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III Domingo Tempo Comum: Mt 4,12-23 – É preciso pescar diferente!

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

O evangelho de hoje mais do que descrever o início da vida pública de Jesus, após o seu batismo e sua preparação no deserto vencendo as tentações, faz-nos refletir sobre um grande mistério: o modo que Deus escolheu para salvar a humanidade ao enviar o seu Filho ao mundo. Certamente não se pode entender essa sua opção, pois sendo um mistério, transcende a nossa capacidade de compreensão, contudo é uma verdade inegável a ser vivenciada. Sendo o Todo-poderoso, Ele quis precisar de nós para realizar o seu plano de salvação. Santo Agostinho dirá, a partir da sua experiência: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.

Contando com a ajuda dos seus primeiros discípulos e, ao longo da história, de todas as pessoas que têm dito sim ao seu chamado, Jesus testemunha que o Pai nos salva, considerando-nos capazes de responder com liberdade ao seu apelo. Não nos trata como seres infantilizados, objetos da sua complacência, mas conta com a nossa colaboração, pois nos fez à sua imagem e semelhança.

Para além dos aspectos históricos presentes na narração, Mateus nos introduz num nível mais profundo, cada elemento sublinhado nos faz adentrar numa dimensão simbólica que nos ajuda a perceber o significado da missão salvífica de Jesus. Saindo de Nazaré para estabelecer-se em Cafarnaum, o Mestre não apenas procura um lugar mais estratégico (fronteira) para desempenhar as suas atividades, mas indica qual o significado de sua missão. Em hebraico, Cafarnaum significa: aldeia de Naum (Nahum, conforto, consolo). Assim se cumpre a promessa de Deus que envia o seu Messias para Apóstolosconsolar o seu povo (cf. Is 40,1). Consolar na tradição bíblica significa estar junto aos sozinhos, abandonados, desprezados. Por isso, representa uma luz que desponta, que brilha para “aqueles que estão sentados (jazem como mortos) na região escura da morte”. E este consolo de Deus é apelo de conversão (metanoia, mudança de mentalidade).

Ao chamar pescadores para segui-lo, Jesus retoma uma expectativa vetero-testamentária que traduzia a intervenção de Deus para libertar o seu povo no fim dos tempos com a imagem da pesca escatológica (Jr 16,16; Mt 13,47-50). É interessante notar que além de pescadores, tanto Simão e André, como Tiago e João, são irmãos. O Reino de Deus instaura-se à medida que se faz a experiência da fraternidade; enquanto não se reconhece que a dimensão mais profunda que liga os seres humanos é a sua condição fundamental de igualdade, o ser irmão, a experiência de salvação é postergada. Por outro lado, ressaltando que os primeiros chamados têm nome: Simão e André; Mateus evidencia que a vocação é uma resposta de Deus à necessidade do ser humano (Simão: Deus escutou), e essa resposta deve ser dada por um ser humano concreto (André: varão).

Ao dizer-lhes: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”, Jesus lhes apresenta um caminho de verdadeira conversão: seguir a luz, e deixar-se transformar por ela. A linguagem simbólica indica que a mudança radical está na finalidade da pesca. Até então lançavam as redes para pescar peixes cujo destino era morte; a partir de agora, seguindo aquele que dá a vida, tornar-se-ão pescadores de homens (anthropous: seres humanos, por extensão de significado, seres vivos), isto é, a missão desses seguidores é conduzir as pessoas para a vida. Se para eles as redes eram importantes para garantir a morte dos peixes, agora deixar-se arrastar pelo convite do Mestre é tornar-se instrumento de libertação. Tiago e João são identificados como “de Zebedeu” (o texto grego não inclui a palavra “filhos”); mais uma vez o evangelista sublinha que a vocação é um dom dado pelo próprio Deus (Zebedeu: hebraico Zabdi’el, Deus deu); mais na frente, Jesus orientará os seus discípulos para que “peçam ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe” (Mt 9,37-38). Significativos também são os nomes desses últimos chamados, pois evocam de modo concreto a missão de Jesus como sendo o enviado de Deus para consolar o seu povo (Tiago: Jacó, abreviação de Ia’aqob’el, Deus protege; João: Iehohhanam, Javé é misericordioso). Jesus é verdadeiramente aquele que protege, livra da morte o seu povo, e manifesta-lhe a misericórdia do Pai. Por conseguinte, os seus seguidores devem partilhar da mesma missão do Mestre.

Deixar tudo, abandonar as redes e até o pai, são atitudes necessárias para quem toma a decisão de ser um colaborador de Jesus. Ele que não precisa de ninguém e de nada, quer contar com quem também esteja disposto a não se apegar a nada e a ninguém. Se Deus livremente escolheu contar com nossa ajuda, só é possível responder a este apelo se tomarmos a decisão de libertar-nos de tudo aquilo que nos aprisiona a estruturas de morte (redes) para, assim, podermos ser instrumentos para a vida, anunciando o evangelho do Reino que cura todo tipo de doença e enfermidade humanas.

Crescer na consciência de que Deus conta conosco para a instauração do seu Reino não deve ser motivo de orgulho, mas de gratidão. Se até então a nossa pesca foi infrutífera, levou à morte, Ele nos desafia hoje a pescar diferente, seguindo o Pescador de outros lagos, o seu Filho, numa atitude de permanente conversão.

 

Ainda não preparada para o sofrimento e já madura para a vitória!

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Do Tratado sobre as Virgens, de Santo Ambrósio, bispo.

Celebramos o natalício de uma virgem: imitemos sua integridade; é o natalício de uma mártir: ofereçamos sacrifícios. É o aniversário de Santa Inês. Conta-se que sofreu o martírio com a idade de doze anos. Quanto mais detestável foi a crueldade que não poupou sequer tão tenra idade, tanto maior é a força da fé que até naquela idade encontrou testemunho.

Haveria naquele corpo tão pequeno lugar para uma ferida? Mas aquela que quase não tinha tamanho para receber o golpe da espada, teve força para vencer a espada. E isto numa idade em que as meninas não suportam sequer ver o rosto zangado dos pais e Inêschoram como se uma picada de alfinete fosse uma ferida!

Mas ela permaneceu impávida entre as mãos ensanguentadas dos carrascos, imóvel perante o arrastar estridente dos pesados grilhões. Oferece o corpo à espada do soldado enfurecido, sem saber o que é a morte, mas pronta para ela. Levada à força até os altares dos ídolos, estende as mãos para Cristo no meio do fogo, e nestas chamas sacrílegas mostra o troféu do Senhor vitorioso. Finalmente, tendo que introduzir o pescoço e ambas as mãos nas algemas de fero, nenhum elo era suficientemente apertado para segurar membros tão pequeninos.

Novo gênero de martírio? Ainda não preparada para o sofrimento e já madura para a vitória! Mal sabia lutar e facilmente triunfa! Dá uma lição de firmeza apesar de tão pouca idade! Uma recém-casada não se apresaria para o leito nupcial com aquela alegria com que esta virgem correu para o lugar do suplício, levando a cabeça enfeitada não de belas tranças mas de Cristo, e coroada não de flores mas de virtudes.

Todos choram, menos ela. Muitos se admiram de vê-la entregar tão generosamente a vida que ainda não começara a gozar, como se já tivesse vivido plenamente. Todos ficam espantados que já se levante como testemunha de Deus quem, por causa da idade, não podia ainda dar testemunho de si. Afinal, aquela que não mereceria crédito se testemunhasse a respeito de um homem, conseguiu que lhe dessem crédito ao testemunhar acerca de Deus. Pois o que está acima da natureza, pode fazê-lo o Autor da natureza.

Quantas ameaças não terá feito o carrasco para incutir-lhe terror! Quantas seduções para persuadi-la! Quantas propostas para casar com algum deles! Mas sua resposta foi esta: “É uma injúria ao Esposo esperar por outro que me agrade. Aquele que primeiro me escolheu para si, esse é que me receberá. Por que demoras, carrasco? Pereça este corpo que pode ser amado por quem não quero!” Ficou de pé, rezou, inclinou a cabeça.

Terias podido ver o carrasco perturbar-se, como se fosse ele o condenado, tremer a mão que desfecharia o golpe, e empalidecerem os rostos temerosos do perigo alheio, enquanto a menina não temia o próprio perigo. Tendes, pois, numa única vítima um duplo martírio: o da castidade e o da fé. Inês permaneceu virgem e alcançou o martírio.

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A (P. Lucas, scj)

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eis o cordeiro peter murphy

Caros irmãos, celebrando o segundo domingo do Tempo comum, a liturgia propõe, para nossa reflexão e oração, a memória do Batismo do Senhor segundo S. João (cf. Jo 1,29-34). Peçamos a Deus a sua Graça para que possamos, nas atividades cotidianas, estar unidos sempre a Jesus e nos tornarmos suas testemunhas.

Já antes que Jesus inicie sua atividade, o quarto evangelho nos apresenta, através do testemunho de João Batista, indica quem Ele é e qual a sua missão: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Ou seja, Jesus Cristo é o Servo do Senhor que foi profetizado por Isaías e que vem para salvar seu Povo. Dessa forma, as palavras e a vida de João apontam para tal realidade tão profunda: “se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel” (Jo 1,31). Mas o Senhor vem para salvar não só Israel, mas toda humanidade: “eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra” (Is 49,6 – primeira leitura).

Ora, esta salvação chegou até nós, onde quer que estivéssemos, através da missão da Igreja que nos anunciou o Evangelho e na qual recebemos o Batismo. Podemos, então, louvar e agradecer ao Senhor, nosso Deus, que nos amou de modo admirável e nos alcançou com sua Misericórdia. E contemplando tão grande dom, somos convidados a nos deixar mover pelo seu amor e respondermos positivamente ao seu chamado de sermos santos (cf. 1Cor 1,2 – segunda leitura), assumindo a nossa missão e testemunhando a Boa Nova da Salvação. Reconciliados com Deus, vivamos, portanto, buscando a Sua Face e correspondendo ao seu amor em cada uma das atividades do nosso dia a dia.

Peçamos a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria e de seu castíssimo esposo São José, a fim de que nossa vida seja anúncio Evangelho. Rezemos também pela unidade de todos os cristãos.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

II Domingo Tempo Comum: Jo 1,29-34 – Testemunhar é mais do que falar

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Após celebrarmos o jubiloso Tempo do Natal do Senhor, entramos agora no Tempo Comum, cuja finalidade é nos conduzir pedagogicamente, guiados pela Palavra de Deus, de modo particular pelo Evangelho, num caminho de conhecimento da Pessoa de Jesus e de sua missão, a fim de crescermos na convicção e no compromisso de viver a nossa opção de ser seus seguidores e testemunhas. Por isso, iniciamos esse percurso seguindo a dinâmica do próprio evangelho, que apresenta o testemunho de João Batista como um marco importante no encontro com Jesus, que nos convida a segui-lo.

No testemunho de João Batista encontra-se a síntese perfeita de quem é Jesus e qual é a sua missão: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Estas palavras do precursor representam uma densa retrospectiva de todo o Antigo Testamento, como história de um povo que espera o cumprimento das promessas de Deus, que aguarda a chegada do Messias prometido; mas também serve de introdução a tudo aquilo que os S Joao Batistaevangelhos, a pregação do Cristianismo primitivo e, naturalmente, a permanente missão da Igreja conservam e transmitem como verdade de fé sobre Jesus, a sua vida e o seu ensinamento.

Proclamando Jesus o Cordeiro de Deus, o Batista descortina o imenso horizonte do Antigo Testamento. A palavra cordeiro (grego: amnós, pode ser a tradução do aramaico: talya, servo) evoca uma longa e rica tradição da experiência do Povo de Deus, desde o tempo dos patriarcas, passando pelos acontecimentos do Êxodo até o surgimento das expectativas messiânicas no tempo dos profetas. Para além de uma questão semântica do termo, estamos diante de situações históricas que marcam o longo caminho da revelação de Deus ao seu povo. O simbolismo do cordeiro evoca a lembrança do cordeiro que era sacrificado na Páscoa como memorial da intervenção libertadora do Senhor para arrancar o seu povo das garras do Faraó (Ex 12). Os cordeiros eram também sacrificados diariamente no templo, de manhã e à tarde, como ofertas expiatórias (Ex 29,38-46). Os profetas, por sua vez, também usam esse símbolo para descrever as características do Servo de Javé: humilde e manso (Is 53,7).

Ao especificar que este cordeiro é “de Deus”, o profeta João Batista o distingue de todas as outras imagens do Antigo Testamento, pois evidencia qual é a sua identidade fundamental, isto é, este cordeiro é único, pois é aquele que só Deus enviará, uma vez que todos os outros pertenciam aos homens, eram animais dos seus rebanhos ou metáforas da linguagem profética. Esse é o cordeiro que Abraão não possuía para oferecer no lugar do seu filho único e amado; por isso, anuncia a Isaac que Deus o providenciará, a fim de que o seu sacrifício seja perfeito (Gn 22). Este é o único cordeiro, que mesmo morrendo, e tendo o seu sangue derramado em libação, não permanece morto, mas está de pé (Ap 5,6).

Desse modo, João apresenta quem é Jesus, que não deve ser confundido com nenhum outro, pois Ele não é apenas um enviado de Deus, um grande profeta ou mesmo um herói nacionalista, mas Ele é o Filho de Deus.

Depois de deixar clara qual é a identidade do Messias, João afirma qual será a sua missão: “Aquele que tira o pecado do mundo”. Chama a atenção que João Batista não se dirige a Jesus chamando-o pelo nome, mas sublinhando o que significa o seu nome (Jesus: “Deus salva”). Na tradição bíblica o nome tem muita importância porque diz algo da pessoa, não é apenas uma identificação artificial, externa. Desse modo, João Batista indica a essência do nome Jesus: “Aquele que tira o pecado do mundo”, muito coerente com aquilo que o anjo diz a José em sonho: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

O evangelista João mais adiante relembrará que a salvação realizada por Jesus é a grande prova do amor de Deus, que “amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Como o Batista tinha especificado que o cordeiro “é de Deus”, agora ele diz que o pecado “é do mundo”. Para João evangelista, mundo pode significar a criação, a humanidade, mas também tudo aquilo que se opõe ao projeto de Deus, diríamos o mundo deformado; o pecado é a atitude de fechamento do ser humano ao amor e, portanto, transforma o mundo criado por Deus (cosmos) em desumanização, destruição da vida (caos). O pecado do mundo (de Adão e Eva, da humanidade) é a desobediência à voz de Deus que provoca toda sorte de desordem nas relações entre os seres humanos consigo mesmos, com os outros e com a criação. O pecado do mundo é a decisão do homem de negar a sua condição e, por conseguinte, tornar-se um instrumento de destruição da criação, inclusive da sua própria vida.

João Batista reconhece que Jesus é aquele que tira o pecado do mundo quando, ao batizá-lo, vê descer sobre Ele o Espírito Santo, em forma de pomba, e ouve a voz dos céus que confirma ser ele o Filho de Deus. Portanto, com Jesus inicia-se a nova criação. Assim como no princípio, sobre as águas pairava o Espírito de Deus fecundando e chamando à existência toda a criação, agora o Espírito sobre o Filho, que mergulhando e emergindo das águas anuncia a sua morte e ressurreição, recria tudo, garantindo a nova vida.

O testemunho de João Batista é mais do que palavras, é reconhecimento daquilo que está acontecendo: surgimento de uma nova vida para o mundo com a chegada do Filho de Deus que salva a humanidade dos seus pecados. O testemunho do cristão não pode ser apenas anúncio de que Deus nos salva em Jesus, mas deve ser, antes de tudo, sinal concreto de uma vida nova, fruto da salvação acolhida. O testemunho será a prova de que a salvação de Deus nos alcança, fazendo de nós colaboradores da nova criação, do novo céu e da nova terra para onde o cordeiro quer nos conduzir (Ap 21,1).

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/ii-domingo-tempo-comum–jo-1-29-34–testemunhar-e-mais-do-que-falar

FESTA DO BATISMO DO SENHOR (P. Lucas, scj)

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Batismo

Caros irmãos, celebramos, neste domingo, a festa do Batismo do Senhor e, com ela, encerramos o tempo litúrgico do Natal. A partir do relato de São Mateus (cf. Mt 3,13-17), nos deixemos alcançar pela divina Graça e renovemos o nosso Batismo e abramos nosso coração para o Espírito Santo.

No seu diálogo com João Batista, Jesus diz que deve ser batizado para cumprir toda justiça (cf. Mt 3,15). Estamos, de fato, diante do anúncio (ou da manifestação) da missão do Senhor: Ele desce ao Jordão, porque é Aquele que desceu do céu para ser a nossa salvação; é submerso nas águas pois iria morrer por nós; e saindo dali, abrem-se os céus, vem o Espírito e se faz ouvir a voz do Pai, para que nós sepultados no batismo fôssemos inseridos na Paixão-Morte-Ressurreição do Senhor e, assim, nos tornássemos filhos amados de Deus.

Por isso, nesta celebração, somos chamados não só a recordar o dia do nosso Batismo, mas renovar as suas promessas para vivermos, na Graça de nosso Salvador, como verdadeiros filhos do Altíssimo. E como é bom saber que Deus não despreza a nossa fragilidade, mas chama para a justiça e, ainda mais, nos justifica com Sua Misericórdia! (cf. Is 42,3-4 – primeira leitura) Por isso, com confiança, arrependamo-nos e peçamos perdão de nossos pecados. Deixemo-nos, assim, inundar pela Graça do Senhor e vivamos no Seu temor e na Sua justiça. (cf. At 10, 34-5 – segunda leitura)

Que a bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Deus e nossa, e São José, seu castíssimo esposo, intercedam por nós a fim de que seja reavivada em nossos corações a tremenda graça que recebemos no nosso Batismo.

Sub tuum præsidium confugimus.
sancta Dei Genitrix:
nostras deprecationes
ne despicias in necessitatibus:
sed a periculis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.

 

Festa do Batismo do Senhor: Mt 3,13-17 – Batismo: o mergulho eficaz

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A Festa do Batismo do Senhor, concluindo o ciclo epifânico do Natal, é ao mesmo tempo porta de entrada para o Tempo Comum. Tempo Comum é sumamente rico do ponto de vista didático e mistagógico, pois nos conduz, a partir da leitura continuada dos evangelhos (ciclo dominical e ferial), ao conhecimento mais aprofundado da pessoa de Jesus. Portanto, esse tempo não pode ser concebido nem vivenciado como algo sem muita importância (“comum”), pois sem ele a densidade teológica do Advento-Natal e a vivência desafiadora da Quaresma-Páscoa se perderiam. Estes seriam apenas momentos isolados, parênteses inseridos artificialmente no horizonte litúrgico que, por sua vez, não serviriam senão de entretenimento diante da monotonia do ritmo ordinário-comum.

No esquema original da pregação (kerigma) dos Apóstolos, o batismo de Jesus é o primeiro acontecimento a ser evocado: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João” (2ª Leitura). Por isso, é apresentado como o início de sua vida pública, de sua missão como ungido (Cristo) de Deus e Salvador da humanidade. Cada evangelista, de acordo com a sua respectiva Batismo do Senhor.jpgintenção teológica, sublinha aspectos diferentes deste acontecimento, o que não significa que incorram em contradição. Marcos, de forma sucinta e direta, mostra que com Jesus a obra de Deus é recriada; reabre-se o paraíso e toda criação é reconciliada: “Vivia entre as feras e os anjos o serviam” (Mc 1,13).

A novidade de Lucas é a afirmação de que no momento em que “Jesus foi batizado, Ele achava-se em oração”. Um tema presente em toda a literatura lucana (Evangelho e Atos). Jesus é o Filho orante, pois esta é a experiência que mais revela e fortalece a sua comunhão com o Pai. O evangelho de Mateus (ano A), por sua vez, através do diálogo entre Jesus e o Batista, evidencia que o Cristo é aquele que cumpre toda a justiça: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça. E João consentiu” (Mt 3,15). A tentativa de João de “protestar” (grego: diekolyev, impedir) evidencia que ele tinha consciência de que Jesus não tinha necessidade de ser batizado, uma vez não tendo pecado, e, portanto, não devia se converter. Porém, entre João Batista e Jesus não há apenas uma relação de continuidade (precursor X messias), mas também uma qualitativa descontinuidade (“Eu vos batizo com água… Ele vos batizará com o Espírito Santo”, Mt 3,11). Em base a esta descontinuidade podemos perceber uma evolução teológica e de significado do batismo de João Batista, o batismo de Jesus e o batismo cristão. João Batista batiza para preparar a chegada do Messias; o povo que vem se batizar é chamado a entrar na dinâmica do arrependimento a fim de apressar a chegada do enviado de Deus. Uma vez que o Messias chegou, cumpriu-se a justiça como prática do precursor; ele encerra propriamente a sua missão. Porém, deve batizar o Messias cujo batismo não tem mais o significado anterior. Jesus não se batiza para apressar a vinda do Messias, nem muito menos para receber o perdão dos pecados.

O batismo de Jesus é a proclamação pública de que ele é verdadeiramente o anunciado das promessas messiânicas veterotestamentárias, porém, um messias que supera todas as expectativas do seu tempo. Jesus não é apenas um enviado de Deus, um ungido especial, mas ele é o Filho amado do Pai. Portanto, a cena do batismo de Jesus na pena de Mateus, introduzida por uma tensão entre precursor e o Messias, descortina os grandes temas tratados ao longo do seu evangelho. Jesus é o filho amado do Pai que cumpre toda a justiça. Justiça que supera a justiça dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20). Pois, para além do cumprimento de leis, a justiça de Jesus é a do Reino de Deus, ou seja, fazer a vontade do Pai. Por isso, Ele é proclamado solenemente como aquele que é amado e no qual o próprio Pai coloca todo o seu agrado. No Batismo de Jesus, se anuncia a nova criação apresentada simbolicamente à luz da primeira criação (Gn 1). Como no início de tudo, havia o cenário das águas, agora Jesus irrompe das águas do Jordão. Se no princípio o Espírito de Deus pairava sobre as águas, agora o mesmo Espírito desce sobre Jesus. A primeira criatura chamada à existência foi a luz, agora na nova criação não aparece um ser criado, mas o primogênito que é o Filho amado do Pai. Pois tudo foi criado por ele, e para ele.

Por fim, vale salientar que há também uma distinção fundamental entre o batismo cristão, o batismo de João, e o batismo de Jesus. Nenhum desses dois últimos tinha eficácia de tornar o batizado filho de Deus, participantes da nova criação. O rito do batista preparava, mas não realizava, o batismo de Jesus não o fez filho eterno do Pai, pois já o era desde sempre. Contudo, o batismo cristão, o mandato de Jesus após a sua ressurreição, mergulha o batizando na realidade da Trindade (“Batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, Mt 28,19), e faz do batizado um filho amado do Pai.

Celebrar a Festa do Batismo do Senhor, mais do que recordar um acontecimento importante da vida de Jesus, como divisor de águas para a sua missão, nos ajuda a tomar consciência de que o nosso batismo também deve ser vivido na sua qualidade de descontinuidade, ou seja, rompimento com o caos (pecado) e compromisso com a vida nova que nos faz participantes da nova criação, iniciada com o batismo do Filho amado do Pai, no qual somos também filhos seus.

A doutrina da justificação – Das obras à fé

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Audiência geral do Papa Bento XVI.

Praça de São Pedro, quarta-feira, 19 de novembro de 2008.

Queridos irmãos e irmãs!

No caminho que estamos a percorrer sob a guia de São Paulo, desejamos agora refletir sobre um tema que está no centro das controvérsias do século da Reforma: a questão da justificação. Como se torna justo o homem aos olhos de Deus? Quando Paulo encontrou o ressuscitado no caminho de Damasco era um homem realizado: irrepreensível em relação à justiça que provém da Lei (cf. Fl 3, 6), superava muitos dos seus coetâneos na observância das prescrições mosaicas e era zeloso na defesa das tradições dos padres (cf. Gl 1, 14). A iluminação de Damasco mudou radicalmente a sua existência: começou a considerar todos os méritos, adquiridos numa carreira religiosa integérrima, como “esterco” face à sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo (cf. Fl 3, 8). A Carta aos Filipenses oferece-nos um testemunho comovedor da passagem de Paulo de uma justiça fundada na Lei e adquirida com a observância das obras prescritas, para uma justiça baseada na fé em Cristo: ele tinha compreendido que tudo o que lucrado até então na realidade era, perante Deus, uma perda e por isso decidiu apostar toda a sua existência em Jesus Cristo (cf. Fl 3, 7). O tesouro escondido no campo e a pérola preciosa em cuja aquisição investir tudo o resto já não eram as obras da Lei, mas Jesus Cristo, o seu Senhor.

A relação entre Paulo e o Ressuscitado tornou-se tão profunda que o induziu a afirmar que Cristo não era apenas a sua vida mas o seu viver, a ponto que para o poder alcançar até morrer era um lucro (cf. Fl 1, 21). E não desprezava a vida, mas tinha compreendido que para ele o viver já não tinha outra finalidade e não sentia outro desejo a não ser o de alcançar Cristo, como numa competição atlética, para permanecer sempre com Ele: o Ressuscitado tinha-se tornado o início e o fim da sua existência, o motivo e a meta da sua corrida. Só a preocupação pela maturação na fé dos que tinha evangelizado e a solicitude por todas as Igrejas por ele fundadas (cf. 2 Cor 11, 28), o levavam a abrandar a corrida para o seu único Senhor, para aguardar os discípulos a fim de que pudessem, com ele, correr para a meta. Se na precedente observância da Lei nada tinha para se reprovar sob o ponto de vista da integridade moral, uma vez alcançado por Cristo preferia não pronunciar juízos sobre si mesmo (cf. 1 Cor 4, 3-4), mas limitava-se a predispor-se a correr para conquistar Aquele pelo qual tinha sido conquistado (cf. Fl 3, 12).

É precisamente por esta experiência pessoal da relação com Jesus Cristo que Paulo põe precisamente no centro do seu Evangelho uma irredutível oposição entre dois percursos alternativos rumo à justiça: um construído sobre as obras da Lei, o outro fundado na graça da fé em Cristo. A alternativa entre a justiça para as obras da Lei e a justiça pela fé em Cristo torna-se assim um dos motivos dominantes que atravessam as suas Cartas: “Nós somos judeus de nascimento e não pecadores da gentilidade; sabendo, entretanto, que o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da Lei, porque pelas obras da Lei ninguém é justificado” (Gl 2, 15-16). E aos cristãos de Roma recorda que “todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus, e são justificados gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus” (Rm 3, 23-24). E acrescenta: “Nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei” (Rm 3, 28). Sobre este ponto, Lutero traduziu: “Justificado unicamente pela fé”. Voltarei a este aspecto no final da catequese. Primeiro devemos esclarecer o que significa esta “Lei” da qual somos libertados e o que são aquelas “obras da Lei” que não justificam. Já na comunidade de Corinto existia a opinião que depois voltaria sistematicamente à história; a opinião consistia em considerar que se tratasse da lei moral e que a liberdade cristã fosse portanto a libertação da ética. Assim em Corinto circulava a palavra ”πάντα μοι έξεστιν” (tudo me é lícito). É obvio que esta interpretação é errada: a liberdade cristã não é libertinagem, a libertação da qual fala São Paulo não é libertação de praticar o bem.

Mas o que significa então a Lei da qual somos libertados e que não salva? Para São Paulo, como para todos os seus contemporâneos, a palavra Lei significava a Torah na sua totalidade, ou seja, os cinco livros de Moisés. A Torah implicava, na interpretação farisaica, a que era estudada e tornada própria por Paulo, um conjunto de comportamentos que ia do núcleo ético até às observâncias rituais e cultuais que determinavam substancialmente a identidade do homem justo. Particularmente a circuncisão, as observâncias acerca do alimento puro e geralmente a pureza ritual, as regras sobre a observância do sábado, etc. Comportamentos que, com frequência, aparecem também nos debates entre Jesus e os seus contemporâneos. Todas estas observâncias que expressam uma identidade social, cultural e religiosa tinham-se tornado singularmente importantes no tempo da cultura helenista, começando pelo século III a.C. Esta cultura, que se tinha tornado a cultura universal de então, e era uma cultura aparentemente racional, uma cultura politeísta, aparentemente tolerante, constituía uma forte pressão rumo à uniformidade cultural e ameaçava assim a identidade de Israel, que era politicamente obrigado a entrar nesta identidade comum da cultura helenista com a consequente perda da própria identidade, perda portanto também da preciosa herança da fé dos Padres, da fé no único Deus e nas promessas de Deus.

Contra esta pressão cultural, que ameaçava não só a identidade israelita, mas também a fé no único Deus e nas suas promessas, era necessário criar um muro de distinção, um escudo de defesa em proteção da preciosa herança da fé; tal muro consistia precisamente nas observâncias e prescrições judaicas. Paulo, que tinha aprendido tais observâncias precisamente na sua função defensiva do dom de Deus, da herança da fé num único Deus, viu esta identidade ameaçada pela liberdade dos cristãos: perseguia-os por isto. No momento do seu encontro com o Ressuscitado, compreendeu que com a ressurreição de Cristo a situação tinha mudado radicalmente. Com Cristo, o Deus de Israel, o único Deus verdadeiro, tornava-se o Deus de todos os povos. O muro assim diz na Carta aos Efésios entre Israel e os pagãos, não era mais necessário: é Cristo que nos protege do politeísmo e todos os seus desvios; é Cristo que nos une com no único Deus; é Cristo que garante a nossa verdadeira identidade na diversidade das culturas. O muro já não é necessário, a nossa identidade comum na diversidade das culturas é Cristo, e é Ele quem nos torna justos. Ser justo significa simplesmente estar com Cristo e em Cristo. E isto é suficiente. Não são mais necessárias outras observâncias. Por isso, a expressão ”sola fide” de Lutero é verdadeira, se não se opõe a fé à caridade, ao amor. A fé é olhar Cristo, confiar-se a Cristo, apegar-se a Cristo, conformar-se com Cristo e com a sua vida. E a forma, a vida de Cristo, é o amor; portanto, acreditar é conformar-se com Cristo e entrar no seu amor. Por isso, São Paulo na Carta aos Gálatas, sobretudo na qual desenvolveu a sua doutrina sobre a justificação, fala da fé que age por meio da caridade (cf. Gl 5, 14).

Paulo sabe que no dúplice amor a Deus e ao próximo está presente e é completada toda a Lei. Assim, na comunhão com Cristo, na fé que cria a caridade, toda a Lei é realizada. Tornamo-nos justos, entrando em comunhão com Cristo, que é amor. Veremos a mesma coisa no Evangelho do próximo domingo, solenidade de Cristo-Rei. É o Evangelho do juiz, cujo único critério é o amor. O que Ele exige é só isto: Tu visitaste-me quando estava doente? Quando estava na prisão? Tu deste-me de comer quando eu tinha fome, tu vestiste-me quando eu estava nu? E assim a justiça decide-se na caridade. Assim, no final deste Evangelho podemos quase dizer: só amor, só caridade. Mas não há contradição entre este Evangelho e São Paulo. É a mesma visão, segundo a qual a comunhão com Cristo, a fé em Cristo, cria a caridade. E a caridade é realização da comunhão com Cristo. Assim, somos justos permanecendo unidos a Ele, e de nenhum outro modo.

No final, só podemos rezar ao Senhor que nos ajude a crer. Crer realmente; assim, acreditar torna-se vida, unidade com Cristo, transformação da nossa vida. E assim, transformados pelo seu amor, pelo amor a Deus e ao próximo, podemos ser realmente justos aos olhos de Deus.

 

Fonte: http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20081119.html

 

Homilia do Santo Padre Santa Missa na Festa da Epifania

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Basílica de S. Pedro, 6 de janeiro de 2020.

No Evangelho (Mt 2, 1-12), os Magos começam por manifestar a intenção que os move: «Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo» (2, 2). Adorar é o objetivo do seu percurso, a meta do seu caminho. De facto, chegados a Belém, quando «viram o Menino com Maria, sua mãe, prostrando-se, adoraram-No» (2, 11). Se perdermos o sentido da adoração, falta-nos o sentido de marcha da vida cristã, que é um caminho rumo ao Senhor, e não a nós. O risco existe, como nos adverte o Evangelho, quando, a par dos Magos, mostra personagens incapazes de adorar.

O primeiro deles é o rei Herodes, que usa o verbo «adorar», mas de maneira falaciosa. Com efeito, pede aos Magos que o informem do local onde encontrarem o Menino, «para – diz ele – ir também eu adorá-Lo» (2, 8). Na realidade, Herodes adorava apenas a si mesmo e por isso, com uma mentira, o que ele queria era livrar-se do Menino. Que nos ensina isto? Que o homem, quando não adora a Deus, é levado a adorar-se a si mesmo; e a própria vida cristã, sem adorar o Senhor, pode tornar-se uma forma educada de se louvar a si mesmo e a sua habilidade. É um risco sério: servir-se de Deus, em vez de servir a Deus. Quantas vezes trocamos os interesses do Evangelho pelos nossos; quantas vezes revestimos de religiosidade aquilo que a nós nos convém; quantas vezes photo-2020-01-06-12-47-36.jpgconfundimos o poder segundo Deus, que é servir os outros, com o poder segundo o mundo, que é servir-se a si mesmo!

Além de Herodes, há outras pessoas no Evangelho que não conseguem adorar: são os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo. Com extrema precisão, indicam a Herodes o local onde havia de nascer o Messias: em Belém da Judeia (cf. 2, 5). Conhecem as profecias e citam-nas de forma exata. Sabem aonde ir, mas não vão. Disto, também podemos tirar uma lição: na vida cristã, não basta saber. Sem sair de si mesmo, sem ir ao encontro de Deus, sem O adorar, não O conhecemos. De pouco ou nada servem a teologia e a ação pastoral, senão se dobram os joelhos; senão se faz como os Magos, que não se limitaram a ser sábios organizadores duma viagem, mas caminharam e adoraram. Quando se adora, apercebemo-nos de que a fé não se reduz a um belo conjunto de doutrinas, mas é a relação com uma Pessoa viva, que devemos amar. É permanecendo face a face com Jesus que conhecemos o seu rosto. Quando O adoramos, descobrimos que a vida cristã é uma história de amor com Deus, onde não basta ter boas ideias sobre Ele, mas é preciso colocá-Lo em primeiro lugar, como faz um namorado com a pessoa amada. Assim deve ser a Igreja: uma adoradora enamorada de Jesus, seu esposo.

Ao principiar este ano, descubramos de novo a adoração como exigência da fé. Se soubermos ajoelhar diante de Jesus, venceremos a tentação de olhar apenas aos nossos interesses. De facto, adorar é fazer o êxodo da maior escravidão: a escravidão de si mesmo. Adorar é colocar o Senhor no centro, para deixarmos de estar centrados em nós mesmos. É predispor as coisas na sua justa ordem, reservando o primeiro lugar para Deus. Adorar é antepor os planos de Deus ao meu tempo, aos meus direitos, aos meus espaços. É aceitar o ensinamento da Escritura: «Ao Senhor, teu Deus, adorarás» (Mt 4, 10). «Teu Deus»: adorar é sentir que nos pertencemos mutuamente, eu e Deus. É tratá-Lo por «Tu» na intimidade, é depor a seus pés a nossa vida, permitindo-Lhe entrar nela. É fazer descer sobre o mundo a sua consolação. Adorar é descobrir que, para rezar, basta dizer «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28) e deixar-me invadir pela sua ternura.

Adorar é ir ter com Jesus, não com uma lista de pedidos, mas com o único pedido de estar com Ele. É descobrir que a alegria e a paz crescem com o louvor e a ação de graças. Quando adoramos, permitimos a Jesus que nos cure e transforme; adorando, damos ao Senhor a possibilidade de nos transformar com o seu amor, iluminar as nossas trevas, dar-nos força na fraqueza e coragem nas provações. Adorar é ir ao essencial: é o caminho para se desintoxicar de tantas coisas inúteis, de dependências que anestesiam o coração e estonteiam a mente. De facto, adorando, aprende-se a rejeitar o que não deve ser adorado: o deus dinheiro, o deus consumo, o deus prazer, o deus sucesso, o nosso eu arvorado em deus. Adorar é fazer-se pequenino na presença do Altíssimo, descobrir diante d’Ele que a grandeza da vida não consiste em ter, mas em amar. Adorar é descobrir-nos como irmãos e irmãs face ao mistério do amor que ultrapassa todas as distâncias: é beber o bem na fonte, é encontrar no Deus próximo a coragem de nos aproximarmos dos outros. Adorar é ficar calado diante do Verbo divino, para aprender a dizer palavras que não magoem, mas consolem.

Adorar é um gesto de amor que muda a vida. É fazer como os Magos: levar ao Senhor o ouro, para Lhe dizer que nada é mais precioso do que Ele; oferecer-Lhe o incenso, para Lhe dizer que só com Ele se eleva para o alto a nossa vida; apresentar-Lhe a mirra – com ela se ungiam os corpos feridos e dilacerados – como promessa a Jesus de que socorreremos o próximo marginalizado e sofredor, porque nele está o Senhor.

Amados irmãos e irmãs, hoje cada um de nós pode interrogar-se: «Sou um cristão adorador?» A pergunta impõe-se-nos, pois muitos cristãos que rezam, não sabem adorar. Encontremos momentos para a adoração ao longo do nosso dia e criemos espaço para a adoração nas nossas comunidades. Cabe a nós, como Igreja, colocar em prática as palavras que acabamos de rezar no Salmo: «Adorar-Vos-ão, Senhor, todos os povos da terra». Adorando, descobriremos também nós, como os Magos, a direção certa do nosso caminho. E sentiremos, como os Magos, uma «imensa alegria» (Mt 2, 10).

 

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-01/papa-francisco-homilia-solenidade-epifania-6-janeiro-2020.html

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, celebrando a solenidade da Epifania do Senhor, contemplamos a adoração dos magos do Oriente (cf. Mt 2,1-12). Abramos o nosso coração e deixemos que a Luz de Deus que hoje se manifesta para a nossa salvação ilumine toda a nossa vida.

Deus conduziu os magos do oriente ao mistério da salvação sobretudo através de uma estrela. Assim, se manifesta para nós uma grande mensagem de alegria e salvação, enunciada por S. Paulo na segunda leitura desta liturgia: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6). Em outras palavras, não só aos hebreus se dirige Epifania.jpgo Amor misericordioso do nosso Deus, mas a todos os povos. Todos! E, portanto, também a nós! Que maravilha sermos alcançados, libertados e restaurados pela infinita bondade do único e verdadeiro Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor!

Você também não sente seu coração bater mais forte diante de um amor tão profundo e que lhe alcança aí onde você está? Pois bem, a liturgia de hoje nos convida a que, de fato, nos deixemos iluminar pela Luz de Cristo que se manifestou no Seu Natal e também no nosso – pois recebemos a Sua Luz no nosso Batismo. E a nossa resposta é iluminar! Disse o profeta Isaías na primeira leitura: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60,1). Não nos envergonhemos de Jesus, nosso Senhor. Não escondamos a Luz que nos iluminou. E assim, iluminados e iluminando seremos o sinal que tanta gente precisa para encontrar o sentido mais profundo de sua existência: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Que a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria e de São José nos ajude a acolher a manifestação da Graça salvadora de Deus e manifestá-la a todos os que se encontrarem conosco.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

Epifania do Senhor: Mt 2,1-12 – De Belém para o mundo

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Se para a maioria das pessoas o Natal comercial já passou, para nós cristãos o Natal do Senhor, dada a sua importância e profundidade, continua. Celebrar a Epifania do Senhor é proclamar que o nascimento de Cristo na gruta de Belém não se encerra num espaço nem se limita a um povo, mas é o anúncio da salvação dirigida a todos os povos da terra. A manifestação (epifania) do Senhor é luz que brilha na escuridão e atrai para si a terra envolvida em trevas; é convite universal a deixar-se guiar pela luz verdadeira que aquece e produz vida e alegria (1ª Leitura). Revelando-se na história, assumindo a carne humana, Deus manifestou que o seu mistério de salvação, de vida plena, não privilegia alguns, excluindo outros. A consciência de ser povo escolhido não pode se transformar em presunção de se pensar povo exclusivo. A vocação e a eleição do povo de Deus implicam a missão de proclamar que Deus é o Deus de todos os povos e que a missão é ser luz para ajudar os demais no encontro com a plenitude da vida.

Portanto, na rica diversidade de pessoas, de povos e raças, o plano do Criador se realiza à medida que se reconhece que há uma única e mesma herança para todos: por meio do evangelho todos são irmanados em Jesus Cristo (2ª Leitura). Entretanto, a salvação mesmo sendo uma graça concedida gratuitamente e, ao mesmo tempo, um desejo irresistível do coração humano, exige a decisão de empreender um caminho de busca e aceitação desse maravilhoso dom.

O evangelho de hoje nos faz refletir sobre atitudes diversas diante do dom da salvação. Por um lado, há quem se deixa guiar pela luz (os Magos) e, portanto, independentemente do seu ponto de partida, encaminha-se para o encontro com o Salvador; mas há também quem se fecha na sua presunção de ser o seu próprio salvador (Herodes) e, por isso, persegue a luz a fim de apagá-la, pois ela denuncia as suas obras de treva. Diante do Menino, o Salvador da humanidade, não há neutralidade. O evangelho provoca sempre reações: aceitação ou rejeição. Para uns é boa notícia de salvação, pois reconhecendo a sua fragilidade, abraçam o caminho de conversão e aceitam o dom maravilhoso da vida plena; para outros, é ameaça porque, fechados no seu egoísmo e arrogância, recusam-se à solidariedade, à justiça e à necessária conversão.

A caminhada dos Magos para Belém, passando por Jerusalém, tem o seu ponto de partida no Oriente (grego: anatolé, levante do sol); representa a jornada de todo ser humano que, como o girassol, é atraído pela luz e a segue durante todo o dia. Assim os Magos são atraídos pela estrela, astro iluminado, pois não tendo luz própria reflete a luz do astro luminoso. Caminham na escuridão, mas não são dominados pelas trevas, pois se deixam orientar pela luz, ainda que esta não seja ainda plena. Todo ser humano, de alguma forma, vislumbra essa luz que o atrai, porém não foi criado apenas para contemplar pouca luz, é preciso ser inundado pela verdadeira luz que não conhece ocaso, a fim de que se torne também seu reflexo.

Para os Magos, aquela estrela-guia apontava para algo maior, por isso os impulsiona a buscá-lo. Não se contentaram com o brilho da estrela, caso contrário poderiam ter permanecido lá onde estavam, mas partiram à procura da fonte cuja luz aquele astro refletia. A decisão dos Magos confirma que são verdadeiros sábios, não se acomodam com o mínimo. Porém, há outros que preferem permanecer na mediocridade e se contentam com pouca luz, a fim de não se desinstalarem, ainda que isso lhes resulte uma vida opaca, sem desafios, inerte e estéril.

O desaparecimento momentâneo da estrela poderia ter causado desespero nos Magos, e, por conseguinte, a desculpa fácil para retroceder, desistir. Mas eram convictos de que em algum lugar o sol continuava a brilhar. Portanto, não desistem e, tomando um caminho aparentemente errado, vão bater à porta do tirano Herodes, mas é lá que uma estrela-guia mais luminosa do que a primeira apontará o caminho certo: é a Palavra de Deus, qual bússola de alta precisão, que orienta a retomar a estrada, pois ela “é luz para os passos, lâmpada para o caminho” (Sl 119,105). Não tinham dúvidas de que o Menino nascido era o Rei dos Judeus, e por isso foram procurá-lo no palácio real. Porém, mais do que a luz natural (a lógica humana), precisavam da luz da Palavra para reconhecer que este recém-nascido não era um rei qualquer, era um rei-pastor: “… de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. E o verdadeiro pastor que dá a vida pelas ovelhas não poderia estar salvaguardado num palácio, mas deveria estar no meio de suas ovelhas, arriscando a sua vida. Portanto, o seu lugar era uma casa humilde e simples. Diante da perturbação de Herodes e de toda a sua corte, evidencia-se que a boa notícia do nascimento do rei-pastor era ameaça ao rei-dominador, que num primeiro momento não acredita que tenha nascido o tal procurado, mas quando constata que foi enganado pelos ilustres visitantes, enche-se de furor e manda matar todos os meninos na esperança de que entre eles se encontre e seja exterminado o seu adversário.

Iluminados pela razão (estrela) e pela fé (Palavra de Deus) retomam a estrada, plenos de grande alegria, encontram o recém-nascido nos braços de sua mãe, seu primeiro trono. É uma cena solene, pois os reis quando se apresentavam em ocasiões especiais tinham sempre ao seu lado a rainha-mãe (1Rs 2,19). Os Magos se prostram diante do recém-nascido para adorá-lo; alcançam a finalidade de sua longa viagem. De sábios tornam-se verdadeiros profetas pois nos dons que oferecem (ouro, incenso e mirra) proclamam quem é aquele menino (Rei, Deus, Homem).  Na oferta dos seus preciosos dons, demonstram gratidão pelos incomensuráveis dons que aquela criança oferece a toda a humanidade. Do Rei recebem o favor de mesmo sendo estrangeiros serem admitidos à mesma herança, agora fazem parte do mesmo povo real; do Deus recebem a salvação que supera todas as barreiras étnicas e religiosas; do Homem recebem a revelação de que nenhum ser humano está excluído da plenitude da vida, pois o Filho de Deus, ao encarnar-se, uniu-se à totalidade da humanidade.

Depois do encontro com a luz, os Magos tomaram outro caminho, não mais passando pela casa de Herodes, mas retornando para a sua terra, agora não mais como buscadores da luz, mas como iluminados por ela, pois de sábios se tornaram profetas do rei-pastor, que os fez seus missionários, testemunhas da universalidade da salvação.

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