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XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM: LC 21,5-19 – O FIM SEM FIM

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cristonacruz

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Estamos praticamente chegando ao final de mais um Ano Litúrgico. Um percurso pedagógico-espiritual que nos ajuda a mergulhar no mistério da vida, morte e ressurreição de Cristo, Alfa e Ômega, Princípio e Fim, mas, ao mesmo tempo, ilumina a nossa realidade humana, nas suas dimensões de finitude e eternidade. Portanto, o tema do fim não pode ser estranho ao ser humano, nem muito menos causa de terror e desespero; é uma realidade que não se pode negar. Contudo, na perspectiva cristã, todo fim deve expressar uma finalidade alcançada, e, portanto, marca um novo começo, que não significa um eterno retorno cíclico, mas passagem qualitativa para uma nova realidade que supera todo o vivido até então.

A perícope evangélica deste XXXIII Domingo do Tempo Comum, penúltimo do ano litúrgico, apresenta um ensinamento de Jesus diante de uma compreensão errada em relação às realidades terrenas. Consciente do iminente fim da sua missão, e utilizando uma linguagem própria (apocalíptica), o Mestre adverte os seus discípulos sobre a missão que irão receber e à qual deverão permanecer fiéis: “É pela perseverança que mantereis vossas vidas”.

Diante da reação de admiração e encantamento de alguns frente à beleza do Templo, ornado de belas pedras e de ofertas votivas, Jesus declara que tudo é passageiro, “não ficará pedra sobre pedra”. Naquele mesmo contexto, encontramos um pouco antes o episódio da viúva que do pouco que possuía para viver, ofereceu tudo (Lc 21,1-4). Jesus, exaltando o gesto dessa pobre viúva, declara qual é a atitude mais coerente de quem entendeu a indiscutível verdade da vida, isto é, que tudo passa. Por outro lado, o evangelista evidencia o contraste entre o olhar de Jesus, que vê as pessoas e as suas atitudes, e o olhar alienado daqueles que só conseguem ver a superficialidade das coisas e, rapidamente, apegam-se à beleza efêmera do Templo, e não conseguem reconhecer o verdadeiro templo que é o coração desprendido de tudo, e que é capaz de ser espaço aberto, tornar-se morada de Deus, a qual não poderá ser destruída. Enquanto o espaço físico do Templo, suas ornamentações, sua beleza material, não existem mais, o gesto generoso da viúva, consciente da sua finitude terrena, não desapareceu, continua vivo, pois tornou-se Boa Notícia, evangelho.

O anúncio profético de Jesus em relação à destruição do Templo historicamente se realizou por ocasião da invasão de Jerusalém por parte dos Romanos (70 d.C.). Quando os evangelhos foram escritos, esse terrível acontecimento estava muito presente na mente e no coração do povo, que buscava explicações não apenas nas causas históricas, mas uma compreensão à luz da fé. Diante das várias especulações do tempo, a comunidade cristã era interpelada a se posicionar e responder se aquilo que estava acontecendo era, de Ressuscitado (Painneau)fato, anúncio do iminente fim do mundo. Era urgente fazer ressoar as palavras de Jesus: “Atenção para não serdes enganados…”. Relembrando essas palavras, os cristãos cresciam na convicção de que prever o fim do mundo não era a missão deles, pois esta também não foi a missão do Mestre. Porém, não viviam de forma ingênua negando as vicissitudes do tempo (guerras, catástrofes naturais, perseguições externas e internas), mas fortalecidos pela palavra e exemplo do Mestre não se deixavam enganar por propostas fáceis (abandonar o caminho) ou desencaminhar-se seguindo os “messias da hora” (salvadores da pátria oportunistas, fundamentalistas de plantão), que aproveitam de situações calamitosas para enganar as pessoas aflitas e tirar vantagens da sua fragilidade circunstancial.

Ainda que muitos acontecimentos provocadores de angústia, tristeza, sofrimentos e mortes não tenham uma explicação plausível, a comunidade cristã tem uma firme convicção fundamentada no ensinamento de Jesus: “Não vos atemorizeis; pois é preciso que primeiro aconteça isso, mas não será logo o fim”. Cabe à comunidade fazer o discernimento para não se deixar enganar (grego: planao, ser induzido ao erro, desencaminhar-se. Daí a palavra “planeta”; os antigos astrônomos chamavam de planetas corpos celestes que se movimentavam, isto é, errantes, porque os via deslocar-se no espaço sideral como se estivessem perdidos). Diante de intensos sofrimentos, abalos emocionais, o ser humano tende a perder o rumo, vagar sem direção. Contudo, os discípulos de Jesus não são planetas (errantes), mas devem ser bússola que ajuda a não perder o seu destino e, por isso, não temem a perseguição tanto religiosa (sinagogas) quanto política (reis e governadores), nem mesmo a traição dos seus mais próximos (pai, mãe, irmãos, parentes, amigos) por causa de sua fidelidade a Cristo. Não vagueiam ao sabor das ondas porque estão enraizados na certeza de que tais ocasiões são as molduras mais propícias para o autêntico testemunho: “Isso vos será ocasião de testemunho (grego: martiria)”.

A suficiente defesa diante dos adversários não dependerá da eloquência humana, mas da sabedoria da palavra de Deus que lhes foi dada e que eles cultivam nos seus corações: “Eu vos darei eloquência (grego: stoma, boca – símbolo da profecia) e sabedoria” (grego: sofia, conhecimento a partir da experiência).

A chegada do final do ano litúrgico se reverte em aurora de novo ano, com o tempo do advento, onde a esperança se renova com a vinda do Messias que nunca se ausenta, mas que sela a sua presença constante através do seu Mistério Pascal, onde o infinito toca o finito, e o fim torna-se sem fim.

 

Publicação original em: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/xxxiii-domingo-do-tempo-comum–lc-21-5-19–o-fim-sem-fim

TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM (P. Lucas, scj)

1 Comentário

Caros irmãos, na liturgia deste trigésimo terceiro domingo do Tempo Comum, Jesus nos ajuda a encontrar o sentido dos inevitáveis momentos de sofrimento que permeiam a nossa vida (cf. Lc 21,5-19). Rezemos para que o Senhor nos fortaleça e nos sustente.

Àqueles que se admiravam com a beleza do Templo, Jesus adverte: “Tudo será destruído” (Lc 21,6). Este aviso é muito importante para despertar nossa consciência de que, como diz o Apóstolo, “a figura deste mundo passa” (1Cor 7,31). Em outras palavras, não adianta plantarmos as nossas raízes neste mundo porque ele passa. E mais: não só é efêmero o tempo que temos para viver, mas também permeado com dificuldades. E Jesus descreve tantas em sua fala: falsas profecias, guerras, revoluções, perseguições, fome, peste… Não Crucificadoadianta fechar os olhos ou tentar se esquecer: o tempo é breve e é marcado pela imperfeição.

Porém, existe uma realidade firme o bastante para sustentar nosso caminhar e trata-se do Senhor: “tudo passa, só Deus não muda”, rezava Santa Teresa de Jesus. Ou seja, sim, a cruz, mas ela é o caminho para a ressurreição. Isso significa que, seguindo os passos de Jesus Cristo como verdadeiros discípulos, devemos viver não simplesmente como quem está destinado a morrer, mas redescobrindo cada dia que todo este turbulento transcurso tem sentido quando se torna oferta: por Amor, com Amor e no Amor.

Pela sua Graça, temos força para não desistir diante dos nossos próprios fracassos: “é permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!” (Lc 21,19). Com Cristo, trilhamos o caminho na companhia do Divino Cireneu que nos sustenta. Nele, o Amor Encarnado, temos um porquê não desistir: pois a sua Cruz nos ensina que viver (e morrer) na doação de si é martírio que leva ao céu e sinal de contradição: “esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé” (Lc 21,13).

Que nossa Mãe Bendita, a Santa e sempre Virgem Maria, estrela da esperança, interceda por nós, agora e na hora de nossa morte. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!

DERRAMOU SEU SANGUE PELA UNIDADE DA IGREJA

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Da Encíclica Ecclesiam Dei, de Pio XI, papa.

A Igreja de Deus por admirável desígnio foi constituída de forma a ser, na plenitude dos tempos, semelhante a imensa família, abraçando a totalidade do gênero humano; e, por dom de Deus, sabemos ser ela visível não só por suas notas principais, como também pela unidade universal.

De fato, Cristo Senhor não apenas confiou somente aos apóstolos o dom que ele próprio recebera do Pai, ao dizer: Todo o poder me foi dado no céu e na terra; ide, pois, ensinai a São Josafá, Bispo e Mártirtodos os povos (Mt 28,18-19); mas também quis que o grupo dos apóstolos fosse em sumo grau um colégio só, duplamente ligado por estreito vínculo: intrinsecamente pela mesma fé e caridade, infundida em nossos corações pelo Espírito Santo(cf. Rm 5,5); extrinsecamente, pelo governo de um só sobre todos, ao entregar o principado a Pedro qual perpétuo princípio e visível fundamento da unidade.

Para que se mantivesse para sempre esta unidade e concórdia, Deus de suma providência consagrou-a com o sinete da santidade e do martírio.

Este grande louvor obteve-o o arcebispo de Polock, Josafá, de rito eslavônio oriental; com toda a razão o saudamos como honra insigne e coluna dos eslavos orientais. Com efeito, mal se encontra quem tenha mais ilustrado o nome deles ou servido melhor a sua salvação, que este pastor e apóstolo, mormente ao derramar o sangue pela unidade da santa Igreja. Além disto, sentindo-se divinamente impelido à reintegração universal na unidade santa, compreendeu que a melhor contribuição a dar seria guardar o rito oriental eslavônio e o monaquismo basiliano na unidade da Igreja universal.

Entrementes, solícito em primeiro lugar pela união de seus concidadãos com a cátedra de Pedro, buscava por toda a parte com empenho todos os argumentos que pudessem promovê-la ou confirmá-la. De modo especial, folheava assiduamente os livros litúrgicos usados pelos orientais e pelos dissidentes, segundo as ordenações dos santos padres. Preparado tão diligentemente, iniciou o trabalho de refazer a unidade, com tanto vigor e suavidade e com tanto êxito, que pelos próprios adversários foi chamado de “raptor de almas”.

O JUÍZO COMO LUGAR DE APRENDIZAGEM E DE EXERCÍCIO DA ESPERANÇA

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Da encíclica Spe Salvi, do Santo Padre, o Papa emérito, Bento XVI.

41. No grande Credo da Igreja, a parte central – que trata do mistério de Cristo a partir da sua geração eterna no Pai e do nascimento temporal da Virgem Maria, passando pela cruz e a ressurreição até ao seu retorno – conclui com as palavras: « … de novo há de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos ». Já desde os primeiros tempos, a perspectiva do Juízo influenciou os cristãos até na sua própria vida quotidiana enquanto critério segundo o qual ordenar a vida presente, enquanto apelo à sua consciência e, ao mesmo tempo, enquanto esperança na justiça de Deus. A fé em Cristo nunca se limitou a olhar só para trás nem só para o alto, mas olhou sempre também para a frente para a hora da justiça que o Senhor repetidas vezes preanunciara. Este olhar para diante conferiu ao cristianismo a sua importância para o presente. Na configuração dos edifícios sacros cristãos, que queriam tornar visível a vastidão histórica e cósmica da fé em Cristo, tornou-se habitual representar, no lado oriental, o Senhor que volta como rei – a imagem da esperança –, e no lado ocidental, o Juízo final como imagem da responsabilidade pela nossa vida, uma representação que apontava e acompanhava Espírito Santo - Vaticanoprecisamente os fiéis na sua caminhada diária. Na evolução da iconografia, porém, foi-se dando cada vez mais relevo ao aspecto ameaçador e lúgubre do Juízo, que obviamente fascinava os artistas mais do que o esplendor da esperança que acabava, com frequência, excessivamente escondido por debaixo da ameaça.

42. Na época moderna, o pensamento do Juízo final diluiu-se: a fé cristã é caracterizada e orientada sobretudo para a salvação pessoal da alma; ao contrário, a reflexão sobre a história universal está em grande parte dominada pela ideia do progresso. Todavia, o conteúdo fundamental da expectativa do Juízo não desapareceu pura e simplesmente. Agora, porém, assume uma forma totalmente distinta. O ateísmo dos séculos XIX e XX é, de acordo com as suas raízes e finalidade, um moralismo: um protesto contra as injustiças do mundo e da história universal. Um mundo, onde exista uma tal dimensão de injustiça, de sofrimento dos inocentes e de cinismo do poder, não pode ser a obra de um Deus bom. O Deus que tivesse a responsabilidade de um mundo assim, não seria um Deus justo e menos ainda um Deus bom. É em nome da moral que é preciso contestar este Deus. Visto que não há um Deus que cria justiça, parece que o próprio homem seja agora chamado a estabelecer a justiça. Se diante do sofrimento deste mundo o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz nem é capaz de fazer, é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira. Não é por acaso que desta premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça, mas funda-se na falsidade intrínseca desta pretensão. Um mundo que deve criar a justiça por sua conta, é um mundo sem esperança. Nada e ninguém responde pelo sofrimento dos séculos. Nada e ninguém garante que o cinismo do poder – independentemente do revestimento ideológico sedutor com que se apresente – não continue a imperar no mundo. Foi assim que os grandes pensadores da escola de Frankfurt, Max Horkheimer e Teodoro W. Adorno, criticaram tanto o ateísmo como o teísmo. Horkheimer excluiu radicalmente que se possa encontrar qualquer substitutivo imanente para Deus, rejeitando porém, ao mesmo tempo, a imagem do Deus bom e justo. Numa radicalização extrema da proibição das imagens no Antigo Testamento, ele fala da « nostalgia do totalmente Outro » que permanece inacessível – um grito do desejo dirigido à história universal. Adorno também se ateve decididamente a esta renúncia de toda a imagem que exclui, precisamente, também a « imagem » do Deus que ama. Mas ele sempre sublinhou esta dialética « negativa », afirmando que a justiça, uma verdadeira justiça, requereria um mundo « onde não só fosse anulado o sofrimento presente, mas também revogado o que passou irrevogavelmente. » [1]. Isto, porém, significaria – expresso em símbolos positivos e, portanto, para ele inadequados – que não pode haver justiça sem ressurreição dos mortos e, concretamente, sem a sua ressurreição corporal. Todavia uma tal perspectiva, comportaria « a ressurreição da carne, um dado que para o idealismo, para o reino do espírito absoluto, é totalmente estranho » [2].

43. Da rigorosa renúncia a qualquer imagem, que faz parte do primeiro Mandamento de Deus (cf. Ex 20,4), também o cristão pode e deve aprender sempre de novo. A verdade da teologia negativa foi evidenciada pelo IV Concílio de Latrão, ao declarar explicitamente que, por grande que seja a semelhança verificada entre o Criador e a criatura, sempre maior é a diferença entre ambos [3]. Para o crente, no entanto, a renúncia a qualquer imagem não pode ir até ao ponto em que se devia deter, como gostariam Horkheimer e Adorno, no « não » a ambas as teses: ao teísmo e ao ateísmo. O mesmo Deus fez-Se uma « imagem »: em Cristo que Se fez homem. N’Ele, o Crucificado, a negação de imagens erradas de Deus é levada ao extremo. Agora, Deus revela a sua Face precisamente na figura do servo sofredor que partilha a condição do homem abandonado por Deus, tomando-a sobre si. Este sofredor inocente tornou-se esperança-certeza: Deus existe, e Deus sabe criar a justiça de um modo que nós não somos capazes de conceber mas que, pela fé, podemos intuir. Sim, existe a ressurreição da carne [4]. Existe uma justiça [5]. Existe a « revogação » do sofrimento passado, a reparação que restabelece o direito. Por isso, a fé no Juízo final é, primariamente, e sobretudo esperança – aquela esperança, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convulsões dos últimos séculos. Estou convencido de que a questão da justiça constitui o argumento essencial – em todo o caso o argumento mais forte – a favor da fé na vida eterna. A necessidade meramente individual de uma satisfação – que nos é negada nesta vida – da imortalidade do amor que anelamos, é certamente um motivo importante para crer que o homem seja feito para a eternidade; mas só em conexão com a impossibilidade de a injustiça da história ser a última palavra, é que se torna plenamente convincente a necessidade do retorno de Cristo e da nova vida.

44. O protesto contra Deus em nome da justiça não basta. Um mundo sem Deus é um mundo sem esperança (cf. Ef 2,12). Só Deus pode criar justiça. E a fé dá-nos a certeza: Ele fá-lo. A imagem do Juízo final não é primariamente uma imagem aterradora, mas de esperança; a nosso ver, talvez mesmo a imagem decisiva da esperança. Mas não é porventura também uma imagem assustadora? Eu diria: é uma imagem que apela à responsabilidade. Portanto, uma imagem daquele susto acerca do qual, como diz Santo Hilário que todo o nosso medo tem lugar no amor [6]. Deus é justiça e cria justiça. Tal é a nossa consolação e a nossa esperança. Mas, na sua justiça, Ele é conjuntamente também graça. Isto podemos sabê-lo fixando o olhar em Cristo crucificado e ressuscitado. Ambas – justiça e graça – devem ser vistas na sua justa ligação interior. A graça não exclui a 291justiça. Não muda a injustiça em direito. Não é uma esponja que apaga tudo, de modo que tudo quanto se fez na terra termine por ter o mesmo valor. Contra um céu e uma graça deste tipo protestou com razão, por exemplo, Dostoëvskij no seu romance « Os irmãos Karamazov ». No fim, no banquete, eterno, não se sentarão à mesa indistintamente os malvados junto com as vítimas, como se nada tivesse acontecido. Aqui gostaria de citar um texto de Platão que exprime um pressentimento do justo juízo que, em boa parte, permanece verdadeiro e salutar também para o cristão. Embora com imagens mitológicas mas que apresentam com uma evidência inequívoca a verdade, ele diz que, no fim, as almas estarão nuas diante do juiz. Agora já não importa o que eram outrora na história, mas só aquilo que são de verdade. « Agora [o juiz] tem diante de si talvez a alma de um […] rei ou dominador, e nada vê de são nela. Encontra-a flagelada e cheia de cicatrizes resultantes de perjúrio e injustiça […] e está tudo torto, cheio de mentira e orgulho, e nada está direito, porque ela cresceu sem verdade. E ele vê como a alma, por causa do arbítrio, exagero, arrogância e leviandade no agir, se encheu de emproamento e infâmia. Diante de um tal espetáculo, ele envia-a imediatamente para a prisão, onde padecerá os castigos merecidos […]. Às vezes, porém, ele vê diante de si uma alma diferente, uma alma que levou uma vida piedosa e sincera […], compraz-se com ela e manda-a sem dúvida para as ilhas dos bem-aventurados » [7]. Jesus, na parábola do rico epulão e do pobre Lázaro (cf. Lc 16,19-31), apresentou, para nossa advertência, a imagem de uma tal alma devastada pela arrogância e opulência, que criou, ela mesma, um fosso intransponível entre si e o pobre: o fosso do encerramento dentro dos prazeres materiais; o fosso do esquecimento do outro, da incapacidade de amar, que se transforma agora numa sede ardente e já irremediável. Devemos aqui destacar que Jesus, nesta parábola, não fala do destino definitivo depois do Juízo universal, mas retoma a concepção do judaísmo antigo de uma condição intermédia entre morte e ressurreição, um estado em que falta ainda a última sentença.

45. Esta ideia do judaísmo antigo da condição intermédia inclui a opinião de que as almas não se encontram simplesmente numa espécie de custódia provisória, mas já padecem um castigo, como demonstra a parábola do rico epulão, ou, ao contrário, gozam já de formas provisórias de bem-aventurança. E, por último, não falta a noção de que, neste estado, sejam possíveis também purificações e curas, que tornam a alma madura para a comunhão com Deus. A Igreja primitiva assumiu tais ideias, a partir das quais, se desenvolveu aos poucos na Igreja ocidental a doutrina do purgatório. Não há necessidade de examinar aqui as complicadas vias históricas desta evolução; perguntemo-nos apenas de que se trata realmente. Com a morte, a opção de vida feita pelo homem torna-se definitiva; esta sua vida está diante do Juiz. A sua opção, que tomou forma ao longo de toda a vida, pode ter caracteres diversos. Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. Trata-se de uma perspectiva terrível, mas algumas figuras da nossa mesma história deixam entrever, de forma assustadora, perfis deste género. Em tais indivíduos, não haveria nada de remediável e a destruição do bem seria irrevogável: é já isto que se indica com a palavra inferno [8]. Por outro lado, podem existir pessoas puríssimas, que se deixaram penetrar inteiramente por Deus e, consequentemente, estão totalmente abertas ao próximo – pessoas em quem a comunhão com Deus orienta desde já todo o seu ser e cuja chegada a Deus apenas leva a cumprimento aquilo que já são [9].

46. Mas, segundo a nossa experiência, nem um nem outro são o caso normal da existência humana. Na maioria dos homens – como podemos supor – perdura no mais profundo da sua essência uma derradeira abertura interior para a verdade, para o amor, para Deus. Nas opções concretas da vida, porém, aquela é sepultada sob repetidos compromissos com o mal: muita sujeira cobre a pureza, da qual, contudo, permanece a sede e que, apesar de tudo, ressurge sempre de toda a abjecção e continua presente na alma. O que acontece a tais indivíduos quando comparecem diante do Juiz? Será que todas as coisas imundas que acumularam na sua vida se tornarão de repente irrelevantes? Ou acontecerá algo de diverso? São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, dá-nos uma ideia da distinta repercussão do juízo de Deus sobre o homem, conforme as suas condições. Fá-lo com imagens que, de alguma forma, querem exprimir o invisível, mas sem as podermos transformar em conceitos, pelo simples motivo de que não nos é possível entrever o mundo além da morte nem possuímos qualquer experiência dele. Acerca da existência cristã, Paulo afirma antes de mais que está construída sobre um fundamento comum: Jesus Cristo. Este fundamento resiste. Se nele permanecermos firmes e sobre ele construirmos a nossa vida, sabemos que este fundamento não nos pode ser tirado, nem mesmo na morte. E Paulo continua: « Se alguém edifica sobre este fundamento com ouro, prata, pedras preciosas, madeiras, feno ou palha, a obra de cada um ficará patente, pois o dia do Senhor a fará conhecer. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída subsistir, o construtor receberá a paga. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá a perda. Ele, porém, será salvo, como que através do fogo » (3,12-15). Seja como for, neste texto torna-se evidente que a salvação dos homens pode acontecer sob distintas formas: algumas coisas edificadas podem queimar completamente; para alcançar a salvação, é preciso atravessar pessoalmente o « fogo » para se tornar definitivamente capaz de Deus e poder sentar-se à mesa do banquete nupcial eterno.

47. Alguns teólogos recentes são de parecer que o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e Salvador. O encontro com Ele é o ato decisivo do Juízo. Ante o seu olhar, funde-se toda a falsidade. É o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos. As coisas edificadas durante a vida podem então revelar-se palha seca, pura fanfarronice e desmoronar-se. Porém, na dor deste encontro, em que o impuro e o nocivo do nosso ser se tornam evidentes, está a salvação. O seu olhar, o toque do seu coração cura-nos através de uma transformação certamente dolorosa « como pelo fogo ». Contudo, é uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus. Deste modo, torna-se evidente também a compenetração entre justiça e graça: o nosso modo de viver não é irrelevante, mas a nossa sujeira não nos mancha para sempre, se ao menos continuámos inclinados para Cristo, para a verdade e para o amor. No fim de contas, esta sujeira já foi queimada na Paixão de Cristo. No momento do Juízo, experimentamos e acolhemos este prevalecer do seu amor sobre todo o mal no mundo e em nós. A dor do amor torna-se a nossa salvação e a nossa alegria. É claro que a « duração » deste queimar que transforma não a podemos calcular com as medidas de cronometragem deste mundo. O « momento » transformador deste encontro escapa à cronometragem terrena: é tempo do coração, tempo da « passagem » à comunhão com Deus no Corpo de Cristo [10]. O Juízo de Deus é esperança quer porque é justiça, quer porque é graça. Se fosse somente graça que torna irrelevante tudo o que é terreno, Deus ficar-nos-ia devedor da resposta à pergunta acerca da justiça – pergunta que se nos apresenta decisiva diante da história e do mesmo Deus. E, se fosse pura justiça, o Juízo em definitivo poderia ser para todos nós só motivo de temor. A encarnação de Deus em Cristo uniu de tal modo um à outra, o juízo à graça, que a justiça ficou estabelecida com firmeza: todos nós cuidamos da nossa salvação « com temor e tremor » (Fl 2,12). Apesar de tudo, a graça permite-nos a todos nós esperar e caminhar cheios de confiança ao encontro do Juiz que conhecemos como nosso « advogado », parakletos (cf. 1 Jo 2,1).

48. Há ainda um motivo que deve ser mencionado aqui, porque é importante para a prática da esperança cristã. No antigo judaísmo, existe também a ideia de que se possa ajudar, através da oração, os defuntos no seu estado intermédio (cf. por exemplo, 2Mac 12,38-45: obra do I século a.C.). A prática correspondente foi adoptada pelos cristãos com grande naturalidade e é comum à Igreja oriental e ocidental. O Oriente não conhece um sofrimento purificador e expiatório das almas no « além », mas conhece diversos graus de bem-aventurança ou também de sofrimento na condição intermédia. Às almas dos defuntos, porém, pode ser dado « alívio e refrigério » mediante a Eucaristia, a oração e a esmola. O facto de que o amor possa chegar até ao além, que seja possível um mútuo dar e receber, permanecendo ligados uns aos outros por vínculos de afeto para além das fronteiras da morte, constituiu uma convicção fundamental do cristianismo através de todos os séculos e ainda hoje permanece uma experiência reconfortante. Quem não sentiria a necessidade de fazer chegar aos seus entes queridos, que já partiram para o além, um sinal de bondade, de gratidão ou mesmo de pedido de perdão? Aqui levantar-se-ia uma nova questão: se o « purgatório » consiste simplesmente em ser purificados pelo fogo no encontro com o Senhor, Juiz e Salvador, como pode então intervir uma terceira pessoa ainda que particularmente ligada à outra? Ao fazermos esta pergunta, deveremos dar-nos conta de que nenhum homem é uma mônada fechada em si mesma. As nossas vidas estão em profunda comunhão entre si; através de numerosas interações, estão concatenadas uma com a outra. Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem. Deste modo, a minha intercessão pelo outro não é de forma alguma uma coisa que lhe é estranha, uma coisa exterior, nem mesmo após a morte. Na trama do ser, o meu agradecimento a ele, a minha oração por ele pode significar uma pequena etapa da sua purificação. E, para isso, não é preciso converter o tempo terreno no tempo de Deus: na comunhão das almas fica superado o simples tempo terreno. Nunca é tarde demais para tocar o coração do outro, nem é jamais inútil. Assim se esclarece melhor um elemento importante do conceito cristão de esperança. A nossa esperança é sempre essencialmente também esperança para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim [11]. Como cristãos, não basta perguntarmo-nos: como posso salvar-me a mim mesmo? Deveremos antes perguntar-nos: o que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança? Então terei feito também o máximo pela minha salvação pessoal.

 

[1] Negative Dialektik (1966), Terceira parte, III, 11, em: Gesammelte Schriften Vol. VI, Frankfurt/Main 1973, 395.

[2] Ibid., Segunda parte, 207.

[3] DS 806.

[4] Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 988-1004.

[5] Cf. ibid., n. 1040.

[6] Cf. Tractatus super Psalmos, Sal 127, 1-3: CSEL 22, 628-630.

[7] Gorgia, 525a-526c.

[8] Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1033-1037.

[9] Cf. ibid., nn. 1023-1029.

[10] Acerca do Purgatório, veja-se o Catecismo da Igreja Católica, nn. 1030-1032.

[11] Cf. Catecsimo da Igreja Católica, n. 1032.

TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, no trigésimo segundo domingo do Tempo Comum, em polêmica com os saduceus, Jesus nos fala sobre a ressurreição dos mortos (cf. Lc 20,27-38). Peçamos ao Senhor que fortaleça nossa esperança e sustente-nos na cotidiana prática do bem.

Para termos uma visão geral sobre qual a nossa profissão de fé, enquanto católicos, acerca da ressurreição dos mortos, recomendo a leitura atenta do Catecismo da Igreja Católica [1] e da encíclica do Papa emérito Bento XVI, Spe Salvi. Para nossa oração, a partir da primeira leitura (cf. 2Mc 7,1-2.9-14), meditemos sobre a ressurreição: não só esperança fundamental em nossa caminhada como cristãos, mas também grande icona_16-2consolação nos momentos mais difíceis.

É fundamental crer no juízo, na ressurreição e na vida eterna porque isto nos permite perceber para onde estamos conduzindo nossa vida. De fato, diante da morte não há camuflagem ou jogos de palavras. “Prefiro ser morto pelos homens tendo em vista a esperança dada por Deus, que um dia nos ressuscitará”, diz o quarto irmão macabeu (cf. 2Mc 7,14). Só quem espera encontrar definitivamente o imenso Amor será capaz de, por amor, gastar-se neste mundo. Na esperança que vem do Senhor e na sua graça que nos sustenta, é possível ser generoso na prática do bem superando qualquer dificuldade.

E é também reconfortante esperar no Senhor, justo Juiz, porque isso nos lembra que o mal não tem a palavra final. Diante da injustiça, o desânimo bate à nossa porta. O triste espetáculo do mal, seja dentro de nós, seja no ambiente em que vivemos, é um grande questionamento que pode nos levar a desistir. Mas, com os olhos fixos naquele que nos renova, nossos corações se enchem de ânimo e nossas boas ações e palavras são confirmadas: em nosso Senhor Jesus Cristo, o bem vencerá.

Que a Bem-aventurada Virgem Maria, estrela da esperança, interceda por nós hoje e sempre. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!

 

[1] n. 988-1060.

 

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS (Pe. Lucas, scj)

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Todos os Santos (ícone) (5)

Caros irmãos, neste domingo celebramos a Solenidade de Todos os Santos, transferida, no Brasil, da última sexta-feira. Este é um momento no qual o Senhor nos dá a sua consolação e também confirma nossa vocação. Com o evangelho das bem-aventuranças (Mt 5,1-12a), peçamos ao Senhor Jesus que nos dê a graça de sermos cada vez mais parecidos com Ele.

Celebrar todos os santos é, antes de tudo, uma consolação. Isso porque contemplamos uma verdadeira multidão (cf. Ap 7,9 – primeira leitura) daqueles que, ao longo da história, correspondendo ao Amor de Deus, venceram o demônio, a concupiscência da carne e o mundo e, assim, reinam nos céus com o Pai. Eles são, para nós, não só auxílio, já que com a sua intercessão nos ajudam no Caminho, mas também sinal de esperança, pois vemos neles que o mal não tem a palavra final: o Senhor, de fato, jamais abandona seu povo e não cessa de chamá-lo, sustentá-lo e conduzi-lo à vida perfeita das bem-aventuranças. Mais ainda, sua presença e seu auxílio nos consolam porque nos recordam que jamais estamos sozinhos, ainda que, muitas vezes, assim nos sintamos em nosso dia-a-dia.

Os santos por nós celebrados ainda nos recordam a nossa vocação à santidade (cf. Lumen Gentium, 39). Não importa, então, qual o nosso estado de vida: nosso Senhor não nos chama à mediocridade, mas à santidade. E, sendo esta uma vocação, ou seja, um chamado, fica claro, mais uma vez, que se trata de uma iniciativa divina, sinal do Amor Misericordioso com que somos amados. Portanto, para responder a tão sublime convite, não nos apoiamos simplesmente nas nossas capacidades, mas, ainda que vacilantes, confiamos nas suas promessas e buscamos, como a Rainha e seus numerosos súditos, dizer sim a Deus todos os dias de nossa vida.

Que Nossa Senhora, a Bem-aventurada Virgem Maria, e todos os santos intercedam por nós a fim de que sejamos, também nós, santos pela graça de Deus. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém!

MORRAMOS COM CRISTO, PARA VIVERMOS COM ELE

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Do Livro sobre a morte de seu irmão Sátiro, de Santo Ambrósio, bispo

Percebemos que a morte é lucro, e a vida, castigo. Por isso Paulo diz: Para mim, viver é Cristo, e morrer é lucro (Fl 1,21). Como unir-se a Cristo, espírito da vida, senão pela morte do corpo? Morramos então com ele, para com ele vivermos. Morramos diariamente no desejo e em ato, para que, por esta segregação, nossa alma aprenda a se subtrair das concupiscências corporais. Que ela, como se já estivesse nas alturas, onde não a alcançam os desejos terrenos, aceite a imagem da morte para não incorrer no castigo da morte. Pois a lei da carne luta contra a lei do espírito e apoia-se na lei do erro. Mas qual o Vela - féremédio? Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24) A graça de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor (cf. Rm 7,25s).

Temos o médico, usemos o remédio. Nosso remédio é a graça de Cristo, e corpo de morte é o nosso corpo. Portanto afastemo-nos do corpo e não se afaste de nós o Cristo! Embora ainda no corpo, não lhe obedeçamos, não abandonemos as leis naturais, mas prefiramos os dons da graça.

E que mais? Pela morte de um só, o mundo foi remido. Cristo, se quisesse, poderia não ter morrido. Não julgou, porém, dever fugir da morte como coisa inútil nem que nos salvaria melhor, evitando a morte. Com efeito, sua morte é a vida de todos. Somos marcados com sua morte, ao orar anunciamos sua morte, ao oferecer o sacrifício pregamos sua morte. Sua morte é vitória, é sacramento, é a solenidade anual do mundo.

Não diremos ainda mais sobre a sua morte, se provarmos pelo exemplo divino que dela resultou a imortalidade, e que a morte se redimiu a si mesma? Não se deve lastimar a morte, que é causa da salvação do povo. Não se deve fugir da morte, que o Filho de Deus não rejeitou, e da qual não fugiu.

Na verdade, a morte não era da natureza, mas converteu-se em natureza. No princípio, Deus não fez a morte, mas deu-a como remédio. Pela prevaricação, condenada ao trabalho de cada dia e ao gemido intolerável, a vida dos homens começou a ser miserável. Era preciso dar fim aos males, para que a morte restituísse o que a vida perdera. Pois a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça.

Por isso, tem o espírito de afastar-se logo da vida tortuosa e das nódoas do corpo terreno, e lançar-se para a celeste assembleia, embora pertença só aos santos lá chegar, e cantar a Deus o louvor, descrito no livro profético, que os citaristas cantam: Grandes e maravilhosas tuas obras, Senhor Deus onipotente; justos e verdadeiros teus caminhos, ó Rei das nações! Quem não temeria e não glorificaria teu nome? Porque só tu és santo; todos os povos irão e se prostrarão diante de ti (Ap 15,3-4). Contemplar também, ó Jesus, tuas núpcias, nas quais a esposa, ao canto jubiloso de todos, é conduzida da terra ao céu – a ti virá toda carne (Sl 64,3) – já não mais manchada pelo mundo, mas unida ao espírito.

Era isto que o santo Davi desejava, acima de tudo, contemplar e admirar, quando dizia: Uma só coisa pedi ao Senhor, a ela busco: habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida e ver as delícias do Senhor (Sl 26,4).

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