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OUSEMOS AMAR – Por Diác. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

 

Caros irmãos e irmãs em Cristo, como sempre, sejam bem vindos ao CommunioSCJ! Continuamos acompanhando o Beato João Paulo II no caminho que ele mesmo nos abriu com as suas catequeses sobre o amor humano e a teologia do corpo. Assim, hoje nos aproximamos sua reflexão acerca da unidade originária do homem e da mulher na humanidade [1].

Trata-se de um tema que está intimamente ligado ao anterior, ou seja, à solidão original do homem, que abordei no texto precedente relacionando-o com a realização ou a frustração humana na comunhão com Deus [2]. Convém, aqui, recordar que esta solidão radical do ser humano se refere à diferença ontológica (ou seja, no nível do próprio ser) em relação aos outros seres criados. Pois o ser humano, consciente de si e capaz de determinar sua conduta está só diante de Deus: nenhuma outra criatura pode estabelecer com ele uma relação de reciprocidade. Ora, isso aponta para o fato de que o ser humano só se realiza em comunhão com Deus.

Porém, seguindo o texto bíblico (cf. Gn 2,21-24), na mesma chave de leitura que o beato Papa nos oferece, vemos que Deus dá ao ser humano um auxílio oportuno, ou seja, que lhe ajude a corresponder à sua vocação de chegar à comunhão de amor. E aqui não podemos descer a todos os detalhes do texto de João Paulo II, pois corremos o risco de nos perder na riqueza ali contida.

Contudo, é importante perceber como o texto bíblico deixa entrever que a complementaridade que há na diversidade sexual entre homem e mulher é auxílio dado por Deus para que o ser humano viva sua vocação à comunhão. Ou seja, a unidade entre o homem e a mulher na humanidade é auxílio para a realização plena do ser humano na comunhão de amor com Deus, seu Criador.

Ou, nas palavras do próprio Papa, o ser humano que o texto de Gênesis diz que não encontrou em toda a criação uma auxiliar que lhe correspondesse (cf. Gn 2,20), cai no torpor esperando “um ‘segundo eu’, também este pessoal e igualmente relacionado com o estado de solidão original, isto é, com todo aquele processo de estabilização da identidade humana relativamente ao conjunto dos seres vivos (animalia), enquanto é processo de ‘diferenciação’ entre o homem e tal ambiente. Deste modo, o círculo da solidão do homem-pessoa se rompe, porque o primeiro ‘homem’ desperta do sono como ‘homem e mulher’” [3]

Ou ainda, em outras palavras, a humanidade é chamada a viver sua vocação à comunhão com Deus, aprendendo a amar seu semelhante. Trata-se na verdade, já de uma realização humana, pois é verdadeira comunhão interpessoal de amor numa vida que se consome na benevolência e no trabalho pelo bem do semelhante [4]. Só que é uma realização imperfeita e incipiente, visto que tal comunhão de amor só será plena e perfeita no seio da Trindade, que é Amor absoluto, incondicional e sem reservas.

Por isso, o convite que fica para nós, no final deste texto, é este: ousemos amar. Peçamos a Deus a graça de construirmos nossas relações baseadas no amor e não em meros interesses egoístas. E que na constante busca de amar nossos irmãos e irmãs nos encontremos com o Amor em pessoa.

Que a Santíssima Virgem Maria, ternura que brota da família de Nazaré, interceda por nós e nos conduza ao pleno amor.

Fraterno abraço a todos, até breve!

 

 

[1] JOÃO PAULO II, “A unidade originária do homem e da mulher na humanidade”. In Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano, p. 77-80.

[2] Disponível em: <https://communioscj.wordpress.com/2014/03/13/da-experiencia-a-escolha-por-diac-lucas-scj/>.

[3] JOÃO PAULO II, “A unidade originária do homem e da mulher na humanidade”, n. 3.

[4] BENTO XVI. Caritas in veritate, n. 7.

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DA EXPERIÊNCIA À ESCOLHA – Por Diác. Lucas, scj.

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Caros irmãos e irmãs, sejam, mais uma vez, bem vindos ao CommunioSCJ!

Continuamos nossa reflexão acerca da teologia do corpo, do Beato João Paulo II. Neste caminho, chegamos agora à catequese que trata da alternativa entre a mortalidade e a imortalidade na definição mesma do homem. Nela, o beato papa aprofunda o tema da solidão original do homem, abordado nas reflexões anteriores.

Tal solidão se refere, num primeiro momento, ao fato de que o homem, apesar de se encontrar num ambiente material, físico, pois formado do pó da terra (cf. Gn 2,7), ele está só: está consciente de não se limitar ao plano físico, como os animais. Fica evidente, portanto, que esta solidão é sinal da subjetividade especificamente humana como autoconsciência e autodeterminação. Diante de Deus, o ser humano está só: nenhum dos animais lhe pode ser parceiro, como ele é chamado a ser do próprio Deus. Num segundo momento, refere-se à mútua inclinação entre os dois sexos.

E esta subjetividade, que caracteriza sua solidão original, não é experimentada apesar de seu corpo: pelo contrário, a própria descoberta de sua corporalidade leva o homem a perceber-se só em meio à criação. Pois, o corpo humano tem uma estrutura “tal que lhe permite ser o autor de uma atividade verdadeiramente humana. Nesta atividade, o corpo exprime a pessoa. Ele é, portanto, em toda a sua materialidade (…), quase penetrável e transparente, de maneira que evidencia quem é o homem (e quem deveria ser) graças à estrutura da sua consciência e da sua autodeterminação” [1].

Desse modo, percebe-se claramente que “o ‘invisível’ determina o homem mais que o ‘visível’” [2], ou seja, que o mundo material não é suficiente para dar um sentido à existência humana. E é aí, nesta experiência fundamental, que se lhe apresentou “a alternativa íntima e diretamente ligada por Deus-Iahweh, à árvore do conhecimento do bem e do mal” [3]: a morte e a imortalidade. Em outras palavras, ou o homem se abandonava ao desígnio de Deus para que, assim, entre numa dinâmica de imortalidade; ou o ele se precipita no abismo da morte, como “radical antítese de tudo aquilo de que o homem fora dotado” [4].

É justamente este caminho – da consciência à escolha – que proponho como nossa reflexão pessoal (talvez até mesmo como exercício quaresmal). Primeiro, a experiência. É simples: basta sermos sinceros conosco mesmos para ver que não há sentido para nossa vida, se ela está fechada neste mundo – se não nos abrirmos ao transcendente. Mais: que não há nada que nos possa fazer feliz entre aquilo que se vê. Santo Agostinho também fez esta experiência e a relatou como oração dirigida a Deus nas famosas Confissões: “nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso” [5].

Segundo, a escolha. Cabe a nós a decisão de nos fecharmos em nós e, assim, encararmos a morte sem esperança, ou nos abrirmos ao amor redentor que nosso Senhor derramou de sua cruz: um amor capaz de dar um novo horizonte e um sentido definitivo à nossa existência [6]. “Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da auto-referencialidade” [7]. E é aí que encontramos a verdadeira alegria que inunda nosso coração e transborda em evangelização.

Que a Bem-aventurada Virgem Maria, estrela da evangelização, interceda por nós neste caminho de encontro com seu divino Filho. Fraterno abraço, até breve.

 

 

[1] JOÃO PAULO II, “Na definição mesma do homem, a alternativa entre a morte e a imortalidade”. In Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano, p. 74-75.

[2] Idem, p. 75.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] SANTO AGOSTINHO, Confissões, I,1.

[6] BENTO XVI. Deus caritas est, n.1.

[7] FRANCISCO. Evangelii gaudium, n.8.

A NOVA EVANGELIZAÇÃO CONTINUA – Por Fabiana Theodoro.

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Olá, amigos, a paz!

É chegado o encerramento do Ano da Fé. É a hora de avaliarmos como foi este tempo para cada um de nós. Aprofundamos o Catecismo, ganhamos um novo Papa, vivemos a Jornada Mundial da Juventude, quantas bênçãos este ano de 2013 nos trouxe, não foi, católicos?

Devemos eterna gratidão ao grande Papa que Bento XVI foi e por essa grande graça que foi o Ano da Fé, essa oportunidade de olhar para as raízes de nossa fé, de termos um contato maior com as lições da Igreja e tudo o que ela prega, o que Jesus nos deixou de mais belo e precioso, os segredos de Deus e do seu Reino, a Verdade que não deveria mais permanecer em segredo, mas sim ser compartilhada com os mais pequeninos.

A Igreja é a esposa de Cristo, sua presença nela é indiscutível e tudo o que ela crê deve ser entendido por cada um de nós num contexto não só de fé, mas também de razão. A Igreja não está ultrapassada e obsoleta, pelo contrário, nunca foi tão atual no contexto em que vivemos. A Igreja é a chama em meio à escuridão que quer se instalar no mundo para destruir a família, escolher quem tem o direito de nascer ou não, quem está na hora de morrer ou não, rompendo a linha que existe entre o direito de um e o direito do outro.

É por isso que nós cristãos estamos aqui, para ser luz e para tirarmos do erro os que desconhecem a verdade sobre a Igreja Católica.

Nós cremos em Cristo porque Ele nos salvou. Ele desceu do céu para salvar-nos de nós mesmos, para mostrar a cada um de nós o valor que temos, que não depende de como somos, do quanto temos, mas sim, depende do que somos e do que Deus acredita que poderemos ser.

Para isso ocorrer, você e eu temos um grande compromisso com Cristo, assumido por nós mesmos quando nos chamamos cristãos. O compromisso de pensar como Ele pensaria, agir como Ele agiria e reagir como Ele reagiria em todas as situações.

Eis a importância de se conhecer bem a Cristo e à Igreja, a Nova Evangelização depende de nós. Quem conhece a Cristo jamais anda sozinho, quem tem intimidade com Ele deixa de preocupar-se com as coisas fúteis da vida, busca as coisas do Alto [1] e leva os outros a buscá-las também.

Meus amigos, se o Ano da Fé acabou, nossa busca, não. Um ano é muito pouco para conhecer todas as riquezas que a Igreja guarda sob o sangue dos mártires e do próprio Jesus. Cristo é o amém definitivo na História da Igreja, mudou o mundo para sempre com atitudes simples de amizade, humildade, misericórdia, amor. Foi grande na terra, se fazendo pequeno entre nós. Podia ter feito coisas muito maiores para demonstrar seu poder, mas preferiu fazer pequenos milagres que salvaram (e ainda salva) a vida de muitas pessoas que se achavam sem valor nenhum.

Podemos ser assim também, deixar Jesus agir em nós para através de nós, salvar a vida das pessoas com pequenos exemplos e pequenas atitudes. A Nova Evangelização depende mais de exemplos do que de palavras.

Continuem conosco e com nossas reflexões, conheçam a vida dos santos, leiam o Catecismo, conheçam e transmitam a verdade sobre a Igreja, sejam católicos de verdade.

Estamos juntos em prol da Igreja de Cristo, boa semana a todos, que o Senhor os abençoe.

 

 

[1] Col 3,1.

NOSSA FÉ CATÓLICA – Por Pe. Daniel Ribeiro, scj.

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Queridos amigos, bem-vindos novamente ao blog CommunioSCJ.

Agora as boas-vindas não são apenas para você, mas para mim também. Depois de muitos meses sem escrever para o nosso blog, eu volto e gostaria de usar este lugar para refletir sobre a nossa fé católica. Aqueles que vêm acompanhando os textos do blog sabem que o assunto é a fé que recebemos dos apóstolos. Então eu quero escrever sobre isso e rapidamente em poucas linhas sobre minha experiência aqui. Como estou escrevendo em inglês e meu vocabulário é pequeno, você terá que ter paciência comigo. É possível que meu texto seja simples, mas no futuro nós vamos nos lembrar que meus primeiros textos em inglês foram para o CommunioSCJ.

A oração comum em toda missa dominical, conhecida como “Credo”, pode ser dividida em doze partes. Com esta oração nós temos os assuntos mais importantes da nossa fé. Agora gostaria de propor um desafio a você. Posso? Utilize um tempo livre e escreva o “Credo” em um papel. Depois, tente dividi-lo em doze partes. Então veja se você entendeu e se você acredita em tudo o que escreveu. Este pode ser um exercício simples, mas em um mundo e uma época de pessoas preguiçosas, será um exercício difícil para nós. Se você tem alguma dúvida, por favor, leia o Catecismo da Igreja Católica e os últimos textos deste blog.

Agora eu gostaria de explicar sobre a Igreja aqui em Milwaukee (EUA). Eu moro em uma casa com padres de muitos países do mundo. É muito rico. Eu posso ouvir sobre como a Igreja está crescendo em alguns países na África, como é difícil anunciar o Evangelho em países ricos e materialistas. Eu tenho pensado muito sobre como nossos irmãos em países comunistas vivem e sobre as dificuldades e qualidades da Igreja aqui. Entretanto eu gostaria de meditar mais diretamente sobre nosso assunto principal: nossa fé.

Nós podemos mudar de país, culturas e ideias, mas nossa fome será sempre a mesma. Todos têm fome de sentido na vida. A busca pela felicidade sempre acompanhou o ser humano. A cada dia mais eu acredito que você não pode viver sozinho, mas apenas em Deus nós temos alimento sólido para nossa fome. Como a melhor forma de encontrar a Deus é a santidade, não há um estilo de vida melhor que a santidade, mas a santidade da verdade. Leia e reflita sobre esta frase: “Quando os convido a ser santos peço que não se conformem em ser de segunda linha. Não se conformem em ser medíocres” (Papa Bento XVI). Porém o que significa ser santo?

Eu penso e acredito que ser santo é ser como Jesus era. Em outras palavras, uma pessoa santa tem caráter e competência em sua missão. Caráter é ser verdadeiro. Entretanto é importante não prejudicar os outros e não se envolver em coisas erradas e injustiças. Ter competência é colocar a serviço os dons recebidos de Deus. Ninguém nasceu para ser um número, mas sim para ajudar outras pessoas a serem melhores.

Eu espero que sejamos pessoas de caráter e competência em nossas missões e eu desejo que este texto o ajude a refletir e trazer sua vida mais perto de Jesus.

Abraços e minhas orações por vocês. Até breve.

Pe. Daniel Ribeiro, scj

 

 

_________________

Abaixo eu envio o texto original em inglês.

 

OUR CATHOLIC FAITH

Dear friends, welcome again to blog CommunioSCJ.

Now the welcome is not only for you, but for me too. After many months without writing to our blog, I come back and I would like to use this place to think about our catholic faith. Those who have been following the texts of the blog know that the subject is the faith that we received from the apostles. So, I want to write about this and quickly in few lines about my experience here. Since I´m writing in English and my vocabulary is small, you need to have patience with me. It is possible that my text is very simple, but in the future we will remember that my first texts in English were to CommunioSCJ.

The usual prayer of every Sunday´s Mass, known as “Creed” or “Credo”, can be divided in twelve parts. With this prayer we have the most important subjects of our faith. Now I would like to propose a challenge for you. Can I? Take some free time and write the “Creed” on a paper. After, try to divide it in twelve parts. Then look if you understand and if you believe in everything that you wrote. It can be a simple exercise, but in a world and time of lazy people it will be a difficult exercise for us. If you have some question, please read the Catechism of the Catholic Church and the last texts of this blog.

Now I would like to explain about the Church here in Milwaukee (USA). I live in a house with priest from many countries of the world. It´s very rich. I can hear how the Church is growing in some countries in Africa, how it is difficult to spread the gospel in rich and materialistic countries. I have been thinking a lot about how our brothers in communist countries live and about the difficulties and qualities of the Church here. However I would like to meditate more directly about our main subject: our faith.

We can change country, culture and ideas, but our hunger will always be the same. Everybody is hungry for meaning in life. The search for happiness has always followed the human being. Each day more I believe that you can´t live alone, but only in God we have substantial food to our hunger. Since the best way to meet God is the holiness, there isn’t a better lifestyle than holiness, but the holiness of the truth. Read and think about this phrase: “when I invite you to be saints I ask you not to conform in being a second line one. Don´t be conformed in being mediocre” (Pope Benedict XVI). However, what does it mean to be saint?

I think and believe that to be saint is to be like Jesus was. In other words, a saint person has character and competence in his mission. Character is to be true. Therefore it is important not to harm others and not take part on wrong things and injustices. To have competence is put at service the gifts received from God. Nobody was born to be a number, but to help other people to be better.

I hope that we are people of character and competence in our missions and I wish that this text helps you to think and to bring your life closer to Jesus.

Hugs and my prayers for you. See you soon.

 

Fr. Daniel Ribeiro, scj

CRISTO, O FOGO QUE QUEIMA E SALVA – Por Fabiana Theodoro.

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Olá, amigos!

Que bom estarmos juntos novamente, refletindo sobre o nosso Catecismo. Falaremos hoje sobre um grande motivo de divergência entre católicos e protestantes, o Purgatório.

Pela morte de Jesus, nós fomos todos salvos, porém, Jesus não contradiz o nosso livre arbítrio. Ainda podemos escolher se aceitamos ou não esta salvação.

Por mais que amemos a Deus e busquemos seguir os passos de Jesus, ainda há em nós a tendência para o pecado. Vivemos a vida inteira em conflito, entre o bem Ícone - Juízoe o mal, até chegar a hora do Juízo, onde seremos sentenciados de acordo com nossas ações. Alguns viveram inteiramente para Deus, até conseguimos pensar facilmente em algumas dessas pessoas, que foram diretamente para o Paraíso. Outros se voltaram contra o amor de Deus, preferiram fazer o mal no mundo e foram direto para o inferno. Mas, a maioria de nós vive entre o bem e o mal, quer ser fiel a Deus, mas se percebe pecador. É para esses, o fogo purificador, a nossa esperança diante da insignificância humana perante Deus.

O Papa Emérito, Bento XVI, recorda-nos que o Purgatório não é “um lugar” depois da morte, mas sim “o caminho em direção à plenitude através de uma purificação completa”. Não é um fogo exterior, mas interno. “É o fogo que purifica as almas no caminho da plena união com Deus” [1].

Santa Catarina de Gênova, na visão que teve sobre o Purgatório, assim como o Filho Pródigo que retorna à casa do Pai, após viver uma vida desregrada e o encontra de braços abertos, pôde sentir o amor do Pai e sua infinita misericórdia, ao mesmo tempo em que se confrontava com sua alma medíocre e pecadora. Ela não parte do além para contar os tormentos do purgatório e indicar depois o caminho da purificação ou a conversão, mas parte da sua “experiência interior caminhando rumo à eternidade” [2].

O fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e Salvador. Ante o seu olhar, toda falsidade é eliminada. É o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos. As coisas edificadas durante a vida podem então revelar-se palha seca, pura fanfarronice e desmoronar-se. Porém, na dor deste encontro, no qual o impuro e o nocivo em nós se tornam evidentes, está a salvação. O seu olhar, o toque do seu coração cura-nos através de uma transformação certamente dolorosa, como pelo fogo. “Contudo, é uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus” [3].

Rezemos pelos mortos para que possam ser acolhidos pelo Senhor e recebidos no céu puros, como o Senhor é puro. Afinal, Ele não abrirá as portas de sua casa para alguém que esteja “coberto de lama”, há de se lavar primeiro. E que bom que mesmo em meio ao pecado, Ele ainda nos oferece a oportunidade de estar junto Dele.

Que a divina misericórdia de Deus nos envolva e sua graça nos leve à Salvação, Amém!

Boa semana a todos!

 

 

[1] Purgatório é um fogo interior, esclarece o Papa, disponível em: <http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/purgatorio-e-um-fogo-interior-esclarece-o-papa,1c487227b94fa310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>.

[2] idem.

[3] Papa Emérito BENTO XVI, Spe salvi, 47. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html>.

“PARA MIM O VIVER É CRISTO E O MORRER, LUCRO” (Fl 1,21) – Por Luiz Guilherme Andrade Menossi.

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Sejam mais uma vez bem vindos, amigos do CommunioSCJ.

Estamos chegando ao fim do itinerário de aprofundamento sobre o Credo cristão. Depois desse longo caminho é chegada a hora de meditarmos o que significa dizer que cremos na ressureição da carne.

De uma maneira direta, o Catecismo nos ensina que “da mesma forma que Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos, e vive para sempre, assim também, depois da morte, os justos viverão para sempre com Cristo ressuscitado e que Ele os ressuscitará no último dia” [1]. Esta crença fundamentada em diversas passagens bíblicas (Cf. Rm 8,11; 1Cor 15,20) e intimamente ligada com a fé na Ícone-Ressurreição.jpgressureição de Jesus Cristo é essencial para a fé cristã. Como disse Tertuliano: “A confiança dos cristãos é a ressureição dos mortos; crendo nela, somos cristãos” [2].

Para entendermos melhor esse ponto crucial de nossa fé, comecemos por olhar para a palavra carne. Carne, ao contrário do que comumente se imagina, não está, na linguagem teológica, associada à palavra corpo. Se crêssemos na ressureição do corpo, teríamos uma má notícia. Pois de que nos serviria ganhar de volta esse corpo corrompido pelo pecado? Seria mais um instante dessa vida limitada que sempre é vencida pela morte. Pelo contrário, carne está associada a nossa “condição de fraqueza e mortalidade” [3]. Aí temos uma ótima notícia de salvação. Pois entendemos que a ressureição não é um mero voltar à vida, mas é o adentrar numa vida nova. Uma vida que pressupõe um homem novo em sua totalidade, com um corpo e uma alma livres da marca do pecado.

Ressuscitar é, dessa forma, ganhar uma vida incorruptível onde o corpo será novamente unido à alma imortal. Como será esse corpo incorruptível permanece um mistério, mas fato é que ele nos será concedido no “último dia” (Jo 6,40), na volta gloriosa de Jesus, tanto para os que se salvarem como para os que se perderem. Os que se salvarem, entretanto, terão seus corpos transfigurados pela glória de Deus, ao qual estarão unidos, e uma alma redimida, livre de toda mancha do pecado. Não terão a mesma vida, mas a Vida.

A ressureição para a Vida, não é alcançada pelas próprias forças ou méritos, mas pela nossa união a Jesus Cristo, no Espírito Santo. Nesse processo, podemos contar com os sacramentos, especialmente o Batismo e a Eucaristia. O próprio Jesus chama nossa atenção para esse caminho de união: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,35) e “Quem consome este pão viverá para sempre” (Jo 6,58). Através dos Ícone - Ressuscitadosacramentos, nossa existência se encontra com a de Cristo, começamos a ressuscitar “como Ele, com Ele, por Ele” [4]. Isso porque “na ressureição de Jesus foi alcançada uma nova possibilidade de ser homem” [5]. “Foi inaugurada uma dimensão que nos interessa a todos, e que criou para todos nós um novo âmbito da vida, o estar com Deus” [6].

Esta perspectiva de ressureição nos anima mesmo diante da realidade trágica da morte, terrível consequência do pecado. Nós a experimentaremos como Cristo experimentou, mas a venceremos como Ele também venceu. Sendo um dramático, mas único caminho para a Vida em Deus, “a morte cristã tem um sentido positivo” [7], pois “para ressuscitar com Cristo é preciso morrer com Cristo” [8]. Consciente disso, São Paulo afirma: “Para mim, de fato, o viver é Cristo e o morrer, lucro” (Fl 1,21).

Concordar com São Paulo é impossível para o que não crê. Mas não para aquele ou aquela que tem fé verdadeira. Muitos são os que auxiliados pelo Espírito Santo, compreenderam esta realidade ao longo destes dois milênios da Igreja. Muitíssimos mártires aos quais caberiam as palavras de Santo Inácio de Antioquia: “É bom para mim morrer em Cristo Jesus, melhor do que reinar até as extremidades da terra”. Muitíssimos místicos que poderiam se expressar como Santa Teresa de Jesus: “Quero ver a Deus, e para vê-lo é preciso morrer”.

Que a Santíssima Virgem Maria, interceda a Deus para que nossa fé na ressureição da carne seja renovada e tenhamos a graça de uma morte santa, que nos faça ressuscitar com Cristo.

“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte. Amem!”

 

 

[1] CEC (Catecismo da Igreja Católica), n. 989.

[2] CEC, n. 991.

[3] CEC, n. 990.

[4] CEC, n. 995.

[5] RATZINGER, J. Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressureição. São Paulo: Planeta, 2011, p. 219.

[6] Idem, p. 245.

[7] CEC, n. 1010.

[8] CEC, n. 1005.

“A QUEM PERDOARDES OS PECADOS, SERÃO PERDOADOS” (Jo 20,23) – Por Luiz Guilherme Andrade Menossi.

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Olá, amigos! Sejam novamente bem vindos a este espaço de reflexão acerca da fé da Igreja.

Depois de um longo caminho de estudo, chegamos ao décimo dos doze artigos de fé do Símbolo dos Apóstolos. Com a Igreja, aprendemos que o católico crê na remissão dos pecados. E por que isso é tão importante? G. K. Chesterton, pensando sobre as razões que levam um homem (inclusive ele) a se tornar católico, escreveu:

“Quanto às razões fundamentais para um homem fazê-lo, há apenas duas que são realmente fundamentais. Uma é que ele acredite que a Igreja seja a verdade sólida e irremovível – que é verdade, quer ele queira, quer ele não queria; a outra, que ele busque o perdão de seus pecados” [1].

Perdão dos pecados e a busca pela verdade: razões que nos levam a Deus. E se em nosso país a busca pela verdade não figura entre os maiores interesses (vide a reeleição do partido que encabeçou o maior esquema de corrupção já descoberto para dirigir o país), o perdão dos pecados é objetivo de todo coração sincero. Não há como não enxergarmos o mal que existe em nossos corações. “Meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51(50),5), diz o salmista.

Para entendermos bem o real teor dessa verdade de fé, o perdão dos pecados, precisamos primeiramente entender que perdão não é desculpa. Desculpar é, como a própria palavra dá a entender, um retirar a culpa, um inocentar. É o reconhecimento de que uma pessoa não teve a intenção de cometer o mal. Perdão, pelo contrário, é atestar a culpa, e mesmo assim dar uma nova chance. Desculpa é justiça para com o outro. Perdão é superar a justiça no amor.

Pecamos! Ponto. Sejamos honestos e veremos que o mal não está em um jesus-e-a-mulher-adc3baltera“sistema”, mas em nossos corações. Somos culpados. E para os culpados resta a pena.

Diante desta perspectiva entendemos verdadeiramente o que é o perdão. Mesmo culpados de um crime terrível, fomos redimidos por Deus. E isso não significa que nossa pena tenha sido retirada, pois redimir é “comprar de volta”. O que ocorreu é que por amor, Deus pagou a nossa pena. E a pagou com a sua morte na Cruz! Crer no perdão é crer que o Senhor pagou o preço que deveríamos pagar. O que nos cabe é aceitar essa oferta generosa de Deus. Entrar pela porta do seu perdão e permanecer junto Dele por toda a eternidade.

Para descobrirmos a porta do perdão que vem de Deus, basta seguirmos a pista deixada por Chesterton: a porta do perdão está na Igreja. Mais especificamente, o perdão de Deus se realiza através dos sacramentos da Igreja. E isso não porque ela tenha se outorgado esse direito. Foi o próprio Cristo que legou essa missão à Igreja quando se dirigiu aos Apóstolos, dizendo: “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, ficaram retidos” (Jo 20,23).

O perdão de Deus sobressai, sobretudo, nos sacramentos do Batismo e da Penitência (Confissão). Bento XVI chama a atenção para a relação entre o perdão e esses dois sacramentos quando analisa o lava-pés, relatado no Evangelho de São João. Diante das palavras de São Pedro, de que queria Jesus encontra sua Mãeser lavado por inteiro, diz Jesus: “Quem já tomou banho não precisa lavar senão os pés, pois está inteiramente limpo” (Jo 13,10). Segundo o Papa Emérito o banho se refere ao Batismo e o lavar os pés à Confissão [2].

O Batismo é o principal sacramento do perdão dos pecados porque “pelo Batismo fomos sepultados com ele [Jesus Cristo] em sua morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). No Batismo, unidos a Cristo, ocorre a nossa morte para o pecado. E “esta é uma morte autêntica porque é a destruição, no homem, daquilo que é mal, para lhe permitir renascer como Filho de Deus, tornando-se assim uma nova criatura – participante da natureza divina e chamado à santidade” [3].

Já a Confissão, existe porque “a graça do Batismo não livra ninguém de todas as fraquezas da natureza” [4]. Mesmo tendo adentrado pela porta do perdão, nossa concupiscência continua a nos atrair para fora. Mesmo batizados, continuamos a pecar, a ferir Jesus Crucificado. Deus, que não nos abandona, oferece o sacramento da Penitência para podermos nos reconciliar com Ele. Dizia São João Maria Vianney: “Crucificaste, Cristo, mas quando vos ide confessar, ide libertá-lo da cruz”.

Creiamos firmemente no Amor e na Misericórdia de Deus. “Cristo, que morreu por todos os homens, quer que, em sua Igreja, as portas do perdão estejam sempre abertas a todo aquele que recua do pecado” [5]. Arrependamo-nos e lutemos para recuar do pecado, pois esta é condição para experimentarmos o perdão de Deus.

Uma boa semana a todos!

 

 

[1] CHESTERTON, G. K. Todos os Caminhos levam a Roma. São Paulo: Oratório, 2012, p. 17.

[2] Cf. RATZINGER, J. Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressureição. São Paulo: Planeta, 2011, p. 74 -77.

[3]DAJCZER, T. Meditações sobre a fé. São Paulo: Palavra e Prece, 2007, p. 161.

[4] CEC (Catecismo da Igreja Católica), n. 978.

[5] CEC, n. 983.

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