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SOLENIDADE DE MARIA SANTÍSSIMA, MÃE DE DEUS (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, no último dia da oitava de Natal, celebramos a solenidade de Maria santíssima, Mãe de Deus. Nesta liturgia, contemplamos os pastores que encontram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura (cf. Lc 2,16-21). Que a Virgem Mãe interceda por nós, por nossos queridos e por toda humanidade neste ano que se inicia!

Maria é Mãe de Deus pois “Aquele que Ela concebeu como homem por obra do Espírito Santo, e que Se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne, não é outro senão o Filho eterno do Pai, a segunda pessoa da Santíssima Trindade” (Catecismo da Igreja Católica, n. 495). Em outras palavras, é porque cremos na divindade do Senhor Jesus que Guadalupe.jpgpodemos chamar Sua Mãe de Mãe de Deus.

Essa verdade de fé vem expressa na segunda leitura quando o Apóstolo diz que “Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei” e, em seguida, revela o porquê de tão grande mistério: “a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva” (Gl 4,4-5). Irmãos, Deus nos deu Seu Filho para que sejamos Seus filhos! E é justamente porque queremos ser dignos dessa Graça que buscamos na intercessão daquela que nos trouxe o Salvador auxílio necessário para vivermos bem nosso Batismo e refúgio seguro nas tribulações que a vida nos traz.

Além disso, encontramos em Maria um modelo de como devemos viver: guardando e meditando no nosso coração os dons que a Misericórdia de Deus derrama abundantemente sobre nós (cf. Lc 2,19). Por isso, façamos desta virada de ano um momento de oração e reflexão, reconhecendo e agradecendo os dons que o Pai nos deu. Além disso, entreguemo-nos à sua vontade, como também fez nossa Mãe celestial, para que 2020 seja vivido por nós como um grande “sim” a Deus.

Que a intercessão de Maria santíssima, Mãe de Deus, e de São José, nosso protetor, nos ajudem a fazer em tudo a vontade de Deus, nosso Pai.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

Feliz ano novo!

Solenidade da Santa Mãe de Deus – Lc 2,16-21: Salvação sem Salvador?

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A Solenidade da Divina Maternidade de Maria (Theotokos) é uma consequência natural do anúncio jubiloso da noite santa do Natal: “Nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor”; o nascimento de uma criança nos remete à sua origem mais próxima e incontestável: o seio de sua mãe. Portanto, afirmar que o menino que nasceu na gruta de Belém é o Deus que se fez carne, é reconhecer que a sua mãe é Mãe de Deus. “Mãe de Deus” não é um título honorífico que a Igreja inventou para prestar uma homenagem a Maria. Mas é o reconhecimento da realidade mais íntima e verdadeira que se estabeleceu, por obra do Espírito Santo, entre a Virgem de Nazaré, chamada Maria, e o Filho do Altíssimo, Jesus de Nazaré, o Verbo Encarnado. Ele não nasceu de uma deusa, pois assim continuaria sendo só um deus, mas nasceu de uma mulher, por isso se fez homem, assumindo a nossa condição, mesmo sem deixar de ser o Deus onipotente e eterno.

A Divina Maternidade de Maria representa a expressão máxima da bênção de Deus para a humanidade. Assim como o povo de Israel, através da oração e invocação sacerdotais de Aarão e seus filhos (1ª Leitura), era abençoado por Deus a fim de ser-lhe garantida a plenitude dos bens: “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz (Shalom)”; na plenitude dos tempos, a bênção por excelência nos chega através de uma mulher (2ª Leitura), cujo filho nos traz a plenitude da salvação, pois o seu nome é Jesus: Deus Salva, mariaview.jpgaquele que nos liberta de toda escravidão. A festa de hoje nos diz que o Salvador tomou a iniciativa de vir até nós; no seio de uma mulher, uniu-se a toda a humanidade e não apenas a um povo ou a uma cultura particular. Portanto, ir ao encontro do Salvador é tomar a estrada da verdadeira humanização que alcança plenitude na experiência de salvação. É inegável a riqueza plural da experiência religiosa de toda a humanidade nas suas diferentes culturas e cosmovisões; uma humanidade que sempre almejou a salvação, que sempre buscou irresistivelmente a plenitude da vida. Reconhecer esse desejo de salvação universal não é suficiente para fazer a experiência de salvação; é preciso encontrar-se com o Salvador. O Vaticano II nos recorda: “Na realidade, o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do verbo Encarnado… Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação” (GS 22).

Por isso, Jesus não é simplesmente mais um símbolo de Deus na jornada espiritual do homem, mais um ser humano iluminado e dotado de excelentes virtudes, que aponta para uma realidade transcendente. Ele é o Salvador da humanidade, pois não catalisa apenas os desejos do ser humano por Deus, mas Ele é o próprio Deus que vem em busca do ser humano.

O evangelho de hoje nos apresenta, de maneira simples e profunda, a experiência do encontro com o Salvador. Os pastores, depois de terem ouvido o anúncio do anjo, partiram para Belém. A Boa Notícia de que Deus nos enviou o Salvador é “o primeiro serviço que a Igreja pode prestar ao homem e à humanidade inteira” (São João Paulo II, Redemptoris Missio, n. 2). A fé em Cristo Salvador não é imposição que tira a liberdade do ser humano, mas deve ser proposta por quem, no encontro pessoal com Ele, fez a experiência do maravilhar-se com o dom da salvação, da vida nova; considerando um grande bem, não o retém egoisticamente, mas o comunica aos outros como serviço generoso e de gratidão.

Bento XVI, em Aparecida (2007), afirmou: “A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por ‘atração’: como Cristo ‘atrai todos a si’ com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor”. Os pastores quando confirmaram, ao encontrar-se com o recém-nascido deitado na manjedoura, tudo o que lhes fora dito sobre o menino, provocaram uma grande alegria nas pessoas que os ouviam. Esta é a verdadeira e eficaz evangelização.

O Papa Francisco nos encoraja a fazer essa mesma experiência quando nos diz: “A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento” (EG 1). O grande desafio no anúncio dessa boa notícia de salvação é recuperar a sua simplicidade e autenticidade. O mesmo sinal que fora dado pelo anjo aos pastores para que reconhecessem o Salvador continua ainda hoje válido para fazermos a experiência do encontro com Ele: “um menino envolto em faixas e deitado na manjedoura”. Os Padres da Igreja viram nessas faixas uma referência às Escrituras do Antigo Testamento, como dirá a Dei Verbum: “Deus dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo” (DV 16). Porém, na perspectiva de Lucas, as faixas fazem referência à morte de Jesus: “Envolvendo-o num lençol, colou-o numa tumba”. Portanto, o encontro com o Senhor exige conhecimento de toda a sua vida, morte e ressurreição, experiência iluminada pela Palavra de Deus.

Deitado numa manjedoura” é o outro sinal para reconhecer o Salvador. A manjedoura é o lugar onde se oferece o alimento, Jesus é o Salvador porque se fez nosso alimento, entregando a sua vida para que tenhamos vida em plenitude. A experiência da Eucaristia é o momento privilegiado do encontro com o Salvador, pois é ali que Ele nos nutre ricamente com a sua palavra e com o seu corpo e sangue. Mais uma vez, exige-se de nós conhecimento de toda a pessoa do Salvador. Vale notar que tanto a manjedoura quanto a sepultura é o lugar de colocar Jesus deitado (mesmo verbo: keimevos Lc 2,13.16; 23,53). Portanto, o menino deitado na manjedoura é o mesmo homem deitado no sepulcro. Na manjedoura, o Verbo se abreviou, fez-se pequeno para que pudéssemos compreendê-lo (VD 12), mas abandonando o sepulcro, fez-nos compreender que o seu amor é infinito a ponto de não pode ser aprisionado por nada e por ninguém, pois é este amor que nos salva.

Que este tempo de Natal nos ajude a fazer a experiência da Mãe de Deus: “Guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Sendo mãe do Filho de Deus, Maria Mãe de Deus nos aponta o caminho eficaz para fazer a experiência do encontro com Aquele que traz a salvação, pois só Ele é Jesus.

AS LIÇÕES DE NAZARÉ

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Das Alocuções de S. Paulo VI.

Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho.

Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus. Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo.

Aqui se aprende o método que nos permitirá compreender quem é o Cristo. Aqui se descobre a necessidade de observar o quadro de sua permanência entre nós: os lugares, os tempos, os costumes, a linguagem, as práticas religiosas, tudo de que Jesus se serviu para revelar-se ao mundo. Aqui tudo fala, tudo tem um sentido.

Aqui, nesta escola, compreende-se a necessidade de uma disciplina espiritual para quem quer seguir o ensinamento do Evangelho e ser discípulo do Cristo.

Ó como gostaríamos de voltar à infância e seguir essa humilde e sublime escola de Nazaré! Como gostaríamos, junto a Maria, de recomeçar a adquirir a verdadeira ciência e a elevada sabedoria das verdades divinas.

Mas estamos apenas de passagem. Temos de abandonar este desejo de continuar aqui o estudo, nunca terminado, do conhecimento do Evangelho. Não partiremos, porém, antes de colher às pressas e quase furtivamente algumas breves lições de Nazaré.

Primeiro, uma lição de silêncio. Que renasça em nós a estima pelo silêncio, essa admirável e indispensável condição do espírito; em nós, assediados por tantos clamores, ruídos e gritos em nossa vida moderna barulhenta e hipersensibilizada. O silêncio de Nazaré ensina-nos o recolhimento, a interioridade, a disposição para escutar as boas inspirações e as palavras dos verdadeiros mestres. Ensina-nos a necessidade e o valor das preparações, do estudo, da meditação, da vida pessoal e interior, da oração que só Deus vê no segredo.

Uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o que é a família, sua comunhão de amor, sua beleza simples e austera, seu caráter sagrado e inviolável; aprendamos de Nazaré o quanto a formação que recebemos é doce e insubstituível: aprendamos qual é sua função primária no plano social.

Uma lição de trabalho. Ó Nazaré, ó casa do “filho do carpinteiro”! É aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei, severa e redentora, do trabalho humano; aqui, restabelecer a consciência da nobreza do trabalho; aqui, lembrar que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas que sua liberdade e nobreza resultam, mais que de seu valor econômico, dos valores que constituem o seu fim. Finalmente, como gostaríamos de saudar aqui todos os trabalhadores do mundo inteiro e mostrar-lhes seu grande modelo, seu divino irmão, o profeta de todas as causas justas, o Cristo nosso Senhor.

SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, durante a oitava de Natal, no domingo, celebramos a festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José. E a liturgia, neste ano A, nos propõe a narrativa da fuga para o Egito (cf. Mt 2,13-15.19-23). Deixemo-nos iluminar pela luz divina que resplandece em tal mistério.

É sempre (e cada vez mais) oportuno celebrarmos a Sagrada Família de Nazaré porque, contemplando-a, somos colocados diante da vocação de cada família. Ou seja, em Jesus, Maria e José vemos a vontade de Deus em relação a essa comunidade fundamental seja para cada ser humano, seja para a inteira sociedade. E, falando em um chamado divino, fica claro, desde o início, que a família é um valor espiritual que vai muito além de um simples agregado social.

Fundada por um pacto de amor indissolúvel entre um homem e uma mulher, a família está ordenada para o bem – a perfeição, a santidade – do casal e a geração e educação SFamiliados filhos [1]. Assim sendo, ela é o ambiente propício para o desenvolvimento de virtudes que não só sepultam o egoísmo, mas também abrem o coração humano para ação do Espírito Santo. Em particular, no evangelho de hoje, podemos contemplar como se dá o exercício saudável da autoridade paterna no ambiente doméstico.

De fato, não obstante fosse o menor de seus membros, São José é o condutor da Sagrada Família. E ele exerce a sua autoridade não porque fosse um tirano, um egoísta mais preocupado consigo do que com sua esposa santíssima e o Divino Menino, mas porque era obediente a Deus. Foi no temor do Senhor que ele levou sua família para o Egito a fim de protegê-la. Foi na obediência à palavra divina que, voltando para a Terra de Israel, foi morar em Nazaré da Galileia, onde viveu na simplicidade até o fim de seus dias. E é justamente assim, no temor e obediência de Deus, com a autoridade de quem dá a vida para que seus filhos cheguem à felicidade plena nos céus, que os pais são chamados a viver a sua vocação.

Que a intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e de São José, seu castíssimo esposo, ajudem as nossas famílias, em particular os pais cristãos, a permanecer e crescer cada vez mais na vontade de Deus, nosso Pai.

Sub tuum præsidium confugimus.

sancta Dei Genitrix:

nostras deprecationes

ne despicias in necessitatibus:

sed a periculis cunctis libera nos semper,

Virgo gloriosa et benedicta.

 

[1] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n.2201.

Festa da Sagrada Família: Mt 2,13-15.19-23 – Estão mortos aqueles que procuravam matar o Menino

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

A perícope evangélica que meditamos hoje na Festa da Sagrada Família, em plena Oitava do Natal, não nos faz lembrar apenas das agruras que Maria e José tiveram que passar no cumprimento da missão que receberam do próprio Deus, que lhes confiou o seu Filho Unigênito. Mas o relato do evangelho espelha toda a vida de Jesus, perseguido, rejeitado e condenado à morte pelos poderosos desse mundo, mas plenamente vitorioso. A perseguição a Jesus e à sua família não cessou, apesar de já termos a certeza de que o Filho da Mulher esmagou a cabeça da serpente, e vencendo a morte, derrotou todos os poderes tiranos do mundo. Contudo, a luta não tem sido fácil, pois o próprio Senhor pagou um alto preço ao destruir os inimigos da vida, e cabe também a nós, que nos dispomos a colaborar nesse plano, também enfrentar as consequências da missão.

Ao encarnar-se, o Filho de Deus se tornou irmão de todo ser humano, portanto, ninguém está excluído de participar da sua família universal e sagrada; a vinda dos Magos do Oriente à gruta de Belém é a grande proclamação da salvação cujo destino é universal. Porém, a exigência que se faz para poder ser membro dessa família é reconhecer que a SFamília.jpgvida, dom do amor misericordioso do Deus conosco, tem valor absoluto, pois é a única grávida de eternidade, por isso, essa vida deve ser respeitada na sua dignidade e protegida na sua realização, superando toda inclinação reducionista que vê a existência apenas como uma possibilidade temporal, sem nada mais além dos anos que são transcorridos na terra involucrados pela ilusão de que aqui encontraremos realização plena.

Vemos no texto de hoje uma tensão entre a morte e a vida, perseguição e salvação. Quando parece que tudo está perdido, Deus manifesta-se como Aquele que chama constantemente para a vida, pois só Ele é o verdadeiro libertador. A missão do Emanuel, ao qual José dará o nome de Jesus, é apresentada no evangelho à luz de um importante personagem do Antigo Testamento: Moisés. O Verbo encarnado ao nascer recebeu o nome de Jesus, porque “salvará o seu povo dos seus pecados” (Jesus: Deus salva, Mt 1,21). Assim como Moisés foi o libertador da opressão do Egito, Jesus muito mais ainda será libertador, pois não nos liberta apenas de um sistema político-econômico opressor, mas de todo tipo de morte, pois Ele nos dá a vida eterna. O paralelo que Mateus estabelece no início do evangelho entre Jesus e Moisés não pode ser visto apenas como um artifício literário (midrash), mas tem como finalidade evidenciar a verdade da missão de Jesus, como Deus que continua salvando no hoje da história, da qual o testemunho mais convincente é a própria história de salvação realizada no Antigo Testamento, cujo núcleo fundamental é a revelação de Deus no Êxodo, tendo como instrumento Moisés.

Após visita dos Magos, um momento exuberante de alegria, descortina-se a dura realidade da perseguição: “Herodes vai procurar o menino para matá-lo”. Inicia-se, desse modo, o permanente combate entre a vida e a morte. Assim como Moisés nasceu num contexto de matança dos seus coetâneos e conterrâneos, por ordem do Faraó (Ex 1,15.16.22), também o novo Libertador passará pela ameaça de morte por ordem do rei Herodes. A fuga para o Egito ressalta as semelhanças da missão dos dois libertadores. Diante da ameaça de morte, que pode pôr fim à missão, revela-se a ação de Deus através de quem está disposto a colaborar, e assim nada impedirá o seu cumprimento. Tanto a mãe de Moisés quanto José se tornam instrumentos de Deus no combate contra as forças de morte. É Deus quem vence, mas conta com a colaboração humana nessa batalha: “Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito”. Diante de uma missão tão sublime de colaboradores do próprio Deus no seu desígnio eterno de salvação, Maria e José poderiam ter reivindicado para o Filho do Altíssimo uma escolta de anjos bem armados, ou poderes mágicos que garantissem a sua defesa em qualquer perigo ou investida de inimigos. Mas isso não aconteceu. Deus não chama e confia uma missão garantindo soluções infantis de quem confia desconfiando, mas ao mesmo tempo não abandona os chamados. É a sua palavra que vai guiando na realização da missão; contudo diante da missão recebida, exige-se fidelidade e obediência: “José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito”.

A fuga muitas vezes pode parecer covardia, portanto, é preciso discernir o que nos faz fugir. A atitude de José não foi iniciativa sua, mas obediência à Palavra de Deus. Objetivamente falando, a fuga é sempre motivada pelo instinto de defesa e sobrevivência, contudo para não incorrer em infidelidade e traição diante da missão, precisa ser enraizada na obediência. E, portanto, o que pode parecer uma fuga covarde, se for obediência a Deus, Ele mesmo a transforma em peregrinação confiante rumo à realização do seu plano, cujo autor e garante é Ele mesmo, pois somos apenas colaboradores, que sem obediência, apesar de muita boa vontade, retardaremos a realização do seu plano de salvação e vida plena: “Volta… Pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos”.

Que a festa da Sagrada Família nos ajude a crer que, para salvar a vida, fugir pode ser a única estrada para ficarmos juntos. Fugir do comodismo, do egoísmo, do individualismo, do desrespeito, do ódio, da competição desleal, da indiferença… Tudo isso é ameaça à vida humana tanto pessoal quanto familiar. Levantemo-nos, ainda que de noite, obedeçamos à Palavra de Deus, não deixemos de lado ninguém, e ainda que seja longa e fatigosa a peregrinação, o destino é certo.

NOITE DE NATAL (P. Lucas, scj)

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Caros irmãos, na noite de Natal a liturgia propõe para nossa oração a narrativa do nascimento do Senhor segundo S. Lucas (cf. Lc 2,1-14). Abramos, sem medo, o coração Àquele que vem para nos salvar das trevas do pecado e da morte.

Estamos diante de um acontecimento histórico e a introdução do texto evangélico desta noite deixa isso bem claro (cf. Lc 2,1-2). Porém, trata-se de um fato de extraordinária grandeza e simplicidade que é capaz de iluminar não só a história humana como um todo, mas também a vida de cada homem – ou seja, de cada um de nós.

Mais ainda: podemos ver o drama de cada ser humano neste acontecimento singular. Pois os homens todos – e cada um de nós – buscam, mesmo inconscientemente, ser amados e amar. E esta profunda e radical necessidade se manifesta na inquietude do nosso coração que, parafraseando Santo Agostinho, não encontra repouso em nada (ou ninguém) que seja finito. Precisamos reconhecer isto: somos um povo que caminha nas trevas (cf. Is 9,1 – primeira leitura).

Mas, Ele veio! “para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (cf. Is 9,1). Sabendo da nossa miséria e da nossa incapacidade, Ele vem ao nosso encontro. Vemo-lo chamado Jesus, que significa: Deus salva. A salvação chegou e está à disposição! A Luz que ilumina todo homem brilhou e… Nós a rejeitamos. O evangelista com extrema simplicidade anota que Maria “o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,6).

Não havia lugar… Seria cômico, se não fosse trágico: muito ocupados em encontrar sentido e repletos de soluções parciais e insuficientes, não há espaço em nosso coração Àquele que veio justamente suprir nossas necessidades – e ainda dar-nos muito mais. Quantos natais já passamos e quantos ainda precisaremos passar para, tendo preparado um lugar, possamos realmente celebrar o Natal?

“Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor”, feliz aquele que tem um lugar – mesmo que seja pobre e inadequado – para acolhê-lo. Que a intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e de São José, nosso protetor, nos ajude a viver o Santo Natal.

Ave, Regina caelorum,

Ave, Domina Angelorum:

Salve, radix, salve, porta

Ex qua mundo lux est orta:

 

Gaude, Virgo gloriosa,

Super omnes speciosa,

Vale, o valde decora,

Et pro nobis Christum exora.

 

Um feliz e santo Natal a todos!

Noite do Natal do Senhor: Lc 2,1-14 – A luz da Salvação X as trevas da dominação

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Por Dom André Vital Félix da Silva, SCJ.

Nesta noite Santa do Natal do Senhor, exultando de alegria, a Igreja faz ressoar através do canto dos Anjos: “Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos favorecidos por Ele”, o grande anúncio profético de esperança e alegria. Diante da tirania dos impérios deste mundo, há ainda esperança: “Nasceu para vós, neste dia, um Salvador, que é Messias e Senhor”. Já se passaram dois mil anos desse acontecimento que marcou profundamente a história da humanidade, mas muitos ainda não aprenderam as lições do primeiro natal; por isso, a nossa sociedade ainda vive sob a opressão de grandes impérios hodiernos para os quais o mais importante do ser humano é ser apenas um número a ser computado como fiel consumidor.

Mais do que contemplar as luzes externas que embelezam os nossos ambientes, as decorações que atraem os nossos olhares e as manifestações exteriores que estimulam o nosso sentimentalismo, é preciso dirigir o olhar do nosso coração para aquele “bebê 02 Icona della nativitàenvolto em tiras de pano e deitado numa manjedoura”, pois o natal é Dele e não do urso kung-fu-panda nem de quaisquer outros personagens fantasiosos de mal gosto e usurpadores dos direitos Daquele que sem Ele não haveria natal.

O natal do Messias não é uma lenda bucólica a mais, nem uma projeção da fantasia do lirismo desencarnado. Lucas, como hábil teólogo, cujos pés estavam apoiados no horizonte histórico, reflete sobre o nascimento de Jesus e o apresenta como boa notícia para uma humanidade concreta, inserida na história com todas as suas implicações. Enquanto Império Romano decreta uma ordem (grego: dogma) de “recenseamento de toda a terra”, o mensageiro do Senhor anuncia (grego: euaggelizomai, evangelizar) o nascimento do Salvador, alegria para todo o povo. O recenseamento tinha como finalidade o controle das pessoas, e a garantia da tributação; era uma estratégia política e econômica para manter-se na dominação; o nascimento de Jesus anuncia um novo tempo para a humanidade, chamada a acolher Aquele que pode conduzi-la à verdadeira liberdade, caso esteja disposta e aberta a assumir novas atitudes iluminadas pelo evangelho.

Para celebrar de forma autêntica o Natal, é preciso converter nossos rumos; é preciso tomar outras estradas, não aquelas que nos levam a shopping centers ou resorts com atrações e promoções de fim de ano, mas é preciso ter a coragem de fazer a estrada para Belém. Maria e José indo a Belém não cumprem somente uma ordem imperial, mas realizam o desígnio de Deus, que mandou o seu Filho para ser o verdadeiro pastor do seu povo, para dar a vida pelas suas ovelhas, sacrificando-se por elas até as últimas consequências. Belém é a “casa do pão” (hebraico: Beit lehem), mas é também o lugar onde Raquel deu à luz a Benjamim, e vindo a falecer, ali foi sepultada (Gn 35,16-20). Por causa do seu doloroso parto, quis que o seu filho fosse chamado de Benoni (hebraico: filho da minha dor), mas Jacó mudou esse nome de triste augúrio para Benjamim (hebraico: filho da minha direita). Onde Raquel (hebraico Rahel: ovelha) morreu e foi sepultada, nasce o Pastor que para salvar o seu povo aceitará ser “como ovelha que permanece muda na presença dos seus tosquiadores” (Is 53,7).

Ao nascer em Belém, Jesus, o primogênito de Maria, provou a dureza da pobreza e da exclusão: “Não havia lugar para eles no alojamento”; assim, antes mesmo de ser proferida a profecia do velho Simeão, a espada de dor já perpassara a alma da mãe. A humilhação do Filho era humilhação dos pais; fez-se pobre entre os pobres, mas o Pai, ressuscitando-o, fê-lo sentar-se à sua direita nos céus (Ef 1,20). Portanto, o Messias nascido em Belém é o filho da dor da humanidade que jaz sob o peso das dominações mundanas, mas é ao mesmo tempo o Filho da direita do Pai, pois é o Rei que reinará para sempre (Lc 1,33). Nascido em Belém, é filho de Davi, do qual herdará o trono. Mas o seu reino é de paz, justiça e santidade, quando todo jugo que abate os povos for destruído (1ª Leitura). Contudo, cabe a nós, chamados a participar de sua realeza, abandonar a impiedade (ateísmo prático) e as paixões mundanas (idolatria disfarçada), a fim de sermos um povo de sua propriedade, comprometido com a pratica do bem (2ª Leitura).

O nascimento de Jesus em Belém é proclamação de que a lógica do Reino de Deus contraria a lógica dos reinos desse mundo. Em Belém, Davi foi escolhido por Samuel; porém, ele não figurava entre os primeiros preferidos por Jessé, que foram rejeitados por Javé, mas o escolhido foi o “menor, aquele que estava tomando conta do rebanho” (1Sm 16,11). Duas características do Ungido (Cristo, Messias) do Senhor: pequenez e pastoralidade. Na manjedoura de Belém encontramos o autêntico Filho da direita do Pai, o verdadeiro Davi, o único Rei-pastor que salva suas ovelhas de todo tipo de escravidão. O seu natal é anúncio de que, apesar de um mundo envolto em trevas, a luz brilha. Cantar nesta noite: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos favorecidos por Ele”, pode se tornar o anúncio mais revolucionário da história dos povos, se reconhecermos no bebê, nascido sobre a terra e reclinado na manjedoura, o grande sinal e prova de que o Deus das alturas, abaixou-se, fazendo-se semelhante a nós, ensinando-nos a ser semelhantes a Ele.

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