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BOM CRISTÃO: BOM CIDADÃO – Por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

Bem vindos novamente ao CommunioSCJ. Nesta semana, as catequeses do Santo Padre Bento XVI nos levam ao encontro de S. Máximo de Turim [1], bispo pouco conhecido do norte da Itália que viveu na virada dos séculos IV e V, período em que o Império Romano se enfraquecia e era invadido pelos povos bárbaros.

Neste contexto, o ensinamento de S. Máximo, conservado nos noventa sermões que chegaram até nós, nos leva a refletir sobre “o entrelaçamento dos compromissos do ‘cidadão honesto’ com os do ‘bom cristão’” que, nas palavras do Papa Bento, “não está absolutamente superado” [2].

Este é um tema muito importante, sobretudo para nós, brasileiros, que, no país do “jeitinho”, nos esforçamos para ser bons cristãos. Vale a pena, a exemplo da catequese papal, dar espaço às palavras do Vaticano II, que exorta os cristãos a “procurarem desempenhar fielmente os seus deveres terrestres, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo não termos aqui cidade permanente, mas buscarmos a futura, julgam, por conseguinte, poder negligenciar os seus deveres terrestres, não advertindo que estão mais obrigados a cumpri-los, por causa da própria fé, de acordo com a vocação a qual cada um foi chamado” (GS 43).

De fato, nossa fé põe o objetivo da nossa vida na comunhão plena com Deus, nos céus, mas isso não nos tira desta terra. Pelo contrário, nos impulsiona a trabalharmos para que este mundo dê condições para que nossos irmãos se encontrem também com o Senhor Jesus Cristo. E isso faz com que seja nossa tarefa iluminar o mundo com os valores evangélicos. Nossa fé nos leva a transformar o mundo a partir dos valores evangélicos postos em prática sempre e em todo lugar. Grande desafio, não é?

Portanto, deve ser parte do projeto de vida de cada cristão “exercer todas as suas atividades terrestres, unindo os esforços humanos, domésticos, profissionais, científicos ou técnicos em uma síntese vital com os valores religiosos, sob cuja altíssima direção todas as coisas são coordenadas para a glória de Deus” (GS 43). Isso nos faz lembrar a famosa frase de S. Paulo: “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,2).

Que S. Máximo de Turim e a Santíssima Virgem Maria nos protejam em tão árdua tarefa.

Abraço e prece! Até semana que vem!

 

[1] BENTO XVI. “São Máximo de Turim”. In Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 125-129. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071031_po.html>.

[2] BENTO XVI, Os Padres da Igreja, p. 128.

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São Máximo de Turim: A fé aplicada na promoção social – Por Diácono Daniel Antônio de Carvalho Ribeiro, SCJ

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      Queridos (as) amigos (as)

      É muito bom continuarmos nossa meditação sobre a vida dos grandes personagens da humanidade. Com o desejo de oferecer algo útil para sua vida, nesta semana nos propomos conhecer um pouco mais sobre São Máximo de Turim. Sua atividade como bispo de Turim deu-se em um momento de fortes conflitos sociais e militares, no final de século IV e no começo do século V [1].

      Quando o imperado romano mudou-se para Constantinopla, os povos bárbaros avançavam cada vem mais em direção ao centro da Europa. Frente a esta invasão, vários bispos se mostraram profundamente engajados e defenderam a população desta ferocidade desmedida e ainda os evangelizou [2].

      É notório que neste blog desejamos manifestar a fé da Igreja e tendemos a apresentar um conteúdo mais voltado para a mística cristã. Contudo, não nos reduzimos a isso. Para confirmar este pensamento, em unidade com nosso santo da semana, apresento o discurso que proferi na Câmara Municipal de Taubaté no Dia da Bíblia. Comigo estavam presentes três pastores, um senhor espírita, e três vereadores. Veja e comente.

    Inicialmente saúdo Vossa Senhoria, a vereadora e presidenta da seção, Maria das Graças Oliveira; Vossa Senhoria, o vereador Rodson de Lima, e na Vossa presença todos que compõe o poder executivo e os funcionários deste município; saúdo também o reverendo pastor João Batista da Silva e todos os cristãos evangélicos e protestantes aqui presentes; o senhor Guilherme Soares de Azevedo e os meus irmãos que professam a doutrina espírita, e, sem menor importância, o diácono Júlio César Ferreira, os fratres e leigos da Igreja Católica Apostólica Romana.

      A Câmara Municipal de Taubaté teve uma atitude louvável ao solenizar a comemoração do dia da Bíblia. Referindo-se ao aniversário de falecimento de Santo Jerônimo, incansável tradutor e estudioso da Sagrada Escritura [3], esta Casa realiza nesta noite um ato que reconhece a história cristã deste município. O povo taubateano jamais se esquecerá que juntamente com as sementes do café este solo foi regado pela Palavra de Deus. Negar o valor da Bíblia na formação civil, política e religiosa deste município seria ignorar suas raízes e um gesto de ingratidão para com aqueles que nos precederam. Amar e respeitar a Bíblia, ao contrário, demonstra nossa gratidão e respeito à nossa origem nacional e municipal.

      De forma notória, a Bíblia é o livro mais vendido do mundo. Isso se deve às mais de dois bilhões de pessoas que a consideram como texto divino. Moro a quase quatro anos nesta cidade e, algumas vezes, percebo a Palavra de Deus sendo tratada como aquele parente que admiramos e sempre falamos dele para os outros, mas que raramente o visitamos. Ou com aquele avô, que orgulhosamente sempre citamos como referência de sabedoria, mas, quando ele se manifesta, o achamos exigente demais, um pouco atrasado e não levamos suas palavras muito a sério.

      Se isso não é verdade, porque a Palavra de Deus pede para perdoarmos até 70 x 7 [4], que equivale a sempre, e guardamos mágoas de quem nos ofende? Porque o próprio Jesus pede para dialogarmos para que o mundo creia [5] e, várias vezes, nós cristãos de diferentes igrejas brigamos e esquecemos a liberdade do outro em não professar a nossa fé? É estranho, políticos de partidos diferentes – inclusive corruptos – dialogam, traficantes dialogam, presidiários dialogam, torcedores de diferentes times de futebol conversam, mas os cristãos dificilmente encontram-se  para rezarem ou orarem juntos É triste pensar no tempo que gastamos debatendo versículos bíblicos e na nossa omissão em fazer parcerias para trabalhos sociais em benefício popular. A Bíblia é um sucesso de venda, mas, infelizmente, inúmeras vezes não consegue convencer os seus fiéis que vale a pena praticar o que ela ensina, ou melhor, que vale a vida, a vida eterna. Estou aqui porque tenho certeza que ela tem muito a nos falar.

      Há pouco referi-me aos cristãos. Agora, em poucas palavras, como amigo e admirador deste povo de incomparável acolhida e respeitosamente aos seus governantes, quero falar aos seus representantes legitimamente constituídos. Sei como a vida pública é árdua, perdemos várias vezes nossa privacidade e levamos problemas dos outros para nosso lar. Contudo, a missão de uma pessoa pública é nobre e exigente. O profeta Ezequiel recorda aos líderes religiosos e políticos: “ai daqueles que cuidam de si e esquecem o meu povo” [6].

      Em nome do povo, peço que Vossa Senhoria, representando esta Casa, continue trabalhando pelo crescimento das pessoas de nossa cidade, comprometendo-se em olhar com responsabilidade suas necessidades. Não faz muito tempo uma criança me contou que aprendeu na escola a separar o lixo para reciclá-lo. Porém, ao contrário de cidades mais pobres e menores que Taubaté, dificilmente encontramos um local de coleta seletiva de lixo em nossas praças e locais públicos. Queremos recordar que esquecer da natureza é ofender o Seu Criador e ignorar o futuro! Cito ainda o aumento da violência, hoje mesmo nosso seminário chora a morte do filho de uma amiga que foi brutalmente baleado. Também lembro que neste final de semana voltando de São Paulo, pouco depois de anoitecer, percebi várias mulheres e homens se prostituindo nas proximidades da rodoviária.

      Peço, em nome das nossas famílias, vamos fazer parcerias públicas para que nossos jovens não continuem entrando cada vez mais cedo no mundo da dependência química e da prostituição. Olhando nosso transporte público, nesta tarde uma pessoa muito próxima me disse que recentemente passou uma hora e meia esperando um ônibus de má conservação. Não está na hora de permitirmos que outras empresas também prestem seus serviços nesta cidade? Pesquisando os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), orgulhosamente percebi que dos 5435 municípios do nosso Brasil, Taubaté é o 53º mais rico [7]. Porém, infelizmente, nos últimos tempos, nossa terra, com tantos e até abundantes recursos, ficou conhecida nacionalmente por escândalos políticos… 

      Amados irmãos, precisamos amar e conhecer mais a Bíblia. O bispo Ambrósio de Mião dizia que quando oramos ou rezamos falamos com Deus; quando lemos a Sua Palavra, Ele fala conosco [8]. Quer ouvir a voz de Deus? Então, não deixe de ler a Bíblia. Os grandes homens e mulheres foram formados nos seus sólidos ensinamentos. Desejo muita paz para todos nós aqui presentes. Desejo-vos a verdadeira paz, aquela que começa no nosso coração e transborda aonde chegamos. Em nome da Igreja Católica desta cidade e de todas as pessoas de bem, obrigado pela oportunidade e que Deus nos abençoe.

 

      Notas:

[1] ROPS, Daniel. A Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante, 1991; p. 62-80.

[2] ROPS, Daniel. A Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante, 1991; p. 89-93.

[3] BENTO XVI. Os Padres da Igreja. São Paulo: pensamento, 2011, p. 130-140.

[4] Mt 18, 21-35; 19, 1

[5[ Jo 17, 20-22.

[6] Ez 34, 1-31.

[7] Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Taubat%C3%A9

[8] Cf. SANTO AMBRÓSIO, apud DV 25/196.

SANTO AMBRÓSIO: MEDITAR A PALAVRA DE DEUS DÁ FRUTOS – Por Diác. Daniel Carvalho.

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Queridos (as) amigos (as)

É muito bom continuarmos nossa meditação sobre a vida dos grandes personagens da humanidade. Com o desejo de oferecer algo útil para sua vida, nesta semana nos propomos conhecer um pouco mais sobre Santo Ambrósio (340-397), bispo de Milão. Além da capacidade de pregar o evangelho, seu amor pela temática da virgindade, dos sacramentos e sua capacidade de organizar sua Igreja local, ele teve o privilégio de batizar Santo Agostinho [1].

Desejo iniciar minha reflexão a partir deste ponto. O jovem Agostinho era um rapaz inteligente que caminhava de vento em poupa para o sucesso universitário. Até que um dia, por curiosidade, foi ouvir o pregador Ambrósio. Não deu outra, as palavras acertadas do bispo tocaram no mais profundo de sua alma e pouco tempo depois ambos se encontravam na pia batismal [2].

Claro que isso não foi fruto do acaso. Além da graça de Deus, o filho de santa Mônica, certa vez afirmou que nunca viu Ambrósio desocupado, quando ele estava “sozinho”, a porta da sua sala ficava aberta e todos percebiam que ele mantinha-se meditando a Palavra de Deus [3]. Não é de hoje que uma pessoa que lê e medita a Palavra encontra a felicidade. Em contrapartida, aos preguiçosos, resta sempre o vazio e a mesma ladainha: “perece que esta faltando alguma coisa na minha vida…”.

Como é bom meditar… Meditar no que se lê leva a assimilá-lo, confrontando-o consigo mesmo. Abre-se aqui um outro livro: o da vida. Passa-se dos pensamentos à realidade. Segundo a medida da humildade e da fé, descobrem-se nela os movimentos que agitam o coração e é possível discerni-los. Trata-se de praticar a verdade para chegar à luz: ‘Senhor, que quereis que eu faça?’”[4]. Não bastasse: “não há tristeza que uma hora de leitura não tenha consolado” [5].

Uma vocação acertada acerta a vida de muita gente. Quer ser feliz e ajudar os outros a serem também? Não perca tempo. Existe uma montanha de livros de qualidade esperando por você, só na Bíblia são 73. Quando rezamos falamos com Deus, quando lemos e meditamos a Palavra ele fala conosco [6]. Amado (a), “a fé equivale a um patrimônio eterno” [7], cultive-a com alimentos sólidos.

Fique com a paz inquieta do Filho de Maria.

 

Notas:

[1] ROPS, Daniel. A Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante, 1991; 469-471.

[2] ROPS, Daniel. A Igreja dos Tempos Bárbaros. São Paulo: Quadrante, 1991; 20-21.

[3] ROPS, Daniel. A Igreja dos Mártires. São Paulo: Quadrante, 1988; 469-471.

[4] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 2706.

[5] MONTESQUIEU, In: Paul Emile DOROUX, Theilhard Claudel e Mauriac, São Paulo, 1967, p. 45.

[6] SANTO AMBRÓSIO, Introdução aos Sacramentos.

[7] SANTO AMBRÓSIO, DV 19,46.


A PALAVRA QUE TRANSFORMA A VIDA – Por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

Caros amigos do CommunioSCJ, sejam, mais uma vez, bem vindos! Nossa viagem pela história da Igreja na companhia do Santo Padre Bento XVI chega, nesta semana, ao grande Sto. Ambrósio de Milão (340-397) [1].

Versado em retórica e jurídica, Ambrósio foi administrador de uma província do Império com sede em Milão (aproximadamente em 370). Enquanto governava, Ambrósio interveio na sucessão de Auxêncio (bispo ariano) para conter os ânimos exaltados pela polêmica ariana que dividia os cristãos da cidade em partidos antagônicos. Sua intervenção foi tão eloquente que, ainda catecúmeno, ele foi aclamado pela população como bispo da cidade.

Foi só depois de sua eleição, que Ambrósio se dedicou com afinco às Sagradas Escrituras. Esta dedicação, porém, trouxe grande contribuição para a Igreja latina. De fato, “Ambrósio transferiu para o ambiente latino a meditação das Escrituras iniciada por Orígenes, começando no Ocidente a prática da lectio divina. O método da lectio passou a orientar toda a pregação e os escritos de Ambrósio, que fluem precisamente da escuta orante da Palavra de Deus” [2].

Terminando o mês de setembro esta reflexão sobre a lectio vem bem a calhar. Não basta ter a Bíblia; não basta lê-la; não basta estudá-la. Tudo isso é importante e não deve ser, de modo algum, negligenciado. É preciso, porém, transcender este nível de conhecimento para um nível vivencial: é preciso encontrar-se com Jesus Cristo, presente nas Sagradas Escrituras lidas na fé da Igreja.

“Se é verdade que a liturgia constitui o lugar privilegiado para a proclamação, escuta e celebração da Palavra de Deus, é igualmente verdade que este encontro deve ser preparado nos corações dos fiéis e sobretudo por eles aprofundado e assimilado. De fato, a vida cristã caracteriza-se essencialmente pelo encontro com Jesus Cristo que nos chama a segui-Lo. Por isso, o Sínodo dos Bispos afirmou várias vezes a importância da pastoral nas comunidades cristãs como âmbito apropriado onde percorrer um itinerário pessoal e comunitário relativo à Palavra de Deus, de modo que esta esteja verdadeiramente no fundamento da vida espiritual. Juntamente com os Padres sinodais, expresso o vivo desejo de que floresça «uma nova estação de maior amor pela Sagrada Escritura da parte de todos os membros do Povo de Deus, de modo que, a partir da sua leitura orante e fiel no tempo, se aprofunde a ligação com a própria pessoa de Jesus» (Propositio 9)” [3].

A lectio é, como percebemos, uma forma de oração milenar. Sem dúvida trata-se de um exercício pessoal que requer disciplina e dedicação. Mas produz fruto: conversão e vida no Espírito. Porque não é possível encontrar-se com Jesus assiduamente e fazer um pacto com o pecado e a mediocridade. Jesus nos desinstala… E, por isso, a tendência é crescermos; é vivermos cada vez melhor como cristãos! Crescem as virtudes, cresce o desejo de santidade, cresce a força para buscar a comunhão com o Senhor custe o que custar. Até o dia em que poderemos dizer: “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Que Santo Ambrósio de Milão e Maria Santíssima nos ajudem neste exercício constante de relacionamento pessoal com Jesus Cristo, Palavra eterna de Deus!

Fraterno abraço; até semana que vem; e viva S. Pio de Pietrelcina!!!

[1] BENTO XVI. “Santo Ambrósio de Milão”. In Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 120-124. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071024_po.html>.

[2] Idem, p. 121.

[3] BENTO XVI. Verbum Domini, n. 72. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/apost_exhortations/documents/hf_ben-xvi_exh_20100930_verbum-domini_po.html#_ftnref248>.

JESUS CRISTO: VERDADE ABSOLUTA! – Por Diácono Júlio Ferreira, SCJ.

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Olá meus queridos amigos do COMMUNIOSCJ! É com alegria e indignação que escrevo.  Jesus Cristo, o Verbo encarnado, não é o unico caminho de salvação? Responderei em homenagem a Santo Ambrósio, testemunho de fé fundamental na conversão de Santo Agostinho.

É de chorar como ensinam o relativismo e o problema maior é quem tem muitos futuros padres que apoiam. A moda agora é você relativizar tudo… Falar que Jesus não é o unico caminho de salvação é falar que Ele não é a verdade plena, que devemos esperar outra revelação. Então vamos jogar a “Dominum Iesus” fora, pois ela afirma, citando a Dei Verbum (n. 2): “deve-se, de fato, crer firmemente na afirmação de que no mistério de Jesus Cristo, Filho de Deus Encarnado, que é « o caminho, a verdade e a vida » (cf. Jo 14,6), dá-se a revelação da plenitude da verdade divina [1]”.

Será que está afirmação está errada? E esta então: “só a revelação de Jesus Cristo, portanto, « introduz na nossa história uma verdade universal e última, que leva a mente do homem a nunca mais se deter” [2]. Será que eu estou maluco? Será que eu vou encontrar com a Cabala, Zeus, ou qualquer outra divindade quando morrer? Meu irmão, você acha que se encontrará com quem no final da sua vida? Não nos encontraremos todos com o Filho de Deus?

Então, se Jesus Cristo não é o único caminho de salvação, por que fazemos missão? Falar de quê? Falar de qual caminho? Não estamos negando o valor das outras culturas, povos nações, religiões e raças. Pois a Dominus Iesus nos ensina citando, desta vez, a Redemptoris Missio (n. 28): “A presença e ação do Espírito não atingem apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas, as religiões […]. Cristo ressuscitado, pela virtude do seu Espírito, atua já no coração dos homens […]. É ainda o Espírito que infunde as ‘sementes do Verbo’, presentes nos ritos e nas culturas, e as faz maturar em Cristo” [3].

Há sementes do Verbo na sociedade, na história, nos povos, nas culturas e religiões que precisam ser maturadas; precisam das missões do anuncio da fé (Cf São Justino; 100-165). O Verbo é o caminho de salvação e este caminho está como semente em todos e precisa crescer e se desenvolver. Professar Jesus Cristo como único caminho de salvação não significa excluir os não-cristãos da salvação, pois, como cristãos, reconhecemos a ação de Cristo para além dos limites visíveis da Igreja. Contudo, é preciso ter clareza: quem salva é Jesus Cristo. Por isso, não importa onde, quem, ou qual religião se professe; quem se salvar, se salvará por Cristo na Igreja católica.

Repito: não estou aqui negando o valor das culturas e religiões, mas é a Dominus Iesus que nos ensina, mais uma vez com uma citação do Vaticano II, agora da Nostra Aetate (n. 2): “embora em muitos pontos estejam em discordância com aquilo que [a Igreja] afirma e ensina, muitas vezes reflectem um raio daquela Verdade, que ilumina todos os homens”. Os outros povos, raças e religiões refletem um raio da Verdade plena, que é Jesus. Vamos parar de falar bobagem na sala de aula e vamos estudar mais. Os índios, ou outros povos, não precisam da nossa compaixão relativista, onde se coloca tudo no mesmo balaio sem nada distinguir. Eles precisam maturar a vida de Cristo e serem mais iluminados com os raios da Verdade que é o Verbo Encarnado.

Vamos parar de falar bobagem e vamos estudar, vamos ler, parar de respostas emotivas e sem cabimento. Vamos ter fé, pois “a fé é um dom da graça: porque para professar esta fé, é necessária a graça de Deus que previne e ajuda, e os outros auxílios internos do Espírito Santo, o qual mova e converta para Deus os corações, abra os olhos da alma, e dê “a todos a suavidade no aderir e dar crédito à verdade” [5]. Claro, ninguém é obrigado a ser católico. Contudo, quem reza o Credo da Igreja deve aderir à fé da Igreja.

Vamos parar de emitir repostas emotivas e facilitadoras! As pessoas não precisam da nossa compaixão relativista e reducionista. Não queiramos ser os salvadores da pátria. Reconheçamos quem O é. Vamos parar de falar bobagem! Vamos ler a “Dominus Iesus”.

[1] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, n. 5. Disponível em: < http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html >.

[2] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, n. 5. Disponível em: < http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html >.

[3] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, n. 12. Disponível em: < http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html >.

[4] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, n. 8. Disponível em: < http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html >.

[5] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, n. 7. Disponível em: < http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html >. Esta frase também é uma citação da Dei Verbum.

O CÉU, A ESCALA DE VALORES E A FORTALEZA – Por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

Sejam todos bem vindos ao CommunioSCJ! Nesta semana, o santo que orienta nossas reflexões é bastante desconhecido: Eusébio de Vercelli, bispo italiano do século IV, solidamente formado na fé nicena [1].

Eusébio nos recorda que os pastores, que estão no mundo, mas não são do mundo (cf. Jo 17,11), “devem exortar os fiéis a não considerar as cidades do mundo como a sua habitação estável, mas a procurar a Cidade futura, a definitiva Jerusalém do céu. Esta ‘reserva escatológica’ consente que os pastores e os fiéis salvem a justa escala dos valores, sem nunca se submeter às modas do momento e às pretensões injustas do poder político em ato”. Neste pequeno trecho da catequese do Santo Padre existem pelo menos três pontos que merecem nossa atenção, pois tocam nossa realidade concreta e atual.

O primeiro é a busca da Cidade futura. Porque, como também diz Santa Teresa do Menino Jesus, “a verdadeira felicidade não se encontra aqui”. Não devemos esperar a perfeição nesta vida. É suficiente, aqui, organizar a vida sempre com referência ao Céu. Entre nós, se o Céu não existe e tanto faz o jeito com que se vive nesta terra, esta vida é uma grande piada de mau gosto.

Tendo sempre como referência última a comunhão perfeita com Deus (ou o Céu), chegamos ao segundo ponto: é a justa escala de valores. Consciente ou inconscientemente, todos pautamos nossas ações por uma escala de valores. Se a nossa é inconsciente, já é tempo de torná-la consciente. Isso possibilita que estruturemos nossa escala de valores sempre com referência a Jesus Cristo e seu Evangelho conservado na fé da Igreja. A fé não é simples adesão formal, mas deve desembocar em atitudes, deve transformar-se em vida. Aliás, esse é um bom critério para a veracidade de nossa vida de oração.

E o terceiro ponto, intimamente ligado ao segundo e decorrente dele, é a coragem de não esmorecer diante das modas e das pretensões injustas do poder político. S. Domingos Sávio dizia “antes morrer que pecar”: nesta frase vemos transparecer um espírito impregnado de fortaleza. É certo que a virtude da fortaleza não é simpática, nem politicamente correta. Como virtude de combate ao mal (primeiro dentro de nós e depois fora de nós), a fortaleza é extremamente necessária nos dias de hoje onde modas teológicas semeiam confusão e os poderes constituídos buscam arduamente criminalizar o catolicismo.

Que a intercessão de Santo Eusébio de Vercelli e de Maria Santíssima nos ajudem a viver nossa fé, ainda que isso nos custe esta vida.

Fraterno abraço e até semana que vem!

 

[1] BENTO XVI. “Santo Eusébio de Vercelli”. Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 115-119. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071017_po.html>.

Santo Hilário de Poitiers: A defesa da divindade de Jesus até as últimas consequências e a inquebrantável paz interior – Por Diácono Daniel Antônio de Carvalho Ribeiro, SCJ.

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Queridos amigos. Sejam bem vindos ao CommunioSCJ.

Na última semana meditamos sobre São Cirilo de Jerusalém, doutor da Igreja que orientou a história eclesiástica na correta compreensão de Maria Santíssima como Mãe de Deus. Nesta semana queremos conhecer Santo Hilário de Poitiers (310-367). Pouco se sabe sobre sua infância, seguramente era de família rica e provavelmente pagã. O diferencial estava na sua sede de felicidade na verdade. Ele mesmo disse depois do seu batismo: “meu espírito ardia de intenso desejo, não só de compreendê-lo, mas também de conhecê-lo” [1].

Desejo realizado, tornou-se cristão e passou a defender a divindade de Jesus de Nazaré: “Deus de Deus, Luz da Luz…”[2]. Como era grande a confusão sobre a temática – inclusive entre alguns bispos – ele optou pelo ensinamento oficial do Magistério da Igreja e acabou, por isso, sendo exilado pelo Imperador Constâncio, defensor do arianismo. Como não desejo aprofundar dados teológicos – você pode/deve pesquisar sobre a heresia ariana para compreender melhor o seu drama e área de atuação [3] – merece destaque sua consciência na fé, vivenciada com profunda liberdade interior, manifestada profeticamente nas suas palavras ao Imperador:

“Já chegou a hora de falar claro. Depois de haver contido, até agora, a ira pela injúria que me foi feita, sinto o dever de retomar livremente minha palavra. Não são impulsos de cólera humana, que me impeliram a escrever-vos esta carta… É a causa de Cristo que agora defendo. Deus todo poderoso, criador do mundo, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque não me fizeste nascer quando teria podido confessar a ti e ao Filho diante dos Nero e dos Décios? Então, pela misericórdia de Jesus Cristo, e com o fogo do Espírito Santo, não teria temido a tortura do cavalete e da fogueira… teria podido combater os ímpios, os carrascos, os assassinos, e o teu povo, sabendo desta perseguição, ter-me-ia seguido na confissão desta mesma fé, a minha fé. Agora, porém, devemos combater contra um perseguidor oculto, contra o anti-Cristo, Constâncio… Vós combateis contra Deus, depredais a Igreja, perseguis os santos, aniquilais a religião… fingi-vos de cristão e, ao invés, sois inimigo de Cristo; distribuís as sedes episcopais aos sequazes e colocais bispos maus em lugar dos bons; convocais concílios e obrigais os bispos ocidentais, enclausurados em Rímini, apavorados pela vossas ameaças, enfraquecidos pela fome, congelados pelo inverno, desorientados pelas vossas mentiras, a abandonar a fé [4]”.

Além de dizer a verdade a Constâncio, santo Hilário, mesmo exilado e distante fisicamente do seu rebanho, não os abandonou. Ainda exilado, afirma em uma das suas cartas pastorais: “irmãos e mui amados, ultrapassei os limites dentro dos quais o sentimento de minha ignorância deveria manter-me. Pelo amor que vos dedico, quis esquecer minha pequenez e tocar argumentos augustos e misteriosos… Como lutador da Igreja, senti o dever de fazer chegar a vós, mediante essa carta, a voz do bispo, eco da voz da Igreja e dos sentimentos dos Apóstolos. Agora compete a vós, agindo em unidade e previdência, conservar em vossa consciência, pura e sem mancha, a fé que, até o momento presente mantiveste intacta. Lembrai-vos de mim em vossas orações. Agora, que expus minha fé, não sei se me conviria morrer ou ter a alegria de retornar ao vosso meio. Que Deus Nosso Senhor vos conserve intatos e sem mancha para o dia de sua vinda. É isto que eu vos desejo, caríssimos irmãos” [5].

Uma vida corajosa e desprendida como a que conhecemos hoje tem como fruto a tão sonhada paz interior. Infelizmente muitos a procuram longe dos ensinamentos do Cristo ensinados pela Igreja. Podem encontrá-la parcialmente, mas apenas será feliz de fato quem viver a liberdade de procurar agradar primeiro a Deus e não aos homens [6]. Despeço-me pedindo as bênçãos de Deus para nossa vida e sua atenção para as sábias e atuais palavras de Juan de Bonilla, místico do século XVI, que nos orienta para os caminhos da paz interior, percorridos e compreendidos por Santo Hilário:

“Que a vossa vontade esteja sempre preparada para qualquer eventualidade. E que o vosso coração não se deixe escravizar por nada. Quando experimentardes algum desejo, fazei-o de um modo que não vos permita sofrer em caso de fracasso: mantende o espírito tão tranquilo como se não tivésseis desejado coisa alguma. A verdadeira liberdade consiste em não apegar-se a nada. Se estiverdes desprendidos deste modo, Deus procurará a vossa alma para realizar nela grandes coisas” [7].

 

 

NOTAS:

[1] SANTO HILÁRIO DE POITIERS. De Trinitate, I, 3. São Paulo: Paulus, 2005, p. 26-27.

[2] Credo Niceno-constantinopolitano – Concílio de Nicéia (325) e Constantinopla (381).

[3] BENTO XVI. “Santo Hilário de Poitiers”. Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 110-114. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071010_po.html>.

[4] SANTO HILÁRIO DE POITIERS. Contra Constâncio. In: 1-7. SILVANO COLA. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987, p.

[5] SANTO HILÁRIO DE POITIERS. De Synodis (dirigido aos bispos da Galia) In: SILVANO COLA. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987, p.

[6] Gl 1, 10.

[7] JACQUES PHILIPPE. A paz interior. São Paulo: Quadrante, 2006, p. 70-71.

 

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