Inicial

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA – ANO C (P. Lucas, scj)

Deixe um comentário

Caros irmãos, neste domingo quaresmal da alegria, a Liturgia nos dá a oportunidade de rezar com a conhecida parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,1-3.11-32). Sem dúvida, trata-se de uma das páginas mais belas e essenciais de toda a Sagrada Escritura. Certamente, já nos colocamos muitas vezes diante deste texto; além disso, muitos livros já foram escritos sobre este trecho evangélico. Assim, quero apenas sublinhar três aspectos para a filhoprodigonossa reflexão: a busca de Deus, a identidade do filho mais novo e a festa do retorno. Que a alegria do céu motive nos sustente em nosso caminho de conversão.

O primeiro aspecto não será proclamado na liturgia: são as duas primeiras partes da parábola – a ovelha e a moeda perdidas – que mostram claramente que esta história de amor e reconciliação não começam com o perdido, mas com Aquele que perdeu. Deus é bom e não fica indiferente àquele que se perde, mas vai ao seu encontro: busca, chama e até carrega nos ombros (cf. Lc 15,4-10). Quando pensamos em buscá-lo, Ele já estava há muito à nossa procura.

E assim, chegamos ao segundo: aquele jovem começa o caminho do retorno à casa paterna caindo em si (cf Lc 15,17): ele se lembrou que é filho; que tem um Pai; e que este tem um lar onde até os servos tem pão com fartura. Quantos de nós queremos nos convencer a todo custo que a comida dos porcos é o melhor que podemos ter nesta vida e que Deus, então, não é um Pai misericordioso, mas é um grande estraga-prazeres que só quer o nosso mal? Ver as coisas como elas são e dar-se conta da realidade é o fundamento da decisão de voltar para casa. Sim, é verdade: não existe paz longe do Senhor e depender absolutamente do Pai não é uma opressão, pelo contrário, mas a grande e radical libertação.

Por fim, o terceiro aspecto: o Cordeiro foi imolado para uma festa, a celebração da Páscoa: “Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,24). Irmãos, se nos deixarmos reconciliar com Deus (cf. 2Cor 5,20 – segunda leitura), as festas que se aproximam não serão apenas a memória do que aconteceu com Jesus, nosso Senhor, mas uma realidade mesma em nosso coração. Nossa conversão é, sim, um grande milagre que produz festa e alegria na nossa casa que é o céu.

Que a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha dos anjos, interceda por nossa conversão. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!

O SACRAMENTO DA NOSSA RECONCILIAÇÃO

Deixe um comentário

AnunciacaoDas Cartas de São Leão Magno, papa.

A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza, pela força, a mortalidade, pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.

Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Sedutor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.

Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha do seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.

Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido;existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.

Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.

Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.

A natureza divina resplandece nos milagres, a humana, sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.

É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.14).

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA – ANO C (P. Lucas, scj)

Deixe um comentário

Caros irmãos, o tempo da Quaresma já vai adiantado e neste terceiro domingo temos a oportunidade de rezar com a parábola da figueira, de acordo com o evangelho de São Lucas (cf. Lc 13,1-9). Aproximemo-nos do texto com o coração aberto deixando que o Senhor nos inspire e nos sustente em nosso caminho de conversão.

Antes de tudo, coloquemos a parábola em seu contexto: Jesus a conta num diálogo com aqueles que lhe trouxeram a notícia de uma crueldade de Pilatos. A este fato, o próprio 03Mar - A Figueira EstérilSenhor adiciona a recordação de um acidente. Tudo isso nos ajuda a ter uma postura mais adequada em nosso discipulado. Pois, diante das mais inúmeras e diversas crueldades ou catástrofes que chegam ao nosso conhecimento, a primeira reação é justamente perguntar-se pelas suas causas – não só num nível material, mas espiritual: por que Deus permitiu isso?

Mas aqui, com a parábola da figueira (Lc 13,6-9), o Senhor nos chama atenção, primeiro, para o fato de que nossa vida neste mundo é muito frágil e que, desta forma, também nós poderemos morrer improvisamente. Deixemo-nos interpelar verdadeiramente: se hoje precisássemos nos apresentar diante de Deus para nos submeter ao seu justo juízo, estaríamos preparados para fazê-lo?

E, segundo, como necessária consequência do anterior, temos o tempo como dom da Misericórdia do Pai. Se estamos aqui é justamente porque a longanimidade do Senhor nos concede a renovada oportunidade de darmos frutos na Sua Graça, como escreveu Santa Teresinha em uma de suas poesias: “A minha vida é um só instante, uma hora passageira / A minha vida é um só dia que me escapa e me foge / Tu sabes, ó meu Deus! Para amar-Te na terra / Só tenho o dia de hoje!”.

Que a bem-aventurada Virgem Maria interceda por nós a fim de que esta não seja apenas mais uma Quaresma, mas aquela na qual não só nos (re)encontramos com o Senhor, mas também nos voltamos a Ele de todo o coração. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!

GUARDA FIEL E PROVIDENTE

Deixe um comentário

Dos Sermões de São Bernardino de Sena, presbítero.

É esta a regra geral de todas as graças especiais concedidas a qualquer criatura racional: quando a providência divina escolhe alguém para uma graça particular ou estado superior, também dá à pessoa assim escolhida todos os carismas necessários para o exercício de sua missão.

Isto verificou-se de forma eminente em São José, pai adotivo do Senhor Jesus Cristo e downloadverdadeiro esposo da rainha do mundo e senhora dos anjos. Com efeito, ele foi escolhido pelo Pai eterno para ser o guarda fiel e providente dos seus maiores tesouros: o Filho de Deus e a Virgem Maria. E cumpriu com a máxima fidelidade sua missão. Eis por que o Senhor lhe disse: Servo bom e fiel! Vem participar da alegria do teu Senhor! (Mt 25,21).

Consideremos São José diante de toda a Igreja de Cristo: acaso não é ele o homem especialmente escolhido,por quem e sob cuja proteção se realizou a entrada de Cristo no mundo de modo digno e honesto? Se, portanto, toda a santa Igreja tem uma dívida para com a Virgem Mãe, por ter recebido a Cristo por meio dela, assim também, depois dela, deve a São José uma singular graça e reverência.

Ele encerra o Antigo Testamento; nele a dignidade dos patriarcas e dos profetas obtém o fruto prometido. Mas ele foi o único que realmente possuiu aquilo que a bondade divina lhes tinha prometido.

E não duvidemos que a familiaridade, o respeito e a sublimíssima dignidade que Cristo lhe tributou, enquanto procedeu na terra como um filho para com seu pai, certamente também nada disso lhe negou no céu, mas antes, completou e aperfeiçoou. Por isso, não é sem razão que o Senhor lhe declara: Vem participar da alegria do teu Senhor! Embora a alegria da felicidade eterna penetre no coração do homem, o Senhor preferiu dizer: Vem participar da alegria. Quis assim insinuar misteriosamente que a alegria não está só dentro dele, mas o envolve de todos os lados e o absorve e submerge como um abismo sem fim.

Lembrai-vos de nós, São José, e intercedei com vossas orações junto de vosso Filho adotivo; tornai-nos também propícia vossa Esposa, a santíssima Virgem, mãe daquele que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos sem fim. Amém.

MOISÉS E CRISTO

Deixe um comentário

transfiguração

Das Catequeses de São João Crisóstomo, bispo.

Os judeus viram milagres. Tu também verás, maiores e mais estupendos do que os do tempo em que os judeus saíram do Egito. Não viste o Faraó afogado no mar com seu exército, mas viste o demônio tragado pelas ondas com as suas armas. Os judeus passaram o Mar Vermelho, tu passaste para além da morte. Eles foram libertados dos egípcios e tu, do poder dos demônios. Eles escaparam da escravidão do estrangeiro e tu, escapaste da escravidão muito mais triste do pecado.

Queres ainda mais provas de que foste honrado com favores maiores? Os judeus não puderam contemplar o rosto resplandecente de Moisés, que era homem como eles e servo do mesmo Senhor; tu, porém, viste a glória do rosto de Cristo. E Paulo exclama: Todos nós, com o rosto descoberto, contemplamos a glória do Senhor (2Cor 3,18).

Os judeus tinham Cristo que os seguia; mas agora ele nos segue de modo muito mais real. Então o Senhor os acompanhava por causa de Moisés; agora nos acompanha não só por causa de Moisés, mas também por nossa obediência. Os judeus, depois do Egito, encontraram o deserto; tu, depois da morte, encontrarás o céu. Em Moisés eles tinham um guia e chefe excelente; nós temos como chefe e guia o novo Moisés, que é o próprio Deus.

Qual era a característica de Moisés? Moisés,diz a Escritura, era um homem muito humilde, mais do que qualquer outro sobre a terra (Nm12,3). Esta qualidade podemos sem erro atribuí-la ao nosso Moisés, porque é assistido pelo suavíssimo Espírito que lhe é intimamente consubstancial. Moisés, erguendo as mãos ao céu, fazia cair o maná, o pão dos anjos; o nosso Moisés ergue as mãos ao céu e nos dá o alimento eterno. Aquele feriu a rocha e fez brotar torrentes de água; este toca na mesa, a mesa espiritual, e faz jorrar as fontes do Espírito. Por isso, a mesa está colocada no meio, como uma fonte, para que de todos os lados acorram os rebanhos à fonte e bebam das águas da salvação.

Uma vez que nos é dada uma tal fonte, um manancial de vida tão abundante, uma vez que a nossa mesa está repleta de bens inumeráveis e nos inunda com seus dons espirituais, aproximemo-nos de coração sincero e consciência pura, para alcançarmos graça e misericórdia no tempo oportuno. Pela graça e misericórdia do Filho único, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, por quem e com quem seja dada ao Pai e ao Espírito, fonte de vida, a glória, a honra e o poder, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

 

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – ANO C (P. Lucas, scj)

Deixe um comentário

Caros irmãos, como todos os anos, no segundo domingo da Quaresma, rezamos com o evangelho da Transfiguração do Senhor. Neste ano, seguimos o relato de São Lucas (cf. Lc 9,28b-36). Acompanhemos Jesus que nos revela a glória à qual somos chamados.

É importante, antes de mais, recordarmos que, nos três evangelhos sinóticos, o relato da transfiguração está localizado logo depois da confissão de fé de São Pedro, da revelação da Paixão por parte de Jesus e do consequente convite a tomar a Cruz e segui-lo. Assim, o Ícone - Transfiguracaoevangelho de hoje é como uma referência ao ponto de chegada: nosso Senhor e Mestre nos quer levar à glória da Trindade e sabe que precisamos, desde o início, de ajuda para não desanimarmos com as dificuldades do caminho.

De fato, quem se limita a olhar as exigências que Jesus faz para seus discípulos pode desanimar por verificar corretamente que tudo isso está acima das capacidades humanas. Porém, com o relato da transfiguração o Senhor nos mostra que não só vai à frente indicando o caminho, mas que também é Ele quem dá o Espírito Santo e, com este, a capacidade para segui-lo. Isso fica claro na segunda leitura, na qual o Apóstolo diz que “Ele transformará o nosso corpo humilhado e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso, com o poder que tem de sujeitar a si todas as coisas” (Fl 3,21).

Concretamente, da nossa parte, para recebermos este maravilhoso dom, devemos nos dispor através da oração. Afinal, “Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar” (cf. Lc 9,28) e foi “enquanto rezava” que Ele se transfigurou. Irmãos, que nossa oração não seja um monólogo, mas que, ao contrário, seja composta de momentos de profundo silêncio e comunhão para escutar o que o Senhor tem para nos dizer e a Ele nos unirmos cada vez mais.

Que a bem-aventurada Virgem Maria interceda por nós a fim de que cheguemos transfigurados pelo Espírito de Deus às festas pascais. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!

AS INTERROGAÇÕES MAIS PROFUNDAS DO GÊNERO HUMANO

Deixe um comentário

Da Constituição pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II.

O mundo moderno apresenta-se simultaneamente poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior; abre-se diante dele o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade e do ódio. Por outro lado, o homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças por ele despertadas e que podem oprimi-lo ou servi-lo. Eis por que se interroga a si mesmo.

Na verdade, os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão ligados a um Vaticano II - Procissãodesequilíbrio mais profundo, que se enraíza no coração do homem.

No íntimo do próprio homem, muitos elementos lutam entre si. De um lado, ele experimenta, como criatura, suas múltiplas limitações; por outro, sente-se ilimitado em seus desejos e chamado a uma vida superior.

Atraído por muitas solicitações, é continuamente obrigado a escolher e a renunciar. Mais ainda: fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria. Em suma, é em si mesmo que o homem sofre a divisão que dá origem a tantas e tão grandes discórdias na sociedade.

Muitos, sem dúvida, que levam uma vida impregnada de materialismo prático, não podem ter uma clara percepção desta situação dramática; ou, oprimidos pela miséria, sentem-se incapazes de prestar-lhe atenção. Outros, em grande número, julgam encontrar satisfação nas diversas interpretações da realidade que lhes são propostas.

Alguns, porém, esperam unicamente do esforço humano a verdadeira e plena libertação da humanidade, e estão persuadidos de que o futuro domínio do homem sobre a terra dará satisfação a todos os desejos de seu coração.

Não faltam também os que, desesperando de encontrar o sentido da vida, louvam a audácia daqueles que, julgando a existência humana vazia de qualquer significado próprio, se esforçam por encontrar todo o seu valor apoiando-se apenas no próprio esforço.

Contudo, diante da atual evolução do mundo, cresce o número daqueles que formulam as questões mais fundamentais ou as percebem com nova acuidade. Que é o homem? Qual é o sentido do sofrimento, do mal e da morte que, apesar de tão grandes progressos, continuam a existir? Para que servem semelhantes vitórias, conseguidas a tanto custo? Que pode o homem dar à sociedade e dela esperar? Que haverá depois desta vida terrestre?

A Igreja, porém, acredita que Jesus Cristo, morto e ressuscitado por todo o gênero humano, oferece ao homem, pelo Espírito Santo, luz e forças que lhe permitirão corresponder à sua vocação suprema; ela crê que não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possam ser salvos.

Crê igualmente que a chave, o centro e o fim de toda a história humana encontra-se em seu Senhor e Mestre.

A Igreja afirma, além disso, que, subjacente a todas as transformações, permanecem imutáveis muitas coisas que têm seu fundamento último em Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre.

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA – ANO C (P. Lucas, scj).

Deixe um comentário

Caros irmãos, tendo celebrado há pouco a Quarta-feira de Cinzas, entramos na Quaresma e, neste seu primeiro domingo, temos, para nossa reflexão e oração o texto da tentação de Jesus no deserto (cf. Lc 4,1-13). Que o Espírito Santo nos conduza a uma verdadeira ressurreição neste tempo favorável.

Todos estamos convencidos de que devemos viver a Quaresma como um tempo propicio para intensificar nossas práticas cotidianas de mortificação. De fato, neste tempo favorável podemos – e devemos – lutar com mais afinco contra os três inimigos da nossa tentação - Jesusalma: a carne, o Inimigo e o mundo, como resumidos no evangelho desta liturgia. Mas, é importante recordarmos que, para não entrarmos numa luta inócua, precisamos, como o Senhor, ser guiados pelo Espírito Santo (cf. Lc 4,1). Mais uma vez, não se trata de uma obra meramente nossa.

Pois, tendo Jesus como Mestre, devemos aprender dele não somente através de suas palavras, mas com todos os seus atos. Assim, vendo que o Cristo, Deus feito homem, sem pecado algum, jejuou, fez penitência sempre guiado pelo Espírito, então, devemos estar disponíveis para seguir a mesma estrada. Dessa forma, não vivemos a Quaresma como um cultivo masoquista do sofrimento. Mas, pelo contrário, como fiéis discípulos que querem se unir ao Senhor cada vez mais estritamente e pela ação do Santo Espírito esperam colher a graça de viver uma verdadeira ressurreição: a morte do velho egoísmo para, na Páscoa, celebrarmos a vitória de Cristo não apenas há dois mil anos, mas concretamente dentro de nós. É, portanto, essa direção que nos levará à santidade no amor. E, como a caridade é Deus agindo em nós, não temos outra alternativa que não dar espaço a Ele a partir da nossa mortificação a fim de que Ele viva e nos faça reviver.

Que a bem-aventurada Virgem Maria nos acompanhe ainda mais perto de nós com sua materna intercessão neste período quaresmal. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!

A ORAÇÃO É A LUZ DA ALMA

Deixe um comentário

Das Homílias do Pseudo-Crisóstomo.

A oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por sua luz inefável. Falo da oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.

Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos cristo-bom-pastor (6)aplicamos à oração; também no meio das mais variadas tarefas – como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo – é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. E assim, todas as nossas obras, temperadas com o sal do amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do universo. Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível.

A oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens. Pela oração a alma se eleva até aos céus e une-se ao Senhor num abraço inefável; como uma criança que, chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.

A oração é venerável mensageira que nos leva à presença de Deus, alegra a alma e tranquiliza o coração. Não penses que essa oração se reduza a palavras. Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm 8,26).

Semelhante oração, quando o Senhor a concede a alguém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma. Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador quê abrasa o coração.

Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça. Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a oração. Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplêndido palácio real para o receber, e poderás tê-lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo da sua presença.

OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C (P. Lucas, scj)

Deixe um comentário

Caros irmãos, na celebração deste oitavo domingo do Tempo Comum, o último antes do início da Quaresma, a liturgia continua a nos apresentar o discurso de Jesus na planície, no qual o Senhor continua a nos indicar o caminho da santidade (cf. Lc 6,39-45). Que a Graça do Senhor nos sustente no nosso caminho de conversão.

“Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons” (Lc Christ_the_True_Vine_icon_(Athens,_16th_century)6,43), disse-nos Jesus. Acredito que este seja o centro da mensagem que o Senhor nos dá hoje a fim de não desistirmos de sermos autenticamente cristãos. Porque é possível desistir da vida cristã não só por suas exigências que, muitas vezes, parecem pesadas demais por estarem acima das nossas capacidades, mas também dando ao rosto de Deus contornos que Ele não tem e, assim, consolando-se com a ideia de um perdão que, em última análise é inócuo, visto que não tem impacto concreto em nossa vida cotidiana.

Mas o trecho evangélico de hoje nos recorda que apesar de nossa experiência nos mostrar que, por nós mesmos, não podemos produzir frutos de amor-caridade, se Jesus vive em nós, daremos frutos de santidade, como a árvore plantada nos átrios do Senhor (cf. Sl 91). Ou seja, nosso esforço fundamental é estarmos na presença de Jesus buscando em primeiro lugar o Reino dos Céus. Portanto, cuidemos constante de nosso coração a fim que ele seja verdadeiramente morada de Deus e, assim, encontremos o caminho que nos leva a uma vida autenticamente cristã. Então, seremos sinal da presença e deste amor salvador para todos aqueles que convivem conosco.

Que a bem-aventurada Vigem Maria interceda por nós a fim de que permaneçamos e inabaláveis, empenhando-nos cada vez mais na obra de Deus, certos de que nossas fadigas não são em vão, no Senhor (cf. 1Cor 15,58 – segunda leitura). À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!