Caros irmãos e irmãs, sejam, mais uma vez, bem vindos ao CommunioSCJ!

Continuamos nossa reflexão acerca da teologia do corpo, do Beato João Paulo II. Neste caminho, chegamos agora à catequese que trata da alternativa entre a mortalidade e a imortalidade na definição mesma do homem. Nela, o beato papa aprofunda o tema da solidão original do homem, abordado nas reflexões anteriores.

Tal solidão se refere, num primeiro momento, ao fato de que o homem, apesar de se encontrar num ambiente material, físico, pois formado do pó da terra (cf. Gn 2,7), ele está só: está consciente de não se limitar ao plano físico, como os animais. Fica evidente, portanto, que esta solidão é sinal da subjetividade especificamente humana como autoconsciência e autodeterminação. Diante de Deus, o ser humano está só: nenhum dos animais lhe pode ser parceiro, como ele é chamado a ser do próprio Deus. Num segundo momento, refere-se à mútua inclinação entre os dois sexos.

E esta subjetividade, que caracteriza sua solidão original, não é experimentada apesar de seu corpo: pelo contrário, a própria descoberta de sua corporalidade leva o homem a perceber-se só em meio à criação. Pois, o corpo humano tem uma estrutura “tal que lhe permite ser o autor de uma atividade verdadeiramente humana. Nesta atividade, o corpo exprime a pessoa. Ele é, portanto, em toda a sua materialidade (…), quase penetrável e transparente, de maneira que evidencia quem é o homem (e quem deveria ser) graças à estrutura da sua consciência e da sua autodeterminação” [1].

Desse modo, percebe-se claramente que “o ‘invisível’ determina o homem mais que o ‘visível’” [2], ou seja, que o mundo material não é suficiente para dar um sentido à existência humana. E é aí, nesta experiência fundamental, que se lhe apresentou “a alternativa íntima e diretamente ligada por Deus-Iahweh, à árvore do conhecimento do bem e do mal” [3]: a morte e a imortalidade. Em outras palavras, ou o homem se abandonava ao desígnio de Deus para que, assim, entre numa dinâmica de imortalidade; ou o ele se precipita no abismo da morte, como “radical antítese de tudo aquilo de que o homem fora dotado” [4].

É justamente este caminho – da consciência à escolha – que proponho como nossa reflexão pessoal (talvez até mesmo como exercício quaresmal). Primeiro, a experiência. É simples: basta sermos sinceros conosco mesmos para ver que não há sentido para nossa vida, se ela está fechada neste mundo – se não nos abrirmos ao transcendente. Mais: que não há nada que nos possa fazer feliz entre aquilo que se vê. Santo Agostinho também fez esta experiência e a relatou como oração dirigida a Deus nas famosas Confissões: “nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso” [5].

Segundo, a escolha. Cabe a nós a decisão de nos fecharmos em nós e, assim, encararmos a morte sem esperança, ou nos abrirmos ao amor redentor que nosso Senhor derramou de sua cruz: um amor capaz de dar um novo horizonte e um sentido definitivo à nossa existência [6]. “Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da auto-referencialidade” [7]. E é aí que encontramos a verdadeira alegria que inunda nosso coração e transborda em evangelização.

Que a Bem-aventurada Virgem Maria, estrela da evangelização, interceda por nós neste caminho de encontro com seu divino Filho. Fraterno abraço, até breve.

 

 

[1] JOÃO PAULO II, “Na definição mesma do homem, a alternativa entre a morte e a imortalidade”. In Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano, p. 74-75.

[2] Idem, p. 75.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] SANTO AGOSTINHO, Confissões, I,1.

[6] BENTO XVI. Deus caritas est, n.1.

[7] FRANCISCO. Evangelii gaudium, n.8.

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