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TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO PASCAL (P. Lucas, scj)

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Emaús2

Caros irmãos, no terceiro domingo do Tempo Pascal, a liturgia nos leva a rezar com a manifestação de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35). Peçamos ao Senhor que nos sustente e nos dê perseverança para O seguirmos sempre!

Em primeiro lugar, notemos a tristeza dos discípulos. Já o saudoso P. Léo Tarcísio, scj, chamava nossa atenção para o pesaroso caminhar daqueles que tinham seguido o Senhor até Jerusalém: eles empregaram muito tempo mais que o esperado (uma pessoa andando normalmente pode completar um itinerário de 11km em 2-3 horas). O próprio texto evangélico diz que seu rosto era triste (cf. Lc 24,17). De fato, a Cruz lhes tinha tirado a esperança e, por isso, eles voltavam para casa. Trata-se de uma tentação muito comum em nossa vida: nos momentos mais escuros e difíceis, frequentemente parece impossível prosseguir e o melhor é voltar a um estágio anterior já conhecido e, portanto, aparentemente mais seguro – nossa vida espiritual é assim; nossa vocação, também.

Porém, o Senhor não nos abandona, não nos deixa sós e, por mais que não o reconheçamos, Ele está conosco durante todo o caminho – mesmo quando nos decidimos pela direção contrária à Sua: “se aproximou e começou a caminhar com eles”, diz o texto (Lc 24,15). Precisamos, então, reconhecê-lo. E, para isso, temos o “partir do pão” (cf. Lc 24,30-31). Irmãos, quem poderia duvidar da proximidade de um Deus que, para estar conosco, se tornou nosso alimento? Na santíssima Eucaristia temos Jesus realmente, ou seja, substancialmente presente em Seu corpo, sangue, alma e divindade. Que dom extraordinário! Não deixe passar em branco a saudade da Missa que está no seu coração: busque realmente entrar em comunhão com o Senhor Jesus Cristo arrependendo-se dos seus pecados e recebendo o perdão no sacramento da Penitência; depois receba a Eucaristia com renovador fervor.

“Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém” (Lc 24,33). Recomecemos, também nós, a seguir Jesus, para dar testemunho de que Ele está vivo e presente no meio de nós (cf. Lc 24,35): dando sentido ao nosso caminho; purificando-nos dos nossos pecados (cf. 1Pd 1,19 – segunda leitura); vivificando-nos pela fé que jorra desta vida àquela eternamente feliz dos céus.

Que a bem-aventurada Virgem Maria, nossa mãe, e S. José, nosso protetor, nos ajudem com sua intercessão a perseverar até o fim no seguimento de Jesus Cristo.

Regina Cæli, lætare, alleluia;
Quia quem meruisti portare, alleluia;
Resurrexit, sicut dixit, alleluia;
Ora pro nobis Deum, alleluia.

 

III Domingo da Páscoa: Lc 24,13-35 – Não somos discípulos para Emaús

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

O itinerário proposto pela liturgia durante esses cinquenta dias de júbilo pascal se desenvolve em três fases distintas, porém intrinsecamente relacionadas. A 1ª fase é a Oitava da Páscoa, cujo centro é o anúncio de que Cristo não está no sepulcro, mas vivo e, por isso, manifesta-se à sua comunidade, a fim de que essa creia na sua vitória sobre a morte e se prepare para assumir a sua missão. A 2ª fase (III ao V Domingo) nos apresenta os fundamentais desafios para que a comunidade do Ressuscitado se torne verdadeiramente suas testemunhas, tome consciência das exigências da sua identidade e missão; por fim, a 3ª fase (VI Domingo e Ascenção) é preparação imediata para a conclusão do Tempo Pascal com a Solenidade de Pentecostes.

A tão conhecida narração do evangelho de hoje nos introduz no 2º momento desse percurso pascal; não basta apenas afirmar que Jesus ressuscitou, é preciso que os seus discípulos também façam a experiência da vida nova que Ele lhes conquistou, para isso é preciso empreender um caminho de conversão (voltar de Emaús), de mudança de mentalidade, deixando-se iluminar pela ressurreição do Senhor que dá uma nova compreensão às Escrituras (dinâmica do caminho) e faz enxergar a verdade dos Emaúsacontecimentos da vida, que se nutre com a presença permanente do Crucificado que ressuscitou (Eucaristia). À luz da Escritura e alimentada pela Eucaristia, a comunidade vence toda tendência imediatista, ensimesmada e superficial de pensar e viver a sua missão no mundo, partindo de Jerusalém, e não se refugiando em quaisquer vilarejos que garantam proteção e comodidade.

O tradicional título dado a esta narração evangélica: “Os discípulos de Emaús”, apesar de ser tão comum entre nós, não parece ser muito coerente com o texto. Infelizmente a visão superficial nos aprisiona a estereótipos e não nos damos conta de suas ulteriores deformações. Para muitos a expressão virou poesia, e tantos almejam tornar-se “Discípulos de Emaús”. Tecnicamente “de Emaús” serve para identificar a proveniência (por exemplo, Maria de Magdala, Paulo de Tarso: são antropônimos geográficos). Contudo, o evangelho em nenhum momento faz esse tipo de referência; encontramos apenas: “Dois discípulos de Jesus iam para um povoado chamado Emaús”. O que é Emaús? Onde fica? Diz-se apenas que é um vilarejo perto de Jerusalém (11km), contudo até hoje não se sabe com precisão onde está situado; na Bíblia só essa vez é mencionado (Lc 24,13). Se geograficamente não se pode localizá-lo, etimologicamente pode ter significado de “fortaleza” (do hebraico ‘amós). Quiçá estamos diante de uma importante chave de leitura do episódio.

Diante da morte de Jesus, os seus discípulos passaram por uma profunda convulsão. O próprio Jesus anunciou: “Esta noite todos vós vos escandalizareis por minha causa, pois está escrito: ‘Ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão’. Mas, depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galileia” (Mt 26,31-32). E umas das reações foi justamente procurar segurança, fugir para um lugar ou situação que garantisse proteção (fortaleza). Alguns se reuniram e trancaram as portas por medo (Jo 20,19s); outros abandonaram a comunidade momentaneamente, mas retornaram (Tomé); outros tomaram o caminho de distanciamento de Jerusalém, decepcionados diante de suas expectativas. Ir na direção de Emaús representa uma dessas soluções fáceis. Portanto, renunciar ao chamado de ser discípulo de Jesus.

O Senhor, porém, vai ao encontro de todos, pois não quer que nenhum se perca, nem dentro de casa trancados, nem fora, longe da comunidade, deserdados. O caminho para Emaús é ocasião para Jesus ajudar os discípulos a mudarem de rumo (conversão). Diante da morte de Jesus havia várias outras possibilidades: tornar-se “discípulos do medo e da covardia”, “discípulos da conveniência e oportunismo”, como também “discípulos da fuga”. Portanto, aqueles que arriscavam se tornar “discípulos de Emaús” são desafiados pelo próprio Jesus a reassumirem a vocação original de ser discípulos do Ressuscitado, suas testemunhas, cuja fé vence o medo e a coragem faz retornar às origens, ainda que a noite já se adiante. No caminho para Emaús, Jesus propõe uma inversão de marcha, aquecendo os seus corações com uma nova leitura-interpretação dos fatos à luz da Palavra, abrindo-lhes o coração e a mente para uma nova compreensão dos acontecimentos da sua morte e ressurreição à luz da sua vida, dos seus ensinamentos e de sua obediência ao Pai.

Fazendo caminho para Emaús, Jesus forma o coração dos companheiros de viagem para uma outra direção, a fim de que abandonem a tentação da busca de proteção (Emaús: fortaleza), longe da comunidade, mas que descubram que o lugar deles é o cenáculo em Jerusalém, onde eles viram Jesus pela última vez partindo o pão, como sinal de sua entrega, do seu amor incondicional, e onde receberão o Espírito Santo para continuar a obra de Jesus. A palavra de Jesus no caminho para Emaús foi mostrando a necessidade de mudar de rota. Contudo, precisavam mais do que uma nova indicação de rota, necessitavam de forças para voltar. Por isso, o próprio Senhor, ao tomar o pão, dar graças, partir e entregar-lhes, os alimenta, dando-lhes disposição para empreender o caminho de volta.

O evangelho de hoje nos apresenta um grande desafio: abandonar o caminho para Emaús e tornar-se discípulo de Jesus; isso exige escuta atenta e fiel da Palavra, coragem de ir além das aparências dos fatos, rompendo com interpretações precipitadas e fundadas na incredulidade, e deixar-se revigorar pela Eucaristia, o alimento para quem não busca seguranças fáceis, mas que reconhece que a sua missão é a mesma missão do Mestre, que não se acovardou diante da cruz, e por isso, ressuscitou.

O tempo da Páscoa é momento propício para revermos a nossa rota. Se estamos indo para Emaús ou se estamos nos deixando orientar pelo Divino Caminheiro, que se faz caminho, nos precede na estrada certa, nas sendas da missão. O que queremos ser? Discípulos de Emaús ou discípulos de Jesus? Para Emaús teremos comodidade aparente, mas viveremos no vazio de sentido por causa do medo, e na ausência de esperança, por causa da fuga. Se decidirmos por Jesus, teremos companhia indispensável (comunidade), orientação imprescindível (Palavra de Deus), alimento em abundância (Eucaristia), destino garantido (vida plena).

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/iii-domingo-da-pascoa–lc-24-13-35–nao-somos-discipulos-para-emaus

 

 

NOVA CRIATURA EM CRISTO

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Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo.

Minha palavra se dirige a vós, filhos recém-nascidos, pequeninos em Cristo, nova prole da Igreja, graça do Pai, fecundidade da Mãe, germe santo, multidão renovada, flor de nossa honra e fruto do nosso trabalho, minha alegria e coroa, todos vós que permaneceis firmes no Senhor.

É com palavras do Apóstolo que vos falo: Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não deis atenção à carne para satisfazer as suas paixões (Rm 13,14), a fim de que, também na vida, Icona - Resurrezionevos revistais daquele que revestistes no sacramento. Todos vós que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo. O que vale não é mais ser judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só, em Jesus Cristo (Gl 3,27-28).

Nisto reside a força do sacramento: é o sacramento da vida nova que começa no tempo presente pela remissão de todos os pecados passados, e atingirá sua plenitude na ressurreição dos mortos. Pelo batismo na sua morte, fostes sepultados com Cristo, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos, assim também leveis uma vida nova (cf. Rm 6,4).

Agora caminhais pela fé, vivendo neste corpo mortal como peregrinos longe do Senhor. Mas o vosso caminho seguro é aquele mesmo para quem vos dirigis, Jesus Cristo, que se fez homem por amor de nós. Para os seus fiéis ele preparou um grande tesouro de felicidade, que há de revelar e dar abundantemente a todos os que nele esperam, quando recebermos na realidade aquilo que recebemos agora só na esperança.

Hoje é o oitavo dia do vosso nascimento. Hoje completa-se em vós o sinal da fé que, entre os antigos patriarcas, consistia na circuncisão do corpo no oitavo dia depois do nascimento segundo a carne. Por isso, o próprio Senhor, despojando-se por sua ressurreição da mortalidade da carne e revestindo-se de um corpo não diferente mas imortal, ao ressuscitar consagrou o “dia do Senhor”, que é o terceiro dia depois de sua paixão, mas na contagem semanal dos dias, é o oitavo a partir do sábado, e coincide com o primeiro dia da semana.

Por conseguinte, também vós participais do mesmo mistério, não ainda na realidade perfeita mas na certeza da esperança,porque recebestes a garantia do Espírito. Com efeito, se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória (Gl
3,1-4).

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO PASCAL (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, o segundo domingo do Tempo Pascal foi dedicado, por S. João Paulo II sob a inspiração de Santa Faustina Kowalska, à festa da Misericórdia. Nela, a liturgia nos leva a contemplar os últimos passos de S. Tomé no caminho para professar a fé (cf. Jo 20,19-31). Rezemos pedindo ao Senhor que nos socorra e aumente a nossa fé!

O evangelho chama nossa atenção para um detalhe: o lugar onde os discípulos se encontravam estava com as portas fechadas “por medo dos judeus”. O medo, de fato, nos fecha, nos aprisiona, nos impede de caminhar. Mas, continua o texto, “Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: ‘A paz esteja convosco’” (Jo 20,19). O contraste é flagrante: diante do medo e do fechamento dos Seus, a absoluta liberdade do Senhor que, não obstante toda barreira, entra e dá a paz. Irmãos, só Cristo – e ninguém mais – pode nos dar a paz e a segurança porque Ele é Misericórdia! Portanto, não busquemos nosso refúgio em nenhum outro lugar que não seja Seu Sagrado Coração.

O acesso a tal refúgio nós temos pela fé. É o que Jesus diz a S. Tomé: “não sejas incrédulo, mas fiel” (Jo 20,27). Ou seja, não é vivendo fechados no nosso egoísmo, fugindo da cruz, fazendo de conta que o Criador não existe ou, se existe, é completamente indiferente a Tomé e Jesusnós que encontraremos abrigo. Mas é reconhecendo Jesus Cristo como nosso Senhor e Deus e fazendo do nosso relacionamento com Ele o fundamento de todas as nossas ações que encontraremos a paz que nosso coração tanto deseja. É claro que isso não nos livra de ter dificuldades, porém, n’Ele tudo encontra seu sentido último porque é Ele quem nos torna capazes de amar verdadeiramente.

E, enfim, cultivamos nossa fé como a Igreja vem fazendo perseverantemente há 2000 anos, ou seja, ouvindo “o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna na fração do pão e nas orações” (At 2,42 – primeira leitura). Conhecer a doutrina e a Tradição da Igreja é algo que, em geral, os católicos brasileiros deveriam buscar com mais afinco. Afinal, nunca foi tão claro que tempo é questão de escolha (para ler 5 páginas de um bom livro empenham muito menos tempo do que qualquer live musical…). Mais. Creio que, depois de tudo o que estamos passando, não é mais preciso argumentar dizendo que ir à igreja e participar da Missa, tendo confessado nossos pecados com sincero desejo de conversão, é necessário e insubstituível… Por fim, a oração: que sendo constante se torna um modo de conviver com o Senhor sempre presente. Com Ele, estamos sempre ligados à fonte inesgotável da Graça que transforma a nossa vida.

Que a Virgem Maria, nossa mãe celeste, bem-aventurada por crer, e S. José, nosso protetor, intercedam por nós e nos ajudem a perseverar na busca da Misericórdia do Senhor.

 

Regina Cæli, lætare, alleluia;
Quia quem meruisti portare, alleluia;
Resurrexit, sicut dixit, alleluia;
Ora pro nobis Deum, alleluia.

 

 

P.S.: Neste momento difícil que nosso país enfrenta, entre tantos déspotas, o STF desponta como um dos principais já que continua seu caminho de ativismo judicial. Desta vez, e, infelizmente, mais uma vez, mirando seu poder destruidor para nossos pequenos inocentes ainda não nascidos: está marcado para o próximo dia 24 o julgamento o julgamento da ADI 5581, proposta pela Associação Nacional de Defensores Públicos (ANADEP), que trata sobre a liberação do aborto em caso de zika vírus.

Irmãos, nós católicos somos absoluta e irremediavelmente contra o aborto e, portanto, precisamos reagir veementemente com todos os meios que tivermos à disposição (e-mails, telefonemas, petições online, manifestações, etc.). Portanto, faça sua voz ser ouvida!

 

Sugestão de petição online: “O STF quer aprovar o aborto no Brasil na surdina” (https://citizengo.org/pt-br/178568-o-arquivamento-da-adi-5581).

 

Para aprofundar mais a questão, seguem alguns links:

Livro: G. K. Chesterton, Eugenia e outras desgraças (https://www.sociedadechestertonbrasil.org/produto/eugenia-e-outras-desgracas/).

Artigo: “O Zika vírus e a reascensão da Eugenia” (https://padrepauloricardo.org/blog/o-zika-virus-e-a-reascensao-da-eugenia).

Artigo: “Aborto: chegou a hora de reagir” (https://padrepauloricardo.org/blog/aborto-chegou-a-hora-de-reagir).

Artigo: “STF e o aborto: um ‘teatro armado’” (https://padrepauloricardo.org/blog/stf-e-o-aborto-um-teatro-armado).

Artigo: “O STF não tem competência para descriminar o aborto no Brasil” (https://padrepauloricardo.org/blog/o-stf-nao-tem-competencia-para-descriminar-o-aborto-no-brasil).

Vídeo: “STF versus Brasil: Padre Paulo Ricardo fala sobre aborto e ‘ativismo judicial’” (https://www.youtube.com/watch?v=GTsauhE-PQg).

 

II Domingo da Páscoa: Jo 20,19-31 – Misericórdia: o coração divino toca a miséria humana

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Jesus e Tomé

Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Este Domingo da Oitava da Páscoa, também chamado Domingo da Divina Misericórdia, Festa instituída por São João Paulo II (17.08.2002), cuja inspiração se encontra nas experiências místicas de Santa Faustina Kowalska (1905-1938), nos apresenta os fundamentais frutos da ressurreição do Senhor: a paz, a alegria, a missão, o Espírito Santo, o perdão. Porém, a condição indispensável para poder participar de todos esses dons concedidos pelo Ressuscitado é a fé: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto”. Por outro lado, crer aqui significar aceitar ser objeto da misericórdia de Deus, deixar-se amar por Ele, que toma a inciativa de vir ao nosso encontro, favorecendo-nos a possibilidade de fazer experiência da sua misericórdia. Porém, é preciso lembrar que não foi a partir de Santa Faustina que a Igreja começou a proclamar a Misericórdia Divina, pois desde os primórdios do Cristianismo o centro da vida da comunidade do Ressuscitado é a experiência do amor de Deus, manifestado sobretudo na sua misericórdia. Não haveria autêntico anúncio do evangelho se não fosse proclamação de que Deus nos ama, nos perdoa, nos acolhe. Estas são as provas de que Ele é verdadeiramente misericordioso.

Contudo, a experiência dos santos ao longo da história, e entre eles, Santa Faustina, serve-nos de alerta, de chamada de atenção para algumas verdades fundamentais que são deixadas de lado ou mesmo esquecidas em alguns setores da sociedade, inclusive da própria Igreja.

Por conseguinte, celebrar a Divina Misericórdia é mais do que difundir uma devoção, pois deve ser a nossa experiência cotidiana do amor de Deus, que nos deu a grande prova, entregando-nos o seu Filho para a nossa salvação. A contemplação do Coração traspassado, de onde saiu sangue e água (ícone de Jesus Misericordioso), nos transporta espiritualmente não apenas para uma experiência mística de Santa Faustina, mas nos coloca diante do grande mistério do Amor misericordioso de Deus. Amor que não cansa de se manifestar, a fim de que possamos reconhecê-lo e, também, amá-lo.

A oração da coleta deste Domingo, rezada muito antes da instituição da festa da Divina Misericórdia, nos ajuda a penetrar no significado profundo da celebração de hoje. Dirigimo-nos ao Pai chamando-o de “Deus de eterna misericórdia”, o que será retomado no Salmo Responsorial (117); portanto, a misericórdia está no centro da nossa fé a qual precisa ser “reacendida” constantemente, de modo particular, “na renovação da festa da Páscoa”. Tudo isto em vista de uma melhor compreensão do “batismo que nos lavou, o Espírito que nos deu nova vida e o sangue que nos remiu”.

O ponto alto da revelação deste movimento de misericórdia de Deus encontra-se no hodierno relato do evangelho. Sendo a misericórdia o encontro do coração de Deus com a miséria humana (Santo Agostinho), a experiência da comunidade com o Senhor ressuscitado ilustra muito bem esta verdade da misericórdia de Deus que vem ao encontro das misérias humanas para transformá-las. A ressurreição do Senhor não é uma realidade que se restringe a Ele apenas, mas alcança a humanidade, da qual se exige a fé. Portanto, a experiência da comunidade primitiva com o Ressuscitado se deu quando o próprio Senhor deixou-se tocar o coração pela miséria dos seus discípulos e ajudou-os a abrir-se à sua misericórdia.

Por isso, diante da miséria do medo e da covardia dos discípulos que fecharam as portas do lugar onde estavam, manifesta-se a misericórdia do Ressuscitado que rompe as falsas proteções e coloca-se no meio deles, desejando-lhes: “A paz esteja convosco”. Diante da miséria da tristeza que inundava o coração dos discípulos por causa da morte do Mestre, manifesta-se a misericórdia do Crucificado cujas mãos e lado trazem as marcas da cruz, mas que está vivo e, por isso, torna-se a causa de alegria para eles. Diante da miséria dos discípulos, que tinham se afastado do Mestre e da missão que lhes havia confiado, manifesta-se a misericórdia do Enviado do Pai que vem ao encontro deles e, ao desejar-lhes a paz, renova o chamado que lhes fizera, confirmando-os na missão: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”.

Diante da miséria dos discípulos aprisionados numa casa (símbolo do seu sepulcro), manifesta-se a misericórdia do Vencedor da morte, que saindo do seu sepulcro entra no sepulcro dos seus discípulos para conceder-lhes vida nova: “Recebei o Espírito Santo”, e assim arrancá-los da sepultura que eles mesmos tinham construído para si (cenáculo trancado). Diante da miséria da traição do Mestre, manifesta-se a misericórdia do Deus que não se cansa de perdoar, não apenas perdoando os pecados dos discípulos, mas tornando-os instrumentos do seu perdão: “A quem perdoardes os pecados, eles lhe serão perdoados…”. Diante da miséria da falta de fé (Tomé), manifesta-se a Divina Misericórdia, que permite deixar-se tocar a fim de que o incrédulo seja tocado e recupere a salvação.

 

DOMINGO DA PÁSCOA (P. Lucas, scj)

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Resurrezione

Caros irmãos, eis que chegamos ao Domingo de Páscoa! Na sua liturgia, nós rezamos com o evangelho de S. João (cf. Jo 20,1-9). Nele, vemos o discípulo amado que, encontrando o túmulo vazio, crê (cf. Jo 20,8). Peçamos ao Senhor que aumente a nossa fé e nos torne testemunhas da Sua vitória sobre o pecado e a morte.

O discípulo amado é apresentado no evangelho de hoje como o primeiro a crer na ressurreição de Jesus diante do sinal do túmulo vazio. Nós também somos chamados à mesma fé, à mesma confiança nas promessas do Senhor. Apesar de nossas dificuldades ou fracassos, crer significa pôr o coração n’Aquele que, embora não o possamos ver, está presente e nos sustenta com seu Amor. Sem fé, nosso esforço de conversão não passa de moralismo; nossa religião não passa de um conjunto de exterioridades. Mas Ele está vivo, está presente, está nos amando: a fé nos dá acesso a esse maravilhoso dom.

Dessa forma, impulsionados e sustentados pela Graça de Cristo, podemos ser, também nós, Suas testemunhas. E não somente “de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém” (At 10,39), como diz S. Pedro na primeira leitura, mas daquilo que o Senhor fez e faz onde quer que estejamos. Sua ação não nos deve passar despercebida, pois se nós que cremos não o reconhecemos, as trevas do mundo serão insuportáveis e insuperáveis. Caros irmãos, viver da fé nos fará testemunhas da Ressurreição de Jesus, porque nos fará sair da morte do pecado para a verdadeira vida.

Concretamente, isso se dará de acordo com as palavras de Paulo: “se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto” (Cl 3,1 – segunda leitura). Nosso esforço será sempre permanecer no Amor apesar do desespero e falta de sentido que nos cercam – e muitas vezes nos tocam pessoalmente – buscando sempre o que é de Deus, “as coisas do alto”. Que coisas são estas? “Senhor é a vossa face que eu procuro, não me escondais a vossa face”, diz o salmista (Sl 27 [26],8-9). Buscar a face do Senhor a cada instante e revelá-la ao mundo é a missão de cada cristão.

Que a santíssima Virgem Maria, bem-aventurada porque sempre acreditou, e seu castíssimo esposo S. José, intercedam por nós a fim de que não desanimemos quando a cruz nos pesar mais, nos lembrando sempre que, com Cristo, a Cruz não leva à derrota, mas à ressurreição.

Regina Cæli, lætare, alleluia;
Quia quem meruisti portare, alleluia;
Resurrexit, sicut dixit, alleluia;
Ora pro nobis Deum, alleluia.

Domingo da Páscoa: Jo 20,1-9 – O amor esvazia o túmulo, a fé preenche o coração

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A celebração solene da Páscoa do Senhor durante esses cinquenta dias que ora iniciamos possibilita renovar a nossa experiência pessoal e comunitária do encontro com o Senhor Ressuscitado, razão da nossa esperança, garantia de nossa vida prenhe de eternidade. Assim como Maria Madalena e, logo em seguida, Simão Pedro e o outro discípulo (que Jesus amava), indo ao sepulcro, fazem a experiência de que o Senhor ressuscitou, a comunidade chamada a testemunhar esta verdade fundamental de sua fé deve renovar constantemente esta sua convicção. A narração da ida ao sepulcro, mais do que descrever uma busca frustrada pelo cadáver de Jesus de Nazaré: “Tiraram o meu Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram”, ajuda-nos a compreender o que de fato deve ser a experiência permanente da comunidade que professa a fé na ressurreição: “então, entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: e viu e creu”.

A perícope deste primeiro Domingo da Páscoa nos apresenta os elementos fundamentais da experiência e do significado da ressurreição de Jesus para a sua comunidade, as suas Ressuscitado (Painneau)testemunhas:

No primeiro dia da semana” (literalmente no grego: no primeiro dos sábados): para a comunidade cristã este dia será chamado domingo (dia do Senhor). Portanto, a ressurreição é o irromper de um novo dia. Em termos bíblicos, o paralelo com a primeira criação é evidente. Assim como no princípio Deus criou tudo, com a ressurreição do seu Filho, tudo é recriado. Inicia-se um novo tempo.

Maria, a Madalena, vai ao sepulcro ainda escuro”: é muito significativo que João sublinhe apenas uma das mulheres que vão ao sepulcro; os sinóticos falam sempre de algumas mulheres. No texto grego, percebe-se o destaque dado a esta mulher (literalmente: Maria, a Madalena: hê magdalene). Mais do que uma simples identificação da sua proveniência (patronímico: do povoado de Magdala, Mt 15,39) é bom considerar o significado desta palavra. Magdalena, do hebraico migdal que significa torre (Gn 11,4), púlpito (Ne 8,4). Dois símbolos que se aplicam muito bem a esta mulher. Como uma torre de vigia, ela se assemelha ao guarda que vai para vigiar o sepulcro, e na expectativa da chegada da aurora, anseia por este momento (“Assim como o guarda espera pela aurora, espere Israel pelo Senhor”, Sl 121,7). Mas aquele que está na torre tem a responsabilidade de comunicar à cidade o que está acontecendo, sobretudo o que representa perigo para os seus habitantes. Neste sentido, Madalena assume o papel de púlpito: “Corre, então e vai a Simão Pedro e ao outro discípulo… e lhes diz”. Contudo, essa sua missão será completa quando, em seguida, encontrando-se com o próprio Senhor, terá agora outra coisa a comunicar: “Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: ‘Vi o Senhor’, e as coisas que Ele lhe disse” (Jo 20,18).

Impressiona quantas vezes o evangelista menciona o sepulcro (7 vezes nessa perícope). Mais uma vez a força do significado da palavra nos abre a mente. Sepulcro em grego tem a mesma raiz de memorial (mnemeion: monumento) e, portanto, diz respeito ao “fazer memória” (Lc 22,19; 1Cor 11,23-25). A comunidade cristã, ao longo dos séculos, nunca perdeu a lucidez de que a celebração do Mistério Pascal não pode prescindir da proclamação da morte do Senhor, pois isto enfraqueceria o anúncio da sua ressurreição. Portanto, a importância didático-mistagógica da celebração da Sexta-feira Santa é imprescindível para penetrar na radiosa celebração do Tempo Pascal. Madalena vai ao sepulcro quando ainda era treva (grego: skotia), para fazer a experiência do surgimento radioso do Sol.

Não é coerente para a fé cristã fazer a proclamação de uma vitória cuja luta travada já foi esquecida. Pode-se cair num vazio muito perigoso. Participa-se, então, artificialmente de uma alegria, da qual não se sabe a sua origem. É a alienação do prazer que não sabe o seu porquê.

Tanto Simão Pedro como o outro discípulo entraram no sepulcro, caso contrário, não teriam visto: “os panos de linho deitados e o sudário, que cobrira a cabeça de Jesus… enrolado em lugar à parte”. A riqueza de detalhes dada pelo evangelista nos conduz mais uma vez a um outro nível, não apenas descritivo, mas reflexivo. Estas vestes mortuárias (Mt 27,59) estão deitadas (no chão), portanto simbolizam a morte derrotada, e se não envolvem mais um cadáver, é porque não há mais um morto necessitado delas. O sudário colocado do lado, também indica que perdeu a sua função. João, em continuidade com toda a tradição bíblica vétero-testamentária: “Eu te exalto, Javé, porque me livraste… tiraste minha vida do Xeol… Transformaste o meu luto em dança, tiraste o pano grosseiro e me cingiste de alegria…” (Sl 30,4.12), utilizando este simbolismo de vestes que foram abandonadas, recorda que agora as novas vestes indicam uma nova realidade. Rica também é a alusão de Isaías: “Transbordo de alegria em Javé… porque me vestiu com vestes de salvação, cobriu-me com um manto de justiça…” (61,10).

Havia uma antiga tradição na Igreja de os batizados na Vigília Pascal, revestidos da veste branca, permanecer durante toda a Oitava da Páscoa com suas novas vestes justamente para indicar a participação na vida do Cristo morto e ressuscitado.

Este tempo da Páscoa nos ajuda a ver esses sinais. Depois de um tempo de jejum (também visual), agora somos enriquecidos com a primavera da Páscoa, na expressão de tantos símbolos que nos ajudam a perceber o invisível: O Cristo vencedor da morte, vivo e ressuscitado. Simão Pedro entra no sepulcro, mas é preciso seguir o discípulo amado que além de entrar, crê. Pois só o amor é capaz de perceber que a morte não é a palavra definitiva, e enxergar que o sepulcro está vazio. É com esta convicção que devemos voltar para casa assim como fizeram os discípulos: “Os discípulos, então voltaram para casa”.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/domingo-da-pascoa–jo-20-1-9–o-amor-esvazia-o-tumulo-a-fe-preenche-o-coracao

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