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A VIDA DE UM PECADOR QUE OUSOU PROCURAR A DEUS – Por Pe. Daniel Carvalho, scj.

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Olá amigos do CommunioSCJ! Saudades de todos. Estamos na quaresma e nos propomos a viver este período meditando a vida e os escritos de Santo Agostinho (354-430). Pensando na sua história, a exemplo de Jesus, vejo dois momentos distintos: a vida oculta e a vida pública, sendo que o deserto une estes dois momentos.

A vida oculta de Jesus durou 30 anos e, afastada da multidão, segundo o Papa Paulo VI, foi marcada pelo silêncio, oração e trabalho [1]. Com Santo Agostinho, estes 30 anos foram marcados pela distância da Igreja católica. Ele procurou a verdade de várias maneiras: na sexualidade desenfreada, em cultos racionais, acéticos até ser seduzido pelo Senhor [2].

Adiante, como o Senhor, ele também foi provado no deserto. Antes da sua conversão, ele era seduzido a sempre deixar para amanhã, para depois. Até que, em determinado momento, abriu o coração e seus lábios disseram palavras imortais:

“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!

Tarde demais eu te amei!

Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!

Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas.

Estavas comigo, mas eu não estava contigo.

Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem.

Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez.

Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira.

Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti.

Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz…” [3].

Após iniciar seu processo de conversão, ao contrário do Senhor, sua vida pública durou mais tempo. Ele precisava de vários anos para aprender com sua história e ajudar a Igreja a se defender das terríveis heresias daquele período.

Em nossa vida também é assim, temos momentos diferentes, mas quem busca a verdade acaba se encontrando com o Senhor e não consegue mais viver sem Ele.

Santa Quaresma a todos e até breve.

Notas:

[1] Confissões, livros I-VI.

[2] Liturgia das Horas (Vol. I). Ofício das Leituras: Domingo da Sagrada família.

[3] Confissões, livros X, 27.

AMOR ARDENTE À VERDADE: UMA LIÇÃO QUE SE APRENDE COM SANTO AGOSTINHO – Por Fr. Lucas, scj.

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Vivat Cor Iesu,

Per Cor Mariae!

 

Bem vindos, mais uma vez, ao CommunioSCJ! Nossos passos, neste ano, estão mais lentos, é verdade… Mesmo assim, seguiremos caminhando. E no presente passo, seguindo as catequeses do Papa Bento, chegamos à maior figura da Patrística ocidental: Santo Agostinho (354-430), doutor da Igreja, cuja influência se estende muito além da Igreja Católica principalmente por sua obra mais famosa, as Confissões.

A ele, o Santo Padre Bento XVI dedica nada menos que quatro catequeses. Na primeira, que motiva este post, ele mostra a vida de Santo Agostinho num panorama geral com acento em sua fase anterior ao Batismo [1]. Como sempre, o Santo Padre deixa várias possibilidades para reflexão pessoal. Quero chamar a atenção para uma delas e me deter mais demoradamente em outra.

É importante, quando se fala da conversão de Agostinho, observar duas figuras muito significativas: a primeira é sua mãe, Santa Mônica, cristã fervorosa que nunca desistiu de rezar e aconselhar o filho Agostinho; a segunda é Santo Ambrósio, cujas pregações abriram os olhos do sedento Agostinho. Não me deterei nessas figuras. Entretanto, creio que não seria justo omiti-las. A falta de referência hoje é um problema generalizado: às mães e líderes das comunidades cristãs, sobretudo os ministros ordenados, estes dois santos são pontos de referência imprescindíveis.

Por outro lado, a vida de Santo Agostinho tem uma direção oposta à do grande Tertuliano [2]. Enquanto este teve a heresia como fim de sua busca espiritual, Agostinho partiu de uma heresia, o maniqueísmo, para tornar-se doutor da Igreja.

Ávido pela verdade, buscando-a objetivamente com todo seu coração e sua vida, Agostinho encontrou na leitura alegórica da Sagrada Escritura, tendo Cristo como eixo, as respostas aos questionamentos que, por si, a filosofia neoplatônica que praticava não lhe dera possibilidade de obter.

Pelo contato com as pregações de Santo Ambrósio e a leitura das cartas de Paulo, Santo Agostinho deixou o maniqueísmo e aderiu, conscientemente, à fé católica. Ele sinceramente tinha aderido ao maniqueísmo por crer que nele encontrava-se a síntese entre a racionalidade, a busca da verdade e o amor a Jesus Cristo.

Isso mostra que ele tinha uma virtude importantíssima para os dias atuais: o amor pela verdade e sua busca sincera na realidade objetiva. A verdade estava, para ele, acima de sua autoimagem e das vantagens quaisquer que a adesão à heresia maniqueísta podia lhe trazer. Sincero na busca do sentido mais profundo da existência, o Doutor da Graça deixou-se penetrar pela verdade do Evangelho de tal forma que não pôde resistir à transformação de sua mentalidade e sua forma de agir. Em Jesus Cristo, vivo e ressuscitado, presente na Igreja Católica, encontrou o que seu coração tanto ansiava. Deixando para trás o passado libertino e herege, Santo Agostinho lançou-se sem medo à vida pela fé, para o serviço e o anúncio da Verdade.

Esta experiência de conversão, de uma cosmovisão caótica para a apreensão do sentido profundo da vida através da fé, não é uma experiência relegada ao passado, mas presente em toda história da Igreja, chegando até os dias de hoje; até nós. No século XX, ela foi brilhantemente sintetizada por G. K. Chesterton com as seguintes palavras: “A Igreja Católica é o lar natural do espírito humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem e sentido” [3]. Amemos a verdade com todas as veras de nosso coração e encontraremos o que nosso coração procura.

Que o Espírito Santo de Deus derrame em nossos corações a verdadeira fé e, pela intercessão da Bem Aventurada Virgem Maria e de Santo Agostinho, nos dê coragem e perseverança para a abraçarmos e nela permanecermos.

Um grande abraço! Fiquem com Deus!

 

 

 

[1] Cf. BENTO XVI. “Santo Agostinho (I): a vida”. In Os Padres da Igreja. São Paulo: Pensamento, 2010, p. 163-168. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080109_po.html>.

[2] Leia-se “Tertuliano: da apologética à heresia”. https://communioscj.wordpress.com/2011/05/24/tertuliano-da-apologetica-a-heresia-%E2%80%93-por-fr-lucas-scj/.

[3] Trecho de uma carta de Chesterton a seu amigo Belloc, disponível em Hereges, citado conforme publicação da Editora Ecclesiae, p. 18.