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SOLENIDADE DE PENTECOSTES – P. Lucas, scj

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Pentecoste

Caros irmãos, o Tempo Pascal chega a seu fim e a Páscoa de Cristo se completa com o mistério de Pentecostes que celebramos neste domingo. A liturgia desta solenidade nos propõe, então, a manifestação do Ressuscitado aos Doze, na qual Jesus sopra sobre eles e diz “recebei o Espírito Santo” (cf. Jo 20,19-23). Roguemos, com confiança, a nosso Senhor que renove em nós a graça que recebemos no Batismo e na Confirmação.

Celebrar Pentecostes não é recordar um acontecimento passado, mas dar-se conta de uma realidade presente. Diz nosso Catecismo: “Pela sua vinda, que não cessará jamais, o Espírito Santo faz entrar o mundo nos «últimos tempos», no tempo da Igreja, no Reino já herdado mas ainda não consumado” [1]. Ou seja, celebramos hoje um dom permanente: o Paráclito vem sempre a nós. De fato, sendo o Espírito a alma da Igreja, se Sua vinda cessasse em algum momento, ela se tornaria como um corpo morto, um cadáver. Mas, como Corpo místico de Cristo, ela é viva e sempre jovem, animada pela potência de tão magnífico dom. E nós somos parte desse corpo.

Este divino dom nos é dado no Batismo, cuja graça é aperfeiçoada e consumada pela Confirmação. Dessa forma, a vinda do Espírito Santo a nós também é contínuo. Isso significa que a graça desses sacramentos não se restringe a momentos particulares da nossa vida, mas, sim, nos dá a permanente presença e ação de Deus. Por isso, o Espírito é chamado “doce Hóspede da alma”: habitando em nós, Ele nos dá a vida divina e nos coloca em comunhão com Cristo, por quem e em quem glorificamos o Pai. Busquemos, então, corresponder ao dom de Deus renovando esta graça através da confissão sincera, da oração frequente e da piedosa comunhão eucarística.

Que a bem-aventurada e sempre virgem Maria e S. José, seu castíssimo esposo, intercedam por nós a fim de que vivamos permanentemente como Cenáculos.

 

Regina Cæli, lætare, alleluia;
Quia quem meruisti portare, alleluia;
Resurrexit, sicut dixit, alleluia;
Ora pro nobis Deum, alleluia.

 

[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 732 (destaque nosso).

Solenidade de Pentecostes: Jo 20,19-23 – Pentecostes: o parto da Igreja

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A Solenidade de Pentecostes marca profundamente a vida da Igreja pois representa o elo entre os dois momentos fundamentais e inseparáveis da sua história. Se durante a vida pública de Jesus a Igreja foi gerada pela força da sua palavra, os discípulos foram chamados a estar com Ele e serem enviados em missão, o primado de Pedro foi anunciado, e inauguravam-se os sacramentos do Batismo e da Eucaristia, o Pentecostes representa o momento do parto da Igreja, uma Igreja que vem à luz, pela força do Espírito Santo, para ser também ela luz para o mundo.

A Igreja enquanto peregrina nesse mundo, vive a tensão entre o ser gerada e o vir à luz. Os cinquenta dias do tempo da Páscoa condessam, de modo mistagógico e didático na liturgia, essa experiência permanente da comunidade do Crucificado que está vivo. Na festa da Ascensão do Senhor ouvimos que Jesus passou 40 dias com os discípulos, instruindo-os sobre o Reino de Deus (cf. At 1,3), a fim de que revestidos pela força do alto partissem do útero onde foram gerados para o mundo ao qual iriam ser enviados.

O evangelho de hoje nos apresenta esse necessário e difícil momento de parto da comunidade. Estamos no primeiro dia da semana, o dia da ressurreição do Senhor, mas é noite e as portas estão trancadas.  Talvez para os discípulos, encerrados naquela casa e protegidos de tudo aquilo que poderia representar perigo externo, permanecer ali seria a situação mais confortável. Se fosse possível perguntar a uma criança que se encontra ainda no ventre da mãe, bem acomodada ao seu pequeno mundo onde foi gerada e onde encontra toda a segurança, se ela desejaria sair dali, certamente a resposta seria negativa. Ainda que permanecesse na escuridão do interior da barriga da mãe, por não conhecer a luz, preferiria viver ali para sempre. Assim também a Igreja que se acomoda à vida ad intra, acomodada ao seu útero, onde recebe o necessário para a sua subsistência, mas está privada de um horizonte que se descortina apenas quando acontece o parto, quando vem à luz para realizar a sua missão de luz do mundo.

Ao anoitecer daquele primeiro dia, Jesus não entrou apenas num lugar físico onde os discípulos estavam, mas penetrou no útero onde a Igreja que ele gerou, aguardava o momento do parto, cujos trabalhos já se iniciaram com a sua morte e ressurreição; rompendo as barreiras do medo e da incredulidade, provoca o nascimento daqueles que Ele gerara com amor aos extremos (cf. Jo 13,1s). Tendo atravessado os momentos de angústia e sofrimento, próprios da mulher que estar para dar à luz (cf. Jo 16,21), o Ressuscitado anuncia que é hora de nascer, pois a paz foi alcançada: “A paz esteja conosco”. Mas se o parto provoca dor e sofrimento deixando marcas de sangue: “Mostrou-lhes as mãos e o lado”, dar a vida causa alegria indescritível e permanente: “Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor”.

Contudo, essa alegria só será plena à medida que se abandona o útero e se entra no mundo para testemunhar a força da vida, que não pode ser destruída pela morte e, ao mesmo tempo, apontar para a fonte da vida, o Pai que garante essa vida em plenitude: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio”.

Pois assim como tudo começou com o sopro de Deus, podemos dizer o primeiro parto da criação: “No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,1s). Agora, o segundo e definitivo parto da criação acontece com o mesmo sopro de Deus: “Soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo”. Se das trevas primordiais tudo foi chamado à luz, a primeira criatura de Deus, na nova criação os seus primeiros filhos são chamados a sair da escuridão (o primeiro dia anoitecido) para o encontro com a luz que não se apaga, o Primogênito dos mortos, a luz que vindo ao mundo ilumina todo homem, pois é vida (Jo 1,9).

A celebração de Pentecostes não é festejar a Terceira Pessoa Divina, como se fosse um protetor paroquial, a quem damos louvores e prestamos homenagem. Celebrar Pentecostes é deixar-se conduzir à sala de parto pelo vento impetuoso, o Espírito que foi derramado em nossos corações, o Espírito que provoca o nascimento constante, impedindo aprisionamento a situações cômodas. O sopro divino rompe toda a passividade espiritualista e nos expulsa do útero da nossa autorrefencialidade, que nos atrofia e, consequentemente, nos aborta, e leva-nos para o mundo necessitado de luz, da verdade do evangelho que liberta e nos reconcilia com o Pai: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”; de modo misterioso, somos comprometidos  com a salvação do mundo: “A quem não perdoardes, eles lhes serão retidos”. Portanto, quem foi gerado pelo Espírito ou nasce ou é abortado, dentro do útero ninguém pode permanecer para sempre. O útero é fundamental para a vida ser gerada, mas torna-se pequeno para a vida alcançar sua plenitude. A missão será o grande testemunho de que Deus, de fato, nos gerou no seu Filho e nos fez vir à luz pelo seu Espírito.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/solenidade-de-pentecostes–jo-20-19-23–pentecostes–o-parto-da-igreja

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR (Ano A) – P. Lucas, scj

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Ascensão

Caros irmãos, neste domingo, celebramos a Solenidade da Ascensão do Senhor, transferida da última quinta-feira. Neste ano A, rezamos com o relato desse mistério segundo S. Mateus (cf. Mt 28,16-20). Peçamos a Jesus, nesta novena de Pentecostes, que nos dê coragem de abrir, ou melhor, escancarar, as portas do coração ao Espírito Santo.

Acontecimento histórico e transcendente, a Ascensão de Jesus, ou seja, a sua exaltação à glória do Pai, nos dá esperança recebermos a vida eterna e sempre feliz dos céus. Em outras palavras, como Igreja, Corpo de Cristo, podemos – e devemos – esperar chegar onde Ele, nossa Cabeça, nos precedeu, levando consigo nossa humanidade. Irmãos, é esta a esperança que não decepciona. Não buscamos um paraíso terrestre: vivemos aqui em terra estrangeira, em peregrinação, rumo à Pátria definitiva. Então, sursum corda! (Corações ao alto!) Voltemos nosso coração para Deus!

Concretamente, dirigir nosso coração a Deus significa ter fé e dela viver. Trata-se de um dom de Deus que vai muito além da simples aquisição de dados e conceitos: coloca-nos em comunhão com o Senhor, sempre presente (cf. Mt 28,20b), e faz de nós Igreja, levando-nos a confessar – por palavras e obras – a primazia de Jesus Cristo em nossas vidas. Em outras palavras, pela fé, o Espírito Santo nos leva a observar e ensinar observar tudo o que Jesus nos ordenou (cf. Mt 28,20a) e, pelos sacramentos, o mesmo Espírito nos insere na vida divina vivenciada aqui na dinâmica do já-e-ainda-não.

Que a intercessão da bem-aventurada e sempre virgem Maria, Rainha dos Céus, e de S. José, seu castíssimo esposo, fixem nossos olhos em Jesus e nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias a fim de que, na instabilidade deste mundo, sejamos firmes na esperança que dá sentido e nos impulsiona a amar e servir.

Regina Cæli, lætare, alleluia;
Quia quem meruisti portare, alleluia;
Resurrexit, sicut dixit, alleluia;
Ora pro nobis Deum, alleluia.

 

Ascensão do Senhor: Mt 28,16-23 – O Mestre sempre presente

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A Solenidade da Ascensão do Senhor nos coloca diante de um divisor de águas: a conclusão da missão de Jesus e o início da missão da comunidade do Ressuscitado. Contudo, não se pode falar de um ponto final para Jesus e uma estaca zero para os discípulos, pois tanto a missão de Jesus quanto a missão dos seus discípulos são a mesma, isto é, o anúncio do evangelho como convite à conversão e a implantação do Reino dos céus como prática da justiça. Tendo cumprido a sua missão com fidelidade até as últimas consequências, passando pela morte e ressureição, Jesus volta para o Pai, de quem recebeu “toda a autoridade no céu e na terra”, porém não se distancia e abandona os seus discípulos, mas pelo contrário, assegura-lhes sua permanente presença a fim de que eles sejam capazes de cumprir a missão recebida.

Mateus conclui o seu evangelho sintetizando tudo aquilo que Jesus fez e ensinou e, ao mesmo tempo, traça o perfil essencial da missão dos discípulos, ou seja, o que eles Ascensionetambém devem fazer e ensinar.

Assim como Jesus iniciou a sua missão vindo para a Galileia: “Ele voltou para a Galileia… Começou a pregar: ‘Convertei-vos, porque está próximo o Reino dos céus’” (Mt 4,17), do mesmo modo, os seus “discípulos caminharam para a Galileia”. Ir para a Galileia não significa apenas um deslocamento geográfico, mas a condição exigida para encontrar-se com Jesus, isto é, assumir a sua missão, refazer o seu caminho, estar disposto a seguir os seus passos até a cruz: “Quem quiser me seguir tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Jesus começando a sua missão na Galileia realiza aquilo que fora prometido no Antigo Testamento: “Galileia das nações! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; aos que jaziam na região sombria da morte, surgiu uma luz” (Mt 4,16; cf. Is 8,23-9,1). Ao partir da Galileia, a periferia do mundo judaico, terra desprezada e considerada impura, Jesus anuncia a grande e verdadeira revolução que o evangelho propõe: a salvação universal de Deus dirigida a todos os povos, sem exclusividade, conforme a promessa feita a Abraão: “Em ti serão abençoadas todas as nações” (Gn 12,3).

Porém, apesar de consciente de ser povo escolhido, Israel descuidou-se da sua missão de luz para as nações e considerou-se povo exclusivo, tornando-se incapaz de conduzir os outros povos à fraternidade universal; perdeu a lucidez de que a sua missão não era proselitismo, isto é, transformar todos os povos em um só, mas a missão de Israel era de ser instrumento de Deus para que todos os povos fossem iluminados e descobrissem a sua vocação à vida plena. Jesus no evangelho de Mateus denuncia esse pecado de Israel: “Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo da mesa, mas no candelabro e assim ela brilha para todos os que estão na casa” (Mt 5,15). Por isso, enviando os seus discípulos, Jesus anuncia-lhes que a missão não se restringe a um povo de privilegiados, mas deve se dirigir a todos sem exceção. A Igreja (ekklesia: chamada para fora) é essencialmente missionária, portadora de uma missão universal; perdendo essa sua dimensão fundamental, cai no perigo da autorreferencialidade, e deixa de cumprir a sua missão com fidelidade, renuncia a sua identidade e trai a sua missão.

Mateus faz questão de afirmar que o ponto de partida na Galileia é “o monte que Jesus lhes tinha indicado”. Não é apenas uma indicação topográfica, mas faz referência ao monte do grande ensinamento de Jesus: “Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs-se a falar e os ensinava, dizendo…” (Mt 5,1s). No dito “Sermão da Montanha” (Mt 5-7), Mateus condensa todo o ensinamento de Jesus; portanto, tudo o que os discípulos devem anunciar não pode ser diferente daquilo que aprenderam do Mestre. É significativo que, no fim do sermão da montanha, Mateus afirme: “Aconteceu que ao terminar Jesus estas palavras, as multidões ficaram extasiadas com o seu ensinamento, porque as ensinava com autoridade e não como os seus escribas” (Mt 7,28s). Portanto, com esta mesma autoridade, Jesus envia agora os seus discípulos: “Toda a autoridade me foi dada… Ide, pois, e fazei que todas as nações se tornem discípulos”.

A autoridade de Jesus se diferencia daquela dos mestres da Lei do seu tempo porque o seu ensinamento é corroborado pela coerência de suas atitudes. Apesar de serem autorizados legitimamente, os mestres da Lei não tinham autoridade moral junto ao povo, e foram denunciados pelo próprio Jesus: “Não imiteis as suas ações, pois dizem, mas não fazem” (Mt 23,3). Eles também percorriam o mar e a terra para fazer um prosélito, mas quando conseguiam conquistá-lo, o tornavam mais digno da geena do que eles próprios (cf. Mt 23,15s). Portanto, não basta apenas ir por todos os lados para conquistar pessoas para a religião, é preciso que o anúncio da boa notícia da salvação seja um testemunho mais eloquente do que as palavras e, consequentemente, desperte no coração das pessoas que encontrarmos o desejo de mergulhar na vida nova cuja fonte é o próprio Deus: “Batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Fazer discípulo não é conquistar clientes, convencendo-os a fidelizar-se pois garantirão vantagens e privilégios, mas o anúncio do evangelho como proposta de vida é, antes de tudo, compartilhar os valores fundamentais da vida a fim de que a justiça do Reino se realize e manifeste a salvação de Deus, que quer que todos conheçam a verdade e tenham vida em plenitude.

A missão do Ressuscitado, elevado aos céus, confiada aos seus discípulos de todos os tempos só se realiza quando não se perde a consciência de que ser discípulo Dele é estar em permanente aprendizado uma vez que o próprio Mestre prometeu: “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos”.

 

SEXTO DOMINGO DO TEMPO PASCAL – P. Lucas, scj

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Caros irmãos, chegamos ao sexto domingo do Tempo Pascal e, assim, começamos nossa preparação imediata para celebrarmos a solenidade de Pentecostes. Por isso, no evangelho de hoje Jesus nos promete o envio de um Defensor, o Espírito da Verdade (cf. Jo 14,15-21). Rezemos, então, pedindo ao Senhor que derrame profusamente o Seu Espírito em nossos corações.

O contexto do texto evangélico de hoje continua o mesmo do domingo passado, ou seja, continuamos no discurso de Jesus que se segue à última ceia. Notemos que o Defensor prometido por Jesus é chamado “Espírito da Verdade” (Jo 14,17). O esplendor da Verdade Sermão da Montanhaé, de fato, a luz que ilumina nossa estrada para que, discernindo entre tantas propostas, possamos permanecer sempre no caminho da Vida, ou seja, em Cristo, nosso Senhor e Salvador. E é o Espírito Santo quem faz resplandecer em nós esta luz. Dessa forma, compreendemos que o amor à Verdade não é acessório, mas essencial, pois, em última análise, amar a Verdade é amar o próprio Jesus (cf. Jo 14,6 – evangelho do domingo passado).

Por outro lado, a mentira é sempre muito sedutora. No início, se mostra sempre cômoda e prazerosa. Porém, uma vez presos na sua teia, somos levados à escravidão e à destruição. É assim que os pecados vão nos levando, pouco a pouco, para longe de Deus até não percebermos nem mesmo que estamos fazendo mal a nós e àqueles que estão perto de nós. Não é à toa que o adversário é chamado o pai da mentira… Precisamos estar dispostos a pagar o preço de permanecer na verdade na certeza de que ela é sempre uma libertação.

O amor à Verdade tem ainda outro aspecto que se destaca na liturgia de hoje: estar prontos para dar razão da nossa esperança, com mansidão, respeito e boa consciência, a quem no-la pedir (cf. 1Pd 3,15-16 – segunda leitura). Não são poucas as dificuldades que temos de enfrentar para sermos, de fato, católicos. E como responder a cada uma delas se não estamos interessados em nos aprofundar na fé e crescer sempre mais? Assim, podemos hoje nos perguntar: como e onde temos buscado as respostas para as perguntas mais profundas da nossa existência? Como temos cultivado nossa vida interior para, assim, poder enfrentar as dificuldades do cotidiano? Como a mentira, vendedora de falsas facilidades e felicidades, tem entrado na nossa vida e impedido nosso progresso como cristãos?

Que a bem-aventurada e sempre virgem Maria e S. José, seu castíssimo esposo, nos ajudem a conhecer melhor e amar mais intensamente a Verdade que se fez carne, nosso Senhor Jesus Cristo.

Regina Cæli, lætare, alleluia;
Quia quem meruisti portare, alleluia;
Resurrexit, sicut dixit, alleluia;
Ora pro nobis Deum, alleluia.

 

VI Domingo da Páscoa: Jo 14,15-21 – Quem ama nunca abandona!

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A partir deste VI Domingo entramos na fase conclusiva do Tempo Pascal, pois iniciamos a preparação mais imediata para a Solenidade de Pentecostes; por isso esse tom de despedida de Jesus. Porém, Jesus ao anunciar a sua ida para o Pai, não está dizendo que abandonará os seus discípulos: “Não vos deixarei órfãos” (grego: orfanos, destituído de pai, sem defesa natural). Mas pelo contrário, garante-lhes ainda mais forte e operante a sua presença através do Espírito Santo, o Espírito da verdade, que permanecendo nos discípulos, faz deles a morada de Deus no mundo. No domingo passado, o Mestre assegurava aos discípulos que na casa do Pai havia muitas moradas, porém para que os discípulos pudessem habitar para sempre na casa do Pai, era preciso que aqui na terra eles mesmos se tornassem as muitas moradas do Filho: “Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós”. Contudo, só o amor assegura a permanência de Jesus nos seus discípulos. E amar a Jesus é mais do que manifestar-lhe sentimentos; antes de tudo, é obedecer aos seus mandamentos: “Se me amais, Jesus e os discípulosguardareis os meus mandamentos”. O amor exige expressões concretas que tornem visíveis as suas raízes invisíveis.

Por outro lado, Jesus sabe que os seus discípulos de todos os tempos não são capazes de sozinhos perseverar na obediência aos seus mandamentos, por isso intercede por eles: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro defensor, para que permaneça convosco”. A promessa de Jesus é o anúncio da vinda do Espírito Santo ao qual o Mestre chama de “outro defensor” (grego: paráklitos, derivado do verbo para-kaleo, chamar para perto, significando “aquele que vem para perto para defender”, o advogado, ad-vocatus, chamado para). Aqui não se deve entender o defensor apenas como aquele que se interpõe para garantir uma defesa física, impedindo ataques ou investidas que provoquem um mal material. Mas o “outro defensor” (paráklitos) é chamado de “Espírito da verdade”, pois a sua missão é conduzir os discípulos do Ressuscitado ao pleno conhecimento de Deus, a fim de que eles façam a experiência do verdadeiro amor, aquele que dá vida, e alcancem essa vida em abundância.

A presença do Espírito Santo no seio da comunidade do Ressuscitado e no coração de cada um de seus membros garante a principal defesa que impedirá a sua destruição, isto é, conservará a verdade revelada por Jesus. O Espírito Santo, o outro paráclito (junto para defender) abre a mente dos discípulos para enxergar a verdade que o mundo não pode suportar, pois esse prefere a mentira, isto é, o meio mais eficaz para aprisionar as pessoas, explorando-as ao máximo, de forma sutil e avassaladora, uma vez que escraviza as mentes, reforçando as suas correntes com sensações prazerosas, ainda que custe um alto preço, a dependência viciosa.

Conservar as pessoas na ignorância, não conhecedoras da verdade, fazendo-as crer e aderir a mentiras, é a condição fundamental para torná-las presas fáceis de todo tipo de dominação, sobretudo de ideologias materialistas que prometem a liberdade e a felicidade ao ser humano, mas exigindo-lhe um custo muito alto, isto é, destruindo a sua capacidade de crer, de ter esperança numa vida que não se esgota aqui e agora. Consequentemente, a ausência da verdade torna o ser humano um animal movido por instintos, egoísta e avarento.

O Espírito da verdade, o outro defensor, não é prometido para criar muralhas emocionais de enganadoras seguranças, mas vem para defender a verdadeira experiência religiosa, ou seja, conduzir o coração humano à sua mais genuína vocação, tornar-se morada de Deus, criando nele uma perspectiva de um dia habitar plenamente com Deus na sua morada. Por isso, o Espírito da verdade se opõe ao “pai da mentira”, o príncipe desse mundo (Jo 8,44; 15,26; 16,13) cujos filhos são denunciados por Jesus. Figuram em primeiro lugar como “filhos do pai da mentira” aqueles que se dizem religiosos, conhecedores da Lei, filhos de Abraão, mas não reconhecem a verdade, pois matam a vida, a começar pela condenação à morte do próprio Senhor da vida.

Mais adiante Jesus explicitará a missão do Espírito da verdade: “Ele arguirá (grego: elegxei, convencerá) o mundo a respeito do pecado, da justiça e do julgamento” (Jo 16,8). O pecado, por sua vez, é a incredulidade, o total fechamento do coração humano ao amor de Deus. A fé cristã não afirma apenas a existência de um Deus que exige ser reconhecido e adorado, mas a fé cristã implica acreditar que Deus ama incondicionalmente até quem não O ama. Portanto, quando alguém opta por uma vida egoísta, encerrada no seu horizonte estreito, onde não há lugar para a fraternidade, o amor ao próximo, torna-se incapaz de crer em Deus, pois sente-se o senhor absoluto de tudo, e, por conseguinte, não reconhece no outro um semelhante que deve ser acolhido como irmão, e amado como filho do mesmo Pai. O Espírito da verdade também evidenciará a justiça, esta é o cumprimento da vontade de Deus. Jesus é o verdadeiro filho de Deus porque realiza sempre a vontade do Pai. A sua volta para o Pai é a confirmação de que cumpriu plenamente a sua missão. Por fim, diz respeito à missão do Espírito da verdade consolidar nos discípulos a certeza de que: “O príncipe desse mundo está julgado” (Jo 16,11). Não há dúvida de quem ganhará a batalha. O cristão, ungido pelo Espírito da verdade, não se pergunta se vale a pena lutar contra o mal, contra as injustiças, e toda forma de morte, pois não sabe qual será o fim. Se por acaso, alguém que diz crer no amor de Deus tiver dúvida de quem vence, este já entrará no campo de batalha derrotado.

A perseverança na fé, através da vivência do amor, é a prova mais convincente de que não somos órfãos, temos um Pai que nos ama. Não estamos sozinhos, pois o amor não abandona, uma vez que estabelece morada permanente; essa é a verdade que o Filho revelou, essa é a verdade que em nós o Espírito conserva e defende.

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/vi-domingo-da-pascoa–jo-14-15-21–quem-ama-nunca-abandona-

 

 

QUINTO DOMINGO DO TEMPO PASCAL (Ano A) – P. Lucas, scj

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Caros irmãos, neste quinto domingo do Tempo Pascal, Jesus se nos apresenta como o caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 14,1-12). Peçamos ao Senhor que derrame em nossos corações o Seu Espírito a fim que O reconheçamos e O sigamos com coragem e perseverança.

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6), disse o Senhor a S. Tomé. Em primeiro lugar, tomemos a segunda frase. O fato de Jesus, durante seu discurso de despedida, ser tão explícito e taxativo sobre ser Ele a única via para entrarmos em comunhão com o Pai, revela o quanto é importante ter uma possibilidade de conhecer o Pai e encontrá-lo. De fato, ainda que a existência de Deus Spas_vsederzhitel_sinaypossa ser conhecida pela luz natural da razão, o que precisamos não é de um deus qualquer, mas do Deus único, vivo e verdadeiro. Ele é Amor em si mesmo (cf. 1Jo 4,8) e, assim, nos ama particularmente, isto é, Ele ama a cada um de nós, com toda a potência do seu coração. Esse é o Pai. E estar na Sua presença é tudo o que o nosso coração procura das maneiras mais variadas e tresloucadas. Nós precisamos ser amados – e já o somos – mas precisamos descobrir que não estamos sozinhos ou simplesmente jogados nesta vida para morrer sem propósito ou sentido.

Passemos, em seguida, à primeira frase. Notemos os artigos definidos, eles nos mostram que Jesus não se apresentou como um caminho qualquer, uma verdade escolhida entre tantas relativas e uma vida entre outras, mas como o caminho, a verdade e a vida: não existem outros; não há alternativas. Então, destaquemos a expressão: Eu sou a verdade. Quando o então cardeal Joseph Ratzinger desmascarou diante de todos a ditadura do relativismo que busca se impor às nossas consciências [1], muitos pensaram que fosse um exagero. Quinze anos depois, porém, vemos atônitos o quão destrutiva pode ser a ditadura daqueles que põem seus próprios interesses acima da Verdade. Irmãos, só o amor à Verdade, que é o próprio Jesus, acima até da nossa própria vida pode nos libertar realmente: não podemos ser senhores da Verdade, não podemos construí-la ao nosso modo: precisamos reconhecê-la e obedecê-la. Como canta o salmista, cantemos também nós: ó Senhor, “vosso amor vale mais do que a vida: e por isso meus lábios vos louvam” (Sl 62[63],4).

Que a bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Deus e nossa, e S. José, seu castíssimo esposo, intercedam por nós e nos consigam a graça da coragem e da perseverança para seguirmos sempre o Senhor Jesus Cristo. Uma prece especial por todas as mães: Deus lhes abençoe abundantemente!

 

Regina Cæli, lætare, alleluia;
Quia quem meruisti portare, alleluia;
Resurrexit, sicut dixit, alleluia;
Ora pro nobis Deum, alleluia.

 

[1] Joseph Ratzinger, Homilia na Santa Missa «Pro eligendo Romano Pontifice», de 18 de abril de 2005. Disponível em: <http://www.vatican.va/gpII/documents/homily-pro-eligendo-pontifice_20050418_po.html&gt;.

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