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Festa da Apresentação do Senhor: Lc 2,22-40 – O menino que sustenta o ancião

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Para quem pensava que o Natal já havia passado há tempo, ou que ainda custaria a chegar, a Festa da Apresentação do Senhor nos recorda que a contemplação da encarnação do Filho eterno do Pai não deve restringir-se apenas a um tempo cronológico-litúrgico. Considerando o ciclo mais amplo das festas natalinas, a festa de hoje é considerada também entre aquelas ditas epifânicas (epifania, batismo…) e, portanto, de algum modo, evoca fortemente a noite santa do Natal do Senhor. Porém, a perspectiva da festa de hoje não significa um retroceder, mas nos aponta na direção da grande vigília da libertação pascal, pois Maria e José, apresentando e consagrando o seu Filho ao Senhor, fazem memória do resgate dos primogênitos do Egito, em obediência à Lei: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. Destarte, Natal e Páscoa são realidades intimamente unidas, um único mistério de salvação.

Para refletirmos sobre o significado da celebração de hoje, podemos identificar nessa longa narrativa 4 momentos distintos, apesar de inseparáveis:

  1. Apresentação (2,22-24): segundo a Lei, devia-se consagrar o primogênito dos humanos, mas o primogênito dos animais devia ser sacrificado. Na apresentação de Jesus essas duas realidades se unem, ele é consagrado, mas não é poupado, pois na cruz será sacrificado. A sua consagração a Deus no Templo foi o momento de revelar que depois seria sacrificado no calvário, diferentemente dos filhos de Israel que, uma vez consagrados, eram livres do sacrifício da morte, apesar de serem simbolicamente imolados nas ofertas para o sacrifício (um par de rolas ou dois pombinhos). O fato de serem duas as ofertas corresponde às respectivas finalidades: uma para o holocausto e outra pelo pecado (Lv 18,8). O simbolismo das duas pombinhas (Ex 13; Lv 12), oferta dos pobres que não podiam fazer ofertas maiores (ovelha, touro), na apresentação de Jesus, torna-se anúncio daquilo que terá o seu cumprimento na sua morte, alcançando assim as duas finalidades: entrega absoluta ao Pai (como holocausto: todo queimado, ideia de sacrifício total) e reconciliação da humanidade (perdão dos pecados).
  2. Revelação de Simeão (2,25-35): podemos dizer que este é o centro da perícope. Depois de Jesus ter sido oferecido ao Pai, temos a resposta do Pai que pela presença do seu Espírito: “O Espírito Santo estava com ele (Simeão)… movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo”, faz o ancião profetizar, anunciando que o antigo Israel, que esperava o cumprimento das promessas, agora pode descansar em paz. Toda a história de espera (simbolizada em Simeão) não foi em vão, pois viu a salvação chegar. Simeão não aguarda a chegada do Messias para satisfazer a sua curiosidade ou para ter a satisfação de ter convivido com Ele, mas anunciando a sua própria morte: “Podes, Senhor, agora deixar partir em paz”, proclama que aquele menino não é só a glória do seu povo israelita, mas o princípio de luz e salvação para todos os povos. A profundidade das palavras de Simeão revela uma história de dor e de luta, resistindo, manteve-se vivo sustentado na promessa de Deus. Ao tomar Jesus nos braços, proclama que era aquele menino que o sustentava na esperança. As palavras de Simeão a Maria reforçam a ideia de que não há verdadeiro Natal se não nos dirigimos para a Páscoa. E que o menino da manjedoura colocado agora nos seus braços será o homem das dores pregado na cruz. E que a sua mãe não foi apenas a jovem donzela que deu à luz uma criança, mas a mulher forte e corajosa que se manterá fiel até o fim, inclusive aos pés da cruz. E que a lança do soldado traspassando o lado do filho crucificado também traspassará a alma da Mãe sempre presente.
  3. Testemunho de Ana (2,36-38): A presença de uma mulher de idade avançada nesse momento no Templo evoca também toda a história do Antigo Testamento de espera pela realização das promessas de Deus. Muito significativo Lucas lembrar que ela era filha de Fanuel, que significa “face de Deus” (Gn 32,30-31), isto é, Ana se torna testemunha de que toda a espera do seu povo valeu a pena, pois viu a face de Deus naquele menino. Seus jejuns e orações serviram de preparação para esse momento.
  4. Volta a Nazaré (2,39-40): Depois de narrar tantos fatos surpreendentes, Lucas conclui com uma nota de que a vida continua na ordinária cotidianidade. De fato, o verbo eterno assumiu a nossa condição humana, como dizia Orígines: “A palavra se abreviou”, e Bento XVI: “para caber na manjedoura” (Verbum Dominin. 12), a fim de assumir tudo aquilo que é humano, sem deixar de ser Deus.

Portanto, a festa de hoje é rica em significados cristológicos. Evoca os momentos fundamentais da História da Salvação, desde o advento histórico (AT) até chegar na sua realização plena no Mistério Pascal. Assim como Maria e José, contemplemos esse mistério, conservando-o em nossa mente e em nosso coração, para um dia podermos dizer como Simeão: “Podes deixar teu servo partir em paz”. Mas enquanto isso, façamos como Ana: “Louvar a Deus e falar do menino a todos que esperam a libertação…

 

III Domingo Tempo Comum: Mt 4,12-23 – É preciso pescar diferente!

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

O evangelho de hoje mais do que descrever o início da vida pública de Jesus, após o seu batismo e sua preparação no deserto vencendo as tentações, faz-nos refletir sobre um grande mistério: o modo que Deus escolheu para salvar a humanidade ao enviar o seu Filho ao mundo. Certamente não se pode entender essa sua opção, pois sendo um mistério, transcende a nossa capacidade de compreensão, contudo é uma verdade inegável a ser vivenciada. Sendo o Todo-poderoso, Ele quis precisar de nós para realizar o seu plano de salvação. Santo Agostinho dirá, a partir da sua experiência: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.

Contando com a ajuda dos seus primeiros discípulos e, ao longo da história, de todas as pessoas que têm dito sim ao seu chamado, Jesus testemunha que o Pai nos salva, considerando-nos capazes de responder com liberdade ao seu apelo. Não nos trata como seres infantilizados, objetos da sua complacência, mas conta com a nossa colaboração, pois nos fez à sua imagem e semelhança.

Para além dos aspectos históricos presentes na narração, Mateus nos introduz num nível mais profundo, cada elemento sublinhado nos faz adentrar numa dimensão simbólica que nos ajuda a perceber o significado da missão salvífica de Jesus. Saindo de Nazaré para estabelecer-se em Cafarnaum, o Mestre não apenas procura um lugar mais estratégico (fronteira) para desempenhar as suas atividades, mas indica qual o significado de sua missão. Em hebraico, Cafarnaum significa: aldeia de Naum (Nahum, conforto, consolo). Assim se cumpre a promessa de Deus que envia o seu Messias para Apóstolosconsolar o seu povo (cf. Is 40,1). Consolar na tradição bíblica significa estar junto aos sozinhos, abandonados, desprezados. Por isso, representa uma luz que desponta, que brilha para “aqueles que estão sentados (jazem como mortos) na região escura da morte”. E este consolo de Deus é apelo de conversão (metanoia, mudança de mentalidade).

Ao chamar pescadores para segui-lo, Jesus retoma uma expectativa vetero-testamentária que traduzia a intervenção de Deus para libertar o seu povo no fim dos tempos com a imagem da pesca escatológica (Jr 16,16; Mt 13,47-50). É interessante notar que além de pescadores, tanto Simão e André, como Tiago e João, são irmãos. O Reino de Deus instaura-se à medida que se faz a experiência da fraternidade; enquanto não se reconhece que a dimensão mais profunda que liga os seres humanos é a sua condição fundamental de igualdade, o ser irmão, a experiência de salvação é postergada. Por outro lado, ressaltando que os primeiros chamados têm nome: Simão e André; Mateus evidencia que a vocação é uma resposta de Deus à necessidade do ser humano (Simão: Deus escutou), e essa resposta deve ser dada por um ser humano concreto (André: varão).

Ao dizer-lhes: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”, Jesus lhes apresenta um caminho de verdadeira conversão: seguir a luz, e deixar-se transformar por ela. A linguagem simbólica indica que a mudança radical está na finalidade da pesca. Até então lançavam as redes para pescar peixes cujo destino era morte; a partir de agora, seguindo aquele que dá a vida, tornar-se-ão pescadores de homens (anthropous: seres humanos, por extensão de significado, seres vivos), isto é, a missão desses seguidores é conduzir as pessoas para a vida. Se para eles as redes eram importantes para garantir a morte dos peixes, agora deixar-se arrastar pelo convite do Mestre é tornar-se instrumento de libertação. Tiago e João são identificados como “de Zebedeu” (o texto grego não inclui a palavra “filhos”); mais uma vez o evangelista sublinha que a vocação é um dom dado pelo próprio Deus (Zebedeu: hebraico Zabdi’el, Deus deu); mais na frente, Jesus orientará os seus discípulos para que “peçam ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe” (Mt 9,37-38). Significativos também são os nomes desses últimos chamados, pois evocam de modo concreto a missão de Jesus como sendo o enviado de Deus para consolar o seu povo (Tiago: Jacó, abreviação de Ia’aqob’el, Deus protege; João: Iehohhanam, Javé é misericordioso). Jesus é verdadeiramente aquele que protege, livra da morte o seu povo, e manifesta-lhe a misericórdia do Pai. Por conseguinte, os seus seguidores devem partilhar da mesma missão do Mestre.

Deixar tudo, abandonar as redes e até o pai, são atitudes necessárias para quem toma a decisão de ser um colaborador de Jesus. Ele que não precisa de ninguém e de nada, quer contar com quem também esteja disposto a não se apegar a nada e a ninguém. Se Deus livremente escolheu contar com nossa ajuda, só é possível responder a este apelo se tomarmos a decisão de libertar-nos de tudo aquilo que nos aprisiona a estruturas de morte (redes) para, assim, podermos ser instrumentos para a vida, anunciando o evangelho do Reino que cura todo tipo de doença e enfermidade humanas.

Crescer na consciência de que Deus conta conosco para a instauração do seu Reino não deve ser motivo de orgulho, mas de gratidão. Se até então a nossa pesca foi infrutífera, levou à morte, Ele nos desafia hoje a pescar diferente, seguindo o Pescador de outros lagos, o seu Filho, numa atitude de permanente conversão.

 

SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A (P. Lucas, scj)

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eis o cordeiro peter murphy

Caros irmãos, celebrando o segundo domingo do Tempo comum, a liturgia propõe, para nossa reflexão e oração, a memória do Batismo do Senhor segundo S. João (cf. Jo 1,29-34). Peçamos a Deus a sua Graça para que possamos, nas atividades cotidianas, estar unidos sempre a Jesus e nos tornarmos suas testemunhas.

Já antes que Jesus inicie sua atividade, o quarto evangelho nos apresenta, através do testemunho de João Batista, indica quem Ele é e qual a sua missão: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Ou seja, Jesus Cristo é o Servo do Senhor que foi profetizado por Isaías e que vem para salvar seu Povo. Dessa forma, as palavras e a vida de João apontam para tal realidade tão profunda: “se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel” (Jo 1,31). Mas o Senhor vem para salvar não só Israel, mas toda humanidade: “eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra” (Is 49,6 – primeira leitura).

Ora, esta salvação chegou até nós, onde quer que estivéssemos, através da missão da Igreja que nos anunciou o Evangelho e na qual recebemos o Batismo. Podemos, então, louvar e agradecer ao Senhor, nosso Deus, que nos amou de modo admirável e nos alcançou com sua Misericórdia. E contemplando tão grande dom, somos convidados a nos deixar mover pelo seu amor e respondermos positivamente ao seu chamado de sermos santos (cf. 1Cor 1,2 – segunda leitura), assumindo a nossa missão e testemunhando a Boa Nova da Salvação. Reconciliados com Deus, vivamos, portanto, buscando a Sua Face e correspondendo ao seu amor em cada uma das atividades do nosso dia a dia.

Peçamos a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria e de seu castíssimo esposo São José, a fim de que nossa vida seja anúncio Evangelho. Rezemos também pela unidade de todos os cristãos.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

II Domingo Tempo Comum: Jo 1,29-34 – Testemunhar é mais do que falar

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Após celebrarmos o jubiloso Tempo do Natal do Senhor, entramos agora no Tempo Comum, cuja finalidade é nos conduzir pedagogicamente, guiados pela Palavra de Deus, de modo particular pelo Evangelho, num caminho de conhecimento da Pessoa de Jesus e de sua missão, a fim de crescermos na convicção e no compromisso de viver a nossa opção de ser seus seguidores e testemunhas. Por isso, iniciamos esse percurso seguindo a dinâmica do próprio evangelho, que apresenta o testemunho de João Batista como um marco importante no encontro com Jesus, que nos convida a segui-lo.

No testemunho de João Batista encontra-se a síntese perfeita de quem é Jesus e qual é a sua missão: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Estas palavras do precursor representam uma densa retrospectiva de todo o Antigo Testamento, como história de um povo que espera o cumprimento das promessas de Deus, que aguarda a chegada do Messias prometido; mas também serve de introdução a tudo aquilo que os S Joao Batistaevangelhos, a pregação do Cristianismo primitivo e, naturalmente, a permanente missão da Igreja conservam e transmitem como verdade de fé sobre Jesus, a sua vida e o seu ensinamento.

Proclamando Jesus o Cordeiro de Deus, o Batista descortina o imenso horizonte do Antigo Testamento. A palavra cordeiro (grego: amnós, pode ser a tradução do aramaico: talya, servo) evoca uma longa e rica tradição da experiência do Povo de Deus, desde o tempo dos patriarcas, passando pelos acontecimentos do Êxodo até o surgimento das expectativas messiânicas no tempo dos profetas. Para além de uma questão semântica do termo, estamos diante de situações históricas que marcam o longo caminho da revelação de Deus ao seu povo. O simbolismo do cordeiro evoca a lembrança do cordeiro que era sacrificado na Páscoa como memorial da intervenção libertadora do Senhor para arrancar o seu povo das garras do Faraó (Ex 12). Os cordeiros eram também sacrificados diariamente no templo, de manhã e à tarde, como ofertas expiatórias (Ex 29,38-46). Os profetas, por sua vez, também usam esse símbolo para descrever as características do Servo de Javé: humilde e manso (Is 53,7).

Ao especificar que este cordeiro é “de Deus”, o profeta João Batista o distingue de todas as outras imagens do Antigo Testamento, pois evidencia qual é a sua identidade fundamental, isto é, este cordeiro é único, pois é aquele que só Deus enviará, uma vez que todos os outros pertenciam aos homens, eram animais dos seus rebanhos ou metáforas da linguagem profética. Esse é o cordeiro que Abraão não possuía para oferecer no lugar do seu filho único e amado; por isso, anuncia a Isaac que Deus o providenciará, a fim de que o seu sacrifício seja perfeito (Gn 22). Este é o único cordeiro, que mesmo morrendo, e tendo o seu sangue derramado em libação, não permanece morto, mas está de pé (Ap 5,6).

Desse modo, João apresenta quem é Jesus, que não deve ser confundido com nenhum outro, pois Ele não é apenas um enviado de Deus, um grande profeta ou mesmo um herói nacionalista, mas Ele é o Filho de Deus.

Depois de deixar clara qual é a identidade do Messias, João afirma qual será a sua missão: “Aquele que tira o pecado do mundo”. Chama a atenção que João Batista não se dirige a Jesus chamando-o pelo nome, mas sublinhando o que significa o seu nome (Jesus: “Deus salva”). Na tradição bíblica o nome tem muita importância porque diz algo da pessoa, não é apenas uma identificação artificial, externa. Desse modo, João Batista indica a essência do nome Jesus: “Aquele que tira o pecado do mundo”, muito coerente com aquilo que o anjo diz a José em sonho: “Tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21).

O evangelista João mais adiante relembrará que a salvação realizada por Jesus é a grande prova do amor de Deus, que “amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Como o Batista tinha especificado que o cordeiro “é de Deus”, agora ele diz que o pecado “é do mundo”. Para João evangelista, mundo pode significar a criação, a humanidade, mas também tudo aquilo que se opõe ao projeto de Deus, diríamos o mundo deformado; o pecado é a atitude de fechamento do ser humano ao amor e, portanto, transforma o mundo criado por Deus (cosmos) em desumanização, destruição da vida (caos). O pecado do mundo (de Adão e Eva, da humanidade) é a desobediência à voz de Deus que provoca toda sorte de desordem nas relações entre os seres humanos consigo mesmos, com os outros e com a criação. O pecado do mundo é a decisão do homem de negar a sua condição e, por conseguinte, tornar-se um instrumento de destruição da criação, inclusive da sua própria vida.

João Batista reconhece que Jesus é aquele que tira o pecado do mundo quando, ao batizá-lo, vê descer sobre Ele o Espírito Santo, em forma de pomba, e ouve a voz dos céus que confirma ser ele o Filho de Deus. Portanto, com Jesus inicia-se a nova criação. Assim como no princípio, sobre as águas pairava o Espírito de Deus fecundando e chamando à existência toda a criação, agora o Espírito sobre o Filho, que mergulhando e emergindo das águas anuncia a sua morte e ressurreição, recria tudo, garantindo a nova vida.

O testemunho de João Batista é mais do que palavras, é reconhecimento daquilo que está acontecendo: surgimento de uma nova vida para o mundo com a chegada do Filho de Deus que salva a humanidade dos seus pecados. O testemunho do cristão não pode ser apenas anúncio de que Deus nos salva em Jesus, mas deve ser, antes de tudo, sinal concreto de uma vida nova, fruto da salvação acolhida. O testemunho será a prova de que a salvação de Deus nos alcança, fazendo de nós colaboradores da nova criação, do novo céu e da nova terra para onde o cordeiro quer nos conduzir (Ap 21,1).

 

Fonte: https://www.dehonianosbre.org.br/homilias/ii-domingo-tempo-comum–jo-1-29-34–testemunhar-e-mais-do-que-falar

FESTA DO BATISMO DO SENHOR (P. Lucas, scj)

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Batismo

Caros irmãos, celebramos, neste domingo, a festa do Batismo do Senhor e, com ela, encerramos o tempo litúrgico do Natal. A partir do relato de São Mateus (cf. Mt 3,13-17), nos deixemos alcançar pela divina Graça e renovemos o nosso Batismo e abramos nosso coração para o Espírito Santo.

No seu diálogo com João Batista, Jesus diz que deve ser batizado para cumprir toda justiça (cf. Mt 3,15). Estamos, de fato, diante do anúncio (ou da manifestação) da missão do Senhor: Ele desce ao Jordão, porque é Aquele que desceu do céu para ser a nossa salvação; é submerso nas águas pois iria morrer por nós; e saindo dali, abrem-se os céus, vem o Espírito e se faz ouvir a voz do Pai, para que nós sepultados no batismo fôssemos inseridos na Paixão-Morte-Ressurreição do Senhor e, assim, nos tornássemos filhos amados de Deus.

Por isso, nesta celebração, somos chamados não só a recordar o dia do nosso Batismo, mas renovar as suas promessas para vivermos, na Graça de nosso Salvador, como verdadeiros filhos do Altíssimo. E como é bom saber que Deus não despreza a nossa fragilidade, mas chama para a justiça e, ainda mais, nos justifica com Sua Misericórdia! (cf. Is 42,3-4 – primeira leitura) Por isso, com confiança, arrependamo-nos e peçamos perdão de nossos pecados. Deixemo-nos, assim, inundar pela Graça do Senhor e vivamos no Seu temor e na Sua justiça. (cf. At 10, 34-5 – segunda leitura)

Que a bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Deus e nossa, e São José, seu castíssimo esposo, intercedam por nós a fim de que seja reavivada em nossos corações a tremenda graça que recebemos no nosso Batismo.

Sub tuum præsidium confugimus.
sancta Dei Genitrix:
nostras deprecationes
ne despicias in necessitatibus:
sed a periculis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.

 

Festa do Batismo do Senhor: Mt 3,13-17 – Batismo: o mergulho eficaz

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A Festa do Batismo do Senhor, concluindo o ciclo epifânico do Natal, é ao mesmo tempo porta de entrada para o Tempo Comum. Tempo Comum é sumamente rico do ponto de vista didático e mistagógico, pois nos conduz, a partir da leitura continuada dos evangelhos (ciclo dominical e ferial), ao conhecimento mais aprofundado da pessoa de Jesus. Portanto, esse tempo não pode ser concebido nem vivenciado como algo sem muita importância (“comum”), pois sem ele a densidade teológica do Advento-Natal e a vivência desafiadora da Quaresma-Páscoa se perderiam. Estes seriam apenas momentos isolados, parênteses inseridos artificialmente no horizonte litúrgico que, por sua vez, não serviriam senão de entretenimento diante da monotonia do ritmo ordinário-comum.

No esquema original da pregação (kerigma) dos Apóstolos, o batismo de Jesus é o primeiro acontecimento a ser evocado: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João” (2ª Leitura). Por isso, é apresentado como o início de sua vida pública, de sua missão como ungido (Cristo) de Deus e Salvador da humanidade. Cada evangelista, de acordo com a sua respectiva Batismo do Senhor.jpgintenção teológica, sublinha aspectos diferentes deste acontecimento, o que não significa que incorram em contradição. Marcos, de forma sucinta e direta, mostra que com Jesus a obra de Deus é recriada; reabre-se o paraíso e toda criação é reconciliada: “Vivia entre as feras e os anjos o serviam” (Mc 1,13).

A novidade de Lucas é a afirmação de que no momento em que “Jesus foi batizado, Ele achava-se em oração”. Um tema presente em toda a literatura lucana (Evangelho e Atos). Jesus é o Filho orante, pois esta é a experiência que mais revela e fortalece a sua comunhão com o Pai. O evangelho de Mateus (ano A), por sua vez, através do diálogo entre Jesus e o Batista, evidencia que o Cristo é aquele que cumpre toda a justiça: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça. E João consentiu” (Mt 3,15). A tentativa de João de “protestar” (grego: diekolyev, impedir) evidencia que ele tinha consciência de que Jesus não tinha necessidade de ser batizado, uma vez não tendo pecado, e, portanto, não devia se converter. Porém, entre João Batista e Jesus não há apenas uma relação de continuidade (precursor X messias), mas também uma qualitativa descontinuidade (“Eu vos batizo com água… Ele vos batizará com o Espírito Santo”, Mt 3,11). Em base a esta descontinuidade podemos perceber uma evolução teológica e de significado do batismo de João Batista, o batismo de Jesus e o batismo cristão. João Batista batiza para preparar a chegada do Messias; o povo que vem se batizar é chamado a entrar na dinâmica do arrependimento a fim de apressar a chegada do enviado de Deus. Uma vez que o Messias chegou, cumpriu-se a justiça como prática do precursor; ele encerra propriamente a sua missão. Porém, deve batizar o Messias cujo batismo não tem mais o significado anterior. Jesus não se batiza para apressar a vinda do Messias, nem muito menos para receber o perdão dos pecados.

O batismo de Jesus é a proclamação pública de que ele é verdadeiramente o anunciado das promessas messiânicas veterotestamentárias, porém, um messias que supera todas as expectativas do seu tempo. Jesus não é apenas um enviado de Deus, um ungido especial, mas ele é o Filho amado do Pai. Portanto, a cena do batismo de Jesus na pena de Mateus, introduzida por uma tensão entre precursor e o Messias, descortina os grandes temas tratados ao longo do seu evangelho. Jesus é o filho amado do Pai que cumpre toda a justiça. Justiça que supera a justiça dos escribas e fariseus (cf. Mt 5,20). Pois, para além do cumprimento de leis, a justiça de Jesus é a do Reino de Deus, ou seja, fazer a vontade do Pai. Por isso, Ele é proclamado solenemente como aquele que é amado e no qual o próprio Pai coloca todo o seu agrado. No Batismo de Jesus, se anuncia a nova criação apresentada simbolicamente à luz da primeira criação (Gn 1). Como no início de tudo, havia o cenário das águas, agora Jesus irrompe das águas do Jordão. Se no princípio o Espírito de Deus pairava sobre as águas, agora o mesmo Espírito desce sobre Jesus. A primeira criatura chamada à existência foi a luz, agora na nova criação não aparece um ser criado, mas o primogênito que é o Filho amado do Pai. Pois tudo foi criado por ele, e para ele.

Por fim, vale salientar que há também uma distinção fundamental entre o batismo cristão, o batismo de João, e o batismo de Jesus. Nenhum desses dois últimos tinha eficácia de tornar o batizado filho de Deus, participantes da nova criação. O rito do batista preparava, mas não realizava, o batismo de Jesus não o fez filho eterno do Pai, pois já o era desde sempre. Contudo, o batismo cristão, o mandato de Jesus após a sua ressurreição, mergulha o batizando na realidade da Trindade (“Batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, Mt 28,19), e faz do batizado um filho amado do Pai.

Celebrar a Festa do Batismo do Senhor, mais do que recordar um acontecimento importante da vida de Jesus, como divisor de águas para a sua missão, nos ajuda a tomar consciência de que o nosso batismo também deve ser vivido na sua qualidade de descontinuidade, ou seja, rompimento com o caos (pecado) e compromisso com a vida nova que nos faz participantes da nova criação, iniciada com o batismo do Filho amado do Pai, no qual somos também filhos seus.

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, celebrando a solenidade da Epifania do Senhor, contemplamos a adoração dos magos do Oriente (cf. Mt 2,1-12). Abramos o nosso coração e deixemos que a Luz de Deus que hoje se manifesta para a nossa salvação ilumine toda a nossa vida.

Deus conduziu os magos do oriente ao mistério da salvação sobretudo através de uma estrela. Assim, se manifesta para nós uma grande mensagem de alegria e salvação, enunciada por S. Paulo na segunda leitura desta liturgia: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6). Em outras palavras, não só aos hebreus se dirige Epifania.jpgo Amor misericordioso do nosso Deus, mas a todos os povos. Todos! E, portanto, também a nós! Que maravilha sermos alcançados, libertados e restaurados pela infinita bondade do único e verdadeiro Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor!

Você também não sente seu coração bater mais forte diante de um amor tão profundo e que lhe alcança aí onde você está? Pois bem, a liturgia de hoje nos convida a que, de fato, nos deixemos iluminar pela Luz de Cristo que se manifestou no Seu Natal e também no nosso – pois recebemos a Sua Luz no nosso Batismo. E a nossa resposta é iluminar! Disse o profeta Isaías na primeira leitura: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60,1). Não nos envergonhemos de Jesus, nosso Senhor. Não escondamos a Luz que nos iluminou. E assim, iluminados e iluminando seremos o sinal que tanta gente precisa para encontrar o sentido mais profundo de sua existência: Jesus Cristo, nosso Senhor.

Que a intercessão da bem-aventurada Virgem Maria e de São José nos ajude a acolher a manifestação da Graça salvadora de Deus e manifestá-la a todos os que se encontrarem conosco.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

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