Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A liturgia desse V Domingo nos apresenta a última catequese sobre o batismo: a ressurreição de Lázaro; no mistério da morte daquele que crê, o anúncio da vitória da vida que não morre. Assim como na cura do cego de nascença (IV Domingo) apareceram os verdadeiros cegos, aqui se revelam quem são os verdadeiros doentes e que arriscam morrer verdadeiramente. A doença de Lázaro serve para: “A glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”, porque é ocasião para Jesus revelar que há uma doença mais grave na vida do ser humano do que os males físicos: a incredulidade, pois esta sim pode levar à morte eterna, e só crendo Nele, o ser humano poderá ser curado dessa enfermidade letal. A incredulidade não é apenas a não crença numa divindade ou a não aceitação de um credo religioso, mas representa algo mais mortal para o ser humano, é a recusa do amor de Deus, “que tanto amou o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A rejeição ao amor de Deus é uma das marcas do nosso tempo. Na base de todo desamor (ódio, violência, injustiças etc.) está a ausência da experiência de ser amado. Lázaro é o símbolo do homem que, apesar de sua doença, é amado por Deus. Quando as irmãs mandam dizer a Jesus que ele estava doente não o identificam com o seu nome (Lázaro), mas com uma expressão que indica a condição de todo ser humano: “Aquele que amas está doente”.

Como é difícil para o mundo de hoje reconhecer essas duas grandes verdades: por um lado, a doença da incredulidade, por outro, o amor de Deus que é capaz de curá-la desse mal, e garantir não apenas a saúde do corpo para alguns anos aqui na terra, mas a vida que não morre, cujo ápice é a ressurreição, a plenitude da vida. Da parte do ser humano basta crer nesse amor, o mais Deus já fez: “Não há maior prova de amor do que dar a Lazarus,_Russian_iconvida” (Jo 15,13). A necessidade urgente de contemplar o crucificado não é impulso masoquista de uma religião alienante, mas a condição imprescindível para fazer a experiência de um amor, que não se acovarda para provar que é verdadeiro.

Até chegar ao túmulo de Lázaro, o morto que não morreu, Jesus vai encontrando muitos outros doentes (incrédulos) que estão morrendo, cujos sintomas vão se evidenciando nos vários personagens da narração. O primeiro sintoma manifesta-se nos discípulos: “Mestre, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?”, é o medo-covarde que toma o coração dos discípulos. Choca reconhecer que os primeiros da lista dos doentes são os próprios discípulos. O medo da morte para quem não tem fé já é a morte antecipada. Infelizmente hoje, também, há muitos que se dizem cristãos, mas na hora de seguir os passos do Mestre, rejeitado e condenado à morte por causa de sua fidelidade à verdade, acovardam-se e decidem por outra estrada. Se a morte nos lança uma penumbra de incertezas, a luz de Cristo rompe a escuridão e nos garante que a morte física é apenas uma passagem como a noite é vencida pela luz do amanhecer: “Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo”.

A palavra de Jesus inicia, nos discípulos acovardados e medrosos, o processo de cura; não é por acaso que aquele, cuja incredulidade foi definitivamente sanada após o encontro com o Senhor ressuscitado, tome a palavra e dê o primeiro passo da fé: “Tomé disse então aos outros discípulos: ‘Vamos também nós para morrermos com ele!’”.

Marta e Maria, mesmo demonstrando certa fé em Jesus, passam pelo momento da dúvida: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. A fé questiona, mas não deixa dúvidas, pois indica o caminho. A dúvida (do latim: dubitare, oscilar entre duas partes; grego: distadzo, ficar em dois caminhos) paralisa, por isso Maria está prostrada (“ficou sentada em casa”), não consegue caminhar até Jesus porque tem dúvidas. Contudo, a sua irmã Marta, tendo sido desafiada por Jesus a vencer a dúvida pela fé: “Crês isto? Sim, Senhor, eu creio”, vai chamá-la a fim de que se levante (grego egeiro: levantar, mesmo verbo para ressuscitar) e tome a estrada em direção ao Mestre, abandone o seu sepulcro e tenha vida.

Outro sintoma da incredulidade é a falta de esperança: os judeus, apesar de terem ido à casa de Marta e Maria para consolá-las, não foram capazes de infundir-lhes esperança, não conseguiram enxugar as lágrimas das enlutadas, mas pelo contrário choravam com elas aumentando o clima de desespero. Diante de tantos sinais de incredulidade, a reação de Jesus: “Estremeceu interiormente… E Jesus chorou”. Não é coerente pensar que o choro de Jesus se deu pelo fato de estar inerte diante do túmulo de um amigo amado agora defunto, pois ele sabia que iria ressuscitá-lo; a certeza da ressurreição já era suficiente para vencer a tristeza da morte, por isso Jesus não precisava chorar. Portanto, a indignação de Jesus (comoveu-se interiormente, grego: enebprimésato en pneumati, encolerizar-se em espírito) é mais do que uma tristeza emocional, mas um repúdio diante da incredulidade assim como Jesus chorou ao ver Jerusalém, que não reconheceu o dia da sua visita (Lc 19,41s). Portanto, é a incredulidade, a recusa de Deus e do seu amor que provoca o choro de Jesus.

Contudo, para esta doença há esperança de cura, pois o Pai ouve sempre o Filho, e este é o desejo do Filho: “que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Na oração de Jesus à porta do sepulcro se consolida toda a nossa esperança de cura: “Pai, dou-te graças”. Jesus não pede para que algo aconteça, abrindo espaço para dúvidas, mas agradece por aquilo que vai acontecer, por isso utiliza o verbo eucharisto (daí Eucaristia: memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor). Assim chegamos ao ponto mais alto de nossa preparação quaresmal: o anúncio da morte e ressurreição de Cristo, o grande sinal dado por Deus de que nos ama, a grande ajuda (Lázaro significa “Deus ajuda”) para vencermos a incredulidade e termos vida plena. Todo batizado foi curado da doença da incredulidade, mas para que não adoeça precisa vencer a tentação da incredulidade. Celebrar a Eucaristia, alimento dos batizados, é dar a resposta: “Sim, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo”, cuja missão é testemunhar que Deus nos ama. E, por isso, a permanente pergunta do Senhor a nós: “Crês isso!”.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/v-domingo-da-quaresma–jo-11-1-45–incredulidade–a-doenca-mortal