro real (ainda que não seja empírico) que se transforma em leitmotiv e, assim, põe toda vida em movimento. Ser cristão não é o mesmo que declarar-se cristão. A vida cristã não é feita de palavras, mas de atitudes: é uma forma de viver. E esta forma de viver está expressa na primeira carta de João: “nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou-nos seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos, nós também, amar-nos uns aos outros (…). Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão é mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,10-11.20).

Portanto, encontrados pelo Amor, nos empenhamos em amar. E sabendo que “amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente por ele” [6], podemos concluir que ser cristão não significa gostar de todas as pessoas e evitar o conflito a todo custo (num pacifismo destrutivo). Não se trata de uma questão de empatia, mas de aproveitar cada instante, cada oportunidade que a vida nos traz para fazer o bem: sempre há a possibilidade de fazer o bem, de efetivamente promover o bem objetivo de nossos irmãos.

Nisto encontramos uma maneira de viver que está em acordo com nosso ser, pois fazer o bem ao próximo nada mais é do que tratá-lo de acordo com sua natureza: todo ser humano é filho de Deus. Vivendo assim, certamente nossos olhos estarão fixos nos nosso Télos, e definitivamente nos encontraremos, visto que para isso fomos feitos: para a comunhão com Jesus Cristo, nosso Senhor, que é Amor (cf. 1Jo 4,8).

Que S. Basílio Magno interceda por nós e nos sirva de exemplo para vivermos como autênticos cristãos.

Fraterno abraço e até a semana que vem!

[1] Como sempre, nosso texto tem como inspiração a catequese do Santo Padre Bento XVI, proferida aos 4 de julho de 2007: São Basílio (I), vida e obras. Disponível em <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070704_po.html>. Os outros Padres Capadócios são: S. Gregório de Nissa e S. Gregório Nazianzeno.

[2] “São Basílio de Cesareia da Capadócia, na Ásia Menor, é de uma família de santos. Sua avó paterna foi Santa Macrina, a Antiga, que confessou a fé em Jesus Cristo durante a perseguição de Maximiano Galério. Seus pais foram São Basílio, o Velho, e Santa Emília, filha de um mártir. De seus nove irmãos, mais três foram elevados à honra dos altares: Santa Macrina, a Jovem, São Gregório de Nissa e São Pedro de Sebaste”. Fonte: <http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/hagiografia/s_basilio.html>.

[3] BENTO XVI. “S. Basílio (I): vida e obras”. In Os Padres da Igreja, São Paulo: Pensamento, 2010, p. 73.

[4] SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões, I, 1.

[5] BENTO XVI. Deus Caritas est, n.1.

[6] BENTO XVI. Caritas in Veritate, n.7.