Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Após celebrarmos o jubiloso Tempo do Natal do Senhor, entramos agora no Tempo Comum, cuja finalidade é nos conduzir pedagogicamente, guiados pela Palavra de Deus, de modo particular pelo Evangelho, num caminho de conhecimento da Pessoa de Jesus e de sua missão, a fim de crescermos na convicção e no compromisso de viver a nossa opção de ser seus seguidores e testemunhas. Por isso, iniciamos esse percurso seguindo a dinâmica do próprio evangelho, que apresenta o testemunho de João Batista como um marco importante no encontro com Jesus, que nos convida a segui-lo.

No testemunho de João Batista encontra-se a síntese perfeita de quem é Jesus e qual é a sua missão: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Estas palavras do precursor representam uma densa retrospectiva de todo o Antigo Testamento, como história de um povo que espera o cumprimento das promessas de Deus, que aguarda a chegada do Messias prometido; mas também serve de introdução a tudo aquilo que os S Joao Batistaevangelhos, a pregação do Cristianismo primitivo e, naturalmente, a permanente missão da Igreja conservam e transmitem como verdade de fé sobre Jesus, a sua vida e o seu ensinamento.

Proclamando Jesus o Cordeiro de Deus, o Batista descortina o imenso horizonte do Antigo Testamento. A palavra cordeiro (grego: amnós, pode ser a tradução do aramaico: talya, servo) evoca uma longa e rica tradição da experiência do Povo de Deus, desde o tempo dos patriarcas, passando pelos acontecimentos do Êxodo até o surgimento das expectativas messiânicas no tempo dos profetas. Para além de uma questão semântica do termo, estamos diante de situações históricas que marcam o longo caminho da revelação de Deus ao seu povo. O simbolismo do cordeiro evoca a lembrança do cordeiro que era sacrificado na Páscoa como memorial da intervenção libertadora do Senhor para arrancar o seu povo das garras do Faraó (Ex 12). Os cordeiros eram também sacrificados diariamente no templo, de manhã e à tarde, como ofertas expiatórias (Ex 29,38-46). Os profetas, por sua vez, também usam esse símbolo para descrever as características do Servo de Javé: humilde e manso (Is 53,7).

Ao especificar que este cordeiro é “de Deus”, o profeta João Batista o distingue de todas as outras imagens do Antigo Testamento, pois evidencia qual é a sua identidade fundamental, isto é, este cordeiro é único, pois é aquele que só Deus enviará, uma vez que todos os outros pertenciam aos homens, eram animais dos seus rebanhos ou metáforas da linguagem profética. Esse é o cordeiro que Abraão não possuía para oferecer no lugar do seu filho único e amado; por isso, anuncia a Isaac que Deus o providenciará, a fim de que o seu sacrifício seja perfeito (Gn 22). Este é o único cordeiro, que mesmo morrendo, e tendo o seu sangue derramado em libação, não permanece morto, mas está de pé (Ap 5,6).

Desse modo, João apresenta quem é Jesus, que não deve ser confundido com nenhum outro, pois Ele não é apenas um enviado de Deus, um grande profeta ou mesmo um herói nacionalista, mas Ele é o Filho de Deus.

Depois de deixar clara qual é a identidade do Messias, João afirma qual será a sua missão: “Aquele que tira o pecado do mundo”. Chama a atenção que João Batista não se dirige a Jesus chamando-o pelo nome, mas sublinhando o que significa o seu nome (Jesus: “Deus salva”). Na tradição bíblica o nome tem muita importância porque diz algo da pessoa, não é apenas uma identificação artificial, externa. Desse modo, João Batista indica a essência do nome Jesus: “Aquele que tira o pecado do mundo”, muito coerente com aquilo que o anjo diz a José em sonho: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

O evangelista João mais adiante relembrará que a salvação realizada por Jesus é a grande prova do amor de Deus, que “amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Como o Batista tinha especificado que o cordeiro “é de Deus”, agora ele diz que o pecado “é do mundo”. Para João evangelista, mundo pode significar a criação, a humanidade, mas também tudo aquilo que se opõe ao projeto de Deus, diríamos o mundo deformado; o pecado é a atitude de fechamento do ser humano ao amor e, portanto, transforma o mundo criado por Deus (cosmos) em desumanização, destruição da vida (caos). O pecado do mundo (de Adão e Eva, da humanidade) é a desobediência à voz de Deus que provoca toda sorte de desordem nas relações entre os seres humanos consigo mesmos, com os outros e com a criação. O pecado do mundo é a decisão do homem de negar a sua condição e, por conseguinte, tornar-se um instrumento de destruição da criação, inclusive da sua própria vida.

João Batista reconhece que Jesus é aquele que tira o pecado do mundo quando, ao batizá-lo, vê descer sobre Ele o Espírito Santo, em forma de pomba, e ouve a voz dos céus que confirma ser ele o Filho de Deus. Portanto, com Jesus inicia-se a nova criação. Assim como no princípio, sobre as águas pairava o Espírito de Deus fecundando e chamando à existência toda a criação, agora o Espírito sobre o Filho, que mergulhando e emergindo das águas anuncia a sua morte e ressurreição, recria tudo, garantindo a nova vida.

O testemunho de João Batista é mais do que palavras, é reconhecimento daquilo que está acontecendo: surgimento de uma nova vida para o mundo com a chegada do Filho de Deus que salva a humanidade dos seus pecados. O testemunho do cristão não pode ser apenas anúncio de que Deus nos salva em Jesus, mas deve ser, antes de tudo, sinal concreto de uma vida nova, fruto da salvação acolhida. O testemunho será a prova de que a salvação de Deus nos alcança, fazendo de nós colaboradores da nova criação, do novo céu e da nova terra para onde o cordeiro quer nos conduzir (Ap 21,1).

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/ii-domingo-tempo-comum–jo-1-29-34–testemunhar-e-mais-do-que-falar