Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A perícope evangélica que meditamos hoje na Festa da Sagrada Família, em plena Oitava do Natal, não nos faz lembrar apenas das agruras que Maria e José tiveram que passar no cumprimento da missão que receberam do próprio Deus, que lhes confiou o seu Filho Unigênito. Mas o relato do evangelho espelha toda a vida de Jesus, perseguido, rejeitado e condenado à morte pelos poderosos desse mundo, mas plenamente vitorioso. A perseguição a Jesus e à sua família não cessou, apesar de já termos a certeza de que o Filho da Mulher esmagou a cabeça da serpente, e vencendo a morte, derrotou todos os poderes tiranos do mundo. Contudo, a luta não tem sido fácil, pois o próprio Senhor pagou um alto preço ao destruir os inimigos da vida, e cabe também a nós, que nos dispomos a colaborar nesse plano, também enfrentar as consequências da missão.

Ao encarnar-se, o Filho de Deus se tornou irmão de todo ser humano, portanto, ninguém está excluído de participar da sua família universal e sagrada; a vinda dos Magos do Oriente à gruta de Belém é a grande proclamação da salvação cujo destino é universal. Porém, a exigência que se faz para poder ser membro dessa família é reconhecer que a SFamília.jpgvida, dom do amor misericordioso do Deus conosco, tem valor absoluto, pois é a única grávida de eternidade, por isso, essa vida deve ser respeitada na sua dignidade e protegida na sua realização, superando toda inclinação reducionista que vê a existência apenas como uma possibilidade temporal, sem nada mais além dos anos que são transcorridos na terra involucrados pela ilusão de que aqui encontraremos realização plena.

Vemos no texto de hoje uma tensão entre a morte e a vida, perseguição e salvação. Quando parece que tudo está perdido, Deus manifesta-se como Aquele que chama constantemente para a vida, pois só Ele é o verdadeiro libertador. A missão do Emanuel, ao qual José dará o nome de Jesus, é apresentada no evangelho à luz de um importante personagem do Antigo Testamento: Moisés. O Verbo encarnado ao nascer recebeu o nome de Jesus, porque “salvará o seu povo dos seus pecados” (Jesus: Deus salva, Mt 1,21). Assim como Moisés foi o libertador da opressão do Egito, Jesus muito mais ainda será libertador, pois não nos liberta apenas de um sistema político-econômico opressor, mas de todo tipo de morte, pois Ele nos dá a vida eterna. O paralelo que Mateus estabelece no início do evangelho entre Jesus e Moisés não pode ser visto apenas como um artifício literário (midrash), mas tem como finalidade evidenciar a verdade da missão de Jesus, como Deus que continua salvando no hoje da história, da qual o testemunho mais convincente é a própria história de salvação realizada no Antigo Testamento, cujo núcleo fundamental é a revelação de Deus no Êxodo, tendo como instrumento Moisés.

Após visita dos Magos, um momento exuberante de alegria, descortina-se a dura realidade da perseguição: “Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. Inicia-se, desse modo, o permanente combate entre a vida e a morte. Assim como Moisés nasceu num contexto de matança dos seus coetâneos e conterrâneos, por ordem do Faraó (Ex 1,15.16.22), também o novo Libertador passará pela ameaça de morte por ordem do rei Herodes. A fuga para o Egito ressalta as semelhanças da missão dos dois libertadores. Diante da ameaça de morte, que pode pôr fim à missão, revela-se a ação de Deus através de quem está disposto a colaborar, e assim nada impedirá o seu cumprimento. Tanto a mãe de Moisés quanto José se tornam instrumentos de Deus no combate contra as forças de morte. É Deus quem vence, mas conta com a colaboração humana nessa batalha: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito”. Diante de uma missão tão sublime de colaboradores do próprio Deus no seu desígnio eterno de salvação, Maria e José poderiam ter reivindicado para o Filho do Altíssimo uma escolta de anjos bem armados, ou poderes mágicos que garantissem a sua defesa em qualquer perigo ou investida de inimigos. Mas isso não aconteceu. Deus não chama e confia uma missão garantindo soluções infantis de quem confia desconfiando, mas ao mesmo tempo não abandona os chamados. É a sua palavra que vai guiando na realização da missão; contudo diante da missão recebida, exige-se fidelidade e obediência: “José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito”.

A fuga muitas vezes pode parecer covardia, portanto, é preciso discernir o que nos faz fugir. A atitude de José não foi iniciativa sua, mas obediência à Palavra de Deus. Objetivamente falando, a fuga é sempre motivada pelo instinto de defesa e sobrevivência, contudo para não incorrer em infidelidade e traição diante da missão, precisa ser enraizada na obediência. E, portanto, o que pode parecer uma fuga covarde, se for obediência a Deus, Ele mesmo a transforma em peregrinação confiante rumo à realização do seu plano, cujo autor e garante é Ele mesmo, pois somos apenas colaboradores, que sem obediência, apesar de muita boa vontade, retardaremos a realização do seu plano de salvação e vida plena: “Volta… Pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos”.

Que a festa da Sagrada Família nos ajude a crer que, para salvar a vida, fugir pode ser a única estrada para ficarmos juntos. Fugir do comodismo, do egoísmo, do individualismo, do desrespeito, do ódio, da competição desleal, da indiferença… Tudo isso é ameaça à vida humana tanto pessoal quanto familiar. Levantemo-nos, ainda que de noite, obedeçamos à Palavra de Deus, não deixemos de lado ninguém, e ainda que seja longa e fatigosa a peregrinação, o destino é certo.