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SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A (P. Lucas, scj)

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eis o cordeiro peter murphy

Caros irmãos, celebrando o segundo domingo do Tempo comum, a liturgia propõe, para nossa reflexão e oração, a memória do Batismo do Senhor segundo S. João (cf. Jo 1,29-34). Peçamos a Deus a sua Graça para que possamos, nas atividades cotidianas, estar unidos sempre a Jesus e nos tornarmos suas testemunhas.

Já antes que Jesus inicie sua atividade, o quarto evangelho nos apresenta, através do testemunho de João Batista, indica quem Ele é e qual a sua missão: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Ou seja, Jesus Cristo é o Servo do Senhor que foi profetizado por Isaías e que vem para salvar seu Povo. Dessa forma, as palavras e a vida de João apontam para tal realidade tão profunda: “se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel” (Jo 1,31). Mas o Senhor vem para salvar não só Israel, mas toda humanidade: “eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra” (Is 49,6 – primeira leitura).

Ora, esta salvação chegou até nós, onde quer que estivéssemos, através da missão da Igreja que nos anunciou o Evangelho e na qual recebemos o Batismo. Podemos, então, louvar e agradecer ao Senhor, nosso Deus, que nos amou de modo admirável e nos alcançou com sua Misericórdia. E contemplando tão grande dom, somos convidados a nos deixar mover pelo seu amor e respondermos positivamente ao seu chamado de sermos santos (cf. 1Cor 1,2 – segunda leitura), assumindo a nossa missão e testemunhando a Boa Nova da Salvação. Reconciliados com Deus, vivamos, portanto, buscando a Sua Face e correspondendo ao seu amor em cada uma das atividades do nosso dia a dia.

Peçamos a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria e de seu castíssimo esposo São José, a fim de que nossa vida seja anúncio Evangelho. Rezemos também pela unidade de todos os cristãos.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

II Domingo Tempo Comum: Jo 1,29-34 – Testemunhar é mais do que falar

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Após celebrarmos o jubiloso Tempo do Natal do Senhor, entramos agora no Tempo Comum, cuja finalidade é nos conduzir pedagogicamente, guiados pela Palavra de Deus, de modo particular pelo Evangelho, num caminho de conhecimento da Pessoa de Jesus e de sua missão, a fim de crescermos na convicção e no compromisso de viver a nossa opção de ser seus seguidores e testemunhas. Por isso, iniciamos esse percurso seguindo a dinâmica do próprio evangelho, que apresenta o testemunho de João Batista como um marco importante no encontro com Jesus, que nos convida a segui-lo.

No testemunho de João Batista encontra-se a síntese perfeita de quem é Jesus e qual é a sua missão: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Estas palavras do precursor representam uma densa retrospectiva de todo o Antigo Testamento, como história de um povo que espera o cumprimento das promessas de Deus, que aguarda a chegada do Messias prometido; mas também serve de introdução a tudo aquilo que os S Joao Batistaevangelhos, a pregação do Cristianismo primitivo e, naturalmente, a permanente missão da Igreja conservam e transmitem como verdade de fé sobre Jesus, a sua vida e o seu ensinamento.

Proclamando Jesus o Cordeiro de Deus, o Batista descortina o imenso horizonte do Antigo Testamento. A palavra cordeiro (grego: amnós, pode ser a tradução do aramaico: talya, servo) evoca uma longa e rica tradição da experiência do Povo de Deus, desde o tempo dos patriarcas, passando pelos acontecimentos do Êxodo até o surgimento das expectativas messiânicas no tempo dos profetas. Para além de uma questão semântica do termo, estamos diante de situações históricas que marcam o longo caminho da revelação de Deus ao seu povo. O simbolismo do cordeiro evoca a lembrança do cordeiro que era sacrificado na Páscoa como memorial da intervenção libertadora do Senhor para arrancar o seu povo das garras do Faraó (Ex 12). Os cordeiros eram também sacrificados diariamente no templo, de manhã e à tarde, como ofertas expiatórias (Ex 29,38-46). Os profetas, por sua vez, também usam esse símbolo para descrever as características do Servo de Javé: humilde e manso (Is 53,7).

Ao especificar que este cordeiro é “de Deus”, o profeta João Batista o distingue de todas as outras imagens do Antigo Testamento, pois evidencia qual é a sua identidade fundamental, isto é, este cordeiro é único, pois é aquele que só Deus enviará, uma vez que todos os outros pertenciam aos homens, eram animais dos seus rebanhos ou metáforas da linguagem profética. Esse é o cordeiro que Abraão não possuía para oferecer no lugar do seu filho único e amado; por isso, anuncia a Isaac que Deus o providenciará, a fim de que o seu sacrifício seja perfeito (Gn 22). Este é o único cordeiro, que mesmo morrendo, e tendo o seu sangue derramado em libação, não permanece morto, mas está de pé (Ap 5,6).

Desse modo, João apresenta quem é Jesus, que não deve ser confundido com nenhum outro, pois Ele não é apenas um enviado de Deus, um grande profeta ou mesmo um herói nacionalista, mas Ele é o Filho de Deus.

Depois de deixar clara qual é a identidade do Messias, João afirma qual será a sua missão: “Aquele que tira o pecado do mundo”. Chama a atenção que João Batista não se dirige a Jesus chamando-o pelo nome, mas sublinhando o que significa o seu nome (Jesus: “Deus salva”). Na tradição bíblica o nome tem muita importância porque diz algo da pessoa, não é apenas uma identificação artificial, externa. Desse modo, João Batista indica a essência do nome Jesus: “Aquele que tira o pecado do mundo”, muito coerente com aquilo que o anjo diz a José em sonho: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

O evangelista João mais adiante relembrará que a salvação realizada por Jesus é a grande prova do amor de Deus, que “amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Como o Batista tinha especificado que o cordeiro “é de Deus”, agora ele diz que o pecado “é do mundo”. Para João evangelista, mundo pode significar a criação, a humanidade, mas também tudo aquilo que se opõe ao projeto de Deus, diríamos o mundo deformado; o pecado é a atitude de fechamento do ser humano ao amor e, portanto, transforma o mundo criado por Deus (cosmos) em desumanização, destruição da vida (caos). O pecado do mundo (de Adão e Eva, da humanidade) é a desobediência à voz de Deus que provoca toda sorte de desordem nas relações entre os seres humanos consigo mesmos, com os outros e com a criação. O pecado do mundo é a decisão do homem de negar a sua condição e, por conseguinte, tornar-se um instrumento de destruição da criação, inclusive da sua própria vida.

João Batista reconhece que Jesus é aquele que tira o pecado do mundo quando, ao batizá-lo, vê descer sobre Ele o Espírito Santo, em forma de pomba, e ouve a voz dos céus que confirma ser ele o Filho de Deus. Portanto, com Jesus inicia-se a nova criação. Assim como no princípio, sobre as águas pairava o Espírito de Deus fecundando e chamando à existência toda a criação, agora o Espírito sobre o Filho, que mergulhando e emergindo das águas anuncia a sua morte e ressurreição, recria tudo, garantindo a nova vida.

O testemunho de João Batista é mais do que palavras, é reconhecimento daquilo que está acontecendo: surgimento de uma nova vida para o mundo com a chegada do Filho de Deus que salva a humanidade dos seus pecados. O testemunho do cristão não pode ser apenas anúncio de que Deus nos salva em Jesus, mas deve ser, antes de tudo, sinal concreto de uma vida nova, fruto da salvação acolhida. O testemunho será a prova de que a salvação de Deus nos alcança, fazendo de nós colaboradores da nova criação, do novo céu e da nova terra para onde o cordeiro quer nos conduzir (Ap 21,1).

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/ii-domingo-tempo-comum–jo-1-29-34–testemunhar-e-mais-do-que-falar

FESTA DO BATISMO DO SENHOR (P. Lucas, scj)

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Batismo

Caros irmãos, celebramos, neste domingo, a festa do Batismo do Senhor e, com ela, encerramos o tempo litúrgico do Natal. A partir do relato de São Mateus (cf. Mt 3,13-17), nos deixemos alcançar pela divina Graça e renovemos o nosso Batismo e abramos nosso coração para o Espírito Santo.

No seu diálogo com João Batista, Jesus diz que deve ser batizado para cumprir toda justiça (cf. Mt 3,15). Estamos, de fato, diante do anúncio (ou da manifestação) da missão do Senhor: Ele desce ao Jordão, porque é Aquele que desceu do céu para ser a nossa salvação; é submerso nas águas pois iria morrer por nós; e saindo dali, abrem-se os céus, vem o Espírito e se faz ouvir a voz do Pai, para que nós sepultados no batismo fôssemos inseridos na Paixão-Morte-Ressurreição do Senhor e, assim, nos tornássemos filhos amados de Deus.

Por isso, nesta celebração, somos chamados não só a recordar o dia do nosso Batismo, mas renovar as suas promessas para vivermos, na Graça de nosso Salvador, como verdadeiros filhos do Altíssimo. E como é bom saber que Deus não despreza a nossa fragilidade, mas chama para a justiça e, ainda mais, nos justifica com Sua Misericórdia! (cf. Is 42,3-4 – primeira leitura) Por isso, com confiança, arrependamo-nos e peçamos perdão de nossos pecados. Deixemo-nos, assim, inundar pela Graça do Senhor e vivamos no Seu temor e na Sua justiça. (cf. At 10, 34-5 – segunda leitura)

Que a bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Deus e nossa, e São José, seu castíssimo esposo, intercedam por nós a fim de que seja reavivada em nossos corações a tremenda graça que recebemos no nosso Batismo.

Sub tuum præsidium confugimus.
sancta Dei Genitrix:
nostras deprecationes
ne despicias in necessitatibus:
sed a periculis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.

 

Festa do Batismo do Senhor: Mt 3,13-17 – Batismo: o mergulho eficaz

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A Festa do Batismo do Senhor, concluindo o ciclo epifânico do Natal, é ao mesmo tempo porta de entrada para o Tempo Comum. Tempo Comum é sumamente rico do ponto de vista didático e mistagógico, pois nos conduz, a partir da leitura continuada dos evangelhos (ciclo dominical e ferial), ao conhecimento mais aprofundado da pessoa de Jesus. Portanto, esse tempo não pode ser concebido nem vivenciado como algo sem muita importância (“comum”), pois sem ele a densidade teológica do Advento-Natal e a vivência desafiadora da Quaresma-Páscoa se perderiam. Estes seriam apenas momentos isolados, parênteses inseridos artificialmente no horizonte litúrgico que, por sua vez, não serviriam senão de entretenimento diante da monotonia do ritmo ordinário-comum.

No esquema original da pregação (kerigma) dos Apóstolos, o batismo de Jesus é o primeiro acontecimento a ser evocado: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João” (2ª Leitura). Por isso, é apresentado como o início de sua vida pública, de sua missão como ungido (Cristo) de Deus e Salvador da humanidade. Cada evangelista, de acordo com a sua respectiva Batismo do Senhor.jpgintenção teológica, sublinha aspectos diferentes deste acontecimento, o que não significa que incorram em contradição. Marcos, de forma sucinta e direta, mostra que com Jesus a obra de Deus é recriada; reabre-se o paraíso e toda criação é reconciliada: “Vivia entre as feras e os anjos o serviam” (Mc 1,13).

A novidade de Lucas é a afirmação de que no momento em que “Jesus foi batizado, Ele achava-se em oração”. Um tema presente em toda a literatura lucana (Evangelho e Atos). Jesus é o Filho orante, pois esta é a experiência que mais revela e fortalece a sua comunhão com o Pai. O evangelho de Mateus (ano A), por sua vez, através do diálogo entre Jesus e o Batista, evidencia que o Cristo é aquele que cumpre toda a justiça: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça. E João consentiu” (Mt 3,15). A tentativa de João de “protestar” (grego: diekolyev, impedir) evidencia que ele tinha consciência de que Jesus não tinha necessidade de ser batizado, uma vez não tendo pecado, e, portanto, não devia se converter. Porém, entre João Batista e Jesus não há apenas uma relação de continuidade (precursor X messias), mas também uma qualitativa descontinuidade (“Eu vos batizo com água… Ele vos batizará com o Espírito Santo”, Mt 3,11). Em base a esta descontinuidade podemos perceber uma evolução teológica e de significado do batismo de João Batista, o batismo de Jesus e o batismo cristão. João Batista batiza para preparar a chegada do Messias; o povo que vem se batizar é chamado a entrar na dinâmica do arrependimento a fim de apressar a chegada do enviado de Deus. Uma vez que o Messias chegou, cumpriu-se a justiça como prática do precursor; ele encerra propriamente a sua missão. Porém, deve batizar o Messias cujo batismo não tem mais o significado anterior. Jesus não se batiza para apressar a vinda do Messias, nem muito menos para receber o perdão dos pecados.

O batismo de Jesus é a proclamação pública de que ele é verdadeiramente o anunciado das promessas messiânicas veterotestamentárias, porém, um messias que supera todas as expectativas do seu tempo. Jesus não é apenas um enviado de Deus, um ungido especial, mas ele é o Filho amado do Pai. Portanto, a cena do batismo de Jesus na pena de Mateus, introduzida por uma tensão entre precursor e o Messias, descortina os grandes temas tratados ao longo do seu evangelho. Jesus é o filho amado do Pai que cumpre toda a justiça. Justiça que supera a justiça dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20). Pois, para além do cumprimento de leis, a justiça de Jesus é a do Reino de Deus, ou seja, fazer a vontade do Pai. Por isso, Ele é proclamado solenemente como aquele que é amado e no qual o próprio Pai coloca todo o seu agrado. No Batismo de Jesus, se anuncia a nova criação apresentada simbolicamente à luz da primeira criação (Gn 1). Como no início de tudo, havia o cenário das águas, agora Jesus irrompe das águas do Jordão. Se no princípio o Espírito de Deus pairava sobre as águas, agora o mesmo Espírito desce sobre Jesus. A primeira criatura chamada à existência foi a luz, agora na nova criação não aparece um ser criado, mas o primogênito que é o Filho amado do Pai. Pois tudo foi criado por ele, e para ele.

Por fim, vale salientar que há também uma distinção fundamental entre o batismo cristão, o batismo de João, e o batismo de Jesus. Nenhum desses dois últimos tinha eficácia de tornar o batizado filho de Deus, participantes da nova criação. O rito do batista preparava, mas não realizava, o batismo de Jesus não o fez filho eterno do Pai, pois já o era desde sempre. Contudo, o batismo cristão, o mandato de Jesus após a sua ressurreição, mergulha o batizando na realidade da Trindade (“Batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, Mt 28,19), e faz do batizado um filho amado do Pai.

Celebrar a Festa do Batismo do Senhor, mais do que recordar um acontecimento importante da vida de Jesus, como divisor de águas para a sua missão, nos ajuda a tomar consciência de que o nosso batismo também deve ser vivido na sua qualidade de descontinuidade, ou seja, rompimento com o caos (pecado) e compromisso com a vida nova que nos faz participantes da nova criação, iniciada com o batismo do Filho amado do Pai, no qual somos também filhos seus.

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, celebrando a solenidade da Epifania do Senhor, contemplamos a adoração dos magos do Oriente (cf. Mt 2,1-12). Abramos o nosso coração e deixemos que a Luz de Deus que hoje se manifesta para a nossa salvação ilumine toda a nossa vida.

Deus conduziu os magos do oriente ao mistério da salvação sobretudo através de uma estrela. Assim, se manifesta para nós uma grande mensagem de alegria e salvação, enunciada por S. Paulo na segunda leitura desta liturgia: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6). Em outras palavras, não só aos hebreus se dirige Epifania.jpgo Amor misericordioso do nosso Deus, mas a todos os povos. Todos! E, portanto, também a nós! Que maravilha sermos alcançados, libertados e restaurados pela infinita bondade do único e verdadeiro Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor!

Você também não sente seu coração bater mais forte diante de um amor tão profundo e que lhe alcança aí onde você está? Pois bem, a liturgia de hoje nos convida a que, de fato, nos deixemos iluminar pela Luz de Cristo que se manifestou no Seu Natal e também no nosso – pois recebemos a Sua Luz no nosso Batismo. E a nossa resposta é iluminar! Disse o profeta Isaías na primeira leitura: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60,1). Não nos envergonhemos de Jesus, nosso Senhor. Não escondamos a Luz que nos iluminou. E assim, iluminados e iluminando seremos o sinal que tanta gente precisa para encontrar o sentido mais profundo de sua existência: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Que a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria e de São José nos ajude a acolher a manifestação da Graça salvadora de Deus e manifestá-la a todos os que se encontrarem conosco.

Sub tuum præsidium confugimus.

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sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

Epifania do Senhor: Mt 2,1-12 – De Belém para o mundo

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Se para a maioria das pessoas o Natal comercial já passou, para nós cristãos o Natal do Senhor, dada a sua importância e profundidade, continua. Celebrar a Epifania do Senhor é proclamar que o nascimento de Cristo na gruta de Belém não se encerra num espaço nem se limita a um povo, mas é o anúncio da salvação dirigida a todos os povos da terra. A manifestação (epifania) do Senhor é luz que brilha na escuridão e atrai para si a terra envolvida em trevas; é convite universal a deixar-se guiar pela luz verdadeira que aquece e produz vida e alegria (1ª Leitura). Revelando-se na história, assumindo a carne humana, Deus manifestou que o seu mistério de salvação, de vida plena, não privilegia alguns, excluindo outros. A consciência de ser povo escolhido não pode se transformar em presunção de se pensar povo exclusivo. A vocação e a eleição do povo de Deus implicam a missão de proclamar que Deus é o Deus de todos os povos e que a missão é ser luz para ajudar os demais no encontro com a plenitude da vida.

Portanto, na rica diversidade de pessoas, de povos e raças, o plano do Criador se realiza à medida que se reconhece que há uma única e mesma herança para todos: por meio do evangelho todos são irmanados em Jesus Cristo (2ª Leitura). Entretanto, a salvação mesmo sendo uma graça concedida gratuitamente e, ao mesmo tempo, um desejo irresistível do coração humano, exige a decisão de empreender um caminho de busca e aceitação desse maravilhoso dom.

O evangelho de hoje nos faz refletir sobre atitudes diversas diante do dom da salvação. Por um lado, há quem se deixa guiar pela luz (os Magos) e, portanto, independentemente do seu ponto de partida, encaminha-se para o encontro com o Salvador; mas há também quem se fecha na sua presunção de ser o seu próprio salvador (Herodes) e, por isso, persegue a luz a fim de apagá-la, pois ela denuncia as suas obras de treva. Diante do Menino, o Salvador da humanidade, não há neutralidade. O evangelho provoca sempre reações: aceitação ou rejeição. Para uns é boa notícia de salvação, pois reconhecendo a sua fragilidade, abraçam o caminho de conversão e aceitam o dom maravilhoso da vida plena; para outros, é ameaça porque, fechados no seu egoísmo e arrogância, recusam-se à solidariedade, à justiça e à necessária conversão.

A caminhada dos Magos para Belém, passando por Jerusalém, tem o seu ponto de partida no Oriente (grego: anatolé, levante do sol); representa a jornada de todo ser humano que, como o girassol, é atraído pela luz e a segue durante todo o dia. Assim os Magos são atraídos pela estrela, astro iluminado, pois não tendo luz própria reflete a luz do astro luminoso. Caminham na escuridão, mas não são dominados pelas trevas, pois se deixam orientar pela luz, ainda que esta não seja ainda plena. Todo ser humano, de alguma forma, vislumbra essa luz que o atrai, porém não foi criado apenas para contemplar pouca luz, é preciso ser inundado pela verdadeira luz que não conhece ocaso, a fim de que se torne também seu reflexo.

Para os Magos, aquela estrela-guia apontava para algo maior, por isso os impulsiona a buscá-lo. Não se contentaram com o brilho da estrela, caso contrário poderiam ter permanecido lá onde estavam, mas partiram à procura da fonte cuja luz aquele astro refletia. A decisão dos Magos confirma que são verdadeiros sábios, não se acomodam com o mínimo. Porém, há outros que preferem permanecer na mediocridade e se contentam com pouca luz, a fim de não se desinstalarem, ainda que isso lhes resulte uma vida opaca, sem desafios, inerte e estéril.

O desaparecimento momentâneo da estrela poderia ter causado desespero nos Magos, e, por conseguinte, a desculpa fácil para retroceder, desistir. Mas eram convictos de que em algum lugar o sol continuava a brilhar. Portanto, não desistem e, tomando um caminho aparentemente errado, vão bater à porta do tirano Herodes, mas é lá que uma estrela-guia mais luminosa do que a primeira apontará o caminho certo: é a Palavra de Deus, qual bússola de alta precisão, que orienta a retomar a estrada, pois ela “é luz para os passos, lâmpada para o caminho” (Sl 119,105). Não tinham dúvidas de que o Menino nascido era o Rei dos Judeus, e por isso foram procurá-lo no palácio real. Porém, mais do que a luz natural (a lógica humana), precisavam da luz da Palavra para reconhecer que este recém-nascido não era um rei qualquer, era um rei-pastor: “… de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. E o verdadeiro pastor que dá a vida pelas ovelhas não poderia estar salvaguardado num palácio, mas deveria estar no meio de suas ovelhas, arriscando a sua vida. Portanto, o seu lugar era uma casa humilde e simples. Diante da perturbação de Herodes e de toda a sua corte, evidencia-se que a boa notícia do nascimento do rei-pastor era ameaça ao rei-dominador, que num primeiro momento não acredita que tenha nascido o tal procurado, mas quando constata que foi enganado pelos ilustres visitantes, enche-se de furor e manda matar todos os meninos na esperança de que entre eles se encontre e seja exterminado o seu adversário.

Iluminados pela razão (estrela) e pela fé (Palavra de Deus) retomam a estrada, plenos de grande alegria, encontram o recém-nascido nos braços de sua mãe, seu primeiro trono. É uma cena solene, pois os reis quando se apresentavam em ocasiões especiais tinham sempre ao seu lado a rainha-mãe (1Rs 2,19). Os Magos se prostram diante do recém-nascido para adorá-lo; alcançam a finalidade de sua longa viagem. De sábios tornam-se verdadeiros profetas pois nos dons que oferecem (ouro, incenso e mirra) proclamam quem é aquele menino (Rei, Deus, Homem).  Na oferta dos seus preciosos dons, demonstram gratidão pelos incomensuráveis dons que aquela criança oferece a toda a humanidade. Do Rei recebem o favor de mesmo sendo estrangeiros serem admitidos à mesma herança, agora fazem parte do mesmo povo real; do Deus recebem a salvação que supera todas as barreiras étnicas e religiosas; do Homem recebem a revelação de que nenhum ser humano está excluído da plenitude da vida, pois o Filho de Deus, ao encarnar-se, uniu-se à totalidade da humanidade.

Depois do encontro com a luz, os Magos tomaram outro caminho, não mais passando pela casa de Herodes, mas retornando para a sua terra, agora não mais como buscadores da luz, mas como iluminados por ela, pois de sábios se tornaram profetas do rei-pastor, que os fez seus missionários, testemunhas da universalidade da salvação.

AS LIÇÕES DE NAZARÉ

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Das Alocuções de S. Paulo VI.

Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho.

Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus. Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo.

Aqui se aprende o método que nos permitirá compreender quem é o Cristo. Aqui se descobre a necessidade de observar o quadro de sua permanência entre nós: os lugares, os tempos, os costumes, a linguagem, as práticas religiosas, tudo de que Jesus se serviu para revelar-se ao mundo. Aqui tudo fala, tudo tem um sentido.

Aqui, nesta escola, compreende-se a necessidade de uma disciplina espiritual para quem quer seguir o ensinamento do Evangelho e ser discípulo do Cristo.

Ó como gostaríamos de voltar à infância e seguir essa humilde e sublime escola de Nazaré! Como gostaríamos, junto a Maria, de recomeçar a adquirir a verdadeira ciência e a elevada sabedoria das verdades divinas.

Mas estamos apenas de passagem. Temos de abandonar este desejo de continuar aqui o estudo, nunca terminado, do conhecimento do Evangelho. Não partiremos, porém, antes de colher às pressas e quase furtivamente algumas breves lições de Nazaré.

Primeiro, uma lição de silêncio. Que renasça em nós a estima pelo silêncio, essa admirável e indispensável condição do espírito; em nós, assediados por tantos clamores, ruídos e gritos em nossa vida moderna barulhenta e hipersensibilizada. O silêncio de Nazaré ensina-nos o recolhimento, a interioridade, a disposição para escutar as boas inspirações e as palavras dos verdadeiros mestres. Ensina-nos a necessidade e o valor das preparações, do estudo, da meditação, da vida pessoal e interior, da oração que só Deus vê no segredo.

Uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o que é a família, sua comunhão de amor, sua beleza simples e austera, seu caráter sagrado e inviolável; aprendamos de Nazaré o quanto a formação que recebemos é doce e insubstituível: aprendamos qual é sua função primária no plano social.

Uma lição de trabalho. Ó Nazaré, ó casa do “filho do carpinteiro”! É aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei, severa e redentora, do trabalho humano; aqui, restabelecer a consciência da nobreza do trabalho; aqui, lembrar que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas que sua liberdade e nobreza resultam, mais que de seu valor econômico, dos valores que constituem o seu fim. Finalmente, como gostaríamos de saudar aqui todos os trabalhadores do mundo inteiro e mostrar-lhes seu grande modelo, seu divino irmão, o profeta de todas as causas justas, o Cristo nosso Senhor.

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