Nesta semana, queremos refletir sobre dois escritores eclesiásticos que viveram numa das épocas mais atribuladas do ocidente cristão, mais precisamente na península italiana.

Boécio (480-524), nascido em Roma e Cassiodoro (485-580), nascido em Squillace eram descendentes de famílias de elevado nível social. Eles têm em comum a dedicação à vida política e a missão de reconciliar e unir as culturas, clássica e romana, com a do povo ostrogodo (bárbaros que dominavam Roma naquela época).

Boécio, acusado de traição contra o rei dos ostrogodos, por ter defendido um amigo em um julgamento e por intervir junto ao rei em defesa dos cristãos, foi processado, condenado à morte e executado em 23 de outubro do ano 524, quando tinha apenas 44 anos.

Cassiodoro foi responsável por preservar o patrimônio cultural do Império Romano em seus tempos de glória, entregando-o aos cuidados dos monges para que não se perdesse e colaborou generosamente, nos mais elevados níveis de responsabilidade política, com os povos novos que haviam se estabelecido na Itália, sem distinção.

Boécio e Cassiodoro são exemplos de pessoas que assumiram a responsabilidade da política sem priorizar seus próprios interesses, que tinham um relacionamento profundo com Deus e que lutaram para defender o cristianismo até as últimas consequências.

Alguém tem dúvidas da falta, nos dias de hoje, de políticos assim? Pessoas de fé que priorizam a Cristo e não a si mesmas, que pensam no próximo e se preciso for, não temem perder a vida por um bem maior, que pregam Cristo com a própria vida sem nem precisar falar Nele. Quantas vezes vimos, principalmente nas últimas eleições, usarem o nome de Jesus para ganhar votos? Usam até mesmo o presbitério para fazer campanha política. Mas não devemos nos enganar com a “maquiagem” usada por essas pessoas que não respeitam o que é sagrado, que se utilizam dele para se promover. Precisamos ficar atentos, afinal, as autoridades de nosso país pregam a laicidade do Estado, então porque quando convêm, usam a Religião?

O Estado e a política foram criados para representar a pessoa, como podem nos dizer que a política não pode se envolver religião, num país de maioria católica? Não dá para dividir uma pessoa ao meio, não dá para deixar a parte cristã em casa e sair para trabalhar, por exemplo. Ser cristão é todo dia, toda hora e em todo lugar.

Cristo precisa de pessoas de fé e coragem que assumam dignamente os postos de trabalho, não só na política, mas na segurança pública, na saúde, na música, enfim em todos os postos. Nós católicos precisamos “infiltrar-nos” na sociedade e dar testemunho. Afinal, todo o tempo cruzamos com pessoas que o único evangelho que lerão durante toda vida será a nossa vida. Precisamos ser dignos representantes de Cristo para que as pessoas digam: “Vede como se amam!” [1]. Então nos tornaremos, no mundo dilacerado, profetas eficazes da unidade pela comunhão fraterna [2].

Encerro com um dos ensinamentos que Cassiodoro transmitia aos monges, citando São Jerônimo:

“Não alcançam a palma da vitória somente aqueles que lutam até derramar o sangue ou que vivem na virgindade, mas também todos aqueles que, com a ajuda de Deus, vencem os vícios do corpo e conservam a reta fé. Mas para que possais vencer com a ajuda de Deus mais facilmente o estímulo do mundo, permanecendo nele como peregrinos em contínuo caminho, busque antes de tudo a saudável ajuda sugerida pelo primeiro salmo, que recomenda meditar dia e noite na lei do Senhor. O inimigo não encontrará, de fato, nenhuma entrada para assaltar-vos se toda vossa atenção está ocupada em Cristo” [3].

Boa semana a todos!

 

Referências:

BENTO XVI TRAÇA O PERFIL DOS ESCRITORES BOÉCIO E CASSIODORO. Disponível em < http://www.zenit.org/article-17848?l=portuguese >.

[1] Tertuliano de Cartago (†220).

[2] JOÃO PAULO II. Discurso a um grupo de jovens da Polônia. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1982/august/documents/hf_jp-ii_spe_19820803_giovani-polacchi_po.html >.

[3] SÃO JERÔNIMO. De Institutione Divinarum Scripturarum, 32; PL 69, col. 1147.

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