Hoje gostaria de falar de Ambrósio Autperto, um autor bastante desconhecido do século VIII, cuja maioria das obras foi atribuída a outras personagens mais conhecidas, como Santo Ambrósio de Milão e Santo Ildefonso.

Nasceu na Provença, mas foi na Itália que tornou-se sacerdote em 761, e no ano de 777 tornou-se abade. Sua época foi dominada por tensões políticas, até mesmo dentro dos mosteiros dos quais cuidava.

Ambrósio denunciava com rigor em seus escritos as irregularidades nos mosteiros que conduzia, os quais exibiam por fora uma aparência majestosa, enquanto dentro se encontravam monges tíbios e ávidos.

Aplicava-lhes a afirmação de 2Tm 3, 12: “Todos os que aspiram a viver piedosamente em Jesus Cristo hão de sofrer perseguições” já não a perseguição externa, mas o assalto das forças do mal que o cristão deve enfrentar dentro de si.

Ambrósio acreditava que há na alma humana vinte e quatro pares de combatentes, ou seja, a cada virtude se contrapõe um vício que tenta cativar a alma fazendo-a cair no pecado sem perceber, de forma muito sutil. Mas a virtude, alimentada pela oração e pela Palavra de Deus não se deixaria subjugar pelo mal.

No tratado sobre conflito entre vícios e virtudes, Autperto contrapõe à cupiditas (a avidez) o contemptus mundi (o desprezo do mundo), que se torna uma figura importante na espiritualidade. Este desprezo do mundo não é um desprezo da criação, da beleza e da bondade, da criação e do Criador, mas um desprezo da falsa visão do mundo que nos foi apresentada e insinuada precisamente pela avidez [1].

Essa visão que valoriza o “ter” acima do “ser”, destrói o mundo tornando as pessoas capazes dos atos mais vis para conseguir o que querem. “Do solo da terra diversos espinhos agudos surgem de várias raízes; no coração do homem, ao contrário, as picadas de todos os vícios provêm de uma só raiz, a avidez” (De cupiditate 1: CCCM 27b, p. 963).

Todo ser humano possui o desejo natural de ter aquilo que ainda não possui e que considera bom e agradável, mas o perigo se encontra quando esse desejo torna-se ávido.

“Não cobiçar as coisas alheias”, o décimo mandamento proíbe a avidez e o desejo desenfreado de possuir bens terrenos [2], pois esse desejo transforma-se em inveja, um dos vícios capitais.

A inveja é a tristeza sentida diante do bem do outro e o desejo de possuir os bens que lhe pertencem, mesmo que de forma indevida. A inveja é um vício capital que evolui para o ódio, chegando ao ponto de desejar um mal grave ao próximo se tornando um pecado mortal. “Santo Agostinho refere-se ao pecado da inveja como o pecado mais diabólico, pois dela nascem a calúnia, a maledicência e o desprazer pelo bem e prosperidade do outro” (S. Gregório Magno).

Outro pecado que segue a inveja é a idolatria, o invejoso coloca-se no lugar de Deus querendo que Ele satisfaça suas vontades, que lhe dê os bens que tanto anseia.

Um grande erro é acreditar que todos são iguais, porque não são. Cada um de nós possui um dom diferente do outro para nos completarmos, para precisarmos uns dos outros. Somos como uma grande banda na qual cada instrumento tem um som diferente para, quando juntos, comporem uma maravilhosa melodia, esta é a vida. O que seria desta melodia se a banda tivesse apenas um tipo de instrumento?

Para vencer esse vício, é preciso reconhecer a sabedoria de Deus e, na maioria das vezes, que seremos incapazes de entendê-la. Sermos gratos por tudo o que Deus nos dá e nos alegrarmos sinceramente com a alegria e com o progresso dos nossos irmãos.

Quereríeis ver Deus glorificado por vós? Pois bem, alegrai-vos com os progressos de vosso irmão e imediatamente Deus será glorificado por vós. Deus será louvado, dirão, porque seu servo soube vencer a inveja, colocando sua alegria no mérito dos outros” (São João Crisóstomo).

Uma semana abençoada a todos!

 

 

Recomendado:

Pe. Paulo Ricardo, O que fazer com a inveja? Disponível em: http://padrepauloricardo.org/episodios/o-que-fazer-com-a-inveja

Bento XVI, Santo Ambrósio Autperto, disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090422_po.html

 

[1] Desejo ardente, cobiça, ambição.

[2] Catecismo da Igreja Católica, § 2536

 

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