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NUS, DIANTE DE DEUS, NÃO SENTIAM VERGONHA – Por Fabiana Theodoro.

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Olá, amigos, a paz!

Juntos, mais uma vez, voltamos a refletir sobre a Teologia do Corpo, agora do nosso recém-canonizado, o Santo Padre João Paulo II. Na verdade, sua santidade já era reconhecida pelo povo que clamava, apenas faltava ser oficializado, o que aconteceu em uma situação inédita, onde dois papas estavam juntos canonizando mais dois papas.

Continuemos, então, com as reflexões sobre a situação original do homem em Gênesis 2, onde “ambos estavam nus …, mas não sentiam vergonha”, mas por que não?

É necessário estabelecermos que se trata da verdadeira não-presença da vergonha, e não duma carência ou subdesenvolvimento dela. Portanto, o texto de Gênesis 2,25 não só exclui decididamente a possibilidade de pensar numa falta de vergonha, ou seja, na falta de pudor [1], mas ainda exclui qualquer comparação com a falta de vergonha da idade infantil ou a dos índios, cuja sexualidade é controlada mediante normas rígidas dentro de sua aldeia, o que não quer dizer que estejam livres da concupiscência.

As palavras não “sentiam vergonha” indicam a especial plenitude de consciência e de experiência, sobretudo a plenitude de compreensão do significado do corpo, ligada ao fato de “estarem nus” [2]. O homem via Deus através da mulher e vice-versa, os dois eram ícones que levavam um ao outro a louvar a Deus.

É válido refletir que nesta plenitude de consciência da preciosidade da humanidade, pode se dizer que o homem e a mulher eram originalmente dados um ao outro, numa entrega plena e pura, enquanto “estavam nus”. Na análise do significado da nudez original, não se pode de maneira nenhuma abrir mão desta dimensão [3].

O homem sentia-se só entre os animais e, ao ver a mulher, louvou a Deus “esta sim é carne da minha carne” [4]. O homem percebeu-se homem na presença dela e ela só se percebeu mulher na presença dele, e assim começaram a perceber o mundo exterior e a diferença que tinham dos outros seres, fato direto e quase espontâneo, anterior ao pecado original, ao conhecimento e à experiência humana e parece estreitamenteunido com a experiência do significado do corpo humano, com a dimensão da interioridade humana que se tem de explicar e mediar àquela especial perfeição da comunicação interpessoal, que levava o homem e a mulher a estarem nus, mas não sentirem vergonha [5].

As ideias naturalistas de forma alguma traduzem o significado da nudez original, a real intimidade, pureza, simplicidade. A nudez é muito mais profunda do que se despir de suas vestes, tem a ver com o relacionamento que tinham entre si e com Deus e que a partir da ruptura da aliança passaram a ter que se cobrir, a se esconder e se defender do olhar do outro e para também proteger os olhos do outro da tendência ao pecado.

Ainda continuaremos nossas reflexões nas próximas semanas, até mais!

 

 

[1] JOAO PAULO II.Plenitude personalista da inocência original, 1. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791219_po.html>.

[2] Idem, 2.

[3] Idem, 3.

[4] Gn 1,17.

[5] JOAO PAULO II. Plenitude personalista da inocência original, 3. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791219_po.html>.

 

Veja também: Pe. PAULO RICARDO, Teologia do Corpo, disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=ujs9UCVapsQ>.

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COM ADÃO, A RUPTURA; COM JESUS, A ALIANÇA DEFINITIVA – Por Fabiana Theodoro.

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Olá, amigos!

Estamos vivendo o Tempo Pascal, a festa mais importante do Cristianismo para a Igreja Católica do Ocidente. Neste clima de esperança e vida nova, lembramo-nos que o amor de Deus por nós vem desde a Criação e que apesar do desamor do homem, jamais foi Deus quem rompeu a aliança conosco. Ele jamais nos esqueceu, sempre tomou a iniciativa em nos procurar para renová-la, através dos profetas, homens fiéis dispostos a mudar de vida para conduzirem o povo de volta ao Senhor. A Aliança definitiva foi inaugurada por Jesus, seu Filho, desde então, tudo o que nós precisávamos saber para nossa salvação nos foi revelado por Ele, o novo Adão que veio nos dar a chance de um novo começo.

Obediente até o fim, Jesus nos convida a seguir o caminho que Ele próprio seguiu rumo à vida eterna, a lutar contra o pecado, a levar uma vida transparente perante Deus, a ser-lhe plenamente fiel.

Deus deu ao homem o paraíso e tudo o que foi criado por Ele. Tudo foi submetido ao homem, mas não foi suficiente para satisfazer seu coração que tendeu à ganância, à inveja. Ele queria mais, queria a sabedoria e o poder de Deus.

Antes da desobediência, o homem vivia nu e não se envergonhava. Após o Pecado Original, o homem escondeu-se de Deus, passou a sentir vergonha, conforme dizem as Escrituras: “Percebi que o Senhor estava se aproximando, fiquei com medo, porque estava nu. Por isso me escondi” [1].

A percepção da nudez pelo homem e pela mulher deixa claro que ambos passaram a se olhar de uma maneira diferente depois de comerem o fruto proibido, consequentemente, o relacionamento com Aquele que é puro e santo também mudou, houve uma ruptura, já não podiam mais estar com Ele no paraíso. Antes, o corpo do homem e da mulher eram ícones, imagens que remetem ao Criador, mas passaram a ser ídolos um para o outro, surgiu então a concupiscência.

O homem passou a curvar-se diante da nudez da mulher e a idolatrá-la e a mulher passou a gostar dessa situação, por isso não temos mais condições de viver a nudez original, não estamos mais na pureza original do paraíso, por isso, nós temos de nos vestir de “roupas de figueira”, assim como Adão e Eva. O pecado original faz com que o homem e a mulher se idolatrem mutuamente, […] pecado este, do qual somos prisioneiros. Ser idólatra é transformar uma imagem, que deveria nos levar para Deus, em um deus [2].

Deus, em sua infinita misericórdia, ainda assim nos deu meios para nos libertarmos deste pecado. Nós temos dois modelos de homem à nossa frente um que nos remete ao passado, ao pecado, à desobediência, à ganância, o outro, nos remete ao futuro, à santidade, à obediência, à generosidade, ao amor. Nós decidimos a quem seguir ou ao velho homem Adão ou ao novo homem, Jesus, o Filho de Deus.

Continuaremos nos aprofundando sobre este assunto nos próximos textos, mas que nós possamos, desde já, refletir sobre até que ponto nós somos prisioneiros de nossos desejos para que possamos buscar a libertação em nome de Jesus Cristo e retornar à comunhão com nosso amado Pai.

Até a próxima semana!

 

 

Cf. JOÃO PAULO II, Os significados das primordiais experiências do homem. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791212_po.html>.

[1] Gn 3,10.

[2] PE. PAULO RICARDO, Para sempre fiéis. Disponível em: <http://www.cancaonova.com/portal/canais/eventos/novoeventos/cobertura.php?cod=2891&pre=8208&tit=Para%20sempre%20fi%E9is>.

O MATRIMÔNIO É UMA CRUZ – Por Fabiana Theodoro.

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Olá, amigos, que a paz do Senhor esteja sempre convosco!

Chegamos ao ponto das nossas reflexões em que o Beato João Paulo II fala especificamente do Matrimônio. As Escrituras são marcadas por casamentos determinantes ao longo da História, começa com a união de Adão e Eva na Criação [1], no início do Novo Testamento, o primeiro milagre de Jesus, a transformação da água em vinho, relatado pelo evangelista João, marca o início da vida pública de Jesus [2] e o Apocalipse, último livro das Escrituras é marcado pelas núpcias do Cordeiro [3], o casamento definitivo entre Jesus e sua Igreja.

Esses casamentos são sinais da a aliança de Deus para com seu povo, renovadas de tempos em tempos até a aliança definitiva, o sangue do Cordeiro derramado na cruz.

Falar em aliança definitiva e Matrimônio ao mesmo tempo, pode soar como “piada” para as pessoas desinformadas que ainda enxergam a Igreja como uma crença ultrapassada. Pois bem, os tempos mudaram, o divórcio está cada vez mais fácil, várias pessoas se divorciam sem passar sequer do primeiro ano. Mas, por quê?

Na verdade, nada mais natural do que buscar ser feliz, não é mesmo? Pois é, aí está o grande problema: a busca egoísta da própria felicidade, quando o casamento é pura doação, é dar o máximo de si para a felicidade do outro e jamais esperar que o outro satisfaça o nosso desejo de felicidade. Ninguém pode nos dar o que só Deus pode. Santo Agostinho mesmo diz “a minha alma só em Ti encontra repouso” [4].

Que grande tentação são as soluções fáceis, a fuga do sofrimento, qualquer crise já é motivo de separação, esquece-se que Cristo carregou sua cruz até o fim. Por isso a Igreja pede maturidade no momento de decidir-se pelo Matrimônio, e isto é o que mais têm faltado em nossa sociedade, já não somos mais preparados para relacionamentos duradouros, o pensamento moderno diz: “não deu certo, separe-se”. O casamento deve ser muito bem pensado e os noivos devem estar cientes do compromisso de um para com o outro. O amor é o Mandamento mais importante que Deus nos deixou, preste muita atenção, não é sentimento, é Mandamento.

Na Eucaristia vivemos o grande mistério em que o Esposo, Nosso Senhor Jesus Cristo, entrega o Seu Corpo pela Esposa, a Igreja. O Esposo dá tudo o que é por amor. O matrimônio é uma “cruz”, pois é uma entrega de amor [5].

O casamento entre dois batizados é um sacramento, porque é uma participação na redenção, é salvífico porque é uma entrega. É a entrega da sua vida para fazer com que o outro chegue à felicidade, que é Jesus. Você não é a fonte da felicidade, mas deve entregar a sua vida para alcançar a felicidade, um se faz sacrifício ao outro [6].

Dentro deste contexto de inteira doação, o sexo é extremamente sagrado, é a consumação desta entrega total, o corpo fala, pois é uma linguagem. Se uma pessoa diz: “eu te amo” – com os lábios cerrados e com gestos negativos – você vai acreditar no corpo ou na palavra dela? O corpo, na relação sexual entre marido e mulher, diz: “o meu corpo é todo seu”. Mas quando o sexo está no namoro não há entrega total; quando cada um vai para sua casa é uma mentira. Somente no matrimônio, na entrega para sempre, é que ocorre a entrega total, isso é redentor, sacramento que Jesus nos revelou na cruz [7].

A entrega total nos dá muito medo. Como prometer a vida inteira a uma pessoa, se não sabemos se vai dar certo ou não, se vamos ser felizes ou não, se vamos ser traídos, e se nos interessarmos por outra pessoa, como acontece o tempo todo nas novelas?

A resposta é muito simples e muitos católicos que eu conheço nos dão exemplos maravilhosos disso: “o amor é decisão”, simples assim.

Então, minhas últimas palavras hoje para você são: “decida-se a amar e a deixar-se ser amado, aceite sua cruz e não tenha medo de sofrer, Jesus carrega a cruz junto com você”.

Uma boa semana!

 

 

PAPA JOÃO PAULO II. Valor do matrimônio uno e indissolúvel à luz dos primeiros capítulos do Génesis. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791121_po.html>.

[1] Gn 2,23.

[2] Jo 2.

[3] Ap 19,7-9.

[4] SANTO AGOSTINHO, Confissões, I, 1.

[5] PE. PAULO RICARDO. Matrimônio, o sacramento da Criação. Disponível em: <http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=12433#.UzibgPldU3k>.

[6] idem.

[7] idem.

É PELA COMUNHÃO COM OS IRMÃOS QUE NOS ASSEMELHAMOS A DEUS – Por Fabiana Theodoro.

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Olá, amigos!

Nosso blog, nesse mês de março completa três anos, não posso deixar de agradecer a todos os colaboradores que enriquecem esse espaço e a vocês amigos que nos acompanham, divulgam nossos textos e são responsáveis por estarmos aqui refletindo sobre a beleza e sabedoria da nossa amada Igreja.

Nossas reflexões sobre a Teologia do Corpo continuam seguindo a narrativa do Livro do Gênesis e nele verificamos que a definitiva criação do homem consiste na criação da unidade de dois seres. A sua unidade significa, sobretudo, a identidade da natureza humana. A sua dualidademanifesta o que, com base em tal analogia, constitui a masculinidade e a feminilidade do homem criado [1].

Deus pensou o homem especialmente antes de criá-lo e colocá-lo perante suas outras criaturas. Separou o homem (humanidade) em dois seres diferentes, masculino e feminino, mas iguais em dignidade, para serem duas metades que se completam; para cuidar de tudo o que Ele criou; para povoar a terra recém criada e dominar os animais; para juntos serem o espelho da família que já possuía no céu, a Santíssima Trindade. A humanidade foi criada por Deus com um valor muito especial, bem diferente dos outros animais, pois só o homem é semelhante ao Criador.

O segundo capítulo do Gênesis exprime mais detalhadamente o sentimento do homem antes e depois de encontrar a mulher. Nota-se que Deus fez o homem primeiro, deixou que se sentisse só entre os outros viventes [2], colocou em seu coração o desejo de ter alguém igual a si e ele receberia esse alguém, porém, o tempo de espera era necessário. Somente quando Adão aquietou seu coração, parou de procurar e adormeceu, recebeu sua auxiliar, sua companheira.

Quando o homem viu a mulher, enxergou nela sua própria imagem, consequentemente, a imagem sagrada do seu Criador. Anteriormente ao pecado original, o homem e a mulher eram ícones que levavam um ao outro a adorar e a louvar a Deus, por isso estavam nus e nem percebiam, tamanha era a pureza de seus corações.

A solidão anterior remetia à necessidade de estar com o outro e, nos diz a narrativa, o quanto o homem se alegra ao receber a mulher como sua auxiliar, visto que nenhum outro ser vivente que existia lhe era semelhante. Essa tendência à comunhão entre os seres humanos remete-nos à Santíssima Trindade. “Deus quis para nós na terra, a comunhão vivida no céu, criou o homem por amor, o chamou para o amor, vocação fundamental e inata de todo ser humano. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, que é Amor. Tendo-os Deus criado homem e mulher, seu amor mútuo se torna uma imagem do amor absoluto e indefectível de Deus pelo homem. Esse amor é bom, muito bom, aos olhos do Criador, que ‘é amor’ (1Jo 4,8.16). E esse amor abençoado por Deus é destinado a ser fecundo e a realizar-se na obra comum de preservação da criação: ‘Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a’ (Gn 1,28)” [3].

Nada se compara ao amor de Deus. Mesmo semelhantes a Ele, é impossível retribuir um amor tão grande, mas, através uns dos outros podemos aprender e aprimorar a nossa capacidade de amar e assim nos aproximaremos mais e mais Dele, pois amar é decisão e deve ser sempre fruto de nossa liberdade de filhos e filhas de Deus.

Continuaremos nas próximas semanas, fique com Deus!

 

 

[1] JOÃO PAULO II. AUDIÊNCIA GERAL, Quarta-feira, 14 de Novembro de 1979, Mediante a comunhão das pessoaso homem torna-se imagem de Deus. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791114_po.html>.

[2] Gn 2.

[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 1604.

A UNIDADE ORIGINAL DO HOMEM E DA MULHER NA HUMANIDADE [1] – Por Fabiana Theodoro.

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Olá, amigos!

Estamos vivendo a Quaresma, então aproveitemos para aprofundar mais nossas reflexões sobre os valores da família que tanto a Igreja tem defendido, baseando-nos nos textos de João Paulo II sobre a Teologia do Corpo.

No princípio, Deus criou o homem que se sentiu só. No segundo momento, criou a mulher para ser sua auxiliar [2]. Nenhum dos animais procurou uma auxiliar, simplesmente seguiu seus instintos e pronto! Porém, o homem sentiu-se só, olhou todos os animais, deu-lhes nomes, mas não encontrou ninguém igual a ele.

Deus o fez diferente de todos, não só fisicamente, mas em todos os sentidos. O homem foi o ápice de toda a Criação, o mais amado, o único que recebeu o sopro de vida de Deus junto da promessa de herdar o reino de Deus e mais, de ser divino como o Pai o é, de caminhar com ele, de ser seu amigo, mais que isso, de ser seu filho.

Ao criar a mulher, a humanidade se completou, o homem exultou de alegria e louvou a Deus por receber a companheira que o completaria, o auxiliaria e dividiria todos os momentos. Pleno de alegria, o homem entendeu que não nasceu para viver só e reconheceu na mulher a parte que lhe faltava. Para criar a humanidade, Deus inspirou-se em sua própria família, a Santíssima Trindade, composta pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo, para que homem e mulher caminhassem junto Dela, e como a Trindade fossem indivisíveis.

“Os dois modos de ‘ser corpo’ do mesmo ser humano, são chamados à comunhão de amor entre si e desta com toda a humanidade. A família nasce dessa vocação ao amor vivido por Deus Trindade. A família nasce da necessidade que o homem tem de amar e ser amado, de não fechar em si mesmo, de não ‘repudiar’ nenhum dos seus semelhantes. Existe uma semelhança entre a união das Pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança manifesta que o homem, única criatura na terra que Deus quis por si mesma, não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesmo. Isto significa que o homem, homem e mulher, só pode alcançar a própria realização senão “por um dom sincero de si mesmo” [3].

Doar-se é a vocação primeira do homem, desde antes do primeiro pecado. Ele não pode viver só, nasceu para ser luz na vida do outro. Como entristece o coração de Deus ver tantas pessoas esquecendo-se disso, se isolando, vivendo num mundo virtual, evitando as verdadeiras relações humanas, o contato olho no olho, o respeito com o outro. Não é para isso que fomos criados, voltemos para o essencial, lembremo-nos da razão de sermos quem somos, da nossa filiação divina, da nossa família e do amor que devemos ter uns pelos outros.

Até semana que vem!

 

 

[1] JOÃO PAULO II, AUDIÊNCIA GERAL,Quarta-feira, 7 de Novembro de 1979, A unidade original do homem e da mulher na humanidade. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791107_po.html>.

[2] Gn 2, 18.

[3] A unidade original do homem e da mulher na humanidade. Disponível em: <http://www.comshalom.org/a-unidade-original-do-homem-e-da-mulher-na-humanidade/19/3/2014&gt;.

OUSEMOS AMAR – Por Diác. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

 

Caros irmãos e irmãs em Cristo, como sempre, sejam bem vindos ao CommunioSCJ! Continuamos acompanhando o Beato João Paulo II no caminho que ele mesmo nos abriu com as suas catequeses sobre o amor humano e a teologia do corpo. Assim, hoje nos aproximamos sua reflexão acerca da unidade originária do homem e da mulher na humanidade [1].

Trata-se de um tema que está intimamente ligado ao anterior, ou seja, à solidão original do homem, que abordei no texto precedente relacionando-o com a realização ou a frustração humana na comunhão com Deus [2]. Convém, aqui, recordar que esta solidão radical do ser humano se refere à diferença ontológica (ou seja, no nível do próprio ser) em relação aos outros seres criados. Pois o ser humano, consciente de si e capaz de determinar sua conduta está só diante de Deus: nenhuma outra criatura pode estabelecer com ele uma relação de reciprocidade. Ora, isso aponta para o fato de que o ser humano só se realiza em comunhão com Deus.

Porém, seguindo o texto bíblico (cf. Gn 2,21-24), na mesma chave de leitura que o beato Papa nos oferece, vemos que Deus dá ao ser humano um auxílio oportuno, ou seja, que lhe ajude a corresponder à sua vocação de chegar à comunhão de amor. E aqui não podemos descer a todos os detalhes do texto de João Paulo II, pois corremos o risco de nos perder na riqueza ali contida.

Contudo, é importante perceber como o texto bíblico deixa entrever que a complementaridade que há na diversidade sexual entre homem e mulher é auxílio dado por Deus para que o ser humano viva sua vocação à comunhão. Ou seja, a unidade entre o homem e a mulher na humanidade é auxílio para a realização plena do ser humano na comunhão de amor com Deus, seu Criador.

Ou, nas palavras do próprio Papa, o ser humano que o texto de Gênesis diz que não encontrou em toda a criação uma auxiliar que lhe correspondesse (cf. Gn 2,20), cai no torpor esperando “um ‘segundo eu’, também este pessoal e igualmente relacionado com o estado de solidão original, isto é, com todo aquele processo de estabilização da identidade humana relativamente ao conjunto dos seres vivos (animalia), enquanto é processo de ‘diferenciação’ entre o homem e tal ambiente. Deste modo, o círculo da solidão do homem-pessoa se rompe, porque o primeiro ‘homem’ desperta do sono como ‘homem e mulher’” [3]

Ou ainda, em outras palavras, a humanidade é chamada a viver sua vocação à comunhão com Deus, aprendendo a amar seu semelhante. Trata-se na verdade, já de uma realização humana, pois é verdadeira comunhão interpessoal de amor numa vida que se consome na benevolência e no trabalho pelo bem do semelhante [4]. Só que é uma realização imperfeita e incipiente, visto que tal comunhão de amor só será plena e perfeita no seio da Trindade, que é Amor absoluto, incondicional e sem reservas.

Por isso, o convite que fica para nós, no final deste texto, é este: ousemos amar. Peçamos a Deus a graça de construirmos nossas relações baseadas no amor e não em meros interesses egoístas. E que na constante busca de amar nossos irmãos e irmãs nos encontremos com o Amor em pessoa.

Que a Santíssima Virgem Maria, ternura que brota da família de Nazaré, interceda por nós e nos conduza ao pleno amor.

Fraterno abraço a todos, até breve!

 

 

[1] JOÃO PAULO II, “A unidade originária do homem e da mulher na humanidade”. In Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano, p. 77-80.

[2] Disponível em: <https://communioscj.wordpress.com/2014/03/13/da-experiencia-a-escolha-por-diac-lucas-scj/>.

[3] JOÃO PAULO II, “A unidade originária do homem e da mulher na humanidade”, n. 3.

[4] BENTO XVI. Caritas in veritate, n. 7.

DA EXPERIÊNCIA À ESCOLHA – Por Diác. Lucas, scj.

1 Comentário

Caros irmãos e irmãs, sejam, mais uma vez, bem vindos ao CommunioSCJ!

Continuamos nossa reflexão acerca da teologia do corpo, do Beato João Paulo II. Neste caminho, chegamos agora à catequese que trata da alternativa entre a mortalidade e a imortalidade na definição mesma do homem. Nela, o beato papa aprofunda o tema da solidão original do homem, abordado nas reflexões anteriores.

Tal solidão se refere, num primeiro momento, ao fato de que o homem, apesar de se encontrar num ambiente material, físico, pois formado do pó da terra (cf. Gn 2,7), ele está só: está consciente de não se limitar ao plano físico, como os animais. Fica evidente, portanto, que esta solidão é sinal da subjetividade especificamente humana como autoconsciência e autodeterminação. Diante de Deus, o ser humano está só: nenhum dos animais lhe pode ser parceiro, como ele é chamado a ser do próprio Deus. Num segundo momento, refere-se à mútua inclinação entre os dois sexos.

E esta subjetividade, que caracteriza sua solidão original, não é experimentada apesar de seu corpo: pelo contrário, a própria descoberta de sua corporalidade leva o homem a perceber-se só em meio à criação. Pois, o corpo humano tem uma estrutura “tal que lhe permite ser o autor de uma atividade verdadeiramente humana. Nesta atividade, o corpo exprime a pessoa. Ele é, portanto, em toda a sua materialidade (…), quase penetrável e transparente, de maneira que evidencia quem é o homem (e quem deveria ser) graças à estrutura da sua consciência e da sua autodeterminação” [1].

Desse modo, percebe-se claramente que “o ‘invisível’ determina o homem mais que o ‘visível’” [2], ou seja, que o mundo material não é suficiente para dar um sentido à existência humana. E é aí, nesta experiência fundamental, que se lhe apresentou “a alternativa íntima e diretamente ligada por Deus-Iahweh, à árvore do conhecimento do bem e do mal” [3]: a morte e a imortalidade. Em outras palavras, ou o homem se abandonava ao desígnio de Deus para que, assim, entre numa dinâmica de imortalidade; ou o ele se precipita no abismo da morte, como “radical antítese de tudo aquilo de que o homem fora dotado” [4].

É justamente este caminho – da consciência à escolha – que proponho como nossa reflexão pessoal (talvez até mesmo como exercício quaresmal). Primeiro, a experiência. É simples: basta sermos sinceros conosco mesmos para ver que não há sentido para nossa vida, se ela está fechada neste mundo – se não nos abrirmos ao transcendente. Mais: que não há nada que nos possa fazer feliz entre aquilo que se vê. Santo Agostinho também fez esta experiência e a relatou como oração dirigida a Deus nas famosas Confissões: “nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso” [5].

Segundo, a escolha. Cabe a nós a decisão de nos fecharmos em nós e, assim, encararmos a morte sem esperança, ou nos abrirmos ao amor redentor que nosso Senhor derramou de sua cruz: um amor capaz de dar um novo horizonte e um sentido definitivo à nossa existência [6]. “Somente graças a este encontro – ou reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da auto-referencialidade” [7]. E é aí que encontramos a verdadeira alegria que inunda nosso coração e transborda em evangelização.

Que a Bem-aventurada Virgem Maria, estrela da evangelização, interceda por nós neste caminho de encontro com seu divino Filho. Fraterno abraço, até breve.

 

 

[1] JOÃO PAULO II, “Na definição mesma do homem, a alternativa entre a morte e a imortalidade”. In Homem e mulher o criou: catequeses sobre o amor humano, p. 74-75.

[2] Idem, p. 75.

[3] Ibidem.

[4] Ibidem.

[5] SANTO AGOSTINHO, Confissões, I,1.

[6] BENTO XVI. Deus caritas est, n.1.

[7] FRANCISCO. Evangelii gaudium, n.8.

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