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“E DEUS CRIOU O HOMEM À SUA IMAGEM” (Gn 1, 27) – Por Luiz Guilherme Andrade Menossi.

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Saudações a todos vocês, queridos amigos do CommunioSCJ. Depois de uma parada demasiadamente longa, recomeçamos nossa caminhada de compreensão da nossa fé.

Com a mudança de ano, tivemos também a mudança de nossa temática. Particularmente, acolhi com grande alegria a oportunidade de estudar e partilhar sobre a Teologia do Corpo, desenvolvida pelo Beato João Paulo II, de quem sou grande admirador e devoto. Essa teologia, desenvolvida ao longo de uma série de catequeses, é genial e reafirma o imenso valor que o corpo possui dentro da visão cristã.

Aí está um belo ponto de partida: o valor do corpo. A maioria de nós já deve ter se deparado com a acusação de que a Igreja, buscando o espiritual, menospreza o material e consequentemente o corpo. Pelo contrário! Desde o início da Igreja, e particularmente com Santo Tomás de Aquino, o corpo é tremendamente valorizado. G. K. Chesterton, rebatendo essa falsa visão, explicava que “Em comparação com um judeu, um muçulmano, um budista, um deísta ou alternativas mais óbvias, ser cristão significa um homem que acredita que a divindade ou a santidade se ligou a matéria ou adentrou o mundo dos sentidos” [1]. Pois o cristão é aquele que acredita que Deus se fez homem, assumiu um corpo, se fez matéria. De fato, “a humanização da divindade é realmente o mais forte, completo e incrível dogma do credo” [2]. Por isso a escolha do Bem Aventurado João Paulo II em escolher o corpo como tema de sua nova teologia.

Mas estejamos atentos que para entendermos um pouco do mistério do ser humano e compreendermos o que o seu corpo significa, é preciso lembrar que esse ser não é só corpo, mas é também alma. Corpo e alma são preciosos e só quando os dois são considerados podemos nos indagar sobre o que é o homem.

É com essa indagação que João Paulo II começa seu ciclo de catequeses. Ele relembra a resposta de Jesus aos fariseus que questionavam a indissolubilidade do matrimônio: “Vocês nunca leram que o Criador, desde o princípio, os fez home e mulher?” (Mt 19, 4). O termo princípio, embora possa ser tomado também como uma referência à própria natureza humana criada por Deus, refere-se claramente ao livro do Gênesis.

Distinguido entre os dois relatos da criação contidos no livro primeiro livro da Bíblia, João Paulo II toma o primeiro relato, contido no primeiro capítulo, para definir o ser humano. Nesse relato, o homem é criado na terra, com todo o mundo visível. Mas ao mesmo tempo, é o único ser criado à semelhança de Deus: “E Deus criou o homem à sua imagem: à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1, 27). O homem “é portanto colocado acima do mundo. Embora o homem esteja tão intimamente ligado ao mundo visível, a narrativa bíblica não fala, todavia, da sua semelhança com o resto das criaturas, mas somente com Deus” [3]. Essa superioridade do ser humano com relação ao mundo é expressa no mandato de submeter a terra (Gn 1, 28).

A distinção entre o homem e o restante da criação visível é baseada na sua relação com Deus: o ser humano é a única criatura capaz de se relacionar com Deus, a única criatura capaz de Deus. Mas se essa constatação o eleva a um patamar privilegiado, também mostra “a impossibilidade absoluta de reduzir o homem ao mundo” [3]. Sendo capaz de Deus, o ser humano é feito para transcender este mundo e caminhar em direção ao seu Criador. E este é um dado importante acerca do ser humano. Dado que, por faltar a muitos intelectuais e sistemas, acaba levando a uma distorção acerca da verdade sobre o ser humano: a verdade de que ele foi feito para algo que não está no mundo físico. Por isso o homem tem uma sede insaciável. Sua saciedade, por mais que se tente, não está nesse mundo; está em Deus. É o que nos ensina Santo Agostinho, enquanto conversa com Deus:

“Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em ti”[4].

Que o Senhor nos abençoe e nos fortaleça neste ano que se inicia. Uma ótima semana a todos!

 

 

[1] CHESTERTON, G. K. São Tomás de Aquino e São Francisco de Assis. São Paulo: Madras, 2012, p. 28.

[2] Ibidem, p. 24.

[3] “Na primeira narrativa da criação encontra-se a definição objetiva do homem”, de João Paulo II. Disponível em:

<http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19790912_po.html>.

[4] SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 21ª edição, 2009, p. 15.

A IGREJA É, E SEMPRE SERÁ CONTRA TUDO O QUE FERE O SER HUMANO – Por Fabiana Theodoro.

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Olá amigos!

Iniciando o novo ano litúrgico, também começamos um novo ciclo de reflexões, conforme Frater Lucas já adiantou em seu último texto, sobre as catequeses do Beato João Paulo II, a chamada Teologia do Corpo.

Neste primeiro texto, somos chamados a refletir sobre uma realidade muito comum em nosso cotidiano, porém, que não corresponde à vontade de Deus, o divórcio.

No Evangelho de Mateus, Jesus é questionado pelos fariseus quanto a esse assunto e responde: “O Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher, e disse: Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, e unir-se-á a sua mulher, e serão os dois uma só carne. Portanto, já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, não o separe o homem”. “Por que foi então, perguntaram eles, que Moisés preceituou dar-lhe carta de divórcio ao repudiá-la?”. “Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.” [1]

No princípio, como se refere Jesus, Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança [2], para unirem-se um ao outro, envoltos por um elo sagrado selado no altar (quem dera todos tivessem essa ciência, antes de comprometerem-se por este ato).

Ao unir-se em matrimônio na Igreja, o Senhor testemunha a promessa de um noivo Aliançaspara o outro de que vai empenhar-se em fazer o outro feliz, mais do que se empenhará em ser feliz, que abrirá mão de si mesmo em prol do outro, estando ciente de que é uma “só carne”, como diz o Senhor.

O casamento que não tem o Senhor como centro já começa errado. Relacionamentos não são fáceis, aceitar os defeitos e os erros do outro, muito menos. Aqueles que se casam sem firmar primeiramente um compromisso com Deus, não resistem às tribulações. A sociedade diz: “não deu certo, separe-se”, mas Deus diz: “Permaneçam firmes, estou junto de vocês.”

O Beato João Paulo II estará conosco ao longo das próximas reflexões para nos elucidar sobre a profundidade das palavras de Jesus no Evangelho que nos exortam a amar incondicionalmente à àquele que se escolheu para compartilhar a vida. Para tanto, é necessário um bom tempo de preparação e acompanhamento espiritual para que o casal tenha condições de conhecer um ao outro e descobrir se compartilham do mesmo desejo de servir e seguir a Deus juntos. Um casamento feliz se constrói sobre rocha firme para que as tempestades, quando vierem, não o derrubem.

O mundo das celebridades trata como “normal” os vários divórcios de suas estrelas e de seus astros, mas quando os holofotes se apagam ninguém sabe como é de verdade. Nessas horas, todas as pessoas sofrem da mesma forma e os filhos também.

Em muitos casos, através de uma investigação mais profunda, a Igreja identifica a validade ou não de um casamento, considerando-o nulo por várias razões possíveis e, nessas situações, é sempre bom consultar um padre, pois ninguém melhor para orientar nesse momento.

A Igreja não é indiferente ao sofrimento daqueles que já viveram um casamento que não deu certo, e, no entanto, querem viver de forma correta e coerente com a fé. Ela acolhe essas pessoas, mas quer evitar que outros casais cometam os mesmos erros, sendo acusada de intolerante e antiquada, o que ela não é. Deus ama o homem e a mulher, os criou à sua imagem e semelhança, para amar como Ele ama. O divórcio fere esse objetivo de Deus para nós e por isso a Igreja é contra, Ela é e sempre será contra tudo o que fere a criação de Deus, o ser humano.

Que o Senhor nos guarde sempre em teus caminhos, nos oriente e nos ilumine sempre em direção à sua vontade e que saibamos esperar o melhor de Deus para nossas vidas, amém!

Boa semana a todos!

 

 

BEATO JOÃO PAULO II, Audiência Geral, 5 de setembro de 1979, Em colóquio com Cristo sobre os fundamentos da família, disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19790905_po.html>.

[1] Mt. 19,3 ss.; Mc. 10,2 ss.

[2] Gn 5,2.

O ANO DA FÉ ACABOU, E AGORA? – Por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

 

Sejam bem vindos, mais uma vez, ao CommunioSCJ! O Ano da Fé foi encerrado no último domingo, na celebração da Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo. Esperamos ter contribuído para que, com nossas reflexões, também você, que acompanha nosso blog, tenha refletido mais profundamente sobre o modo que a fé católica tem impactado sua vida. De fato, é nossa tarefa aprofundarmos o conhecimento de nossa fé para que, cada vez mais, possamos pô-la em prática: a fé, se não transforma nossa vida, é morta (cf. Tg 2,26).

Dessa forma, queremos seguir o processo de reflexão de nossa fé com um tema que, graças a Deus tem sido muito difundido nos últimos tempos: as catequeses do Beato João Paulo II sobre o amor humano, também conhecidas como a “teologia do corpo”. Isso porque descobrir a beleza para a qual fomos criados é muito importante para que nós, jovens, abracemos com convicção o empenho pela castidade e, nela, encontremos a verdadeira alegria de amar.

Sabemos que a castidade cristã é, muitas vezes, objeto de dúvida e escárnio para muitos. Sabemos também da dificuldade para abraçar e crescer nesta virtude. Mas também sabemos que ela “significa a integração correta da sexualidade na pessoa e, com isso, a unidade interior do homem em seu ser corporal e espiritual” [1]. E queremos aprender a viver nesta virtude para que, com o auxílio da graça de Deus, cresçamos na nossa realização enquanto seres corpóreo-espirituais vocacionados ao amor.

Não que a castidade seja o centro da vida cristã: seu centro é a caridade. E, de fato, “a caridade é a forma de todas as virtudes. Influenciada por ela, a castidade aparece como uma escola de doação da pessoa. O domínio de si mesmo está ordenado para a doação de si mesmo” [2]. Queremos aprender a amar. E, para tanto, precisamos aprender a castidade, seu significado e seu valor sempre atual.

Por isso, a partir do próximo mês, começaremos a refletir sobre o primeiro ciclo das proféticas catequeses que o Beato Papa João Paulo II proferiu sobre o amor humano que se chama “O Princípio” e trata do desígnio de Deus na criação do ser humano. Este primeiro ciclo vai da audiência geral da quarta-feira, 5 de setembro de 1979, “Em colóquio com Cristo sobre os fundamentos da família” [3] até aquela da quarta-feira, 2 de abril de 1980: “Os interrogativos sobre o matrimônio na visão integral do homem” [4].

Enfim, esta será também a ocasião de testemunharmos nossa fé no Espírito que suscita o Papa do qual temos necessidade seja da Polônia, da Alemanha ou mesmo da Argentina. E ainda, é uma forma de bendizer a Deus por nos ter dado João Paulo II com sua santidade luminosa para conduzir-nos no fim do milênio passado no ano de sua canonização.

Que a beatíssima Virgem, ícone da pureza, nos guarde neste caminho.

Fraterno abraço, até a próxima.

 

 

[1] Catecismo da Igreja Católica (CEC) 2337.

[2] CEC 2346.

[3] JOÃO PAULO II. Em colóquio com Cristo sobre os fundamentos da família. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19790905_po.html.

[4] JOÃO PAULO II. Os interrogativos sobre o matrimônio na visão integral do homem. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1980/documents/hf_jp-ii_aud_19800402_po.html>.

“NÃO É BOM QUE O HOMEM ESTEJA SÓ” (Gn 2,18) – Por Luiz Guilherme Andrade Menossi.

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Saudações, queridos amigos do CommunioSCJ! Sejam novamente bem vindos a esse espaço de aprofundamento da nossa fé.

Na semana anterior meditávamos sobre a criação do ser humano. Talvez alguns leitores mais atentos (ou atentas) tenham reparado que este ser (humano) é muitas vezes 7 - Michelangelo - Criação de Eva - Cappella Sistina, Vaticanodesignado como o homem. Mas e a mulher? Em uma sociedade marcada pela rivalidade entre os gêneros, esta é uma pergunta muito provável. Desta forma, é chegada a hora de, em unidade com o Catecismo, lembrarmos que quando Deus criou o ser humano, “homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27).

A fim de nos livrarmos de eventuais complicações, talvez seja interessante distinguir os dois significados da palavra homem no relato contido no livro do Gênesis. No relato bíblico, o escritor sagrado fala de um homem utilizando o termo hebraico ‘adam (Adão), que exprime o conceito coletivo da espécie humana; designa toda a humanidade, homens e mulheres. Quando fala do homem em contraposição com a mulher, os termos hebraicos utilizados são diferentes: ‘is (macho) e ‘issa (fêmea) sublinham a diversidade sexual.

Considerando os significados dos termos utilizados, poderíamos ler o versículo 27 do capítulo 1 do livro do Gênesis como: “Deus criou o adam à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Is e issa ele os criou” (Gn 1,27). E só com este pequeno versículo, entenderíamos que “O homem e a mulher são criados, isto é, são queridos por Deus” [1]. Criados diferentes, mas iguais em dignidade, como aponta o simbolismo do autor sagrado que mostra a mulher retirada da costela, isto é, do lado, nem acima nem abaixo, do homem (Cf. Gn 2,21-22).

Entretanto, é muito fácil constatar que essa realidade criada e querida por Deus na criação, a diferença de gêneros do ser humano, sempre foi desrespeitada. No passado, o “iguais em dignidade” foi muitas vezes menosprezado no desrespeito às mulheres. No presente, é o “cridos diferentes” que é atacado em tantos movimentos que desconhecem ou rejeitam a revelação de Deus. Basta olharmos atentamente para o mundo em que vivemos (nosso presente) para percebermos como pululam tensões e acusações entre o masculino e o feminino. Mas de onde surge essa separação que vai de encontro ao projeto de nosso Criador?

É o pecado original que faz com que homens e mulheres tenham uma “natureza lesada” Ícone - Santíssima Virgem Maria[2], que acaba por distorcer e destruir o sonho de Deus para sua criação. Como aponta o Catecismo, antes do pecado, quando ainda habitavam o Paraíso, homem e mulher viviam num “estado de justiça e santidade original” [3] que permitia uma “participação na vida divina” [4]. Com isso, o ser humano era privado da morte e do sofrimento, e vivia em harmonia (consigo mesmo, com a criação e entre homem e mulher) [5]. Como veremos nas próximas semanas, foi o pecado original que destruiu toda essa belíssima realidade para qual fomos criados.

Lutando contra a revolta a Deus que temos em decorrência do pecado original, precisamos lançar um novo olhar para a relação entre homem e mulher. E este novo olhar foi brilhantemente mostrado pelo Bem Aventurado Papa João Paulo II nas suas catequeses onde apresentou a Teologia do Corpo. Em posse dessas catequeses, começamos a entender que “Não é bom que o homem [is] esteja só” (Gn 2,18). Que homem e mulher são “ao mesmo tempo iguais enquanto pessoas e complementares enquanto masculino e feminino” [6]. E que, como tão maravilhosamente expressou nosso amado Beato João Paulo II:

“O homem se tornou imagem e semelhança de Deus não só mediante a própria humanidade, mas ainda mediante a comunhão das pessoas, que o homem e a mulher formam desde o princípio” [7].

Belíssimo! Deus é Uno, embora se manifeste na Santíssima Trindade, como uma comunhão de Pessoas divinas. Assim, o ser humano é imagem de Deus enquanto é “uma só carne” (Gn 2,24) formada pela comunhão de duas pessoas: homem e mulher.

Que pela intercessão da Santíssima Virgem Maria, Deus nos ajude a compreendermos e vivermos seu plano de amor. Que Ele nos dê a Graça de alcançarmos novamente a participação na vida divina perdida com o pecado original.

Uma ótima semana a todos.

 

 

[1] CEC (Catecismo da Igreja Católica), n. 369.

[2] CEC, n. 407.

[3] CEC, n. 375.

[4] Ibidem.

[4] Cf. CEC, n 376.

[5] CEC, n. 372.

[6] Retirado da 9ª catequese do Beato João Paulo II sobre a Teologia do Corpo – Mediante a comunhão das pessoas o homem torna-se imagem de Deus – proferida em 14 de novembro de 1979. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791114_po.html>.

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