Olá queridos amigos do CommunioSCJ! Que bom nos encontrarmos novamente.

Amparados pelo Catecismo, continuamos a olhar mais de perto para a vida de nosso Senhor Jesus Cristo. Após breves considerações sobre sua vida pública, iniciamos uma reflexão mais profunda acerca dos mistérios pascais que celebramos recentemente. Neste texto, em especial, trataremos da morte de Nosso Senhor, fato histórico que não fica apenas no passado, mas está intensamente relacionado com nossas vidas. Vejamos como.

Uma primeira e importante consideração sobre a morte de Jesus Cristo diz respeito Ícone - Judas beija Jesusà pergunta “quem matou Jesus?”. Contrária à visão de que os judeus foram os culpados por esse ato assassínio, a Igreja afirma que “foram os pecadores como tais os autores e como que os instrumentos de todos os sofrimentos por que passou o Divino Redentor” [1]. Desta forma, fica clara a nossa relação com a morte de Jesus; fica clara a resposta sobre a pergunta acerca dos culpados desse crime: nós, eu e você, pecadores, fomos os assassinos de Cristo. Esta constatação pode chocar algumas pessoas, mas é uma realidade dramática que todo cristão precisa compreender. Usando as palavras de São Francisco de Assis, “Os demônios, então, não foram eles que o crucificaram; és tu que com eles o crucificaste e continuas a crucifica-lo, deleitando-te nos vícios e nos pecados” [2]. Cada um de nós, com nossos pecados, matamos e continuamos a fazer Cristo sofrer.

A ideia de que somos diretamente culpados pela morte de Nosso Senhor nos leva a outra importante pergunta: “por que Jesus morreu?”. São Pedro nos responde dizendo que “Deus, em seu desígnio e previsão, determinou que Jesus fosse entregue pela mão dos ímpios” (At 2,23). Jesus morreu para nos libertar de nosso pecados, segundo desígnio de Deus. “Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornemos justiça de Deus” (2 Cor 5,21).

Jesus assumiu e pagou nossas culpas na Cruz. Pois Deus é Justo, e o mal realizado Jesus crucificado (Icon at St. Catherine's Monastery, Sinai)por cada ser humano precisava ser pago. E bem sabemos que um mundo sem justiça jamais seria um mundo perfeito como Deus planejou. Entretanto, que nem passe pela nossa cabeça a ideia de um Deus vingativo. Pois o crime que precisava ser pago, Ele mesmo tomou sobre seus ombros e o pagou de maneira cruenta, no sacrifício da Cruz. E aí Deus revelou que além de Justo, é Misericórdia e Amor. E foi precisamente assim que Cristo nos salvou: amando-nos “até o fim” (Jo 13,1). E mais ainda, amando-nos independentemente de toda a nossa sujeira e maldade, pois “Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8). E se saber que você também é responsável pela morte de Jesus Cristo o perturba (e deveria), reconheça (e alegre-se) com o fato de que mesmo assim Jesus o ama, independentemente de seus pecados passados e futuros.

Contemplando os atos de justiça e amor perfeitos presentes na morte redentora de cristo, precisamos nos deparar com uma terceira pergunta: “o que a morte de Jesus muda em minha vida?”. Diante da morte de Cristo, não é possível ser indiferente. Sua entrega livre já na Santa Ceia, como Eucaristia, sua agonia no Getsêmani, a dor da traição, a humilhação perante um falso julgamento, sua dolorosa flagelação, sua crucificação e morte: tudo isso nos cobra uma resposta. Pois “Cristo morreu por todos os homens sem exceção” [3], mas em sua liberdade qualquer homem é livre para rejeitar a redenção de Cristo.

Consciente de sua morte expiatória, Jesus faz um convite que ecoa pelos tempos e chega a cada um de nós hoje: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 14). Nos nossos sofrimentos, nas nossas dores e dificuldades podemos ir nos associando à crucificação de Cristo. É um convite difícil, muitas vezes incompreensível numa sociedade hedonista como a que nós vivemos. Mesmo assim, a Igreja continua e continuará a ensinar que existe redenção no sofrimento. Depois da Cruz existe a Ressureição! Como aconteceu com São Pedro, é difícil aceitar a Cruz. Mas Cristo redimiu nossa vontade pecadora e se São Pedro foi capaz de enfrentar também a sua cruz (São Pedro também morreu crucificado, de cabeça para baixo por não se achar digno de morrer como seu Senhor) nós também seremos capazes de aceitar as nossas cruzes. Um comentário do Papa Emérito Bento XVI sobre a relação de São Pedro com a cruz pode iluminar bastante nossa reflexão:

“Quem poderia negar que o seu comportamento [de São Pedro] espelhe a tentação contínua dos cristãos, aliás, mesmo da Igreja: chegar ao sucesso sem a cruz? Assim, é preciso anunciar-lhe a fragilidade, a tríplice negação. Ninguém, por si mesmo, é suficientemente forte para percorrer o caminho da salvação até o fim. Todos pecaram. Todos precisam da misericórdia do Senhor, do amor do Crucificado” [3].

Que a Santíssima Virgem Maria nos ensine a aceitar a misericórdia divina e nos auxilie no nosso sim ao amor generoso de Deus que nos leva da Cruz à Ressureição.

Uma ótima semana!

 

 

[1] CEC (Catecismo da Igreja Católica), n. 598.

[2] Ibidem.

[3] CEC, n. 605.

[4] RATZINGER, J. Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressureição. São Paulo: Planeta, 2011, p. 142.