Cristo e o cego

Caros irmãos, já vimos que a liturgia da Quaresma deste ano A nos insere, nós que já fomos batizados, num itinerário renovação das graças batismais. Assim, Jesus, que no domingo passado se revelou como fonte de água viva, se revela como luz do mundo (cf. Jo 9,1-41) neste IV Domingo, também chamado Lætare, portanto, da alegria. Que a Luz do Senhor dissipe as trevas do nosso coração!

Em primeiro lugar, notemos que, mais uma vez, é salientada a iniciativa de Deus: o então cego desde o nascimento nem mesmo pede a cura, como o fez Bartimeu (cf. Mc 10,46-52) – Jesus simplesmente o vê, o unge com barro (sinal da recriação) e o cura através do banho de água (cf. Jo 9,1.6). Ninguém se antecipa ao Amor do Senhor. A luz de Cristo nostoca e abre-nos para crer (cf. Jo 9, 38). Em seguida, creio, é preciso que vivamos o momento atual sob esta mesma Luz. Afinal, é sempre tempo de corresponder ao amor de Deus! E podemos fazer isso agora, em meio à presente pandemia. Para tanto, proponho dois exercícios: o confronto e o encontro.

Confrontar significa “pôr ou ficar frente a frente” [1]. Infelizmente, não estamos acostumados a encarar nossos problemas… Quantas vezes, quando temos algo que nos desagrada, procuramos algum subterfúgio para esquecê-lo? Pois bem, muitas das nossas vias de fuga, por força das graves circunstâncias atuais, estão simplesmente fechadas. Então, por que não desligamos a TV (isso ajudará, inclusive, a não entrarmos num pânico que, além de desnecessário, não ajuda em nada) e encaramos a realidade? A nossa realidade: que somos frágeis criaturas, finitas e mortais, e não existe algum bem material que nos seja capaz de nos dar segurança diante dos inimigos invisíveis (sejam eles o vírus chinês ou satanás e seus demônios); que precisamos de uma Luz que nos ilumine e dissipe nossas trevas dando sentido à nossa vida; e que esta Luz existe, nos é transcendente, ou seja, não vem de nós, mas de um Outro. Confronto. Parece-me que encarar é melhor que tentar se distrair.

E isso nos levará a encontrarmo-nos: conosco mesmos, com Deus e com nossa família. Quanto tempo faz que não olhamos para o nosso coração? Temos, agora, uma oportunidade ímpar para um exame de consciência profundo, feito na presença do Salvador misericordioso, e que nos faça ver não só nossos limites, erros e pecados, mas também nossos valores, dons que o Senhor nos deu. E, assim, encontrarmos o doce Hóspede de nossa alma. Pois, embora Ele jamais nos esteja ausente, é, por vezes, esquecido. Mas Ele está no meio de nós! O Senhor não nos abandona. Ao contrário: nos dá a luz da fé que nos abre ao seu Amor infinito e absoluto e, dessa forma, nos sustenta e impulsiona a cada instante. Por fim, temos ainda a oportunidade de encontrarmo-nos com a nossa família e perceber que amá-la é mais que dar-lhe coisas: é darmo-nos, é dar tempo, é estarmos presentes. Se você não pode ir à igreja neste domingo, faça do seu lar aquilo que ele é: Igreja doméstica; e redescubra a poderosa fecundidade da oração feita em família. É o dia do Senhor, santifique-o! Não o jogue fora pela janela da TV!

Resta ainda uma pergunta: quando tudo isso passar, seremos melhores ou piores que antes? (Em outras palavras, estaremos mais próximos ou mais distantes daquilo que o Senhor nos criou para ser) Como disse, ainda nessa semana, P. Júlio Ferreira: que a saudade que hoje sentimos da divina Eucaristia nos leve a uma verdadeira conversão.

Que a bem-aventurada Virgem Maria, refúgio dos pecadores, e de São José, nosso protetor, estejam presentes, mais que nunca, em nossas casas, trazendo a nós o Cristo-Luz.

Sub tuum præsidium confugimus.
sancta Dei Genitrix:
nostras deprecationes
ne despicias in necessitatibus:
sed a periculis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.

 

[1] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, https://dicionario.priberam.org/confrontar.