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Na última semana meditamos sobre São Cirilo de Jerusalém, doutor da Igreja que orientou a história eclesiástica na correta compreensão de Maria Santíssima como Mãe de Deus. Nesta semana queremos conhecer Santo Hilário de Poitiers (310-367). Pouco se sabe sobre sua infância, seguramente era de família rica e provavelmente pagã. O diferencial estava na sua sede de felicidade na verdade. Ele mesmo disse depois do seu batismo: “meu espírito ardia de intenso desejo, não só de compreendê-lo, mas também de conhecê-lo” [1].

Desejo realizado, tornou-se cristão e passou a defender a divindade de Jesus de Nazaré: “Deus de Deus, Luz da Luz…”[2]. Como era grande a confusão sobre a temática – inclusive entre alguns bispos – ele optou pelo ensinamento oficial do Magistério da Igreja e acabou, por isso, sendo exilado pelo Imperador Constâncio, defensor do arianismo. Como não desejo aprofundar dados teológicos – você pode/deve pesquisar sobre a heresia ariana para compreender melhor o seu drama e área de atuação [3] – merece destaque sua consciência na fé, vivenciada com profunda liberdade interior, manifestada profeticamente nas suas palavras ao Imperador:

“Já chegou a hora de falar claro. Depois de haver contido, até agora, a ira pela injúria que me foi feita, sinto o dever de retomar livremente minha palavra. Não são impulsos de cólera humana, que me impeliram a escrever-vos esta carta… É a causa de Cristo que agora defendo. Deus todo poderoso, criador do mundo, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque não me fizeste nascer quando teria podido confessar a ti e ao Filho diante dos Nero e dos Décios? Então, pela misericórdia de Jesus Cristo, e com o fogo do Espírito Santo, não teria temido a tortura do cavalete e da fogueira… teria podido combater os ímpios, os carrascos, os assassinos, e o teu povo, sabendo desta perseguição, ter-me-ia seguido na confissão desta mesma fé, a minha fé. Agora, porém, devemos combater contra um perseguidor oculto, contra o anti-Cristo, Constâncio… Vós combateis contra Deus, depredais a Igreja, perseguis os santos, aniquilais a religião… fingi-vos de cristão e, ao invés, sois inimigo de Cristo; distribuís as sedes episcopais aos sequazes e colocais bispos maus em lugar dos bons; convocais concílios e obrigais os bispos ocidentais, enclausurados em Rímini, apavorados pela vossas ameaças, enfraquecidos pela fome, congelados pelo inverno, desorientados pelas vossas mentiras, a abandonar a fé [4]”.

Além de dizer a verdade a Constâncio, santo Hilário, mesmo exilado e distante fisicamente do seu rebanho, não os abandonou. Ainda exilado, afirma em uma das suas cartas pastorais: “irmãos e mui amados, ultrapassei os limites dentro dos quais o sentimento de minha ignorância deveria manter-me. Pelo amor que vos dedico, quis esquecer minha pequenez e tocar argumentos augustos e misteriosos… Como lutador da Igreja, senti o dever de fazer chegar a vós, mediante essa carta, a voz do bispo, eco da voz da Igreja e dos sentimentos dos Apóstolos. Agora compete a vós, agindo em unidade e previdência, conservar em vossa consciência, pura e sem mancha, a fé que, até o momento presente mantiveste intacta. Lembrai-vos de mim em vossas orações. Agora, que expus minha fé, não sei se me conviria morrer ou ter a alegria de retornar ao vosso meio. Que Deus Nosso Senhor vos conserve intatos e sem mancha para o dia de sua vinda. É isto que eu vos desejo, caríssimos irmãos” [5].

Uma vida corajosa e desprendida como a que conhecemos hoje tem como fruto a tão sonhada paz interior. Infelizmente muitos a procuram longe dos ensinamentos do Cristo ensinados pela Igreja. Podem encontrá-la parcialmente, mas apenas será feliz de fato quem viver a liberdade de procurar agradar primeiro a Deus e não aos homens [6]. Despeço-me pedindo as bênçãos de Deus para nossa vida e sua atenção para as sábias e atuais palavras de Juan de Bonilla, místico do século XVI, que nos orienta para os caminhos da paz interior, percorridos e compreendidos por Santo Hilário:

“Que a vossa vontade esteja sempre preparada para qualquer eventualidade. E que o vosso coração não se deixe escravizar por nada. Quando experimentardes algum desejo, fazei-o de um modo que não vos permita sofrer em caso de fracasso: mantende o espírito tão tranquilo como se não tivésseis desejado coisa alguma. A verdadeira liberdade consiste em não apegar-se a nada. Se estiverdes desprendidos deste modo, Deus procurará a vossa alma para realizar nela grandes coisas” [7].

 

 

NOTAS:

[1] SANTO HILÁRIO DE POITIERS. De Trinitate, I, 3. São Paulo: Paulus, 2005, p. 26-27.

[2] Credo Niceno-constantinopolitano – Concílio de Nicéia (325) e Constantinopla (381).

[3] BENTO XVI. “Santo Hilário de Poitiers”. Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 110-114. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071010_po.html>.

[4] SANTO HILÁRIO DE POITIERS. Contra Constâncio. In: 1-7. SILVANO COLA. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987, p.

[5] SANTO HILÁRIO DE POITIERS. De Synodis (dirigido aos bispos da Galia) In: SILVANO COLA. Operários da primeira hora: perfis dos Padres da Igreja. São Paulo: Cidade Nova, 1987, p.

[6] Gl 1, 10.

[7] JACQUES PHILIPPE. A paz interior. São Paulo: Quadrante, 2006, p. 70-71.