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PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA – Ano A (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, na última quarta-feira, iniciamos o período da Quaresma que nos prepara para a celebração da Páscoa do Senhor – que é também a nossa páscoa, pois produz em nós uma vida nova. E, celebrando o ano litúrgico A, o nosso itinerário será particular: depois da tentação e da transfiguração de Jesus, seremos conduzidos num percurso que privilegia a preparação catecumenal para o Batismo através do evangelista São João. Disponhamo-nos, então, para viver este tempo como verdadeira renovação da graça Tentação1pascal na qual fomos imersos quando recebemos tal sacramento.

Assim, neste primeiro domingo, temos, para nossa meditação e oração, a tentação do Senhor segundo o evangelista São Mateus (cf. Mt 4,1-11). Neste texto, podemos (e devemos) revisitar as três modalidades de tentações que também nós sofremos em nossa vida. Porém, é preciso ter em mente que nosso Senhor vai, como novo Moisés, à nossa frente (cf. Mt 4,1-2). E não nos conduz como um guia distraído, mas caminha conosco: está sempre perto – é, de fato, o Emanuel. Dessa forma, precisamos ter em conta que o Senhor Jesus não só enfrentou por nós e antes de nós todas as dificuldades que precisamos enfrentar. Nem mesmo nos escandalizemos se as tentações aumentarem neste período. Mas lembremo-nos também que Ele permanece conosco sempre, sem exceção, inclusive quando somos assaltados pelos nossos inimigos, isto é, satanás, a carne e o mundo.

Creio, portanto, que o dom gratuito e superabundante da justiça que nos vem por Jesus Cristo (cf. 1Cor 5,17) consiste justamente nisso: a Sua própria presença no mais íntimo de nós, transformando-nos completamente e dando-nos a força necessária para o seguirmos no caminho que leva à Ressurreição. Que esta Quaresma, intenso tempo de conversão, não passe por nós sem produzir frutos.

A intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, nossa Mãe, e de São José, nosso protetor, nos fortaleçam no combate cotidiano do seguimento do Senhor.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

Domingo da Quaresma: Mt 4,1-11 – Tentação: tentativa de obstrução!

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Iniciamos a nossa caminhada quaresmal diante de duas cenas bíblicas, aparentemente opostas, mas ao mesmo tempo intimamente relacionadas. Por um lado, o velho Adão no centro do paraíso (Éden em hebraico: jardim das delícias) tendo ao seu dispor uma variedade de frutos para a sua alimentação, com a única restrição de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (1ª leitura), do outro lado, temos o novo Adão, em pleno deserto, sem nada para comer e beber, peregrinando em busca do homem perdido, isto é, o Adão desobediente que fora expulso do paraíso, e que se encontra ali no deserto, abandonado, incapaz de reencontrar o caminho de volta. Por isso, o Filho de Deus, assumindo a condição desse homem, vai ao seu encontro a fim de fazê-lo reencontrar a estrada rumo ao paraíso, à vida plena (2ª Leitura).

Nesse episódio das tentações de Jesus retoma-se a perspectiva do Antigo Testamento do compromisso de Deus de reconduzir seu povo, que se encontra no deserto, para a terra prometida. Moisés, no seu cântico (Dt 32) afirma: “Quando o Altíssimo repartiu as nações, quando espalhava os filhos de Adão, ele fixou fronteiras para os povos… Mas a parte do Senhor foi o seu povo… Ele o achou numa terra deserta, num vazio solitário e ululante”, portanto, o deserto é o lugar do encontro por excelência de Deus com o seu povo. Contudo, aquele que provocou a expulsão do paraíso, agora faz de tudo para que esse homem não saia do deserto, por isso se antepõe àquele que pode tirá-lo de lá. Satanás em hebraico significa “aquele que se coloca diante para impedir a passagem”, é o adversário, Tentaçãoo acusador. As tentações propostas pelo diabo representam as tentativas de impedir que o Filho de Deus reconduza o homem, que se encontra no deserto, de volta ao paraíso, pois mantê-lo no deserto é garantir a sua morte.

Se o homem foi expulso do paraíso por causa de sua desobediência, só há um caminho de volta: a obediência a Deus. Se a antiga serpente convenceu o homem a desobedecer a Deus incitando-o a comer do fruto proibido, agora o Filho de Deus reabre a estrada através de um jejum de 40 dias a fim de alimentar-se apenas da Palavra que sai da boca de Deus, pois só assim não se deixará seduzir por nenhuma outra palavra enganadora como fora aquela da serpente a Eva.

Sutilmente o tentador quer convencer Jesus a endurecer o coração (fechar os ouvidos à voz do Pai), levando-o à desobediência e à infidelidade. Uma linguagem simbólica muito recorrente na Bíblia para indicar as tentações do povo no deserto é justamente “o coração de pedra”, como adverte o salmista: “Não endureçais os vossos corações como no deserto” (Sl 95,8). A missão de Jesus é justamente o contrário, é transformar os corações de pedra, desobedientes, em coração de carne. Ezequiel já profetizara que o próprio Deus iria transformar o coração de pedra do seu povo a fim de torná-lo obediente à sua Palavra, e isso resultaria na certeza de habitar a terra prometida, ou seja, sair do deserto, pois de uma terra desolada e deserta o Senhor fará como o Jardim do Éden (Ez 34,26-38).

As investidas do Diabo visam dissuadir Jesus de sua missão, ou seja, primeiramente, ao invés de transformar os corações de pedra em corações de carne, o tentador sugere que Jesus transforme as pedras em pão, isto é, uma vez que está com fome, use o seu poder de Filho de Deus em benefício próprio e não na realização da vontade de Deus.

Em seguida, o tentador procura obstruir o caminho exodal de Jesus propondo-lhe abandonar a estrada por onde devia passar e tomar atalhos, caminhos mais fáceis: “Atira-te daqui para baixo… os anjos te tomarão pela mão”. Porém, Jesus sabe que o caminho que conduzirá a humanidade para fora do deserto, que leva ao paraíso, não conhece nem atalhos nem saídas de emergência, mas é a estrada da cruz, é a porta estreita que leva inevitavelmente ao calvário.

A astúcia da antiga serpente, a sua característica fundamental, alcança seu ponto mais alto quando propõe: “Tudo isto te darei, se prostrado, me adorares”. O Satanás não apenas tenta obstruir o caminho de volta ao paraíso, mas se coloca como meta final desse caminho. É a mais ousada tentativa de impedir que Jesus realize a sua missão. Mais do que dificultar a estrada, o Diabo se coloca como ponto final do percurso, pois propõe a Jesus que o reconheça como o seu Deus (e Pai). Diante da tentação de tomar uma estrada errada, reza o salmista: “Ensinai-me, ó Senhor, vossos caminhos e mostrai-me a estrada certa!  Por causa do inimigo, protegei-me, não me entregueis a seus desejos!” (Sl 27,11-12).

Todo ser humano na sua jornada terrena faz a experiência de sentir-se perdido, de encontrar-se no deserto sem rumo. A Quaresma nos propõe um encontro com o Senhor que vem ao nosso deserto para desobstruir o caminho de libertação. Jesus, vencedor das tentações, ajuda-nos também a vencê-las, quando nos deixamos guiar pela Palavra de Deus que ilumina nossos passos e nos encoraja na luta contra as três grandes tentações de todo ser humano, como nos diz muito bem São Gregório de Nazianzo (Sermão XL, 10): “o diabo quis convencer Jesus pela necessidade (fome), pela vaidade (privilégio de ser filho de Deus), pela ambição (possuir todos reinos)”. Essas continuam sendo também as nossas tentações, são os grandes empecilhos que obstruem o nosso caminho de crescimento (rumo à plenitude de vida). Reduzindo nossa existência à satisfação de nossas necessidades, permaneceremos fechados na nossa dimensão material, imediatista, cujo horizonte é estreito e medíocre: não enxergamos mais do que o que comer, beber, vestir. Apegados à nossa vaidade, viveremos estagnados na superficialidade da nossa existência, nas aparências sem raízes profundas que possibilitem nosso crescimento em todas as dimensões. Escravizados pela ambição, serviremos apenas aos ídolos que garantam o nosso bem-estar material, ainda que isso não passe de uma ilusão. Todos nós somos suscetíveis às tentações, porém se nos deixarmos conduzir por aquele que as venceu e vai à nossa frente desobstruindo o caminho, é possível também vencê-las.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/i-domingo-da-quaresma–mt-4-1-11–tentacao–tentativa-de-obstrucao-

 

 

Quarta-Feira de Cinzas: Mt 6,1-6.16-18 – Eis o tempo favorável!

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A celebração da Quarta-feira de Cinzas, marcando o início da Quaresma, nos convida a entrar num “tempo favorável” (2ª leitura) não apenas para a preparação dos catecúmenos para o sacramento do batismo, mas é também um momento de convocação de toda a Igreja para que viva os compromissos desse sacramento, o que exige contínua conversão. “A Igreja é uma comunidade batismal, não apenas porque se forma pelo batismo, mas também e sobretudo porque vive a dinâmica de contínua conversão, cujo princípio está no batismo” (Cristo, Festa da Igreja, pág. 277).

O gesto simbólico da imposição das cinzas, de forte significado bíblico, não é rito mágico para apagar pecados, mas é apelo de conversão, lembrando-nos não apenas de que somos pó e ao pó retornaremos, mas que a nossa vida se renova e se encaminha para sua plenitude à medida que acolhemos o convite de Jesus: “Convertei-vos e crede no evangelho”.

Tradicionalmente as cinzas colocadas nas nossas cabeças no dia de hoje são feitas dos ramos que levamos nas mãos no Domingo de Ramos do ano anterior (Diretório Litúrgico, notas sobre a Quarta-feira de Cinzas), quando aclamamos solenemente Jesus, nosso Rei. Portanto, essas cinzas sobre nossas cabeças não lembram apenas a nossa miséria, mas fazem referência ao Cristo, Rei, Messias sofredor, que para nos reconciliar com o Pai e nos purificar de todo pecado, entregou a sua vida por nós na cruz, mas ressurgiu dos Cruz-dos-jovens-em-Portugal3mortos. Assim como o velho Adão, formado do pó da terra, recebeu o sopro de vida e se tornou um ser vivente (cf. Gn 2,7), o novo Adão assumiu o pó que somos nós para com o sopro do seu Espírito nos dar a vida eterna.

No evangelho de hoje, Jesus nos propõe a vivência das três expressões típicas da piedade judaica, contudo corrige a tentação de fazer delas meras práticas exteriores para serem vistas pelos homens; recupera o seu significado mais profundo, cujas raízes estão no interior do ser humano chamado a participar do mistério de Cristo, o homem novo, profundamente marcado pela abertura ao próximo (esmola, do grego: eleemosúne, algo dado por misericórdia), pela fome de Deus (oração) e pela consciência de suas limitações (jejum). Apesar de não se poder estabelecer uma hierarquia para dizer qual é a prática mais importante, pois as três estão intimamente relacionadas, chama a atenção o fato de Jesus ter iniciado pela caridade (esmola), pois esta é a expressão mais concreta da fé manifestada na oração e do autodomínio (jejum), que é o grande bem que alguém pode realizar a si mesmo.

Numa circularidade sem início nem fim, podemos dizer que só é capaz de dar esmola quem faz a experiência de suas próprias necessidades, carências, de sentir-se um necessitado, cuja consciência mais amadurecida nos vem de uma vida de oração, de intimidade com Deus, diante de quem nos colocamos como absolutamente necessitados, e de quem recebemos tudo. Por sua vez, a intimidade com Deus (oração) nos leva à lucidez de que somos criaturas, cuja liberdade se constrói à medida que aprendemos a renunciar até pequenos bens, para alcançar maiores. No jejum não se faz a experiência da privação de algo ruim, mas aprende-se que é possível renunciar até aquilo que é necessário (alimento) e representa um bem. Portanto, se é possível renunciar um bem, quanto mais não será necessário e possível renunciar o mal. Jejuando, privando-se do que é um bem para si, este bem não se perde, mas transforma-se em bem para o outro, esta é a verdadeira esmola, não é sobra do que não me serve, mas partilha solidária de um bem que eu tenho e o outro ainda não tem. Esmola-oração-jejum são um tripé para sustentar o processo contínuo de conversão: mudança de mentalidade e de atitudes em relação ao próximo, a Deus e a si mesmo.

Quando as mãos estão comprometidas, ocupadas com o outro (solidariedade), não há como tocar trombetas para atrair atenção para si. A verdadeira intimidade com Deus (oração) impede a tentação da ostentação teatral da religião e a exposição em vitrine de falsa piedade. O autêntico jejum nos faz vencer amarras e todo tipo de dependência, tornando-nos capazes de decidir com liberdade e, portanto, nos dá a verdadeira alegria que se irradia como um perfume que se expande irresistivelmente.

A vivência da Quaresma é exercício espiritual cujo fruto é uma vida interior saudável, pois ajuda a retomar o equilíbrio das relações com o próximo, com Deus e consigo mesmo. O abandono dessas práticas tão salutares (esmola, oração, jejum) nos impôs ironicamente, para o nosso bem, a sua obrigatoriedade, pois preferindo abandonar o jejum motivado espiritualmente, somos obrigados à dieta ditada pela doença; relativizando a autêntica oração, recorremos aos psicofármacos para sedar as nossas angústias existenciais; deseducados para a concentração de bens e a avareza, vivemos paranoicamente com medo do semelhante, pois pode nos roubar os bens. Que a Quaresma nos ajude a recuperar a originalidade da vida, com atitudes que deem equilíbrio às relações com o próximo, com Deus e consigo mesmo.

 

SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, a liturgia deste sétimo domingo do Tempo Comum continua nos apresentando o sermão da montanha (cf. Mt 5,38-48). E, assim, nosso Senhor continua nos mostrando que a santidade é o pleno cumprimento da Lei. Peçamos-lhe, então, a Sua graça para sermos fiéis ao Seu chamado.

Na primeira parte do evangelho de hoje, Jesus indica a generosidade como superação da conhecida “lei do Talião” (cf. Mt 5,38-42). Neste sentido, podemos perceber que o amor supera a lei, já que não cumpre apenas aquilo que o que está determinado, mas vai muito além – porque levado pelo impulso do bem-querer. Por isso, no nosso Facerelacionamento seja com Deus, seja com os irmãos, podemos – e devemos – evitar de viver em minimalismos para amar generosamente.

Em seguida, o Senhor nos fala do amor aos inimigos (cf. Mt 5,43-48). Parece um absurdo, é verdade. Mas, como nos lembra G. K. Chesterton, “a Bíblia nos diz para amar nosso próximo e também para amar nosso inimigo; provavelmente porque eles são a mesma pessoa”. O ódio, que pode se manifestar contra qualquer pessoa, sobretudo os mais próximos, quando nos fazem o mal, corrói o coração e acaba minando as possibilidades de amar. Neste sentido, podemos dizer o mal não é jamais remédio para a maldade – esta, ao contrário, só se vence com o bem.

Por fim, é preciso lembrar que nosso Senhor não nos pede nada que não tenha feito por nós. De fato, Ele nos amou quando ainda éramos seus inimigos (cf. Rm 5,10) e rezou por aqueles que o crucificaram – enquanto estava sendo crucificado (cf. Lc 23,34). Assim, ainda que as pessoas que nos rodeiam não mereçam ser amadas, não o mereceria nosso Salvador, que tanto e generosamente nos ama?

Peçamos a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, nossa Mãe, e de São José, seu castíssimo esposo, para que o Senhor nos faça santos, como Ele é santo.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

VII Domingo Tempo Comum: Mt 5,38-48 – Amor cristão é mais do que afeição.

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

O termo ‘amor’ tornou-se, hoje, uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes” (Papa Bento XVI, Deus caritas est, 2). O “amor” representado nas cenas de novelas, nos filmes e romances, e mesmo em alguns fatos do cotidiano, na maioria das vezes não passa de formas de egoísmo ou de paixões desordenadas que não têm nada a ver com o verdadeiro amor, aquele que se entrega gratuitamente pelo bem do outro. O evangelho deste VII Domingo do Tempo Comum apresenta algumas das expressões concretas do verdadeiro amor, que não pode ser confundido com qualquer experiência sentimental egoísta. Para além de uma afeição espontânea e natural, o amor cristão é vivido como fruto de uma decisão de fazer o bem, que derrota o mal e supera uma justiça simplesmente punitiva, motivada pelo espírito de vingança: “Olho por olho, dente por dente”. A Lei de Talião (do latim: talis, tal, igualmente), no mundo antigo, representava um princípio de justiça muito razoável, pois a punição era de acordo com o delito (Lv 24,20), porém a motivação era a vingança. Jesus desafia os seus discípulos a praticar uma justiça que supere a vingança e se revista de verdadeira misericórdia, pois é assim o agir do Pai celeste que: “faz nascer o sol sobre Crucificadomaus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos”. É amar o outro sem depender de uma motivação afetiva, mas simplesmente por uma decisão efetiva de quem fez a escolha pelo bem.

Aparentemente, diante das prescrições de Jesus, poder-se-ia concluir que o amor cristão é passividade resignada e doentia, ou mesmo uma submissão inerte inclusive em situações de incontestáveis injustiças, mas se engana quem pensa assim. Aquilo que o Mestre propõe e ele mesmo viveu representa uma das propostas mais revolucionárias e “violentas” que podem marcar e mudar os relacionamentos humanos: atitudes que quebram o esquema perverso de causa e efeito, ação e reação. Para quem não aderiu ainda à lógica do evangelho, ressoa como escandalosa e incompreensível a mudança da retaliação, da vingança, para a não resistência, para a generosidade que se enraíza numa liberdade interior que nada pode destruir. Os exemplos práticos dados por Jesus não apontam para uma finalidade em si, mas são estratégias eficientes para romper com o ciclo da violência e da vingança.

O ponto de partida é: “não enfrentar quem é malvado”, pois colocar-se diante de quem é malvado, tentando defender-se dele, é correr o risco de imitar o seu procedimento, usando as suas mesmas armas e, consequentemente, sofrer uma verdadeira simbiose a ponto de tornar-se também um malvado. Em contrapartida, Jesus apresenta quatro atitudes estratégicas que rompem com o ciclo da violência: “Oferecer a outra face”, mais que acovardar-se, é mostrar que nenhuma ofensa perturba o interior de quem está convicto do bem que pode realizar. Dar uma bofetada na face era mais do que uma agressão física, era uma violenta maneira de insultar, provocar a outra pessoa, a fim de que perdesse a paz e aderisse ao ciclo de violência revanchista. Portanto, oferecer a outra face, era sinal de grande firmeza interior, que não se deixa arrastar pela irracionalidade da violência. “Entregar também o manto”: nos processos o manto poderia ser dado como penhor, porém deveria ser devolvido antes do anoitecer (Ex 22,26; Dt 24,13). O desapego interior do cristão o leva até mesmo a renunciar aquilo que é direito seu, inclusive as coisas que lhe são necessárias, pois crê que ser bem-aventurado é ter coração de pobre, é saber entregar tudo. “Caminhar a mais do que foi pedido”: os soldados romanos tinham direito (grego: angareusei) de obrigar a quem encontrasse no caminho a acompanhá-los (indicando o caminho) ou a carregar fardos (como fizeram com Simão obrigando-o a carregar a cruz de Jesus, Lc 23,26). Jesus usa esta imagem para dizer que o seu discípulo deve estar sempre disponível para o serviço, que não se limita ao estritamente pedido, nem se acomoda à mediocridade calculista, nem se deixa aprisionar pela obrigação formal.

Por fim: “Dar a quem pedir”, atitude de gratuidade que deve caracterizar o discípulo, o amor que socorre quem necessita; o amor não humilha com atitudes de indiferença e, por isso, não deve “virar as costas”. A pessoa humana sente-se mais amada quando é acolhida como um semelhante do que mesmo quando recebe esmolas, apesar de necessitada. Quando não temos nada de material para oferecer ao necessitado que encontramos no caminho, é mais fácil virar-lhe as costas ou passar para o outro lado, impedindo qualquer tipo de aproximação ou contato. Talvez um animal atraísse mais a nossa atenção e interação. Contudo, um coração que ama tem muito mais a oferecer do que simplesmente coisas materiais; um olhar humaniza, um sorriso restitui dignidade, uma palavra alivia a solidão. O amor cristão nos provoca a tomar uma decisão, isto é, amar até a quem não consideramos dignos do nosso amor: nossos inimigos, nossos perseguidores, aqueles que não nos amam, porque também não nos consideram dignos do seu amor.

Amar os inimigos fere a lógica do amor humano, pois este se identifica com afeição, prazer, bem-estar, enquanto que o amor cristão é decisão de fazer o bem. O cristão não se sente bem e por isso ama, mas ama para alcançar o bem. Não busca o bem no outro para amá-lo, mas ama-o para fazer-lhe o bem, pois isso lhe faz bem. Buscar razões e motivações em nós mesmos para isso é correr o risco de desanimar e desistir, por isso além do imperativo de Jesus “Amai os vossos inimigos” está “Orai por quem vos persegue”. Se colocar-se diante do malvado é arriscar tornar-se malvado como ele, e, por conseguinte, não ser capaz senão de odiar e vingar-se, então colocar-se diante do Sumo Bem, numa atitude orante, reconhecendo que ainda não conseguimos amar os nossos inimigos, a fim de aprendermos que o amor gratuito é o único caminho de vencer a violência do não amar, é aprender que Ele nos ama apesar de não sermos dignos desse amor.

 

 

SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, neste domingo, o sexto do Tempo Comum, a liturgia nos apresenta mais um trecho do sermão da montanha (cf. Mt 5,17-37). Nele, nosso Senhor não só confirma, mas leva a pleno cumprimento a segunda tábua da Lei. Peçamos-lhe, então, a Sua graça para correspondermos à Sua misericórdia com um amor sempre mais generoso.

Impressiona-me como Jesus está atento não só às grandes questões, como o homicídio (cf. Mt 5,21), o adultério e o divórcio (cf. Mt 5,27.31), mas também às pequenas coisas do cotidiano, como os sentimentos de raiva (cf. Mt 5,22) ou os olhares e desejos maliciosos (cf. Mt 5,28). Penso que este cuidado tão acurado que Ele tem por nós é mais um sinal de quão grande é Seu amor misericordioso. De fato, Deus quer tanto o nosso bem que não Sermoexiste nada em nossa vida que não lhe seja importante. Não é impressionante que o Senhor do céu e da terra tenha um olhar tão cuidadoso por cada um de nós, suas minúsculas e frágeis criaturas?

Pois bem, só quando estamos conscientes disto, ou seja, de que é por Sua infinita misericórdia que o Senhor nos dá tais avisos neste evangelho que podemos acolhê-los não como fardos pesados, mas como caminho de libertação interior e realização pessoal e comunitária. Quando descobrimos que arrancar de nossas vidas as mínimas ocasiões de pecado, ainda que isso custe, (cf. Mt 5,29-30) é a resposta a Seu imenso amor, que podemos dar sustentados pela mesma Graça, e não a condição para que sejamos amados, é que experimentamos, no cumprimento de mandamentos tão fortes, a verdadeira liberdade e felicidade.

Que a bem-aventurada Virgem Maria, nossa Mãe, e São José, seu castíssimo esposo, nos intercedam por nós para que vivamos imersos no mistério do Amor de Deus.

Sub tuum præsidium confugimus.

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VI Domingo Tempo Comum: Mt 5,17-37 – Justiça do Reino: mais do que uma letra

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Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

Para Mateus, Jesus é o verdadeiro Mestre da justiça. Apesar de ser muitas vezes acusado de transgressor dos mandamentos, Ele mesmo declara: “Não penseis que vim abolir a lei e os profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento”. Nesta afirmação de Jesus, não encontramos apenas uma defesa de si mesmo e de seus ensinamentos, mas a denúncia de algo mais grave: a tentativa de alguns mestres da Lei e fariseus de destruir o próprio fundamento dos mandamentos, grande ameaça à vida. Pois, fazendo muitas manobras interpretativas, abandonavam o núcleo fundamental da Lei para aplicá-la (fazer justiça) de acordo com seus interesses, favorecendo suas posturas de dominação ideológica, religiosidade hipócrita e atitudes demagógicas, como denunciará mais adiante o próprio Jesus: “Amarram pesados fardos e os põem sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos nem com um dedo se dispõem a movê-los” (Mt 23,4). Diante dessa tentativa de destruição da Palavra de Deus por parte dos mestres da lei e dos fariseus, Jesus lança aos seus discípulos o grande desafio: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus”.

Encontramos no evangelho de hoje, de forma muito didática, como Jesus faz essa denúncia. Primeiramente, afirma que a Lei de Deus não é um conjunto de mandamentos isolados, aplicados casuisticamente, manipulados de forma arbitrária a ponto de serem moldados segundo algumas situações particulares, justificando uma aplicação distorcida da Lei. Mas a Lei de Deus tem um fundamento único, que dá coerência a todos os mandamentos e, portanto, nem um iota pode ser mudado. Não se trata de fundamentalismo, mas de reconhecer o fundamento da Lei, como expressão da vontade de Deus, que deve ser conhecida e praticada, a fim de que a vida seja respeitada e preservada como valor absoluto.

Quando Jesus afirma que nada pode ser mudado da Lei, nem um iota nem mesmo um tracinho, está afirmando que esfacelar a Lei é o primeiro passo para desintegrá-la, enfraquecê-la e, por conseguinte, destruí-la. O Mestre não fez referência à letra iud (grego iota) simplesmente por ser a menor letra do alfabeto hebraico, mas por seu profundo significado. Ela é a décima letra do alfabeto hebraico, isto significa uma referência à totalidade dos dez mandamentos (É uma pena que, na maioria das vezes, se traduza genericamente por “uma só letra ou vírgula”). Portanto, tirar um só mandamento é ferir a unidade indissolúvel da Lei, que se resume no amor a Deus e ao próximo com expressões bem concretas. Para provar que não veio destruir a lei, mas levá-la a pleno cumprimento, Jesus recupera o seu verdadeiro significado fazendo a releitura de alguns dos mandamentos. Começando pelo 5º mandamento (Não matarás), que está no centro do decálogo, Jesus dá a chave de leitura para todos os outros: a vida que deve ser respeitada como principal dom de Deus. Matar, cuja punição é a morte eterna, não sermao-da-montanhasignifica apenas acabar com a vida física de alguém, mas implica todo o processo de destruição da pessoa nas suas várias dimensões (física, moral, espiritual, social), não excluindo até a morte do assassino, que tomado de cólera, já começa por destruir-se a si mesmo. Matar também significa tratar o irmão como patife (aramaico: raqa, cabeça oca) ou tolo (grego: morós, idiota).

Uma das responsabilidades dos mestres da Lei era justamente instruir o povo com os Mandamentos, a fim de que se tornasse um povo sábio e inteligente que sabe fazer escolhas acertadas, que não se deixa confundir e enganar, que orientando-se pela Palavra de Deus, opta por escolher a vida e não a morte (cf. Dt 30,15s). Os mestres conheciam este seu dever: “Observareis os mandamentos de Javé vosso Deus tais como vo-los prescrevo… Portanto, cuidai de pô-los em prática pois isto vos tornará sábios e inteligentes aos olhos dos povos” (Dt 4,2.6). Deixar o povo na ignorância, sem o verdadeiro conhecimento dos mandamentos, era aprisioná-lo, levando-o à morte. Portanto, Jesus denuncia este pecado dos fariseus e mestres da Lei relacionando-o com o mandamento de “Não matarás”. Tratar as pessoas como imbecis ou tolas é negar-lhes o direito de conhecer a verdade, enganando-as com práticas pseudo-religiosas infantilizadoras; anestesiadas por um sentimentalismo sem um mínimo de racionalidade, são impedidas de amadurecer na fé e tornar-se menos dependentes de guias-cegos.  O individualismo da prática religiosa é também uma forma de matar o irmão. Jesus dá um exemplo concreto de como se faz isso: agindo de forma hipócrita, isto é, apresentar-se diante de Deus buscando a comunhão com Ele, sem estar em comunhão com o irmão.

Intimamente relacionado ao “Não matarás” está o “Não cometerás adultério”. Um mandamento que não diz respeito apenas à fidelidade conjugal, mas à própria aliança com Javé. Aliança que está fundamentada numa atitude de doação, que exige integridade, fidelidade e amor incondicional. O adultério destrói todas essas condições para se viver o amor de forma autêntica, na liberdade e na corresponsabilidade. Contudo, a infidelidade é consequência de um processo de destruição da Lei de Deus, por isso, mais uma vez Jesus vai apresentar a raiz do pecado, que não está no ato em si, mas já nas atitudes que são cultivadas no coração, centro das decisões, e que, consequentemente, levam à prática do adultério. Olho e mão (direitos) simbolizam todo o ser humano na sua capacidade de conhecer (olho) e agir (mão). O povo que conhece a Lei de Deus sabe como deve se comportar. Mas se o olhar estiver desviado para outro lugar, as consequências desastrosas serão inevitáveis. A infidelidade do povo era esquecer o que os seus olhos tinham visto e, por isso, buscava outros deuses (idolatria: adultério). O Deuteronômio já advertia: “Apenas fica atento a ti mesmo! Presta muita atenção em tua vida, para não esqueceres das coisas que os teus olhos viram, e para que elas nunca se apartem do teu coração… Ensina-as aos teus filhos” (Dt 4,9). A infidelidade do povo muitas vezes era consequência da infidelidade dos mestres em relação à sua missão de fazê-lo conhecer os mandamentos de Deus. Por fim, Jesus retoma um dos mandamentos relacionados ao amor a Deus (“Não tomar seu nome em vão”): “Não jurarás falso, mas cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor”. O juramento era uma atitude de arrogância do homem que tomava Deus como testemunha dos seus atos, quando na verdade, é o homem que deve ser testemunha das ações de Deus. Portanto, a fidelidade à aliança (6º mandamento), o compromisso com a vida (5º mandamento) serão o modo de o homem testemunhar o seu sim ou seu não diante de Deus. Todas as vezes que o homem fizer tentativas de distorcer a Palavra de Deus, cujo intérprete é o seu Filho, está colaborando com o Maligno, cujo projeto é destruir a vida, começando com a desintegração da Palavra de Deus, confundido as mentes com ideologias de morte e esvaziando a cabeça das pessoas, para fazê-las imbecis (raqa), presas de fácil dominação.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/vi-domingo-tempo-comum–mt-5-17-37–justica-do-reino–mais-do-que-uma-letra

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