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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Se para a maioria das pessoas o Natal comercial já passou, para nós cristãos o Natal do Senhor, dada a sua importância e profundidade, continua. Celebrar a Epifania do Senhor é proclamar que o nascimento de Cristo na gruta de Belém não se encerra num espaço nem se limita a um povo, mas é o anúncio da salvação dirigida a todos os povos da terra. A manifestação (epifania) do Senhor é luz que brilha na escuridão e atrai para si a terra envolvida em trevas; é convite universal a deixar-se guiar pela luz verdadeira que aquece e produz vida e alegria (1ª Leitura). Revelando-se na história, assumindo a carne humana, Deus manifestou que o seu mistério de salvação, de vida plena, não privilegia alguns, excluindo outros. A consciência de ser povo escolhido não pode se transformar em presunção de se pensar povo exclusivo. A vocação e a eleição do povo de Deus implicam a missão de proclamar que Deus é o Deus de todos os povos e que a missão é ser luz para ajudar os demais no encontro com a plenitude da vida.

Portanto, na rica diversidade de pessoas, de povos e raças, o plano do Criador se realiza à medida que se reconhece que há uma única e mesma herança para todos: por meio do evangelho todos são irmanados em Jesus Cristo (2ª Leitura). Entretanto, a salvação mesmo sendo uma graça concedida gratuitamente e, ao mesmo tempo, um desejo irresistível do coração humano, exige a decisão de empreender um caminho de busca e aceitação desse maravilhoso dom.

O evangelho de hoje nos faz refletir sobre atitudes diversas diante do dom da salvação. Por um lado, há quem se deixa guiar pela luz (os Magos) e, portanto, independentemente do seu ponto de partida, encaminha-se para o encontro com o Salvador; mas há também quem se fecha na sua presunção de ser o seu próprio salvador (Herodes) e, por isso, persegue a luz a fim de apagá-la, pois ela denuncia as suas obras de treva. Diante do Menino, o Salvador da humanidade, não há neutralidade. O evangelho provoca sempre reações: aceitação ou rejeição. Para uns é boa notícia de salvação, pois reconhecendo a sua fragilidade, abraçam o caminho de conversão e aceitam o dom maravilhoso da vida plena; para outros, é ameaça porque, fechados no seu egoísmo e arrogância, recusam-se à solidariedade, à justiça e à necessária conversão.

A caminhada dos Magos para Belém, passando por Jerusalém, tem o seu ponto de partida no Oriente (grego: anatolé, levante do sol); representa a jornada de todo ser humano que, como o girassol, é atraído pela luz e a segue durante todo o dia. Assim os Magos são atraídos pela estrela, astro iluminado, pois não tendo luz própria reflete a luz do astro luminoso. Caminham na escuridão, mas não são dominados pelas trevas, pois se deixam orientar pela luz, ainda que esta não seja ainda plena. Todo ser humano, de alguma forma, vislumbra essa luz que o atrai, porém não foi criado apenas para contemplar pouca luz, é preciso ser inundado pela verdadeira luz que não conhece ocaso, a fim de que se torne também seu reflexo.

Para os Magos, aquela estrela-guia apontava para algo maior, por isso os impulsiona a buscá-lo. Não se contentaram com o brilho da estrela, caso contrário poderiam ter permanecido lá onde estavam, mas partiram à procura da fonte cuja luz aquele astro refletia. A decisão dos Magos confirma que são verdadeiros sábios, não se acomodam com o mínimo. Porém, há outros que preferem permanecer na mediocridade e se contentam com pouca luz, a fim de não se desinstalarem, ainda que isso lhes resulte uma vida opaca, sem desafios, inerte e estéril.

O desaparecimento momentâneo da estrela poderia ter causado desespero nos Magos, e, por conseguinte, a desculpa fácil para retroceder, desistir. Mas eram convictos de que em algum lugar o sol continuava a brilhar. Portanto, não desistem e, tomando um caminho aparentemente errado, vão bater à porta do tirano Herodes, mas é lá que uma estrela-guia mais luminosa do que a primeira apontará o caminho certo: é a Palavra de Deus, qual bússola de alta precisão, que orienta a retomar a estrada, pois ela “é luz para os passos, lâmpada para o caminho” (Sl 119,105). Não tinham dúvidas de que o Menino nascido era o Rei dos Judeus, e por isso foram procurá-lo no palácio real. Porém, mais do que a luz natural (a lógica humana), precisavam da luz da Palavra para reconhecer que este recém-nascido não era um rei qualquer, era um rei-pastor: “… de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. E o verdadeiro pastor que dá a vida pelas ovelhas não poderia estar salvaguardado num palácio, mas deveria estar no meio de suas ovelhas, arriscando a sua vida. Portanto, o seu lugar era uma casa humilde e simples. Diante da perturbação de Herodes e de toda a sua corte, evidencia-se que a boa notícia do nascimento do rei-pastor era ameaça ao rei-dominador, que num primeiro momento não acredita que tenha nascido o tal procurado, mas quando constata que foi enganado pelos ilustres visitantes, enche-se de furor e manda matar todos os meninos na esperança de que entre eles se encontre e seja exterminado o seu adversário.

Iluminados pela razão (estrela) e pela fé (Palavra de Deus) retomam a estrada, plenos de grande alegria, encontram o recém-nascido nos braços de sua mãe, seu primeiro trono. É uma cena solene, pois os reis quando se apresentavam em ocasiões especiais tinham sempre ao seu lado a rainha-mãe (1Rs 2,19). Os Magos se prostram diante do recém-nascido para adorá-lo; alcançam a finalidade de sua longa viagem. De sábios tornam-se verdadeiros profetas pois nos dons que oferecem (ouro, incenso e mirra) proclamam quem é aquele menino (Rei, Deus, Homem).  Na oferta dos seus preciosos dons, demonstram gratidão pelos incomensuráveis dons que aquela criança oferece a toda a humanidade. Do Rei recebem o favor de mesmo sendo estrangeiros serem admitidos à mesma herança, agora fazem parte do mesmo povo real; do Deus recebem a salvação que supera todas as barreiras étnicas e religiosas; do Homem recebem a revelação de que nenhum ser humano está excluído da plenitude da vida, pois o Filho de Deus, ao encarnar-se, uniu-se à totalidade da humanidade.

Depois do encontro com a luz, os Magos tomaram outro caminho, não mais passando pela casa de Herodes, mas retornando para a sua terra, agora não mais como buscadores da luz, mas como iluminados por ela, pois de sábios se tornaram profetas do rei-pastor, que os fez seus missionários, testemunhas da universalidade da salvação.