Bem vindos novamente, amigos do CommunioSCJ!

Depois de discutirmos muitos dos aspectos relativos à Revelação de Deus, é chegada a hora de falarmos sobre a “resposta do homem a Deus” [1]. Com esta expressão, o Catecismo nos convida a tomar consciência de que precisamos deixar nossa passividade para darmos uma resposta concreta ao Senhor, que nos convida à comunhão com Ele. “A resposta adequada a este convite é a fé” [2].

Entretanto, é fácil perceber que o homem, e aqui estamos todos incluídos, constantemente deixa Deus esperando. São Cláudio de la Colombière definia o Sagrado Coração de Cristo como um “Coração que ama e não é amado”. Se o homem, que ama de maneira limitada, já se entristece quando é ignorado, imaginemos quão grande não deve ser a dor deste Coração, que ama infinitamente, quando recebe apenas nossa indiferença! Para oferecer a Deus que nos busca a “resposta adequada”, não existe outro caminho: “Ora, sem fé é impossível agradar a Deus […]” (Hb 11, 6).

Mas no que consiste nossa fé? Qual é a sua substância? Mais do que um conjunto de regras e ideias, a fé cristã se constitui de um acontecimento que se realiza de maneira plena na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Uma explicação melhor pode ser conseguida através do Papa Bento XVI que, enquanto ainda era cardeal, explicou que a nossa fé:

“Consiste em considerarmos Cristo como Filho vivo de Deus, que se fez carne, que se fez Homem; que a partir dele acreditamos em Deus, no Deus trino, Criador do céu e da terra; que acreditemos que esse Deus se debruça, por assim dizer, de tal forma, que pode fazer-se tão pequeno, que se preocupa com o Homem e fez História com o Homem, e que o receptáculo dessa História, o lugar de expressão privilegiado, é a Igreja” [3].

Essa fé, para ser vivida integralmente, pressupõe um contato com Deus que fundamente nossa vida espiritual. Não basta falar de Cristo. É preciso tomar contato com Deus que entra na história do mundo e na história pessoal de cada um. É preciso se ligar existencialmente a Ele na pessoa de Cristo. E isto “requer, por parte do homem, uma decisão de escolha consciente e a orientação da sua vontade para Cristo, como fim último e valor supremo” [4]. A fé é plena quando o homem submete toda a sua inteligência e sua vontade a Deus [5].

Na atualidade, a submissão total a Deus soa não apenas como algo difícil, mas até mesmo escandaloso. Com a modernidade vimos crescer a ideia de que o progresso mental está “relacionado ao rompimento de laços, à abolição de fronteiras, à rejeição de dogmas” [6]. Esse movimento não conseguiu destruir a fé, que está gravada no mais profundo do coração do homem, mas acabou por diminuir sua importância. A ideia de que a fé, a crença, os dogmas, impedem o progresso mental não é verdadeira. Conforme expressou o grande filósofo G. K. Chesterton:

“Ao abandonar doutrina após doutrina, num refinado ceticismo, ao recusar a filiar-se a um sistema, ao dizer que superou definições, ao dizer que duvida da finalidade, quando na própria imaginação, senta-se como Deus, não professando nenhum credo, mas contemplando todos, então está, por intermédio do mesmo processo, imergindo lentamente na indistinção dos animais errantes e da inconsciência da grama. Árvores não têm dogmas. Nabos são particularmente tolerantes” [7].

O que Chesterton previa no início do século XX, é facilmente constatável no presente. A rejeição da fé, e também dos valores, tem levado os homens a se parecer cada vez menos com homens. O mundo está cada vez mais desumano. E as promessas de progresso e felicidade deram lugar à intensificação dos problemas sociais e ao crescimento da tristeza.

Se não queremos tomar lugar nessa viagem rumo à desumanização e à tristeza, precisamos deixar crescer em nós a fé, que se dá na submissão à vontade de Deus. É fato que, devido ao nosso pecado, isso deve acontecer em meio ao sofrimento. Entretanto, se tivermos coragem de lutar poderemos perceber que “a fé dá alegria” [8]. Não essa alegria falsa e passageira que o homem moderno busca como um cão busca as migalhas que caem da mesa. Mas a alegria verdadeira e plena que brota do Coração de amoroso de Deus.

Que a exemplo da Santíssima Virgem Maria, saibamos dizer sim a Deus na certeza de que Ele nos cumulará de graças. “[…] pois quem dele se aproxima deve crer que ele existe e recompensa os que o procuram” (Hb 11, 6).

 

 

[1] Título do capítulo III da primeira seção do Catecismo.

[2] CEC (Catecismo da Igreja Católica), n. 142.

[3] RATZINGER, J. O Sal da terra: o Cristianismo e a Igreja Católica no limiar do terceiro milênio. Um diálogo com Peter Seewald. Rio de janeiro: Imago, 2005, p.17.

[4] DAJCZER, T. Meditações sobre a fé. São Paulo: Palavra e Prece, 2007, p. 41.

[5] CEC, n. 143.

[6] CHESTERTON, G. K. Hereges. São Paulo: Ecclesiae, 2011, p. 257.

[7] Idem, p. 258.

[8] RATZINGER, J. O Sal da terra, p. 23.

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